Primórdios II

LABIRINTO: uma tentativa

A ideia marxista da dialética que considera sempre haver uma antítese opondo-se a uma tese, na busca de uma síntese, se faz verdade bastante cristalina em qualquer ângulo da existência humana. No que concerne à Literatura, como atividade específica no âmbito da criação artística,a mesma verdade se concretiza.

A bem da verdade, não podemos sempre“opor” uma realidade à outra, pois em alguns casos a síntese é conseguida com a“aposição” de duas realidades, aparentemente contrarias. Um exemplo esclarecerá esta ideia. O Modernismo, em sua primeira fase – no Brasil –, aparece caracterizadamente como um movimento iconoclasta. A destruição dos preceitos estéticos que funcionavam como uma camisa de força da criatividade era sua principal meta.Num segundo momento, há uma tentativa de repensar aquela realidade e chegar a um ponto comum entre as divergências gritantes. Finalmente, sua fase plena se caracteriza por atitudes estéticas mais sensatas em relação à revolução que eclodiu em várias direções.

Não nos parece difícil entender o movimento dialético aqui. Temos todos os elementos conjugados num quadro de referências orgânico, que se consubstancia na realidade histórica de nosso país. Este movimento apresenta coerência ideológica, e bastante concretude para que possa ser compreendido a partir de sua “produção”. Neste momento, vem-nos a pergunta fatal: qual o “movimento” sucessor do Modernismo no Brasil?

Considerando uma tendência contemporânea,de não criar nomes novos para designar atividades progressivas, poderíamos entender o Pós-Modernismo como a respostas adequada a esta questão. No entanto,esta seria um tato tendenciosa. Dizemos isso, pois, numa sequência do tempo, a realidade comprovaria tal terminologia; mas não podemos negar que nossa realidade sociocultural não passou pelo processo de mudanças orgânicas,capazes de caracterizar o “Pós-Modernismo”. Principalmente em algumas áreas de atividade intelectual e artística.

Neste ponto, chamamos a atenção paia o jogo conceitual que pode ser estabelecido a partir das expressões pós-modernismo, pós-modernidade e pós-moderno. Se, sem o prefixo, o esclarecimento já era um tanto difícil, com ele então…

Temos que levar em consideração o fato de que, como outros exemplos encontráveis em nossa História, o “pós-moderno” é uma importação, mais uma. Não vivemos a superação do moderno, para conseguirmos visualizar, com clareza caracterizadora, esta nova fase.

Reconhecemos que não primamos pela originalidade até este ponto. No entanto, nossa primeira finalidade é fazer um apanhado geral de ideias para a apresentação dos objetivos deste trabalho.

No âmbito da disciplina – Literatura Brasileira Contemporâneas de 1956 à atualidade –, encontramos um campo propício para o desenvolvimento de uma ideia de especulação teórica aplicável às realizações narrativas compreendidas no período determinado, tentando encontrar elementos de uma possível pós-modernidade nos romances escritos e publicados neste espaço de tempo.

Temos o conhecimento suficientemente necessário para não duvidar de que, dentro dos parâmetros da realização literária brasileira desta fase,principalmente as veiculadas pelo gênero romance,muitas foram as fontes de experimentação estático-operacionais, que visaram não só a modificação do conceito do gênero, como provocaram sensíveis mudanças em sua estrutura narrativa. A vinculação de tais modificações ao momento histórico, como era de se esperar,deixa suas marcas nas obras que, em si mesmas, questionam modelos crítico-interpretativos vigentes a cada passo.

Um romance pós-moderno apresenta o mesmo grau de dificuldade que o adjetivo que o caracteriza. A escolha de Labirinto, de André de Figueiredo, publicado em 1971, satisfaz o principal objetivo deste trabalho que é analisar, numa obra literária criada no período demarcado pelo nome da própria disciplina, a possibilidade de caracterização, num grau “idealista”, do caráter pós-moderno de sua própria realização. Na verdade,em relação à evolução do tempo já o é. Resta-nos, agora, concluir se estrutural e esteticamente também corresponde às expectativas. Neste momento, passamos ao exame da obra como realização deste objetivo.

