Palavra fazendo arte

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São três livros em seguida. Uma trilogia da qual me dei conta somente na leitura do segundo livro. Os três apresentam uma voz narrativa única: um sujeito de idade, de origem judaica, em estado de emergência, pra não dizer terminal. Um senhor cuja mãe se matou e, por isso, deixou cicatrizes fundas na personalidade do narrador. Este narra o primeiro dos três livros. Um outro, andarilho, sujo e maltrapilho, vaga pela cidade, em meio a alucinações. Sempre se faz acompanhar por um volume com os “Adágios” de Erasmo de Rotterdam. Um terceiro narrador é mulher. Num leito de hospital ela vaga, delirante, pelos mais inusitados cenários, supostamente a bus ade explicações. Para o quê, exatamente, é difícil dizer. Este clima de incômodo que se auto exibe parece ser a marca registrada da escrita deste mineiro de Araxá. O nome dele: Evandro Affonso Ferreira. Já andei falando dele por aqui. Comentei, a certa altura o livro Não tive nenhum prazer em conhecê-los (Record, 2016), o penúltimo por ele publicado. Depois desse, há ainda Nunca houve tanto fim como agora (Record, 2017). Uma prosa instigante e perturbadora. As orelhas de todos os quatro volumes lidos são unânimes em destacar, entre outros detalhes, a pontuação. Eu acrescentaria que faz parte do inusitado (envolto em absoluto sucesso) modo de escrever desse autor, a sintaxe e da frase e, também, por que não, a ortografia. Aqui cabe uma explicação: não faz o mesmo que Guimarães Rosa, seja na criação, seja na recuperação d palavras da “última for do Lácio, inculta e bela”. Não. Definitivamente não. Evandro, neste aspecto é original, como o é na manipulação da massa narrativa. Ou, se quiserem, na construção da história, para não ficar na famigerada terminologia “acadêmica”: do enredo. Que não, por acaso… Os livros de Evandro contam histórias sem se preocupar com a costura de episódio e a “composição” de personagens que carregam discursos com endereço certo. As vozes que falam através de sua ficção podem identificar miríades de tipos sociais, na mesma medida que inventam seres absolutamente inexistentes, a considerar os quadrantes de uma realidade rala e quase esgarçada. Não. As personagens de Evandro, considerando os volumes que dele li, não “representam”, como se espera desta entidade textual tão prezada pelo “romance”. Não. O texto respira incômodo, quase náusea, sem ser bolorento ou arrastado. A forma nada sincopada de narrar, faz dos textos ficcionais de Evandro um exercício poético dos mais requintados, o que deve incomoda muito a certos “mestres” das famigeradas “oficinas”. Isso porque sua ficção está anos luz distante das “tramas” policialescas que tentam inovar um gênero já consolidado, com pitadas de idiossincrasias outras, menores. O último título lido foi Os piores dias de minha vida foram todos, o anterior, O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam e o primeiro desta série, Minha mãe se matou sem dizer adeus. Só posso dizer que os livros de Evandro – e falo, evidentemente, dos que li, porque ainda me resta algum juízo e senso de responsabilidade – são um exercício poético de leitura primorosa, que enleva, faz pensar, dá coceira no cérebro e convence como resultado de ficção de calibre, espessura e requinte. Claro está que os detratores de plantão, sobretudo aqueles que dependem, como junkies, do status quo mercadológico, vão torcer o nariz e jogar a pecha de diatribe para identificar esta obra. Por que é uma obra, na verdade, mais que uma obra, um projeto estético que faz elevar, e muito, o patamar de importância da Língua Portuguesa como código passível de manipulação estética. Obra de arte, diriam os mais apressados. Os detratores vão ter continuar se coçando, pois tão cedo há de aparecer “ESCRITOR”, como este.

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