Primórdios II

LABIRINTO: uma tentativa

A ideia marxista da dialética que considera sempre haver uma antítese opondo-se a uma tese, na busca de uma síntese, se faz verdade bastante cristalina em qualquer ângulo da existência humana. No que concerne à Literatura, como atividade específica no âmbito da criação artística,a mesma verdade se concretiza.

A bem da verdade, não podemos sempre“opor” uma realidade à outra, pois em alguns casos a síntese é conseguida com a“aposição” de duas realidades, aparentemente contrarias. Um exemplo esclarecerá esta ideia. O Modernismo, em sua primeira fase – no Brasil –, aparece caracterizadamente como um movimento iconoclasta. A destruição dos preceitos estéticos que funcionavam como uma camisa de força da criatividade era sua principal meta.Num segundo momento, há uma tentativa de repensar aquela realidade e chegar a um ponto comum entre as divergências gritantes. Finalmente, sua fase plena se caracteriza por atitudes estéticas mais sensatas em relação à revolução que eclodiu em várias direções.

Não nos parece difícil entender o movimento dialético aqui. Temos todos os elementos conjugados num quadro de referências orgânico, que se consubstancia na realidade histórica de nosso país. Este movimento apresenta coerência ideológica, e bastante concretude para que possa ser compreendido a partir de sua “produção”. Neste momento, vem-nos a pergunta fatal: qual o “movimento” sucessor do Modernismo no Brasil?

Considerando uma tendência contemporânea,de não criar nomes novos para designar atividades progressivas, poderíamos entender o Pós-Modernismo como a respostas adequada a esta questão. No entanto,esta seria um tato tendenciosa. Dizemos isso, pois, numa sequência do tempo, a realidade comprovaria tal terminologia; mas não podemos negar que nossa realidade sociocultural não passou pelo processo de mudanças orgânicas,capazes de caracterizar o “Pós-Modernismo”. Principalmente em algumas áreas de atividade intelectual e artística.

Neste ponto, chamamos a atenção paia o jogo conceitual que pode ser estabelecido a partir das expressões pós-modernismo, pós-modernidade e pós-moderno. Se, sem o prefixo, o esclarecimento já era um tanto difícil, com ele então…

Temos que levar em consideração o fato de que, como outros exemplos encontráveis em nossa História, o “pós-moderno” é uma importação, mais uma. Não vivemos a superação do moderno, para conseguirmos visualizar, com clareza caracterizadora, esta nova fase.

Reconhecemos que não primamos pela originalidade até este ponto. No entanto, nossa primeira finalidade é fazer um apanhado geral de ideias para a apresentação dos objetivos deste trabalho.

No âmbito da disciplina – Literatura Brasileira Contemporâneas de 1956 à atualidade –, encontramos um campo propício para o desenvolvimento de uma ideia de especulação teórica aplicável às realizações narrativas compreendidas no período determinado, tentando encontrar elementos de uma possível pós-modernidade nos romances escritos e publicados neste espaço de tempo.

Temos o conhecimento suficientemente necessário para não duvidar de que, dentro dos parâmetros da realização literária brasileira desta fase,principalmente as veiculadas pelo gênero romance,muitas foram as fontes de experimentação estático-operacionais, que visaram não só a modificação do conceito do gênero, como provocaram sensíveis mudanças em sua estrutura narrativa. A vinculação de tais modificações ao momento histórico, como era de se esperar,deixa suas marcas nas obras que, em si mesmas, questionam modelos crítico-interpretativos vigentes a cada passo.

Um romance pós-moderno apresenta o mesmo grau de dificuldade que o adjetivo que o caracteriza. A escolha de Labirinto, de André de Figueiredo, publicado em 1971, satisfaz o principal objetivo deste trabalho que é analisar, numa obra literária criada no período demarcado pelo nome da própria disciplina, a possibilidade de caracterização, num grau “idealista”, do caráter pós-moderno de sua própria realização. Na verdade,em relação à evolução do tempo já o é. Resta-nos, agora, concluir se estrutural e esteticamente também corresponde às expectativas. Neste momento, passamos ao exame da obra como realização deste objetivo.

***

Poderíamos dar início às considerações, dizendo que se trata de um romance autobiográfico. Na verdade, não conhecemos o suficiente sobre a vida do autor, para podermos afirmar com segurança. No entanto, pelo próprio estilo da escritura, pelo tema tratado, inferimos grande força de traços autobiográficos na obra. Esta observação nasce de nossa convicção de que a realização literária – como tantas outras, mas contando com certas vantagens que não vem ao caso explicitar agora – se faz um exercício de catarse existencial inconsciente. É óbvio que, sob este ponto de vista, qualquer obra o será. Esta discussão pode ter lugar em outra oportunidade.

O título do romance, Labirinto, nos leva, quase que obrigatoriamente, a intuir um nível de confusão de “dificuldade”. Não estamos errados. No nível da história, Alfredo procura encontrar explicações para o desenrolar dos fatos fundamentais de sua vida, utilizando-se de elementos que marcaram profundamente a sua personalidade:o avô, o sumiço do pai, a loucura da mãe, as incongruências e segredos da vida familiar, a carreira truncada de escritor, etc.

Com este material, podemos estabelecer,basicamente, dois níveis de leitura para o romance: o psicanalítico e o metalinguístico. Tentaremosorientar nossas observações nestes dois eixos, parafacilitar, de certa forma, nossas conclusões.

Ainda antecipando o mergulho na obra, achamos, interessante uma rápida reflexão sobre uma palavra em particular – GRAMAME. Nome da cidade natal do protagonista, esta palavra, por sua própria morfologia, nos faz pensar em grama, vegetação, verde,vida. A partir daí, podemos fazer uma associação com a busca, empreendida por Alfredo, da compreensão da própria vida. O nome da cidade nos faz pensar, ainda,em gramática. Uma organização necessária, buscada para a compreensão dos fatos que povoam a cabeça de Alfredo. Uma organização que pode dar a chave de compreensão de sua própria vida. No entanto, a entrada no labirinto faz confundir fatos, memórias,delírios e desejos que tecem uma trama muito fechada que vai desimpedindo o caminho de saída através da morte. Na medida em que as mortes se sucedem, a vida de Alfredo vai ganhando sentia do, vai estabelecendo uma coerência existencial. A própria morte é uma consequência óbvia.

A divisão do romance em dias –Primeiro dia em Gramame, Segundo dia… – faz também pensar nessa luminosidade que guia a saída do labirinto; faz uma referência, clara no nosso entender,com a própria infância do protagonista, já que a narração se dá na idade adulta do mesmo, quase uma revisão dos acontecimentos, na busca de sua própria compreensão.

A abertura do romance nos apresenta a possibilidade de parafrasear o questionamento da evolução do romance enquanto gênero. Aqui, inaugura-se o eixo metalinguístico. E,no mesmo trecho temos, também, a inauguração do eixo psicanalítico,caracterizado pela apresentação da mãe do protagonista, participante de cenas rememoradas à chegada na cidade natal. Alfredo tenta recuperar o passado no que há de mais “espes­so”, mais significativo para sua própria vida. Note-se que da pergunta que inicia o trecho citado:

Onde os caminhos?! E as casas?!(p. 15)

até a sua conclusão, com um verbo no pretérito perfeito:

            Acordou.(p. 20)

Presenciamos uma mudança referencial muito grande. O narrador que acompanha a vida do protagonista, “com ele”, nos joga no campo do onírico. É como se Alfredo estivesse apenas sonhando com os acontecimentos revelados pelo próprio narrador. Na verdade, este clima permanece como fio condutor de toda a narrativa.

