Primórdios III

Depois de uma semana de suspensão, devido a uma viagem de que gostei imenso, continuo a publicação, em série, de minhas primeiras monografias:

A hora da estrela: análise de estrutura

Escrever sobre a realização literária de alguém é, aparentemente, mais fácil que tomar a realizara obra. São procedimentos complexos e incomparáveis e que caminham na mesma direção, em sentidos opostos. Vetores de uma mesma necessidade.

Assim, a procura de elucidação de elementos “estruturais” de um “suposto” romance intimista é o ponto central dos objetivos deste trabalho. As palavras destacadas procuram revelar a relatividade dos conceitos quando se trata de considerar esta categoria ainda pouco elucidada e devidamente conceituada.

Acreditamos que o romance intimista não se reduz ao grupo de obras que sempre se preocupam – e se preocupam, sempre – com a problemática de um indivíduo na intimidade de seu próprio existir. Este “tom” narrativo tem sido tomado por grande parte da crítica, como ponto de apoio para a análise e a consideração do intimismo de determinada obra.

A categoria intimista, que exige procedimentos narrativos próprios, não deixa de estar preocupada com a intimidade dos humanos a própria etimologia da palavra é suficientemente óbvia nesta ligação essencial. Transcende, porém, o individual,buscando o desvelamento de uma realidade essencial para o ser humano, em sua dimensão mais universal. O confessional ou o subjetivo é, se assim podemos dizer, um dos primeiros passos para a “epifania” do intimismo enquanto expressão estética.

Com relação ao delineamento de uma estrutura romanesca pa­ra esta categoria, nos deparamos com um pequeno problema.No caso particular de Clarice Lispector, fica difícil determinar o nome “romance” como gênero, para a maioria de seus textos. Na verdade, muitos dos traços particularmente característicos a ele, estio bastante diluídos na obra clariceana e perdem-se, confundem-se com outros, instaurando enfim, urna nova modalidade que passa a não poder ser enformada no gênero“romance”, tradicionalmente conceituado.

Partiremos, neste caso, da obra publicada postumamente, A hora da estrela, que, para aproveitar a ocasião, mereceu já uma adaptação bastante feliz para o cinema. Guardadas as devidas pro­porções e as tradicionais dificuldades de transposição – acentua­das no caso de Clarice Lispector –, o resultado final agrada sem desmistificar o valor da obra literária, mantem-se fiel.

Como primeiro passo, para a organização deste trabalho, resolvemos privilegiar dois extratos narrativos: personagem e foco narrativo.Para as pretensões apresentadas, julgamos suficientes estes extratos, uma vez que a abordagem dos demais faz parte de um trabalho maior, já em andamento.

Começando pela consideração do extrato-personagem, podemos fazer uma observação interessante sobre seus nomes. Obviamente, todas as colocações estão relacionadas com o universo da própria obra, não tendo valor de comprovação de tese alguma. Não obedeceremos a sua ordem de entrada.

Macabéa é a estrela maior deste romance.Seu nome tem ligação morfológica com os “macabeus”, da Bíblia. Povo sofrido,que passa a vida em constante conflito com a realidade na qual estão imersos,no seu tempo. Ao mesmo tempo, funciona quase como um anagrama de “manca”, principalmente quando e tratada por “Maca”, pe­lo “narrador”. Alertamos para o fato de insistir em certos pontos óbvios para não perder de vista determinados detalhes. Nordestina e pobre, feia e subnutrida, ela é protagonista de uma história comum, sem a menor beleza, em que se perdem miríades de outras nordestinas, aspirantes ao sucesso existencial. A escolha desse nome não nos parece casual. O contraponto realizado em relação aos ou­tros dois personagens destacados, Olímpico e Gloria, é comprovação disso.

O namorado carrega o peso mitológico da aparente irrealidade das coisas. Com a cabeça povoada de ilusões, erros e preconceitos estereotipados, ele representa o mundo ideal de Macabéa. Algo que ela sonha alcançar,mas que não consegue sequer entender:

– Eu não entendo o seu nome – disse ela.

– Olímpico? (p. 53)

Com ele, Macabéa descobre o desejo,consegue perceber os movimentos internos da paixão, sem, contudo, conseguir verbalizar isso:

Ela sabia o que era o desejo –embora não sou­besse que sabia. Era assim, ficava faminta mas não de comida,era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e arrepiava o bico dos seios e os braços vazios sem abraços. (p. 53)

Um ponto a notar é a dificuldade de verbalização vivida por Macabéa. Ela dificilmente fala. Quando o faz é por meio de frases certas que pouco esclarecem sobre seu próprio raciocínio, suas ideias. Neste ponto podemos basear algumas considerações psicanalíticas possíveis, que fatalmente aparecerão nas entrelinhas do próprio texto.

