Surpresa promissora

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Um romance dramático. Sim. Estaria eu, com isso, criando um novo subgênero narrativo? Um primo jovem do conto, do romance e da novela? Nem de longe. Não está em mim tal desfaçatez. Claro está que toda a quantidade enorme de tinta que foi gasta para preencher o fruto do desmatamento de áreas imensas para fabricação do papel é reconhecida. A tal Teoria da Literatura tem a sua serventia. Eu seria estúpido se negasse esta evidência. Por isso, não inovo em nada. A expressão “romance dramático” é apenas e somente a explicitação do que constato desse rapaz português, um gajo que já se mostra mais que promissor no âmbito das letras portuguesas. O nome dele é Jacinto Lucas Pires. O livro a que me refiro, quando uso a expressão que inicia este texto é: Perfeitos milagres (Lisboa, Cotovia, 2007). Na página da editora, encontramos a seguinte sinopse: “Uma mulher suicida-se na casa-de-banho de sua casa. O marido, uma estrela internacional de música pop, costumava descrevê-la como “uma bailarina sem escola, sem auto-consciência”. Impossibilitado de a voltar a ver, o marido isola-se num exercício de autocomplacência inevitável a qualquer indivíduo que experimente a morte. Disfarça-se para que ninguém o reconheça e parte à procura de memórias infantis. Carlos, jornalista português que vive no estado de Nova Jérsia, ambiciona escrever um livro sobre histórias verídicas que não podem ficar esquecidas. Um dia, seguindo uma pista de um grupo de actores que usa métodos secretistas para recrutar pessoas, deixa-se fascinar por Violet. Um músico e um jornalista. Duas pessoas que acabam por se cruzar graças a uma terceira personagem: um homem que passa os dias a representar como forma de defesa. E é neste universo masculino, se pensarmos que aqui as mulheres são seres extintos ou inacessíveis, que Jacinto Lucas Pires volta a surpreender com a sua escrita, semelhante a um argumento cinematográfico ou a um texto dramático, onde delineia inúmeros movimentos de câmara e didascálias, demonstrando sensibilidade e capacidade para narrar momentos de desespero.” De minha parte, leio o livro para além da sinopse, e fico com a perspectiva de um relato bastante intrincado beirando o relatório da preparação, execução e consequência da montagem de uma peça. O grupo de personagens aparecem como cast de um drama. Em nada e por nada, penso que a sinopse contradiz a direção da leitura que fiz vice-versa. Não é este mesmo o brilho e o prazer da leitura? Não tenho conhecimento do impacto da publicação desse livro, mas penso que, como em outros livros se constata, a sua verve “dramática” o coloca num patamar de interesse e importância que vale a pena conferir. D fundo de minha insignificância, sinto-me muito próximo do que diz um dos críticos do escritor português: “O contrário do mundo construído pelo romance clássico e os seus avatares anacrónicos que por aí proliferam. Eis a primeira característica do livro de Jacinto Lucas Pires digna de ser salientada: o não fazer cedência a uma nova inocência romanesca, o que lhe permite colocar-se à altura da matéria de que se apropria” (António Guerreiro, Expresso). Tomara que quem o ler, dele goste!

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