Não podemos deixar de chamar a atenção para três aspectos impor­tantes que aparecem logo no início do romance: a insistência na figura da mãe; a ausência do pai,que se solidifica no silêncio do protagonis­ta nestes primeiros momentos (referência clara à Lacan) e a possibilidade de contextualização da obra,a partir dos dados referentes à época em que foi escrito e publicado: relações com o contexto de opressão po­lítica e autoritarismo pós-64; as preocupações com o encaminhamento da Literatura Brasileira, principalmente em relação ao desenvolvimento e a evolução do romance enquanto gênero. Os trechos transcritos a seguir buscam ilustrar, respectivamente,as observações feitas acima:

Desbravando caminhos, Alfredo parecia ver com maior clareza as razões que haviam determinado a morte de sua mãe, a fuga de seu pai. Onde estaria ele, agora?Depois da tragédia, uma só informação: vivia no Rio de Janeiro. Ninguém jamais o encontrou. Na verdade, vivera sempre à procura do pai: (…). (p. 26)

Coma mesma tranquilidade que havia aparecido, sem uma palavra, ela vestiu as calças,arriou a saia, apanhou as flores amarelas e la se foi. Ele, por sua vez, baixou a vista para fechar a braguilha e quando levantou surpreen­deu-se sozinho. A mulher tinha desaparecido. No campo aberto, ninguém. Tinha fodido com ele mesmo?!

Bem não fez a pergunta, Alfredo obteve a resposta: ti­nha fodido com sua mãe.(p. 28)

Pensando bem, os caminhos intrincados que lhe oferecia Gramame (…) parecem simbólicos: tudo na vida lhe fora bastante intrincado e difícil; um verdadeiro labirinto. (p. 27)

O verde parecia tudo querer incendiar naquela tarde. Era verde por tudo quanto era lado. Verde era ele também. Verde os homens que acamparam, com suas barracas verdes, espalhadas pelo verdejante mato rasteiro. E como se não bastasse o verde de tudo, o vestido de seda de sua mãe era branco de bolinhas verdes e, naquela tarde, elas pareciam querer saltar do vestido e se perder nas roupas dos soldados, acampados em Gramame. (p.  28)

A insistência em citar muitos trechos logo de início do romance tem uma justificativa: neste primeiro capítulo encontram-se concentra­dos os elementos-chave para a compreensão do “labirinto” em que penetra o protagonista. A busca de seu pai, a figura constante da mãe, além de todas as outras mulheres de sua vida – a absoluta maioria –; a imagem do labirinto,o clima de sonho, tudo parece funcionar coro ín­dice nas primeiras páginas do romance, e vai se diluindo com o desenvolvimento da narrativa.

O eixo psicanalítico parece contar com mais evidências que o metalinguístico, apesar deste poder ser concretizado no romance, uma vez que seu protagonista, em determinado momento, se declara como desejoso de escrever um livro. Já na infância, e algumas passagens do livro denunciam isto,o mesmo Alfredo começa a escrever um livro e o mostra para a tia. Mais tarde,como ganhador de um concurso de contos, o protagonista vai para o Rio de Janeiro onde parece encontrar o fio da meada que o levará a saída do labirinto.O homem com quem mantem relações sexuais, a mulher que se faz projeção da mãe de Alfredo (para ele) e, com quem, também mantém relações sexuais são degraus de uma escada que identificam o processo da catarse existencial inconsciente por que passa qualquer escritor, quando da realização de uma obra.

Às páginas 34 e 35, o autor parece querer colocar mais um elemento – que evidencia um certo traço metalinguístico de determinadas passagens – que discute o problema da editoração de livros e sua relação mercadológica.

Neste aspecto, temos um pequeno ponto de apoio para uma possível consideração do caráter pós-moderno do romance. A necessidade da narrativa de se preocupar com sua própria instância mercadológica, que marca as relações de produção e consumo, tão caras às sociedades industrializadas,consideradas pós-modernas. Note-se que a discussão da materialidade “econômico-consumista” da obra de arte já tinha sido levada em consideração pelos modernistas. Uma retomada ideológico-estética que poderia render a este romance as honras de ser caracterizado como pós-moderno.

A preocupação com a criação literária tem continuidade na passa­gem em que Alfredo e Ismênia discutem a plausibilidade de algumas idei­as para o romance dele. Falando do romance que pretende escrever, o protagonista faz, nas entrelinhas, uma longa dissertação sobre o realis­mo da narrativa, quase como em oposição à liberdade do autor para esco­lher o nome de seus personagens. Mais uma vez, fica evidente a necessi­dade apresentada pelo autor de se discutir o desenvolvimento do gênero oque acaba se transformando, se é que assim podemos afirmar, numa crí­tica à situação da Literatura Brasileira naquele momento. Como podemos ver em:

Não foi em Martha, que você se baseou para escrever seu conto “Esther com th”? (p. 36)

Mais adiante, o autor nos coloca uma situação em que a descrição da realidade da pobreza nordestina, já denunciada, discutida e defendida pelo regionalismo de 30, volta quase como realismo transfigurado para emoldurar as origens do protagonista. Na descrição do nascimen­to do “Casarão”,os índices narrativos são fortes veiculadores desse discurso e acompanham o processo de formação da personalidade do próprio protagonista, sempre enfatizando o aprofundamento na imagem do labirinto que busca achar sua própria saída.

Note-se que o “estranhamento” apresentado como técnica de reco­nhecimento de uma realidade concreta, faz analogia com amaneira pela qual Alfredo vai descobrindo as nuances de sua própria personalidade. Tal observação poderá encontrar maiores esclarecimentos quando da consideração do eixo psicanalítico.

Temos ainda, à página 54, uma passagem em que o autor parece fa­zer a descrição do processo de industrialização de uma região eminentemente agrícola como paralelo para a criação romanesca a partir de categorias novas: o romance industrial e, mesmo, o romance urbano do nordeste “industrializado”.

Caixa de Texto: f

Era exatamente o que pretendia fazer: O romance de uma região: Gramame:  a história de seu apogeu com o abacaxi,a história de sua decadência, quando começaram a derrubar as matas para alimentar as fábricas da Paraíba, ago­ra com o apelido de João Pessoa; a história da chegada de novos cortadores de lenha choferes, ajudantes de caminhões trazendo novos costumes, valores novos, nova linguagem, novas doenças – era preciso desenvolver tudo no romance e pretendia fazê-lo retratando figuras de sua infância e outras de quem ouvira falar.(p. 54)

Muito interessante é o trecho localizado às páginas 85 e 86, que o autor coloca uma passagem da vida de Alfredo em que, num exercício simultâneo de intertextualidade e metalinguagem, este escreve uma história recuperando o imaginário dos contos de fada, projetado numa realidade adversa à satisfação dos desejos da criança rejeitada. Logo em seguida, Alfredo faz uma crítica ao mito da formação intelectual e literária, apenas com a leitura dos grandes “clássicos”. Comestes dois pontos, podemos indicar um traço característico da literatura considerada contemporânea:a metalinguagem como recurso de criação de um novo tex­to ou estilo o reaproveitamento, devidamente adequado à conjuntura do momento, de procedimentos já “ultrapassados”na linha cronológica de evolução do romance. Mais um pequeno ponto para a constatação da pós-modernidade deste romance?

Um outro ponto relevante no eixo de leitura metalinguística para o romance de André de Figueiredo, nós podemos encontrar no seguinte trecho:

Durante o café, Alfredo se perguntou o que antes ja­mais tivera coragem de fazer – temendo a resposta talvez. Afinal, se perguntou: como chegara até Gramame? de automó­vel? Não se lembrava de nenhum automóvel. Se lembrava apenas de ter pegado um táxi edito: “Casa de Saúde Santa Clara, Laranjeiras”. E viera naquele táxi, do Rio de Janeiro até João Pessoa? Impossível! Não se lembrava do trajeto. Teria pegado um avião? Não se lembrava jamais de ter ido ao aeroporto. A não ser… a última vez que se dirigira ao aeroporto fora para levar Ismênia, queia passar as férias com a família em Maceió. Então?!