Continuando, temos Glória, a imagem desejada por Macabéa. Ela e o seu oposto. Em tudo e melhor, boa de carnes, loura (apesar de oxigenada), inteligente, bonita e recebe telefonemas…A importância que reveste esta mulher é tamanha para Macabéa que, mesmo tendo seu namorado porela, não consegue desvencilhar-se de sua querida companhia. Glória é o “outro”no espelho imaginário em que Macabéa se mira.

A capa da edição utilizada neste trabalho é bastante elucidativa desta consideração. Nela vemos uma mulher com características de Macabéa, dominada por uma imagem de Marylin Monroe. O retrato da obsessão. Alguns defendem a tese de que haja neste movimen­to um índice do caráter ideológico do romance.Acreditamos que sim, mas observando que este traço não reina absoluto no cerne da narrativa.

As “marias”, companheiras de pensão de Macabéa são quase desdobramentos de Glória, em escala menor. Sua inexpressividade, no corpo da narrativa, se compara com outras citações feitas no transcorrer do romance; assim como acontece com o chefe do escri­tório onde Macabéa trabalha. Apesar de que, nesse particular, po­demos localizar beste último a imagem do pai que não foi conhecido por Macabéa. Assim, estaria mais esclarecida sua dificuldade em falar.

A cartomante, cujo nome faz associação com o charlatanismo que pontua seu discurso: Carlota – Charlotte,charlatã – fun­ciona como o arauto que vem anunciar achegada da hora e da vez de Macabéa. É sua consciência messiânica. Prenunciando um futuro imediato de sucesso, felicidade, prazer, amor e riqueza, ela enco­bre a verdadeira destinação da protagonista:

(…) Faz tempo que não boto cartas tão boas. E sou sempre sincera: por exemplo,acabei de ter a franqueza de dizer para aquela moça que saiu daqui que ela ia ser atropelada, ela até chorou muito, viu os olhos avermelhados dela? (…) (p.88)

A nível da história, os personagens quase não têm ação. Sua apresentação, apesar de contar com elementos descritivos, que funcionando como carteira de identidade, são apresentados, claramente, muito mais por suas percepções, pelas reações ao que os rodeia do que por atitudes, caráter, convicções expressas em discursos verbalizados.

Esta característica do romance intimista,no entanto, não pode escapar da necessidade de descrição. Sem ela, haveria um desequilíbrio muito forte na diegese do próprio personagem. Sua concretude ficaria comprometida.

No caso do romance em questão, os personagens aparecem co­mo clara expansão da personalidade do “narrador”. Esta afirmativa abre espaço para o problema do foco narrativo que será tratado a seguir.

Há uma preocupação constante com detalhes que pouco ou na­da acrescentam à construção da imagem real dos personagens, mas possuem uma força reveladora de força inquestionável. Este apego necessário ao que e pequeno, quase insignificante e o consequente mergulho em seu interior, na busca de esclarecimento de um sentido mais profundo, é característica do escritor intimista. Há uma declaração franca sobre este ponto na seguinte passagem:

(…) Esta, que, como eu disse, tinha tendência a notar coisas pequenas, percebeu que dentro de cada bombom mordido havia um líquido grosso. Não cobiçou o bombom pois aprendera que as coisas são dos outros. (p. 84)

Esta atitude, cara ao escritor intimista,faz demonstrar o caráter operacional dos personagens. Estes são instrumentos de veiculação de uma comunicação quase impossível em primeira pessoa. Esta impossibilidade caracteriza a arriscada tarefa de falar do indizível. A penetração na interioridade pode transformar-se num discurso carregado,denso, opaco demais para que seja deglutido com a necessária facilidade – e proporcional também! Utilizando-se de“personagens”, o autor intimista escapa do risco de escrever um diário pretensioso, onde anotações íntimas dariam vazão à sede de descobertas do interior do indivíduo que opera a própria realização estética. O personagem intimista, como o de outro tipo de narrativa, outro gênero de romance, funciona como mero instrumen­to de verbalização deslocada do próprio autor.

