Homenagem

th

Hoje, no calendário, comemorou-se o dia do professor e o dia da normalista. Minha mãe uma irmã dela eram normalistas. Tenho certeza de que há gente, em Pindorama, que não saiba o que é uma normalista. Não vou explicar. Vou apenas homenagear alguns professores que conheci ao longo desses mais de 50 anos de escola, de educação. A ordem não é cronológica. Não há hierarquia de valores e/ou de importância entre eles. É apenas o registro de fiapos de memória como ensaio de homenagem…

Chegou devagar. Um sorriso contido e alguns livros na mão. Coloca os livros sobre a mesa, escreve o nome no quadro negro. Distribui o programa da disciplina. Abre um sorriso e diz que está animada com o semestre porque a Psicanálise é, àquela altura, uma matéria que produz imensa gratificação. E o semestre começa até o final do curso, quando ela foi paraninfa, soberbamente. Pompa e circunstância. Afeto e alegria. Vera.

Encostado ao quadro nego, num canto da sala, fala do livro do Afrânio Coutinho. Sua vez melosa e lenta, quase modorrenta é objeto de sua autocrítica. Pede desculpas pelo timbre e tom e volume da voz. Reconhece que, naquele ritmo, corre o risco e fazer-nos dormir em sala de aula, mas continua, com um sorriso manso e tranquilo. A Literatura Brasileira é seu campinho. Reinaldo.

De repente, já não me lembro o que tinha feito, ela chegou. Deu-me uns tapas. Gritou. Corrigiu-me e deve ter dito coisas bastante sérias. A memória é traidora e me faz deixar ao relento alguma lembrança que pudesse sobreviver. No entanto, resistiu a memória do susto. E a crispação dos lábios finos e o rictus de autoridade. Jamais vou esquecer sua competência que, a partir desse evento, jamais deixou de iluminar a visão que dela tive. A lembrança que dela tenho. Maria José.

No início, ela escrevia a primeira linha no canto superior esquerdo do quadro negro. Começava a falar, sem consultar sequer uma folha de papel e continuava. A cada etapa ia escrevendo no quadro negro, em sequência, milimetricamente calculada. Pelo menos, em aparência. Então, parava, vinha até o cato da mesa, acendia um cigarro e dava uma tragada. Eu ia com a fumaça para dentro dela. Que olhos lindos. Que memória! Ela sabia de cor o número de telefone, a data de aniversário e a placa dos carros de cada um dos colegas de departamento. A aula acaba quando ela colocava o ponto final no canto inferior direito do mesmo quadro negro. Metaplasmos. Márcia.

No final do prélio, com eletricidade irradiando cada milímetro da sala, ela se levantou e veio andando em minha direção. O semblante triste e preocupado ilustrou o pedido de desculpas. Constrangida, afirmava não saber o que se tinha passado. Pedia desculpas de novo. Um abraço. A certeza de que a história externa da Língua Portuguesa é mais que fundamental num curso de Letras. Jamais a esquecerei. Nancy.

Mesmo com a greve, os encontros continuaram em sua casa. Ao final, a cada tarde, semanalmente, um lanche com papos e risos e fofocas e mais risos. Doze semanas. Os textos em alemão traduzidos e distribuídos em cópias manuscritas, OO nível elevado das discussões e a destruição dos seminários. No final, uma das colegas faz o encontro em sua casa. O mesmo padrão. A certeza de que ali estava uma mulher preparada, séria e amiga. Hoje, mais amiga ainda. Veronika.

th (1)

 

Anúncios

Um comentário sobre “Homenagem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s