Aqui, temos uma das chaves,senão a chave mestra de leitura de todo o romance. Intensamente mesclado de elementos narrativos que reme­tem, diretamente, ao eixo psicanalítico de leitura, o trecho citado po­de ser o exemplo cabal de uma tentativa de superposição de dois discur­sos: o do narrador e o do protagonista. Tem-se a nítida impressão de que ambos acabam por construir a mesma personalidade atormentada que procura narrar seus desvelos em percorrer, ao contrário, os caminhos internos de um labirinto. O tom alucinatório que se evidencia neste trecho não pode deixar de ser considerado um procedimento narrativo intencional, que acaba por confundir o direcionamento do próprio foco narrativo. Existe sempre a necessidade de explicações para cada passo, cada fato narrado na história de Alfredo; o autor questiona sua própria obra e o faz, também, em relação ã necessidade de explicar tudo o que escreve para compor sua obra: a superposição de discurso do protagonista/narrador em constante estado de busca de compreensão.

Podemos sentir, com bastante constância, a sequência de cortes narrativos que deslocam o foco da narração. Um exemplo deste procedimento é a narração da história dos “olhos de fogo”. Este pequeno enredo – aproveitado, há alguns anos, numa produção televisiva – provoca um embaralhamento de ideias que constitui o resultado de um jogo narrativo premeditado.Seu principal objetivo é reforçar o tom onírico-alucinatório da narrativa, entremeado de comentários críticos sobre a atividade de Alfredo, enquanto escritor. No fundo, permanece a intenção metalinguística como predominante no discurso elaborado pelo romancista em sua obra.

Alfredo sente a necessidade de materializar o próprio fluxo da consciência, como forma de apreender com segurança sua própria existência. A nosso ver, outra não parece ser a atitude intencional do autor da obra.

–Você existe mesmo ou é uma criação minha?

–Se não for criação sua, serei de alguém. Que importa isto?Alguém me criou, criou as palavras que estamos dizendo. Criou este momento. Aproveitemos. (p. 159)

–Não, nós não existimos.

(…)

– Nós fomos criados por um escritor maluco. Nós estamos na imaginação de alguém. Na imaginação de Deus. Aproveitemos antes que ele bote o ponto final na história e viremos pássaros empalhados. Digamos tudo que sabemos. E pre­ciso dizer tudo, antes do ponto final (…)

–O ponto final ainda está muito longe.

–Como você sabe?

–Eu sou o escritor.

É o que você pensa. Você está sendo escrito como eu estou sendo escrita. Mas não falemos disto. Falemos de vida. Corramos. (p. 161)

            Nos dois trechos apresentados, podemos dizer com bastante segurança, o autor alcança o clímax de seu discurso metalinguístico. A pas­sagem a que se refere é a do encontro de Alfredo e Martha no Jardim Bo­tânico.

Aqui temos a exacerbação do tom alucinatório da narrativa: a sua realidade está instaurada definitivamente no discurso do narrador. Os trechos citados recolocam a questão do relacionamento discursivo entre “autor”e “narrador”, no universo diegético da obra: a narrativa volta para o ponto de vista do autor que, através de sua própria criação nar­rativa, questiona a veracidade de seu relato. Temos, então, um outro ponto de apoio para a caracterização de um traço pós-moderno do romance. O relato narrativo é uma tentativa de legitimação de si mesmo, através do questionamento do instrumental utilizado para o seu agenciamento dinâmico no corpo da narrativa.

Temos que levar em consideração,ainda, que a realidade temporal da narrativa, sua “atualidade”, localiza-se no passado de Alfredo: devemos, então, tomá-la como um esforço de rememoração da história conhecida e acontecida. Esta participação dinâmica é sinal da recuperação da própria existência do protagonista.

O discurso narrativo atualiza-se“culturalmente” através da intromissão da opinião do autor, colocada nas palavras do personagem, co­mo forma de diluir um possível caráter didático, ou mesmo, doutrinário. É o que nos mostra o trecho localizado entre as páginas 174 e 180.

Procuramos organizar, até aqui, os elementos que compõem um possível eixo metalinguístico que pode orientar a leitura deste romance. Acreditamos que, neste aspecto, a narrativa de André de Figueiredo pode oferecer maiores possibilidades de aproximação de sua obra com um possí­vel ideário pós-moderno. Preferimos considerar assim, já que este conceito, em seus aspectos operacionais e interpretativos, apresenta-se ainda envolto numa confusão enevoada de imbrincamentos, consequências e nuances.Conjunto, este, de detalhes, que não cabe aos objetivos deste trabalho esclarecer, ou delinear particularizadamente.

Apesar de bem mais evidente,e rico, o eixo psicanalítico, que passaremos a abordar agora, não tem tantas consequências para as propo­sições iniciais da análise pretendida. No entanto, não podemos deixar de apresentar seus elementos mais fortes para uma primeira abordagem. Oque não compromete, assim esperamos, a qualidade desta tentativa.

Uma observação que nos parece bastante pertinente, diz respeito à imagem do labirinto, evocada já no título.

Da leitura do romance, sob este enfoque, não podemos deixar de assinalar a estrita ligação do eixo psicanalítico de leitura com um quadro mitológico de grande rendimento interpretativo. O tema do labirinto abre novas portas de interpretação do romance, contando com o apoio da etimologia dos nomes dos personagens e da associação deles com as mitologias clássica e cristã. Tal encarte não atrapalha o desenvolvimento do trabalho,mas procura chamara atenção para o fato de que multas das observações apresentadas a seguir podem ter um componente intuitivo fortemente ligado a este contexto mitológico.

Como já foi dito, o romance narra a busca da explicação do fio condutor da vida de Alfredo, perdido num labirinto de impressões,lembranças,sentimentos, alucinações. Repetindo, o tom onírico de grande parte das passagens se faz marca registrada do texto, fazendo com que o leiamos constantemente atentos aos entraves do inconsciente do protagonista e aos golpes de vista provocados pelo discurso do narrador.

Sabemos que Alfredo foi criado num universo em que a presença feminina é uma constante, absoluta e inquestionável.Desta conclusão podemos supor que todo o silêncio por ele demonstrado na “primeira parte” do romance – o conjunto de passagens que reconstitui seu passado, logo nos primeiros dias depois da chegada a Gramame – faz parte do contexto lacaniano de acesso à lei, acesso ao simbólico, feito através do confronto com o “pai”, o nome, a lei, etc. Isto só vai acontecer no final da narrativa.

Olhou o rio, seus olhos estavam abertos, mas eram quatro olhos?! tinha duas faces? Dois rostos se refletiam nas águas do rio. Virou-se. Atrás de si, “o homem de Deus” que ele encontrara, ao chegar em Gramame e que por cinco dias consecutivos tinha ficado desaparecido.Agora botava como o homem era parecido com ele. Era a sua cara cagada e cuspida.Então?!

– O senhor?!

– Eu mesmo.

– Estranho como sua cara, refletida no riacho, se parece com a minha.

Alfredo olhou o homem demoradamente e viu como as li­nhas de seu rosto eram iguais as suas.

– O senhor é o meu pai, não é? –perguntou Alfredo sem nenhuma emoção, com uma naturalidade que jamais pensara poder ter ao fazer aquela pergunta. Afinal, durante muitos anos esperara encontrar o pai. (p. 190)

Antes de qualquer outro comentário, gostaríamos de chamara atenção para o fato de que, e neste trecho, como em muito poucos outros, que Alfredo tem voz própria, no seu tempo presente “real”. Em outras palavras, em outra falas, detectamos apenas a recordação do passado ou as falas do inconsciente alucinado.

Note-se a terminologia utilizada por Alfredo. A palavra “senhor” e “pai” são destituídas de um mero valor semântico para pretenderem-se preenchimentos de uma significação muito mais forte e existencialmente rentável. A figura do pai completa o quebra-cabeça que atormenta a per­sonalidade de Alfredo. Acontece neste encontro (e deixamos para a parte final a discussão sobre o “realismo” deste) a passagem do imaginário para o simbólico. Completa-se o fluxo edipiano na narrativa que, logo em seguida, sofre um corte que objetiva apor (novamente) o universo feminino dominante, representado,na passagem intercalada, pela imagem da mãe com roupas e sombrinhas coloridas. Uma alucinação cromática crescente dentro do romance.