Uma diferença característica que se pode apontar é que o personagem intimista nunca é apresentado em meio a grande atividade.Sua presença é marcada pelo pensamento que o orienta a cada passo.Eles não carecem de ação expressa ou dinâmica para concre­tizarem sua existência. Sua materialidade confina-se ao nível da linguagem utilizada pelo narrador.

Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que nu­ma rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina (…). A história – determino com falso livre arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodri­go S.M. (p. 18-19)

Neste trecho, o narrador se identifica e explica a necessidade dos personagens. Ele persegue uma intuição, vivida num momento completamente inesperado,que deve ser relatada sem demora.

Abusca da criação de personagens, suas falas, a apresentação de suas características e a funcionalidade deles no contexto da narrativa ensejam a força propulsora do foco narrativo. Carac­terística muito mais elucidativa do romance intimista. Quem fala? Quem conta a história?

Dissemos que, no romance intimista,podemos considerar os personagens como projeções do próprio narrador. Isso não é tão simples quanto parece. A situação se complica mais, quando chega­mos a afirmar que, neste caso,inclusive este é a projeção da própria Clarice Lispector.

Neste momento, tocamos num ponto nevrálgico de uma polêmi­ca que se manifesta em várias direções. Normalmente, qualquer obra literária – tomando-se como base um enfoque psicanalítico pa­ra a sua leitura – pode ser encarada como possuidora de traços autobiográficos de seu autor; uma vez que o inconsciente do mesmo não deixa de se manifestar em cada frase, cada colocação veicula­da por um personagem do romance. Desta forma, o romance intimista perderia seu status de gênero narrativo específico. A situação se transforma quando prestamos atenção no fato de que, nestes ro­mances, o autor querer se manifestar conscientemente. Sua narrativa se faz a partir de uma compulsão incontrolável de verbalização de sua interioridade, sempre conturbada. Esta individualização do discurso não perde seu valor, não cai no lugar comum – e um exem­plo disso seria o romance confessional, o romance de primeira pessoa –, por causa do trabalho narrativo, apoiado em outros extratos que confere, na medida proporcional,qualidade estética ao resultado final.

Leiamos A hora da estrela em três níveis, para tentar compreender as afirmações precedentes.

Rodrigo S.M. declara-se o narrador de uma história aconte­cida com Macabéa, sua criação. Esta afirmativa pode ser evidenciada, entre outras, por esta passagem do romance:

(…) O que escrevo e mais do que invenção. É minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares de­las. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. (p. 19)

Ao mesmo tempo que não podemos deixar dedar credito a ve­racidade desta afirmação, não podemos deixar de dizer da nossa certeza da presença do discurso da autora como nível superior da estrutura discursiva do livro. Clarice se mascara no Rodrigo S.M. para falar de Macabéa que, por sua vez, carrega em si mesma muitos traços particulares da autora.Rodrigo S.M. seria, então, o “narrador implícito”. Isto porque ele não consegue se impor à narrativa enquanto autoridade. O próprio texto nos diz isso:

(…) Aliás – descubro eu agora– também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas. (p. 20)

Sem deixar de considerar o caráter ideológico que pode ser aferido nas entrelinhas, não podemos deixar de considerar que o trecho citado faz nascer e morrer a identidade do narrador.Neste romance, ele e apenas fruto de linguagem. Como os personagens, não passa de um veículo narrativo necessário para o trabalho estético com a linguagem,que é a mesma em qualquer outro tipo de romance. Como dissemos, a intuição da necessidade de se fazer uma narrativa consciente de sua própria realização eque faz com que possamos caracterizá-la como intimista. Esta situação nos parece condição sine qua non. Pra sua operacionalização, o foco narrativo colabora com seus posicionamentos discursivos no texto.

Em A hora da estrela, este “narrador”, de onde parte a própria narrativa, pode ser chamado de “onisciente”. Para utilizar uma terminologia mais comum, e um tanto desgastada. De acordo com outras classificações, ficamos em dúvida se ele estaria “com” Macabéa ou acompanharia simplesmente seus passos. Na verdade, ele sabe tudo o que está se passando, no momento mesmo dos fatos, assim como antese depois. Em última instância, a orientação tradi­cional de um foco narrativo não determina o caráter intimista da obra. Ele provoca mm rendimento técnico para o exercício compulsivo de escrever do autor intimista.

Quanto à identificação da autora com Macabéa,várias são as passagens em que esta realidade é verbalizada. Escolhemos um trecho da página 181:

(…) Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo.