***

Poderíamos dar início às considerações, dizendo que se trata de um romance autobiográfico. Na verdade, não conhecemos o suficiente sobre a vida do autor, para podermos afirmar com segurança. No entanto, pelo próprio estilo da escritura, pelo tema tratado, inferimos grande força de traços autobiográficos na obra. Esta observação nasce de nossa convicção de que a realização literária – como tantas outras, mas contando com certas vantagens que não vem ao caso explicitar agora – se faz um exercício de catarse existencial inconsciente. É óbvio que, sob este ponto de vista, qualquer obra o será. Esta discussão pode ter lugar em outra oportunidade.

O título do romance, Labirinto, nos leva, quase que obrigatoriamente, a intuir um nível de confusão de “dificuldade”. Não estamos errados. No nível da história, Alfredo procura encontrar explicações para o desenrolar dos fatos fundamentais de sua vida, utilizando-se de elementos que marcaram profundamente a sua personalidade:o avô, o sumiço do pai, a loucura da mãe, as incongruências e segredos da vida familiar, a carreira truncada de escritor, etc.

Com este material, podemos estabelecer,basicamente, dois níveis de leitura para o romance: o psicanalítico e o metalinguístico. Tentaremosorientar nossas observações nestes dois eixos, parafacilitar, de certa forma, nossas conclusões.

Ainda antecipando o mergulho na obra, achamos, interessante uma rápida reflexão sobre uma palavra em particular – GRAMAME. Nome da cidade natal do protagonista, esta palavra, por sua própria morfologia, nos faz pensar em grama, vegetação, verde,vida. A partir daí, podemos fazer uma associação com a busca, empreendida por Alfredo, da compreensão da própria vida. O nome da cidade nos faz pensar, ainda,em gramática. Uma organização necessária, buscada para a compreensão dos fatos que povoam a cabeça de Alfredo. Uma organização que pode dar a chave de compreensão de sua própria vida. No entanto, a entrada no labirinto faz confundir fatos, memórias,delírios e desejos que tecem uma trama muito fechada que vai desimpedindo o caminho de saída através da morte. Na medida em que as mortes se sucedem, a vida de Alfredo vai ganhando sentia do, vai estabelecendo uma coerência existencial. A própria morte é uma consequência óbvia.

A divisão do romance em dias –Primeiro dia em Gramame, Segundo dia… – faz também pensar nessa luminosidade que guia a saída do labirinto; faz uma referência, clara no nosso entender,com a própria infância do protagonista, já que a narração se dá na idade adulta do mesmo, quase uma revisão dos acontecimentos, na busca de sua própria compreensão.

A abertura do romance nos apresenta a possibilidade de parafrasear o questionamento da evolução do romance enquanto gênero. Aqui, inaugura-se o eixo metalinguístico. E,no mesmo trecho temos, também, a inauguração do eixo psicanalítico,caracterizado pela apresentação da mãe do protagonista, participante de cenas rememoradas à chegada na cidade natal. Alfredo tenta recuperar o passado no que há de mais “espes­so”, mais significativo para sua própria vida. Note-se que da pergunta que inicia o trecho citado:

Onde os caminhos?! E as casas?!(p. 15)

até a sua conclusão, com um verbo no pretérito perfeito:

            Acordou.(p. 20)

Presenciamos uma mudança referencial muito grande. O narrador que acompanha a vida do protagonista, “com ele”, nos joga no campo do onírico. É como se Alfredo estivesse apenas sonhando com os acontecimentos revelados pelo próprio narrador. Na verdade, este clima permanece como fio condutor de toda a narrativa.

Não podemos deixar de chamar a atenção para três aspectos impor­tantes que aparecem logo no início do romance: a insistência na figura da mãe; a ausência do pai,que se solidifica no silêncio do protagonis­ta nestes primeiros momentos (referência clara à Lacan) e a possibilidade de contextualização da obra,a partir dos dados referentes à época em que foi escrito e publicado: relações com o contexto de opressão po­lítica e autoritarismo pós-64; as preocupações com o encaminhamento da Literatura Brasileira, principalmente em relação ao desenvolvimento e a evolução do romance enquanto gênero. Os trechos transcritos a seguir buscam ilustrar, respectivamente,as observações feitas acima:

Desbravando caminhos, Alfredo parecia ver com maior clareza as razões que haviam determinado a morte de sua mãe, a fuga de seu pai. Onde estaria ele, agora?Depois da tragédia, uma só informação: vivia no Rio de Janeiro. Ninguém jamais o encontrou. Na verdade, vivera sempre à procura do pai: (…). (p. 26)

Coma mesma tranquilidade que havia aparecido, sem uma palavra, ela vestiu as calças,arriou a saia, apanhou as flores amarelas e la se foi. Ele, por sua vez, baixou a vista para fechar a braguilha e quando levantou surpreen­deu-se sozinho. A mulher tinha desaparecido. No campo aberto, ninguém. Tinha fodido com ele mesmo?!

Bem não fez a pergunta, Alfredo obteve a resposta: ti­nha fodido com sua mãe.(p. 28)

Pensando bem, os caminhos intrincados que lhe oferecia Gramame (…) parecem simbólicos: tudo na vida lhe fora bastante intrincado e difícil; um verdadeiro labirinto. (p. 27)

O verde parecia tudo querer incendiar naquela tarde. Era verde por tudo quanto era lado. Verde era ele também. Verde os homens que acamparam, com suas barracas verdes, espalhadas pelo verdejante mato rasteiro. E como se não bastasse o verde de tudo, o vestido de seda de sua mãe era branco de bolinhas verdes e, naquela tarde, elas pareciam querer saltar do vestido e se perder nas roupas dos soldados, acampados em Gramame. (p.  28)

A insistência em citar muitos trechos logo de início do romance tem uma justificativa: neste primeiro capítulo encontram-se concentra­dos os elementos-chave para a compreensão do “labirinto” em que penetra o protagonista. A busca de seu pai, a figura constante da mãe, além de todas as outras mulheres de sua vida – a absoluta maioria –; a imagem do labirinto,o clima de sonho, tudo parece funcionar coro ín­dice nas primeiras páginas do romance, e vai se diluindo com o desenvolvimento da narrativa.

O eixo psicanalítico parece contar com mais evidências que o metalinguístico, apesar deste poder ser concretizado no romance, uma vez que seu protagonista, em determinado momento, se declara como desejoso de escrever um livro. Já na infância, e algumas passagens do livro denunciam isto,o mesmo Alfredo começa a escrever um livro e o mostra para a tia. Mais tarde,como ganhador de um concurso de contos, o protagonista vai para o Rio de Janeiro onde parece encontrar o fio da meada que o levará a saída do labirinto.O homem com quem mantem relações sexuais, a mulher que se faz projeção da mãe de Alfredo (para ele) e, com quem, também mantém relações sexuais são degraus de uma escada que identificam o processo da catarse existencial inconsciente por que passa qualquer escritor, quando da realização de uma obra.

Às páginas 34 e 35, o autor parece querer colocar mais um elemento – que evidencia um certo traço metalinguístico de determinadas passagens – que discute o problema da editoração de livros e sua relação mercadológica.

Neste aspecto, temos um pequeno ponto de apoio para uma possível consideração do caráter pós-moderno do romance. A necessidade da narrativa de se preocupar com sua própria instância mercadológica, que marca as relações de produção e consumo, tão caras às sociedades industrializadas,consideradas pós-modernas. Note-se que a discussão da materialidade “econômico-consumista” da obra de arte já tinha sido levada em consideração pelos modernistas. Uma retomada ideológico-estética que poderia render a este romance as honras de ser caracterizado como pós-moderno.

A preocupação com a criação literária tem continuidade na passa­gem em que Alfredo e Ismênia discutem a plausibilidade de algumas idei­as para o romance dele. Falando do romance que pretende escrever, o protagonista faz, nas entrelinhas, uma longa dissertação sobre o realis­mo da narrativa, quase como em oposição à liberdade do autor para esco­lher o nome de seus personagens. Mais uma vez, fica evidente a necessi­dade apresentada pelo autor de se discutir o desenvolvimento do gênero oque acaba se transformando, se é que assim podemos afirmar, numa crí­tica à situação da Literatura Brasileira naquele momento. Como podemos ver em:

Não foi em Martha, que você se baseou para escrever seu conto “Esther com th”? (p. 36)

Mais adiante, o autor nos coloca uma situação em que a descrição da realidade da pobreza nordestina, já denunciada, discutida e defendida pelo regionalismo de 30, volta quase como realismo transfigurado para emoldurar as origens do protagonista. Na descrição do nascimen­to do “Casarão”,os índices narrativos são fortes veiculadores desse discurso e acompanham o processo de formação da personalidade do próprio protagonista, sempre enfatizando o aprofundamento na imagem do labirinto que busca achar sua própria saída.