Logo que “chega” a Gramame, Alfredo tem o primeiro sinal experiencial de sua alucinação: o encontro com a mulher das flores amarelas. Uma relação com a própria mãe é que abre as portas para a torrente edipiana que vai orientar a busca de saída do labirinto.

A avo Helena, Ismênia, tia Clarissa e Martha são figuras femini­nas que, em diversos momentos, projetam a imagem obsessiva da mãe de Al­fredo. Presente em todos os momentos, esta tenta apagar a imagem paterna, essencialmente buscada e desejada por Alfredo.

No Rio de Janeiro, a passagem da Cinelândia, uma metáfora da identificação com o pai, o autor coloca numa relação homossexual a fixa­ção de Alfredo. Tal fator é rememorado pelo narrador, faz fluir imagens de sua adolescência, em que as brincadeiras sexuais povoaram a imaginação e a experiencia concreta do já atormentado Alfredo.

Além deste contexto, não podemos deixar de levar em consideração o sentimento de rejeição que pontua a vida de Alfredo. Todos as situações por ele vividas geram conflitos que acabam por re-situá-lo na condição de rejeitado. Este aspecto pode ilustrar o processo de fenda e refenda que caracteriza um dos aspectos da formação da personalidade humana.Ousamos afirmar que deste sentimento nasce a necessidade da experiência homossexual de Alfredo. Experiência essencialmente marcada por um masoquismo libertador,que tanta vencer as barreiras dessa rejeição experimentada, substituindo prazer por degradação, Ha inclusive um comentário do narrador que esclarece a busca dopai na atividade homosse­xual do protagonista:

No entanto, da mesma forma que as pessoas vivem no melo do barulho e a ele terminam se acostumando, Alfredo resolveu aceitar o estranho como a sua nova modalidade rotineira de vida. (p. 53)

Nesta passagem, podemos visualizar a imagem que o mesmo Alfredo f az de sua própria existência. Imagem estaque o acompanha numa mola alucinatória até a idade adulta. Imagem que se coloca sempre quando tenta encontrar a saída do labirinto no qual se metera, não por opção consciente.

O protagonista tem sua existência marcada pelo “estranho”. Esta constatação pode nos levar a considerar aqui um paralelismo com e estranhamento – enquanto técnica composicional da narrativa –que, por sua vez instaura uma analogia com a relação da personalidade consciente da Alfredo e o mundo no qual se joga, a procura de seu pai, sua imagem: a tensão criada pelo risco de existir sem possuir identidade própria,definida.

Temos que levar em consideração o fator “religiosidade” como componente forte do tomento que acomete Alfredo. Representado principalmente por José Santeiro e, em segundo plano, pela avó (alter ego da mãe), o fator religioso, aparece pontuado em diversas passagens do romance,identificando a força de sugestão por ele provocada na mente atormentada do protagonista.

Podemos localizar no desenlace de Paulo e Celina, a origem cons­ciente – e inconscientizada pelo próprio – do drama de Alfredo, “Filho de puta com vagabundo”, como aparece em algumas passagens, esta expressão é a marca mais forte da negatividade que caracteriza a personalidade do protagonista. Este aspecto nos remete ao eixo metalinguístico, já mencionado, pois o romance que Alfredo tenta escrever busca, no fundo,a exorcização desse fantasma. Ele se utiliza da ficção para transcender a própria realidade, grosso modo, uma alegoria do próprio escritor.

Neste ponto, tocamos numa questão que vai set apenas aventada. Sua discussão não cabe nos limites definidos para o presente trabalho. Até que ponto o ato de escrever se transforma, inconscientemente, num instrumento de catarse existencial para seu autor? A obra literária,assim o entendemos, no fundo do fundo, consegue justamente isso: a exorcização de fantasmas que perseguem o autor de um livro,enquanto idealizador estético da existência material concreta.

A partir disso, podemos concluir que Alfredo, enquanto escritor, tem, nos acontecimentos do passado revividos pela memória e na sua pró­pria narrativa, as chaves de compreensão da gênese de sua própria personalidade.

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Retomando o início deste trabalho, gostaríamos de observar a ex­trema pertinência do nome escolhido para a “cidade-cenário” da narrati­va desenvolvida: Gramame. Esta palavra provoca urna intensa associação de ideias que consubstancia uma corrente semântica, fundamentada em muitos elos, dentre eles: grama, verde, vida, dinamismo, transformação, perpetuação da espécie, organização, gramática.

Acreditamos que o trecho final do romance, localizado exatamente entre as páginas 219 e 221, apresenta a imagem conclusiva desse processo de busca de compreensão: as imagens fantasiosas e fantasmáticas (a redundância exerce, aqui, íntima função significativa) na reunião de todo um grupo de pessoas num casarão sonhado, idealizado, imaginado e desejado; compõe o quadro de alucinação que perpassa todo o romance, de maneira diluída.

Acrescente-se ainda que o arquétipo da androginia,representado pelo ser fantástico que consome o protagonista, reafirma a importância da simbólica harmonização total e plena coma morte:clara antinomia em relação ao nome da cidade.

Há de se perguntar se este final, ao invés de esclarecer o processo labiríntico de busca de explicação por que passa Alfredo, não o torna mais invertido, mais problemático.O retorno à alucinação instaura seu estatuto como o verdadeiro vetor de leitura do romance. Alfredo, na verdade (é de se supor) não volta à Gramame de sua infância, mas, num delírio semiconsciente,cria sua própria Gramame como subterfúgio, como máscara que seu inconsciente, impõe para poder veicular suas próprias verdades essenciais. As causas originais desse processo podem ser diversas: um acidente, uma alucinação plena, um sonho, a loucura… Na verdade, esta instância se transforma em mero detalhe.

Nossa conclusão passa, a partir de então, a levar em consideração duas observações aparentemente desvinculadas:

  1. a narrativa se estrutura em subdivisões diárias que podem funcionar como índices do período normal (cinco dias da semana) de trabalho; tal fator vem contar a colaboração de um cromatismo significativo e evocador de imagens carregados de sentido esclarecedor da própria narrativa, o que propicia uma maior identificação com um possível processo mnemônico de recuperação do passado a nível inconsciente;

2) a narrativa parece recuperar valores destruídos pelo espírito iconoclasta do modernismo, dando a eles tratamento atualizado e mais coerente com sua aplicação no contexto contemporâneo.

A partir destas observações,podemos dizer que, os dois eixos de orientação de leitura, propostos no início do trabalho, conjugam elementos de composição da narrativa que perpassam primordialmente dois campos do conhecimento humano: a Literatura e a Psicanálise.

Era de se supor que os discursos, respectivos a cada uma delas, fossem veiculados de maneira a inaugurar uma renovação profunda na arte de narrar, que poderia identificar uma época pós-moderna.

Apesar de ter sido gerada numa época de bastante efervescência criativa, particularmente no campo da criação literária, o romance não ultrapassa os limites da modernidade que nele se evidenciam.

A linguagem utilizada, sofre alguns tratamentos peculiares, mas não o suficiente para dizer que renovadores de sua própria funcionalidade numa narrativa.

Tematicamente,a obra apresenta maior abertura para a pés-modernidade. Mas o tratamento dado a este material, mesmo que amparado nas observações feitas a partir da leitura do eixo metalinguístico, não provoca nenhuma modificação estrutural profunda.

Metalinguagem e Psicanálise são dois campos férteis para as revoluções idealizadas pela pés-modernidade. A preocupação com a existência humana, em toda a gama de variações conjunturais e,ao lado, o questionamento técnico-artístico do desenvolvimento de um gênero narrativo e suas instâncias, são temas caros ao pós-modernismo. No entanto, no romance analisado, estas duas possibilidades de renovação não ultrapassam a faixa da “modernidade”.