Neste mesmo trecho, um pouco mais adiante há a citação da cidade do Rio de Janeiro, local onde a intuição de criar Macabéa ocorreu, cidade em que fixou-se, viveu e morreu a autora.

Um outro aspecto interessante sobre o foco narrativo, diz respeito aos tempos verbais utilizados. Percebemos que, quando fala o narrador, há uma insistência muito forte privilegiando o passado. A história se deu num momento qualquer, a partir da percep­ção de um sentimento particular. Não há referência ao tempo da diegese. À página 50, há a referência ao mês de maio. Na história “contada” por Rodrigo S.M., foi neste mês que Macabéa conheceu Olímpico.

Não nos esquecemos, em nenhum instante, de que a análise dos extratos não pode ser feita isoladamente. Não há condições de se pensar a narrativa constantemente deslocada de um ponto a outro. Como a consideração de um detalhe exige a referência imediata a outro, citamos abaixo um trecho em que, juntamente com a referência ao tempo diegético, o narrador deixa cair a máscara fazendo ver a verdadeira face de quem está escrevendo:

O que se segue é apenas uma tentativa de reproduzir três páginas que escrevi e que a minha cozinheira, vendo-as soltas, jogou no lixo para meu de­sespero – que, os mortos me ajudem a suportar o quase insuportável, já que de nada me valem os vivos. Nem de longe consegui igualar a tentativa de repetição artificial do que originalmente eu escrevi sobre o encontro com o seu futuro namorado. É com humildade que contarei agora a história da história.Portanto, se me perguntarem como foi direi: não sei, perdi o encontro. (p. 50-51)

Nesta passagem, fica também evidente o jogo direcional que a autora implanta a sua narrativa. Ao mesmo tempo que, está se desnudando,ela se coloca atrás da máscara e mistura as instâncias, confundindo um pouco a direção do foco.

Há a criação de um quase-corte narrativo.Em cada intromissão,podemos identificar um tropeço da narrativa na realidade existencial de seu verdadeiro narrador.

Ainda em relação ao tempo verbal, é importante notar que o presente do indicativo e outros tempos são utilizados nos diálogos. Tal variação pode significar duas coisas: a presentificação, na narrativa, de um diálogo realmente acon­tecido, presenciado e anotado; ou a criação de um presente imaginário feito para contemplar os personagens com certa dose de materialidade existencial.

Tomamos a repetir que a insistência no pretérito verbal faz com que o discurso do narrador se concentre na possibilidade plausível de realização dos fatos apresentados, mesmo que com me­ros fantoches na representação da realidade interior do autor, mola mestra de propulsão e desenvolvimento da narrativa.

Uma curiosidade é que são pouquíssimos os traços descritivos de espaços específicos onde podem estar se realizando os fatos narrados. Mesmo não fazendo parte do grupo de extratos escolhidos, podemos dizer que o espaço é um dos elementos fundamentais e característicos do romance intimista, quanto ao tratamento recebido.

O escritório, um quarto de pensão, o jardim zoológico, um bar, a casa de Glória, a rua, um terreno baldio, o Jardim Botâni­co podem ser apontados como os referentes espaciais da narrativa. Na verdade, detalhes são deixados de lado. A aventura intimista proposta para a narrativa não requer localização determinada. Pa­ra não deixar o discurso solto, localiza-se sua emissão em perso­nagens ou no narrador (mesmo que implícito); da mesma forma para que esses “instrumentos” não fiquem flutuando, arranja-se um “cantinho” concreto onde possam estabelecer sua aparente materialidade.

Se assim podemos dizer, a narrativa intimista parte de um “narrador” que “descreve” a realidade intuída e volta para si mesmo: essa é uma opção para o foco narrativo. A outra seria privilegiar um personagem, ou antes, criar um personagem para ser agente ou paciente do mesmo processo. O que dizer então, quando os dois procedimentos podem ser encontrados na mesma narrativa? Pensamos que esta é a situação de A hora da estrela.

Podemos localizar um jogo, quase duelo entre os dois discursos, o do narrador e o de Macabéa (por via indireta). Este jogo poderia ser um traço característico peculiar ao romance intimista? Cremos que sim. Em outra situação, recairíamos em condições narrativas genéricas, que podem caracterizar variados tipos de romance, com a mesma propriedade.