Note-se que o “estranhamento” apresentado como técnica de reco­nhecimento de uma realidade concreta, faz analogia com amaneira pela qual Alfredo vai descobrindo as nuances de sua própria personalidade. Tal observação poderá encontrar maiores esclarecimentos quando da consideração do eixo psicanalítico.

Temos ainda, à página 54, uma passagem em que o autor parece fa­zer a descrição do processo de industrialização de uma região eminentemente agrícola como paralelo para a criação romanesca a partir de categorias novas: o romance industrial e, mesmo, o romance urbano do nordeste “industrializado”.

Caixa de Texto: f

Era exatamente o que pretendia fazer: O romance de uma região: Gramame:  a história de seu apogeu com o abacaxi,a história de sua decadência, quando começaram a derrubar as matas para alimentar as fábricas da Paraíba, ago­ra com o apelido de João Pessoa; a história da chegada de novos cortadores de lenha choferes, ajudantes de caminhões trazendo novos costumes, valores novos, nova linguagem, novas doenças – era preciso desenvolver tudo no romance e pretendia fazê-lo retratando figuras de sua infância e outras de quem ouvira falar.(p. 54)

Muito interessante é o trecho localizado às páginas 85 e 86, que o autor coloca uma passagem da vida de Alfredo em que, num exercício simultâneo de intertextualidade e metalinguagem, este escreve uma história recuperando o imaginário dos contos de fada, projetado numa realidade adversa à satisfação dos desejos da criança rejeitada. Logo em seguida, Alfredo faz uma crítica ao mito da formação intelectual e literária, apenas com a leitura dos grandes “clássicos”. Comestes dois pontos, podemos indicar um traço característico da literatura considerada contemporânea:a metalinguagem como recurso de criação de um novo tex­to ou estilo o reaproveitamento, devidamente adequado à conjuntura do momento, de procedimentos já “ultrapassados”na linha cronológica de evolução do romance. Mais um pequeno ponto para a constatação da pós-modernidade deste romance?

Um outro ponto relevante no eixo de leitura metalinguística para o romance de André de Figueiredo, nós podemos encontrar no seguinte trecho:

Durante o café, Alfredo se perguntou o que antes ja­mais tivera coragem de fazer – temendo a resposta talvez. Afinal, se perguntou: como chegara até Gramame? de automó­vel? Não se lembrava de nenhum automóvel. Se lembrava apenas de ter pegado um táxi edito: “Casa de Saúde Santa Clara, Laranjeiras”. E viera naquele táxi, do Rio de Janeiro até João Pessoa? Impossível! Não se lembrava do trajeto. Teria pegado um avião? Não se lembrava jamais de ter ido ao aeroporto. A não ser… a última vez que se dirigira ao aeroporto fora para levar Ismênia, queia passar as férias com a família em Maceió. Então?!

Aqui, temos uma das chaves,senão a chave mestra de leitura de todo o romance. Intensamente mesclado de elementos narrativos que reme­tem, diretamente, ao eixo psicanalítico de leitura, o trecho citado po­de ser o exemplo cabal de uma tentativa de superposição de dois discur­sos: o do narrador e o do protagonista. Tem-se a nítida impressão de que ambos acabam por construir a mesma personalidade atormentada que procura narrar seus desvelos em percorrer, ao contrário, os caminhos internos de um labirinto. O tom alucinatório que se evidencia neste trecho não pode deixar de ser considerado um procedimento narrativo intencional, que acaba por confundir o direcionamento do próprio foco narrativo. Existe sempre a necessidade de explicações para cada passo, cada fato narrado na história de Alfredo; o autor questiona sua própria obra e o faz, também, em relação ã necessidade de explicar tudo o que escreve para compor sua obra: a superposição de discurso do protagonista/narrador em constante estado de busca de compreensão.