Uma última observação se faz questionável: haveria mesmo a condição absoluta de caracterização da pôs-modernidade de um romance contemporâneo no Brasil? Esta exigência estaria ligada, a nosso ver à transitoriedade dos limites do próprio conceito de pós-modernidade. Aqui, não podemos nos gabar de viver esta época com a amplitude propalada pela divulgação de mais esta “onda transoceânica”. Sem querer diminuir o valor de todas as tentativas bem intencionadas, é nossa impressão que maior atenção se deve dar ao processo conjuntural que transcorre como fonte e parâmetro para qualquer realização estética, seja qual for a mediação utilizada.

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Bibliografia

COELHO, Teixeira. Moderno e pós-moderno. Porto Alegre: L & PM Editores, 1986.

FIGUEIREDO, André de. Labirinto.Rio de Janeiro: Expressão e cultura, 1971.

FREYRE, Gilberto. Em torno de alguns desafios pós-modernos ao homem apenas moderno. In: Além do apenas moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973, p. 159-176.

LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Trad. de Ricardo Correa Barbosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio,1986.

MERQUIOR, José Guilherme. O fantasma romântico e outros ensaios. Petrópolis: Vozes, 1980.

SILVA, Valmir Adamor da. Psicanálise da criação literária. Rio de Janeiro, Achiamé, 1984.

Primórdios I

CIRCE : um ensaio de interpretação

 

Sumário

Introdução

O texto ficcional

O discurso psicanalítico

Conclusão

Bibliografia

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Introdução

O presente trabalho se impõe por dois motivos: um interesse particular pelo assunto específico de que trata e a necessidade de apresentação de una monografia como requisito para a aprovação dos créditos concedidos. Não e necessário dizer nada mais além da integral dedicação ao primeiro motivo.

Interpretar uma mensagem comunicativa pode sor um exercício mais fácil quando este se prende às estruturas lógicas e claras da linguagem coloquial em suas diversas possibilidades. Quando se trata de um texto mais trabalhado, no entanto, não podemos contar com a mesma faixa de facilidade. O conto do Júlio Cortázar, não só por suas qualidades peculiares – não são poucas, aliás – presta-se, neste caso, a uma tentativa de exemplificação de teorias de interpretação e análise de textos, numa perspectiva particularizada: uma leitura psicanalítica.

A exegese bíblica, por excelência, sempre procurou desvendar os mistérios da revelação que existiam por detrás das palavras, ou mesmo dentro delas. A Hermenêutica, sua auxiliar, parece procurar estabelecer um caminho particular dentro de seu próprio processo discursivo, no quadro da filosofia do conhecimento.

Os princípios apresentados pelos diversos estudiosos do assunto sempre procuram uma melhor compreensão do conteúdo mesmo do discurso hermenêutico, tendo como horizonte último a compreensão enquanto fenômeno do conhecimento da realidade.

A discussão teórico-terminológica entre os termos interpretação  e compreensão.  tem ensejado as mais profundas e aproveitáveis polêmicas, parecendo demonstrar que o processo de leitura de um texto não pode chegar a concluir, apenas, a sua profundidade particular, o sou conteúdo mesmo. as possibilidades de aproveitamento do texto para o conhecimento – encarado como fenômeno necessário e generalizado – devem ser aproveitadas de maneira a estabelecer um diálogo proveitoso e rico entre o discurso textual considerado e o discurso instrumental de leitura. Não podemos deixar de observar que corremos o risco de empobrecer o texto considerado se procurarmos .aplicar. uma teoria qualquer a ele, como exercício de interpretação.

0 exercício que nos parece mais proveitoso é o de tentar encontrar, no texto literário, elementos que possam qualificar ou mesmo verbalizar um processo de conhecimento descrito por outro discurso científico.

Ao tentarmos uma leitura psicanalítica do conto “Circe”, não estaremos tentando encontrar nele elementos de que fala Freud ou Lacan em seus trabalhos sobre a formação da personalidade humana. O conto não pode ser apenas uma comprovação prática, um exemplo, para as teorias desenvolvidas acerca de pontos determinados.

A leitura psicanalítica do um conto já nos leva a pressupor elementos de um discurso científico instrumental para viabilizar este trabalho. Poderíamos considerar este fato como sondo una pré-compreensão do texto, que nos evoca os preconceitos que viabilizarão o processo de interpretação do próprio texto.

Este processo conta ainda com a nossa própria expectativa dentro do conto, pois nos envolvemos de tal maneira que, a partir do olhar quo lançarmos sobre esta .coisa. e que ela adquirirá um sentido. O jogo entre o sujeito e o objeto da compreensão estabelece o que poderíamos chamar do horizonte de interpretação que, de corta forma, determina o campo de nosso trabalho e impõe limites necessários à determinação dos limites para o discurso produzido na busca de uma compreensão maior do conteúdo veiculado pelo próprio conto.

Cremos que não nos repetiremos muito se chamarmos a atenção para o fato de que não podemos inferir desta tentativa um caráter definitivo o círculo hermenêutico assim não o permite. Cada tentativa não se .fecha. sobre si mesma sem conter o fluxo da espiral que materializa o trabalho da interpretação o da compreensão. Na verdade, mesmo apresentando uma conclusão, não podemos conter o movimento circular, ascendente e dialético que caracteriza a análise interpretativa.

O plano do presente trabalho, como o mostra o sumário, visa a apresentação do conto enquanto entidade imanente, passível de interpretação, seguida da elucidação de um discurso psicanalítico que já veicula uma pré-compreensão do próprio texto. A abordagem da simbologia se faz necessária pois, como sabemos, a linguagem e um ponto de acesso da personalidade humana, da própria identidade do ser humano, que passa do imaginário ao simbólico aqui podemos também detectar um processo de interpretação. A apresentação segue o fluxo da organização das ideias e, dentro do possível, não quer tonar estanques os conteúdos, servindo apenas para viabilizar ordenadamente o nosso raciocínio.

***

O texto ficcional

Da impossibilidade de transcrever todo o texto ou de contar com sua leitura imediatamente anterior à deste trabalho, passamos a desenvolver uma pequena paráfrase do conto do Júlio Cortázar, procurando, de certa maneira, levantar alguns detalhes que possam auxiliar na orientação da leitura psicanalítica do próprio texto.

Sem nos determos no exame do exercício estético que enseja a construção do conto, não podemos deixar de observar que sua estrutura metonímico-metafórica privilegia a leitura propor ta, uma vez que aproxima o discurso ficcional do discurso lacaniano.

Mário – um dos protagonistas – é um funcionário de banco que mora com mãe, irmã e tia. Conhece Delia e, aparentemente, se apaixona por ela, recusando aceitar os comentários que sobre ela ouve, por causa dos dois ex-noivos mortos em circunstâncias um tanto suspeitas. Esta, por sua vez, é sua vizinha próxima e mora com seus pais que parecem controlar toda a sua vida, com exceção das experiências com licores e bombons.

A história das mortes é conhecida fazendo com que Mário comece a desvendar alguns recantos misteriosos da vida da família da vizinha. Pode-se dizer que a narrativa do conto acompanha as principais linhas narrativas do mito de Circe. Não se pode deixar do perceber que, ao largo, a protagonista obedece à metaforização da sereia que tenta enredar Ulisses em suas feitiçarias. Instala-se aqui uma instância mítica que poderá correr pari passu a leitura psicanalítica, numa outra oportunidade.

A história é simples e o final oscila entre o surpreendente e o chocante, desprezando o grau de envolvimento/identificação que possa ser aferido em relação a um dos protagonistas. Os personagens, estes sim possuem una certa dose de complexidade existencial, possibilitando uma tentativa de análise de suas personalidades através dos fatos narrados e por eles vivenciados.

