Tropelias… será?

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“Adadalconex. Era assim que os colegas faziam para decorar o nome das cinco conjunções coordenativas. Aditiva, adversativa, alternativa, conclusiva e explicativa. Ficava mais fácil e o professor não desconfiava. Pelo menos, não dava mostras de assim proceder. A decoreba continuava com as subordinativas, mas, destas, a memória já perdeu registro. Ficam apenas as cinco primeiras, supostamente as mais importantes. O professor continuava sempre com seu olhar estranho. Baixinho, sisudo, elegante, cabelo bem penteado. Um homem bonito, mas não tanto que preenchesse as fantasias dos adolescentes perdidos no maremoto de hormônio e na confusão das informações, sobretudo por conta das famílias caretas de cada um. Numa geração que divide dois tempos, duas forças, como na brincadeira de cabo de guerra, os adolescentes escolhiam, movidos pelos desejos mais inomináveis, os seus heróis. Assim era, para alguns, o professor de Língua Portuguesa. Carlos Alberto? Carlos? Já outros registros perdidos pela memória. Não. A beleza do professor de Língua Portuguesa era superior a muitas outras, mas não superior à do diretor, padre Marino. Que homem bonito, que homem suculento. Moreno, alto, sobrancelhas grosas, lábios carnudos e vermelhos e mãos enormes – como as do padre Jarbas, o disciplinário (seria isso prerrogativa sacerdotal?). Um homem de perfil sanguíneo, a fazer lembrar toureiros e espanhóis de cinema, viril, de fala mansa e de um carinho doce e maciço. Um homem santo, diriam alguns. Mas o que seduzia ali não era bem a santidade…”

Este é um trecho do livro que pretendo escrever e que, isso feito, deve ser publicado depois do epistolar, que nem começado está. Sou muito preguiçoso, mas ainda mantenho viva a ebulição de ideias e saídas para as coisas que desejo ver realizadas. Só o tempo dirá. Enquanto isso, fica hoje um regalo poético… e só!

th

Cruz na porta da tabacaria

Álvaro de Campos

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-‘star que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.

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2 respostas para “Tropelias… será?”.

  1. Se morreres, farás falta SIM! Ora, pois!…

  2. Se precisar de revisor, estou às ordens. Já estou ansiosa para ler, graças ao que você deixou para degustação. Beijinho.

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