Podemos sentir, com bastante constância, a sequência de cortes narrativos que deslocam o foco da narração. Um exemplo deste procedimento é a narração da história dos “olhos de fogo”. Este pequeno enredo – aproveitado, há alguns anos, numa produção televisiva – provoca um embaralhamento de ideias que constitui o resultado de um jogo narrativo premeditado.Seu principal objetivo é reforçar o tom onírico-alucinatório da narrativa, entremeado de comentários críticos sobre a atividade de Alfredo, enquanto escritor. No fundo, permanece a intenção metalinguística como predominante no discurso elaborado pelo romancista em sua obra.

Alfredo sente a necessidade de materializar o próprio fluxo da consciência, como forma de apreender com segurança sua própria existência. A nosso ver, outra não parece ser a atitude intencional do autor da obra.

–Você existe mesmo ou é uma criação minha?

–Se não for criação sua, serei de alguém. Que importa isto?Alguém me criou, criou as palavras que estamos dizendo. Criou este momento. Aproveitemos. (p. 159)

–Não, nós não existimos.

(…)

– Nós fomos criados por um escritor maluco. Nós estamos na imaginação de alguém. Na imaginação de Deus. Aproveitemos antes que ele bote o ponto final na história e viremos pássaros empalhados. Digamos tudo que sabemos. E pre­ciso dizer tudo, antes do ponto final (…)

–O ponto final ainda está muito longe.

–Como você sabe?

–Eu sou o escritor.

É o que você pensa. Você está sendo escrito como eu estou sendo escrita. Mas não falemos disto. Falemos de vida. Corramos. (p. 161)

            Nos dois trechos apresentados, podemos dizer com bastante segurança, o autor alcança o clímax de seu discurso metalinguístico. A pas­sagem a que se refere é a do encontro de Alfredo e Martha no Jardim Bo­tânico.

Aqui temos a exacerbação do tom alucinatório da narrativa: a sua realidade está instaurada definitivamente no discurso do narrador. Os trechos citados recolocam a questão do relacionamento discursivo entre “autor”e “narrador”, no universo diegético da obra: a narrativa volta para o ponto de vista do autor que, através de sua própria criação nar­rativa, questiona a veracidade de seu relato. Temos, então, um outro ponto de apoio para a caracterização de um traço pós-moderno do romance. O relato narrativo é uma tentativa de legitimação de si mesmo, através do questionamento do instrumental utilizado para o seu agenciamento dinâmico no corpo da narrativa.

Temos que levar em consideração,ainda, que a realidade temporal da narrativa, sua “atualidade”, localiza-se no passado de Alfredo: devemos, então, tomá-la como um esforço de rememoração da história conhecida e acontecida. Esta participação dinâmica é sinal da recuperação da própria existência do protagonista.

O discurso narrativo atualiza-se“culturalmente” através da intromissão da opinião do autor, colocada nas palavras do personagem, co­mo forma de diluir um possível caráter didático, ou mesmo, doutrinário. É o que nos mostra o trecho localizado entre as páginas 174 e 180.

Procuramos organizar, até aqui, os elementos que compõem um possível eixo metalinguístico que pode orientar a leitura deste romance. Acreditamos que, neste aspecto, a narrativa de André de Figueiredo pode oferecer maiores possibilidades de aproximação de sua obra com um possí­vel ideário pós-moderno. Preferimos considerar assim, já que este conceito, em seus aspectos operacionais e interpretativos, apresenta-se ainda envolto numa confusão enevoada de imbrincamentos, consequências e nuances.Conjunto, este, de detalhes, que não cabe aos objetivos deste trabalho esclarecer, ou delinear particularizadamente.

Apesar de bem mais evidente,e rico, o eixo psicanalítico, que passaremos a abordar agora, não tem tantas consequências para as propo­sições iniciais da análise pretendida. No entanto, não podemos deixar de apresentar seus elementos mais fortes para uma primeira abordagem. Oque não compromete, assim esperamos, a qualidade desta tentativa.

Uma observação que nos parece bastante pertinente, diz respeito à imagem do labirinto, evocada já no título.