Os diálogos são pouco numerosos neste texto e a presença de um narrador é bastante clara, fazendo com que coloquemos a questão de até que ponto ele participou da história. Tal dúvida não será respondida com este trabalho: escapa dos objetivos anteriormente colocados. O fato, porém, é que basearemos nossa interpretação num relato de terceira pessoa. Este ponto é de fundamental importância. O sentido do discurso já fica orientado, já é quase pré-definido pela impressão passada através da pessoa do narrador. Este primeiro sentido constitui, para nós, uma pré-compreensão, um pré-conceito que nos direciona na leitura psicanalítica que pretendemos. Tanto é assim que, o nível mítico do texto é materialmente mais gritante, subjaz mesmo no sentido psicanalítico dado pelo narrador em seu relato. Parece haver um diálogo bastante proveitoso entre os discursos mítico e psicanalítico.

Feitas as devidas apresentações podemos passar ã interpretação deste discurso psicanalítico veiculado pelo texto ficcional.

***

O discurso psicanalítico

A apresentação dos personagens, principalmente Mário, se faz através de situações existenciais; mais que através da caracterização física. Assim, logo no início do conto, nos deparamos com um indivíduo circunscrito ao universo feminino contrastando com a imagem negativa do próprio pai:

 

Porque agora já não se importa, mas dessa voz ofendeu-se com a coincidência dos intermináveis falatórios, a cara servil de Mãe Celeste contando tudo a Tia Bebé, o indescritível desagrado no gesto do pai. (p. 83)

 

É no primeiro parágrafo do texto que encontramos uma das chaves de leitura do conto. Mário ainda conserva o desejo de ser o objeto de desejo de sua mãe. Tal situação se revela plenamente na defesa da circunstância relativa a Délia e nas subsequentes referências à imagem de sua mãe. Ela sempre está presente nos momentos-chave da vida do personagem.

Por outro lado, esta situação denuncia a dificuldade de Mário em ultrapassar o seu próprio imaginário chega do ao simbólico que lhe garante o acesso à linguagem.

Em outras passagens do conto ele se retrai e não consegue verbalizar o que percebe. Sua crença na afetividade fragilizadas de Délia conserva-o na dependência do aparecimento da imagem paterna que o conduzirá ao estágio naturalmente procurado:

 

… ao abraçar apertado sou futuro sogro teria querido dizer-lhe que confiassem nele, novo suporte do lar, mas não lhe vinham palavras. (p. 96)

 

Pode-se perceber claramente, que Mário se debate interior o inconscientemente com sua necessidade de linguagem, com os impulsos do falar para poder confirmar as intuições marcantes em sua própria personalidade.

Em diversas passagens da narrativa percebemos como Mario isola os dois universos em conflito: o mundo familiar e a projeção de sou mundo futuro com Délia.

Ele não nega o próprio passado nem tonta desconhecer o que acontecera a seus dois antecessores. Ele sabe de suas mortes.

Em determinados momentos, tenta articular o significado de algumas palavras, atitudes do Délia e mesmo de suas intenções. Como de outras vezes, sua tentativa de elucidação da rede de significantes não se conclui nem se concretiza. Ele precisa identificar-se antes para poder restabelecer o contorno preciso de sua própria personalidade. Alguns trechos, a seguir, são exemplos desse processo incomodo:

 

Ele imaginava coisas, e foi temerosamente feliz. .O terceiro noivo. , pensou estranhamente. .Dizer-lhe assim: sou terceiro noivo, mas vivo. (p.89)

 

Nunca falou de sua casa aos Mañara, nem a sua amiga nas sobremesas de domingo, (p. 90)

 

Encontrou-se com papai Mañara no Munique de Cangallo e Pueyrredón, (…). Mário disse-lhe rindo que não ia pedir dinheiro, e sem rodeios falou-lhe das cartas anônimas do nervosismo de Délia (…). (p. 98)

 

Este último trecho deixa bem claro o Jogo edipiano que move as atitudes e percepções de Mário. Não conseguindo ser o objeto do desejo do sua mãe, projeta a imagem desta em Délia e cria, diante do poder da lei (.papai Mañara.), uma situação onde ele é quase obrigado a dar-lhe o .falo., para defender Délia e assim poder fechar o ciclo, cristalizando seu papel masculino.

A recusa do velho traz de volta a solidão desconsolada de Mário:

 

Agora estava só outra vez como no princípio, frente a Mãe Celeste, a da casa assobradada e os Mañara. Até os Mañara. (p. 99)

 

Esta situação causada pelos supostos assassinatos anteriores parece confirmar para Mário a sua posição de próxima vítima. Quase um terceiro homem, como no filme de suspense do famoso diretor inglês.

Na verdade, no plano individual, Mário não pode ser considerado um sujeito realizado existencialmente. Sua função na narrativa, porém, coloca-o em posição de destaque. Ele será o deflagrador de um processo de corte na corrente do mortes dos noivos de Délia.

A nível mítico, seu papel corresponde ao do Ulisses que, atraído por Circe, experimenta de seus filtros mágicos escapas do de morrer ou de sor transformado em animal ao descobrir o segredo da fascinação. Tal sequência poderia ser levada em consideração como o inverso do processo de punição de Édipo. Aqui, a descoberta não leva à realização de uma profecia, como no oráculo do mito fundamental; mesmo que algumas intuições tenham sido confirmadas como a morte do peixe e as baratas da cozinha, encontradas no bombom.

Antes de passarmos a consideração do outro protagonista, cabe-nos ainda ressalvar a evidência da paralisação do processo formativo da personalidade de Mário na fase oral. Tal assertiva pode também ser aplicada a Délia. Adiantamos isso pois ambos participam ativamente do um processo lúdico onde a boca, antes de fonte de beijos e palavras doces, como seria de se supor numa relação de afeto, funciona como instrumento de sedução completa, denunciando a fixação de ambos os protagonistas em um dos níveis mais primários da formação de suas personalidades.

Logo na abertura do conto, Délia vai apresentada como difamada pelas .bocas malditas. da vizinhança. Ha uma preocupação em preservar una imagem de pureza e fragilidade para que tudo possa realizar-se.

Num nível mítico, como já foi aventado, Délia é Circe, a fantástica alquimista que fabrica filtros mágicos e transfona os homens em animais. Não podermos suspeitar da validade desta afirmação, uma vez que o próprio texto nos coloca esta situação metaforicamente.

Délia fazia licores e bombons em que experimentava suas receitas e ia transformando seus noivos. Há de se observar que, no relato das mortes anteriores a Mário, a história nos apresenta um detalhe interessantes a própria Délia trata de associar as mortes dos noivos com as mortes dos animais – mais especificamente o coelho e o peixe.

Não podemos, ainda, deixar de associar o fato de os animais se aproximarem de Délia: o cachorro, as mariposas, o gato na cozinha e até a alusão às brincadeiras com aranhas na infância, como metáforas bem elaboradas do mito do Circe. Ainda aqui, no seio mesmo da metáfora, podemos encontrar, metonimicamente, o processo da aranha para construir sua teia e aprisionar os insetos de que se alimenta. Délia vai enredando o noivo de agrados para abocanhá-los num momento inesperado. Um prato Cheio para uma abordagem lacaniana da tessitura do próprio texto.

A relação de Délia com seus pais não deixa transparecer uma .normalidade. conhecida e corriqueira. Há como que um jogo de cumplicidade que é praticamente quebrado com a intromissão de .papai Mañara.. Mário, então, intuitivamente, tem a confirmação da suspeita do sua própria morte.

Se considerarmos o enfoque edipiano, fica claro que Dé­lia quer punir seu próprio pai por sua submissão e quase completa ausência no cenário familiar. Tal situação é intuitivamente apresentada quando de passagens em que a mãe é que fala para intrometer-se no noivado da filha; ela é que diz algo sobre os bombons levados por Mário. A palavra do pai só é ouvida depois que ela bebe bastante, no bar, e é subitamente cortado pela declaração de cumplicidade.

Vemos, então, que Délia é o protótipo da mulher dominadora que não conseguiu o acosso ao falo paterno, perdido para sua mãe.