Falar de extratos narrativos, em consideração a qualquer obra literária é tarefa que exige uma visão de conjunto.Um pressupõe a dinamização de outro(s). Assim, a estrutura do romance se assemelha a uma parede de alvenaria:os tijolos, a massa e o reboco são elementos essenciais, que não podem, em hipótese alguma, faltar sob pena de não constituírem uma parede. É o óbvio. No entanto resolvemos privilegiar dois deles para elaborar esta tentativa de caracterizar um modelo intimista do romance. A nosso ver optamos por dois extratos, os mais fundamentais.

O estatuto do personagem fundamenta-se na ideia de que a narrativa se faz a partir do homem e serve a ele. Aqui poderíamos abrir um parêntese para a discussão da veracidade ou não de uma obrigatoriedade de apoio no modelo antropomórfico para a constru­ção de um personagem. Este e importante, muito importante mesmo,mas não fundamental. Dizemos isso, pois a consideração do intimismo nos leva a pensar que este extrato não conta com privilégios, ou seja, o trabalho composicional da narrativa não objetiva a formação de um retrato memorável de uma personalidade humana,mas, sim, a reflexão dos “posicionamentos” da personalidade humana ge­nérica diante de situações concretas, reveladoras do indizível de um enigma mais que genérico, inerente à própria natureza humana.Projeto ura tanto utópico pois este tipo de visão implica natural­mente a filtragem de um ponto de vista individual. Podemos, então, concluir que personagem e foco narrativo são os dois extratos fundamentais na consumação de um romance intimista.

Não deveríamos fazer menção a muitos outros exemplos, mas não podemos deixar de dizer que os romances de Clarice Lispector primam pela utilização dessa instância. Em praticamente todos os seus textos – excetuando-se os contos – podemos encontrar uma estrutura narrativa baseada, fundamentalmente no jogo estrutural elaborado a partir do personagem e do foco narrativo.

É claro para nós o fato de ser a questão do foco narrativo, muito mais complexa do ponto de vista do trabalho linguístico, especificamente.Entretanto, numa perspectiva de estrutura narrati­va, ela se elucida com um pouco mais de clareza e facilidade pois se toma matéria de direcionamento do discurso.

Não estamos nos esquecendo de que, em meio a toda esta discussão, é possível colocar observações paralelas, a nível temáti­co. Algumas delas foram mencionadas aqui o tratamento mitológico da matéria ficcional, a organização de um discurso psicanalítico subjacente e, também, certos enfoques ideológicos (social, político, cultural e econômico, por exemplo) passíveis de veiculação do discurso da narrativa. Tais assertivas são pertinentes ao tex­to clariceano analisado, mas fogem um pouco à linha de abrangência do presente trabalho.

Em suma, temos a ousadia de afirmar que a “estrutura”do romance intimista é simplificada do ponto de vista dos elementos utilizados para veiculá-la. Por outro lado, caracteriza-se pelo aprofundamento filosófico de um discurso estruturado em personagens-guia que seguem uma trilha especulativa na busca de compreensão de sua própria essencialidade enquanto seres humanos. O discurso desenvolvido é que vai sendo orientado por focos aparentemente diversificados. Sua unicidade se faz através da linguagem que funciona como índice da revelação do indizível da interioridade. Um romance voltado para dentro de seu próprio conteúdo. Por isso, não corre o risco de ser tratado como metalinguístico.

***

Bibliografia

 AZEVEDO FILHO, Leodegário Amarante de. A metacomunicação na lin­guagem de Clarice Lispector. In: Revista de Cultura Vozes. Petrópolis, Vozes, dez/72, n. 10. p. 29-38.

BOURNEUF, Roland & OUELLET, R. L’univers du roman. Paris, Presses Universitaires de France, 1975.

BRAIT, Beth. A personagem. 2. ed. São Paulo, Ática, 1985. série Princípios, n. 3.

CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo, Perspectiva, 1987. Coleção Debates, n. 1

CARVALHO, Alfredo Leme. Coelho de. Foco narrativo e fluxo de consciência. São Paulo, Pioneira, 1981.

CASTAGNINO, Raul. Tempo e expressão literária. Trad. De Luiz Aparecido Caruso. São Paulo, Mestre Jou, 1990.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 7 ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.

OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. A barata e a crisálida: o romance de Clarice Lispector. Rio de Janeiro/Brasília, José Olympio/INL/Pró-Memória, 1985.

POUILLON, Jean. O tempo e o romance. Trad. De Heloysa de Lima Dantas. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1974.

SILVA, Valmir Adamor. Psicanálise da criação literária. Rio de Janeiro, Achiamé, 1984.

ZÉRAFFA, Michel. Personne et personage. Paris, Éditions Klincksieck, 1971.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s