Da leitura do romance, sob este enfoque, não podemos deixar de assinalar a estrita ligação do eixo psicanalítico de leitura com um quadro mitológico de grande rendimento interpretativo. O tema do labirinto abre novas portas de interpretação do romance, contando com o apoio da etimologia dos nomes dos personagens e da associação deles com as mitologias clássica e cristã. Tal encarte não atrapalha o desenvolvimento do trabalho,mas procura chamara atenção para o fato de que multas das observações apresentadas a seguir podem ter um componente intuitivo fortemente ligado a este contexto mitológico.

Como já foi dito, o romance narra a busca da explicação do fio condutor da vida de Alfredo, perdido num labirinto de impressões,lembranças,sentimentos, alucinações. Repetindo, o tom onírico de grande parte das passagens se faz marca registrada do texto, fazendo com que o leiamos constantemente atentos aos entraves do inconsciente do protagonista e aos golpes de vista provocados pelo discurso do narrador.

Sabemos que Alfredo foi criado num universo em que a presença feminina é uma constante, absoluta e inquestionável.Desta conclusão podemos supor que todo o silêncio por ele demonstrado na “primeira parte” do romance – o conjunto de passagens que reconstitui seu passado, logo nos primeiros dias depois da chegada a Gramame – faz parte do contexto lacaniano de acesso à lei, acesso ao simbólico, feito através do confronto com o “pai”, o nome, a lei, etc. Isto só vai acontecer no final da narrativa.

Olhou o rio, seus olhos estavam abertos, mas eram quatro olhos?! tinha duas faces? Dois rostos se refletiam nas águas do rio. Virou-se. Atrás de si, “o homem de Deus” que ele encontrara, ao chegar em Gramame e que por cinco dias consecutivos tinha ficado desaparecido.Agora botava como o homem era parecido com ele. Era a sua cara cagada e cuspida.Então?!

– O senhor?!

– Eu mesmo.

– Estranho como sua cara, refletida no riacho, se parece com a minha.

Alfredo olhou o homem demoradamente e viu como as li­nhas de seu rosto eram iguais as suas.

– O senhor é o meu pai, não é? –perguntou Alfredo sem nenhuma emoção, com uma naturalidade que jamais pensara poder ter ao fazer aquela pergunta. Afinal, durante muitos anos esperara encontrar o pai. (p. 190)

Antes de qualquer outro comentário, gostaríamos de chamara atenção para o fato de que, e neste trecho, como em muito poucos outros, que Alfredo tem voz própria, no seu tempo presente “real”. Em outras palavras, em outra falas, detectamos apenas a recordação do passado ou as falas do inconsciente alucinado.

Note-se a terminologia utilizada por Alfredo. A palavra “senhor” e “pai” são destituídas de um mero valor semântico para pretenderem-se preenchimentos de uma significação muito mais forte e existencialmente rentável. A figura do pai completa o quebra-cabeça que atormenta a per­sonalidade de Alfredo. Acontece neste encontro (e deixamos para a parte final a discussão sobre o “realismo” deste) a passagem do imaginário para o simbólico. Completa-se o fluxo edipiano na narrativa que, logo em seguida, sofre um corte que objetiva apor (novamente) o universo feminino dominante, representado,na passagem intercalada, pela imagem da mãe com roupas e sombrinhas coloridas. Uma alucinação cromática crescente dentro do romance.

Logo que “chega” a Gramame, Alfredo tem o primeiro sinal experiencial de sua alucinação: o encontro com a mulher das flores amarelas. Uma relação com a própria mãe é que abre as portas para a torrente edipiana que vai orientar a busca de saída do labirinto.

A avo Helena, Ismênia, tia Clarissa e Martha são figuras femini­nas que, em diversos momentos, projetam a imagem obsessiva da mãe de Al­fredo. Presente em todos os momentos, esta tenta apagar a imagem paterna, essencialmente buscada e desejada por Alfredo.

No Rio de Janeiro, a passagem da Cinelândia, uma metáfora da identificação com o pai, o autor coloca numa relação homossexual a fixa­ção de Alfredo. Tal fator é rememorado pelo narrador, faz fluir imagens de sua adolescência, em que as brincadeiras sexuais povoaram a imaginação e a experiencia concreta do já atormentado Alfredo.