Como podemos notar, é a partir da apresentação de traços interiores dos dois personagens que vai-se armando o jogo narrativo baseado numa rede de significantes bastante rica e iluminada.

A leitura psicanalítica então feita fica favorecida, de um lado, pela própria estruturação da narrativa. Por outro lado, complica-se um pouco, pois não há uma história que está sendo contada. Os fatos não aparecem numa ordem lógica de narrativa. As inferências, as remissões e associações e a própria simbologia do texto, é que possibilitam a veiculação de um discurso psicanalítico coerente e deflagrador de uma interpretação particular.

***

Conclusão

Afirmar que Mário se apaixona por outra mulher depois de ter resolvido seus conflitos existenciais, a partir da experiência com Délia está fora de qualquer possibilidade. Estaríamos, simplesmente, extrapolando o texto de maneira inaceitável. Dizer que Mário saiu da casa de Délia sem matá-la é concluir o óbvio. Por último, afirmar que o autor contou a história para relatar una experiência psicanalítica conhecida, vivida ou mesmo comentada é deformar o texto, empobrecê-lo.

Estas três afirmativas colocam em xeque a validado absoluta da leitura psicanalítica que fizemos deste exemplar conto do Júlio Cortázar. A análise pode se manifestar em vários sentidos, e nenhum deles esgotaria o sentido apropriado ao trabalho de montagem estética realizado pelo autor.

Abordamos o texto com a intenção de construir, com seus elementos narrativos, um discurso de base psicanalítica. No entanto, estes nossos pré-conceitos, figuras operacionais da pra-compreensão do texto apreendida de uma primeira leitura, tiveram que escutar a própria vez do texto. Fomos obrigados a ouvir dele a resposta positiva às nossas indagações.

O caráter primário destas observações não deixa de transparecer a necessidade de contínuas tentativas na manutenção desse dialogo interpretativo.

Determinado o horizonte de interpretação, pudemos, então, começar a trabalhar os elementos significantes – não eram tão poucos assim – para a elaboração do discurso pretendido.

Não deixamos de perceber, ainda, na prática, a verdadeira significação assumida pelo texto a partir do nosso olhar sobre a coisa. Isto quer dizer que poderíamos ter elaborado um outro discurso a partir dos mesmos elementos, sem deixar de mencioná-los e ate utilizá-los em outra perspectiva, em outro horizonte.

Acreditamos que não chegamos a um ponto conclusivo nas possibilidades de interpretação de “Circe”. Não foi esta a nossa verdadeira intenção.

Esta tentativa de interpretação buscou e conseguiu operacionalizar conceitos apreendidos do estudo teórico-conceitual-filosófico da Hermenêutica e seus problemas.

Há de se dar o devido desconto pois, para o nível a que© se propõe não seria justo pedir um trabalho exaustivo, que esgotasse todas as possibilidades. Cremos assim, ter conseguido alcançar o nosso objetivo essencial.

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Bibliografia

  1. A) Do corpus

CORTÁZAR, Júlio. “Circe” in Bestiário. Tradução de Remy Gorga Filho. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971.

  1. B) De apoio

ARRIGUCI JR., Davi. O escorpião encalacrado: a poética da destruição em Julio Cortázar. São Paulo: Perspectiva, 1973. Coleção Debates, n. 78.

COLLAZOS, Oscar. Literatura en la revolución y la revolución em la literatura: polemica. 5 ed. Mexico: Siglo veinteuno, 1977.

CORETH, Emerich. Questões fundamentais da hermenêutica. São Pauylo: EPU, 1973.

LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 1966.

PORTELA, Eduardo. Fundamentos da investigação literária. 2 ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1974.

RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologia. Tradução de Hilton Japiassu. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.

(Para a disciplina “Teoria da análise de textos”, Profª Drª Aglaeda Facó Ventura, Conceito “A”)

Retomada

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Semana truncada, para não dizer complicada. Feriado atravessado – com perdão da rima paupérrima. Dispepsia intestinal. Mais preguiça, muita preguiça. Notícias não muito alvissareiras de longe, do litoral. Mais uma semana, em nada e por nada, igual às outras, em que pese o fato de ser exatamente igual às outras. Vai entender. Por isso o silêncio, a ausência, as páginas diárias em branco. O ensaio interrompido do diário. Mas muito pouca gente se importa. E isso basta.

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Pois é assim. As meninas se viram pra sobreviver. Do melhor jeito que podem e sabem. E vão vivendo. Mas aí o rapazinho metido e abelhudo, com cara de bom moço, sorriso matreiro e oportunista se mete, se auto convida, se promove. E fala e seduz e adula e faz o jogo que o mainstream elege como o correto, o certo, o legal, o que dá lucro, o que leva ao sucesso, à celebridade. Pobres meninas. São analisadas, julgadas, reviradas, criticadas, “orientadas”. A pseudo “banca” de experts – como se o sucesso de um fosse igual ao acesso do outro, mesmo com a mesma metodologia, são sujeitos diferentes, desiguais individualidades. Não adianta. Os mass media não aceitam exceções, impõem regras e quem quiser que se submeta, mesmo sem ter a mínima ideia do preço a pagar. Depois. E lã vão as meninas, nervosas, angustiadas. E o mocinho, com o mesmo sorrisinho cínico – com a devida vênia aos filósofos – instiga a ansiedade, o medo, o temor e ainda debocha, dizendo que vão aparecer. Populismo em sua mais execrável perversidade. Mas sou um chato.

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Resolvi que, por algum tempo, vou colocar aqui algumas das monografias que escrevei há 32 anos. Trabalhos finais das disciplinas do mestrado na Unb. Tive a ideia de fazer um livro introdutório à Literatura Comparada com o conjunto desses textos. Fui dissuadido pelo tempo, os afazeres e a íntima certeza, quase absoluta de que o volume seria apenas mais uma ganhar poeira em alguma estante perdida pelo planeta. Na época, era essa a imagem. Hoje se fala em ebook, como se fosse um avanço imenso. Bem, por um lado, é mesmo. Mas só por um lado. Desisti. Agora, remexendo papeis velhos para uma faxina, encontro o conjunto e começo a reler. Fico admirado. Algumas intuições já estavam lá. O cuidado com a forma do discurso também. O respeito a certas medidas iniciais do protocolo “acadêmico”, da mesma forma. Fiquei feliz. Resolvi que uma vez por semana vou coloca-los aqui. Pretendo fazê-lo uma vez por semana, pra aliviar a presumida obrigação de escrever todos os dias. Pode ser que acabem por ter o mesmo destino que os idealizados volumes aludidos. Não importa. Foi em quem os escreveu e tenho muito orgulho de tê-lo feito. Ainda que continue sendo um chato. Aguardem…

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É o que temos pra hoje

Um poema de Ferreira Gullar:

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Traduzir-se

 

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

Pesa, pondera:

Outra parte

Delira.

 

Uma parte de mim

almoça e janta

outra parte

se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

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Três dedos de prosa

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Ele se senta diante da tv para assistir aos programas “mundo cão” enquanto faço a caminhada diária de quatro mil e quinhentos metros. Forçada. Um esforço imenso para dar conta de me levantar da cadeira, me trocar e fazer a bendita caminhada. Ordens médicas. Prefiro isso a pagar uma “academia” onde vou ter que enfrentar o exibicionismo alheio, o olhar desdenhoso por conta de minha idade, de minhas vestimentas – não sou do tipo fashion – e da pouca frequência. Uma chatice. E pagar pela chatice? Jamais! Então, eu faço diariamente, a mesma coisa, a não ser que chova ou que eu tenha que sair de casa para outra atividade necessária à manutenção do equilíbrio doméstico. Bonito né?!