Além deste contexto, não podemos deixar de levar em consideração o sentimento de rejeição que pontua a vida de Alfredo. Todos as situações por ele vividas geram conflitos que acabam por re-situá-lo na condição de rejeitado. Este aspecto pode ilustrar o processo de fenda e refenda que caracteriza um dos aspectos da formação da personalidade humana.Ousamos afirmar que deste sentimento nasce a necessidade da experiência homossexual de Alfredo. Experiência essencialmente marcada por um masoquismo libertador,que tanta vencer as barreiras dessa rejeição experimentada, substituindo prazer por degradação, Ha inclusive um comentário do narrador que esclarece a busca dopai na atividade homosse­xual do protagonista:

No entanto, da mesma forma que as pessoas vivem no melo do barulho e a ele terminam se acostumando, Alfredo resolveu aceitar o estranho como a sua nova modalidade rotineira de vida. (p. 53)

Nesta passagem, podemos visualizar a imagem que o mesmo Alfredo f az de sua própria existência. Imagem estaque o acompanha numa mola alucinatória até a idade adulta. Imagem que se coloca sempre quando tenta encontrar a saída do labirinto no qual se metera, não por opção consciente.

O protagonista tem sua existência marcada pelo “estranho”. Esta constatação pode nos levar a considerar aqui um paralelismo com e estranhamento – enquanto técnica composicional da narrativa –que, por sua vez instaura uma analogia com a relação da personalidade consciente da Alfredo e o mundo no qual se joga, a procura de seu pai, sua imagem: a tensão criada pelo risco de existir sem possuir identidade própria,definida.

Temos que levar em consideração o fator “religiosidade” como componente forte do tomento que acomete Alfredo. Representado principalmente por José Santeiro e, em segundo plano, pela avó (alter ego da mãe), o fator religioso, aparece pontuado em diversas passagens do romance,identificando a força de sugestão por ele provocada na mente atormentada do protagonista.

Podemos localizar no desenlace de Paulo e Celina, a origem cons­ciente – e inconscientizada pelo próprio – do drama de Alfredo, “Filho de puta com vagabundo”, como aparece em algumas passagens, esta expressão é a marca mais forte da negatividade que caracteriza a personalidade do protagonista. Este aspecto nos remete ao eixo metalinguístico, já mencionado, pois o romance que Alfredo tenta escrever busca, no fundo,a exorcização desse fantasma. Ele se utiliza da ficção para transcender a própria realidade, grosso modo, uma alegoria do próprio escritor.

Neste ponto, tocamos numa questão que vai set apenas aventada. Sua discussão não cabe nos limites definidos para o presente trabalho. Até que ponto o ato de escrever se transforma, inconscientemente, num instrumento de catarse existencial para seu autor? A obra literária,assim o entendemos, no fundo do fundo, consegue justamente isso: a exorcização de fantasmas que perseguem o autor de um livro,enquanto idealizador estético da existência material concreta.

A partir disso, podemos concluir que Alfredo, enquanto escritor, tem, nos acontecimentos do passado revividos pela memória e na sua pró­pria narrativa, as chaves de compreensão da gênese de sua própria personalidade.

***

Retomando o início deste trabalho, gostaríamos de observar a ex­trema pertinência do nome escolhido para a “cidade-cenário” da narrati­va desenvolvida: Gramame. Esta palavra provoca urna intensa associação de ideias que consubstancia uma corrente semântica, fundamentada em muitos elos, dentre eles: grama, verde, vida, dinamismo, transformação, perpetuação da espécie, organização, gramática.

Acreditamos que o trecho final do romance, localizado exatamente entre as páginas 219 e 221, apresenta a imagem conclusiva desse processo de busca de compreensão: as imagens fantasiosas e fantasmáticas (a redundância exerce, aqui, íntima função significativa) na reunião de todo um grupo de pessoas num casarão sonhado, idealizado, imaginado e desejado; compõe o quadro de alucinação que perpassa todo o romance, de maneira diluída.

Acrescente-se ainda que o arquétipo da androginia,representado pelo ser fantástico que consome o protagonista, reafirma a importância da simbólica harmonização total e plena coma morte:clara antinomia em relação ao nome da cidade.

Há de se perguntar se este final, ao invés de esclarecer o processo labiríntico de busca de explicação por que passa Alfredo, não o torna mais invertido, mais problemático.O retorno à alucinação instaura seu estatuto como o verdadeiro vetor de leitura do romance. Alfredo, na verdade (é de se supor) não volta à Gramame de sua infância, mas, num delírio semiconsciente,cria sua própria Gramame como subterfúgio, como máscara que seu inconsciente, impõe para poder veicular suas próprias verdades essenciais. As causas originais desse processo podem ser diversas: um acidente, uma alucinação plena, um sonho, a loucura… Na verdade, esta instância se transforma em mero detalhe.

Nossa conclusão passa, a partir de então, a levar em consideração duas observações aparentemente desvinculadas:

  1. a narrativa se estrutura em subdivisões diárias que podem funcionar como índices do período normal (cinco dias da semana) de trabalho; tal fator vem contar a colaboração de um cromatismo significativo e evocador de imagens carregados de sentido esclarecedor da própria narrativa, o que propicia uma maior identificação com um possível processo mnemônico de recuperação do passado a nível inconsciente;

2) a narrativa parece recuperar valores destruídos pelo espírito iconoclasta do modernismo, dando a eles tratamento atualizado e mais coerente com sua aplicação no contexto contemporâneo.

A partir destas observações,podemos dizer que, os dois eixos de orientação de leitura, propostos no início do trabalho, conjugam elementos de composição da narrativa que perpassam primordialmente dois campos do conhecimento humano: a Literatura e a Psicanálise.

Era de se supor que os discursos, respectivos a cada uma delas, fossem veiculados de maneira a inaugurar uma renovação profunda na arte de narrar, que poderia identificar uma época pós-moderna.

Apesar de ter sido gerada numa época de bastante efervescência criativa, particularmente no campo da criação literária, o romance não ultrapassa os limites da modernidade que nele se evidenciam.

A linguagem utilizada, sofre alguns tratamentos peculiares, mas não o suficiente para dizer que renovadores de sua própria funcionalidade numa narrativa.

Tematicamente,a obra apresenta maior abertura para a pés-modernidade. Mas o tratamento dado a este material, mesmo que amparado nas observações feitas a partir da leitura do eixo metalinguístico, não provoca nenhuma modificação estrutural profunda.

Metalinguagem e Psicanálise são dois campos férteis para as revoluções idealizadas pela pés-modernidade. A preocupação com a existência humana, em toda a gama de variações conjunturais e,ao lado, o questionamento técnico-artístico do desenvolvimento de um gênero narrativo e suas instâncias, são temas caros ao pós-modernismo. No entanto, no romance analisado, estas duas possibilidades de renovação não ultrapassam a faixa da “modernidade”.

Uma última observação se faz questionável: haveria mesmo a condição absoluta de caracterização da pôs-modernidade de um romance contemporâneo no Brasil? Esta exigência estaria ligada, a nosso ver à transitoriedade dos limites do próprio conceito de pós-modernidade. Aqui, não podemos nos gabar de viver esta época com a amplitude propalada pela divulgação de mais esta “onda transoceânica”. Sem querer diminuir o valor de todas as tentativas bem intencionadas, é nossa impressão que maior atenção se deve dar ao processo conjuntural que transcorre como fonte e parâmetro para qualquer realização estética, seja qual for a mediação utilizada.

***

Bibliografia

COELHO, Teixeira. Moderno e pós-moderno. Porto Alegre: L & PM Editores, 1986.

FIGUEIREDO, André de. Labirinto.Rio de Janeiro: Expressão e cultura, 1971.

FREYRE, Gilberto. Em torno de alguns desafios pós-modernos ao homem apenas moderno. In: Além do apenas moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973, p. 159-176.

LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Trad. de Ricardo Correa Barbosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio,1986.

MERQUIOR, José Guilherme. O fantasma romântico e outros ensaios. Petrópolis: Vozes, 1980.

SILVA, Valmir Adamor da. Psicanálise da criação literária. Rio de Janeiro, Achiamé, 1984.

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