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Uma senhora chega ao hospital com uma crise hiperglicêmica, carregada pelo filho. O atendimento demora. O rapaz sai pelos corredores, desesperado, em busca de atenção e atendimento. Encontra a médica de plantão falando ao celular, displicentemente, do mesmo jeito que rejeita o socorro. Em seguida abandona o plantão e o hospital. Com alguma demora, o rapaz recebe a orientação de atravessas as pistas da avenida em frente ao hospital, ara levar a mão a uma UPA, onde seria mais bem atendia. Lá, a mãe recebe sedativos e o filho, uma vez mais, é orientado a voltar ao hospital pois ela precisa fazer exames mais complexos e ser internada numa uti. Eles retornam e a mãe é recebida pela equipe do hospital que, algum tempo depois, anuncia a morte dela. Pouco mais de sete horas entre a chegada e a morte e NINGUÉM assume a responsabilidade. Duvido que algum dos médicos envolvidos seja proibido de exercer a medicina de agora em diante…

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Jacinto Lucas Pires escreveu, no início de sua carreira, dois livros: Para averiguar do seu grau de pureza e Universos e frigoríficos. Já falei deste rapaz aqui e de alguns de seus livros. O que ocorre é que o prazer de ler sua obra me faz retornar à página em branco para comentar, com elogios, o que li. O primeiro é uma coletânea de treze narrativas curtas que podem ser lidas sob uma mesma perspectiva: a dos sentidos possíveis da palavra “janela”. Essa dica fica por aqui, para não estragar o prazer de quem se dispuser a ler o volume. O segundo é uma peça de teatro. Reli-os hoje. Do segundo, repetiu-se a ideia de ver a montagem dirigida pela Beth Lopes, professor de teatro que conheci em Santa Maria-RS e que hoje, se não me encontro em equívoco, trabalha na ECA-USP. Não sei porque, mas quando das leituras, a imagem dela dirigindo a peça me veio à mente. Talvez seja por conta da aproximação possível do texto do escritor português com a obras de dois outros dramaturgos que causam similar “incômodo”: Beckett e Ionesco. O espírito do absurdo paira sobre os dois. Um espírito comum aos dois estrangeiros, diferente, porém, do incômodo oriundo do absurdo que se lê em O estrangeiro, de Camus. Mas isso já é uma outra história…

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Mais um…

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Semana conturbada. Clayde em férias. Começou o famigerado horário de verão – uma bobagem. Fui visitar a Glória. Chove há quase três dias e eu não pude fazer a caminhada diária (por conta da visita e da chuva) – minha preguiça agradece. A novela das nove vai acabar, melancolicamente ao que parece. Aconteceu a primeira prova do Enem 2018. E nada disso, creio que absolutamente, tem impacto direto e considerável sobre a harmonia do planeta. Até prova em contrário vai continuar tudo em seu devido lugar, no mesmo ritmo. No mesmo “mesmo”… Por conta do Enem, pensei em escrever alguma coisa sobre uma das questões que, acredito que com certo exagero – como se pudesse ser de outra forma! – causou polêmica por conta de certa expressão circunscrita a limites um tanto estreitos – infelizmente – da sociedade falante da “última flor do Lácio…”. Pensei e logo deduzi que a inutilidade de muito blá, bá, blá se confirmava sem muito esforço. Much ado for nothing – creio que é título de um dos trabalhos do bardo inglês. Fato é que a expressão existe. Inegável. Fato é também que não é de domínio público. Inegável também. A terceira fatalidade é a que diz respeito a discursos implícitos no texto da questão. Uma vez mais, inegável. Acredito piamente, sem querer atacar ou ofender a ninguém, que este terceiro aspecto por mim levantado passou despercebido de boa parte dos leitores da referida questão. Não há como negar que uma das endemias correntes em pindorama é a do analfabetismo funcional, infelizmente. Creio que estou a me repetir demais. Vamos lá. Dando tratos à bola, declino do direito de ficar calado ara comentar apenas o enunciado final ou o núcleo da questão: “Da perspectiva do usuário, o pajubá ganha status de dialeto, caracterizando-se como elemento de patrimônio linguístico, especialmente por:”. Este enunciado pede complemento. Creio que, se não cometo engano, o mais adequado – levando-se em conta o blá, blá, blá inicial, tendencioso, como inferi – é o segundo: “ter palavras diferentes de uma linguagem secreta”. Ainda que caiba outra observação: o complemento não alcança todo o escopo semântico do termo, considerando-se suas definições, inclusive, dicionarizadas. Pois bem. A chatice foi filtrada, meu fígado desopilado e o friozinho desta sexta-feira melancólica de uma Primavera em tudo e por tudo inusitada continua. Querendo ou não a desfaçatez de uns – aqueles que se agremiam sob uma sigla de três letras – vai continuar surrupiando dinheiro alheio, o dos impostos. Quanto a isso, posso muito pouco. Bom final de semana!

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Dois poemas

A preguiça é muita, a sensaboria, maior. Os dois poemas que seguem foram classificados – ainda que eu não saiba exatamente a extensão semântico-discursiva do termo – no concurso da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, de/em Itabira.

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Marí(n)timo

 

Nas estrias que a onda deixa

depois que crispada se enovela

o fluxo do tempo que flui, líquido

abraço espumoso

que a Netuno e Cronos enlaça

marés:

caminho.

 

Na areia ainda úmida

estrias como raízes aquáticas

rastros da míngua lunar

caminho de volta ao oceano:

pedras.

 

O mar recua

vira o vento (o vento vira?)

mudança de lua

retomar o fluxo de tudo, mais uma vez

hora de voltar,

pelo mesmo caminho.

 

Do mar

o cheiro e o barulho

tépido, toque das mãos de Netuno:

pedra de desejo.

 

Antínoo caminha na praia

os feixes de músculos

movimento da engrenagem, carne:

caminho do prazer.

 

Ganimedes, silente, observa

lembranças que voltam, maré

afetos e desejos

se encerram:

a pedra e os caminhos.

 

Pensar que podia ser

desejo que não veio

seio do sono assoma surdo

desejo que não vejo

ah…

pedra do caminho… voltar!

 

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Roteiro

 

Folheio, docemente, as páginas do livro amarrotado pelo passar do tempo.

Ao lado, um sopro vazio de tudo e de nadas: o vento a sentir.

Observo.

O impossível transforma-se no todo: a pedra.

O fruto, banhado pela doce brisa, afasta-se.

E assim, outro dia, outra memória, outro fruto.

Talvez!…

Um dia, disseram que escrever é destino.

Compreender a outra perspectiva, mas manter a posição contrária de então.

O livro da vida de alguns está cheio de momentos de puro vazio, ocasionados por perdas e o tempo que passa.

No meio do caminho repleto de obstáculos.

A fé torna-se pedra.

A covardia impede o ditar o fim

do caminho.

Um dia, não mais os detentores do pouco poder, da vaidade, do egocentrismo.

Dinheiro, beleza, sabedoria, estatuto social não servem mais: pedras.

As linhas do destino já traçadas desde o nascimento.

Então, do rascunho que se possa ler, ninguém está imune à dependência de toda e qualquer caridade.

Graves consequências das catástrofes naturais e das “mutações” da sempre frágil existência: caminho.

Neste mundo, sós e despidos.

As assimetrias são evidentes, nada é eterno…

Qual será a missão se a doença se alastra!

 

Soubesse onde estou, como estou, para onde quero ir, para onde vou…

Ouço os gritos da noite inaudita que, um dia, fortemente me abraçou (há tanto tempo!).

Os dias sempre me decapitaram em pedaços: pedras.

 

A noite rouba-lhes a luz e a sede.

Destino que nunca soube descrever, fruto de erros ou de uma praga.

Já faz tanto tempo.

O hoje e o amanhã não são meus: pedras.

Na natureza existem mecanismos de adaptação que se traduzem por formas de sobrevivência.

Não os tenho.

Perdi-os pelo caminho.

Sou espécie nascida para logo entrar em vias de extinção.

Condição humana,

sina,

pecado,

vidas passadas,

influência demoníaca ou apenas eu.

Sempre eu e mais ninguém

pelo caminho das pedras.

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