Primórdios IV

Tentativa de estabelecimento de categorias do Existencialismo na obra de Graciliano Ramos: Angústia

Introdução

            A grande motivação deste trabalho nasce da perspectiva, cada vez mais instigante, de tentar um discurso teórico-críti­co que consiga estabelecer de maneira definitiva, a relação intrínseca entre Literatura e Filosofia.

Em que medida podemos afirmar que uma e outra se servem e se utilizam mutuamente, para veicular seu próprio discurso?

É certo que podemos encontrar grandes questões filosó­ficas desenvolvidas num texto tipicamente literário; em contrapartida,podemos encontrar um texto filosófico que se inscreva –

em sua formalização e concepção – no campo da realização li­terária. Este fato não constitui novidade. Provoca, entrementes, uma discussão que procura esclarecer se,nestes moldes, o problema fica resolvido ou se e preciso explicitar mais os me­canismos de realização deste encontro.

 O objetivo desta disciplina – Filosofia e Literatura – se estabelece e se fundamenta no desenvolvimento desta discus­são. Não podemos deixar de estar atentos a todos os desdobramentos que esta provoca em todo o campo do saber acadêmico.

O presente trabalho, atento a todas as seguidas cons­tatações a este respeito,não pretende esgotar o assunto em sua esfera teórica.

Tomando um texto literário, de qualidade inegável, tentaremos elucidar esta questão a partir do trabalho criativo desenvolvido por Graciliano Ramos.

A perspectiva da análise será dada pelo personagem cen­tral da narrativa, Luís da Silva. Isto, a nosso ver, operacionaliza melhor o trabalho de consideração dos temas do Existencialismo na sequência narrativa desenvolvida pelo autor através do personagem.

Acreditamos não ser importuna a observação de que não faremos um trabalho comparativo com outras obras que apresentam o mesmo caráter. A exiguidade do tempo e os objetivos específicos deste trabalho assim o exigem.

Partiremos de uma breve consideração do título do romance, não do ponto de vista da narratologia moderna, que não de­ve ser considerada inválida por causa disto. A nossa intenção com esta atitude é tentar criar um clima propício para a discussão proposta, almejando uma melhor compreensão e aceitação de nossas especulações.

A preferência por obras de caráter mais analítico sobre o tema do Existencialismo se vê plenamente justificada nos ob­jetivos já apresentados.Gostaríamos apenas de apresentar um pequeno acréscimo que diz que os manuais e livros introdutórios obedeceram a um caráter de generalidade e abrangência global do tema,uma vez que este trabalho não possui a pretensão de ser final ou conclusivo em relação ao tema tratado a partir do texto literário escolhido.

Gostaríamos ainda de acrescentar que é de nosso interesse particular o estudo ora apresentado, uma vez que é grande a utilidade apresentada pelo elenco de contribuições, veiculadas por ele,para o desenvolvimento de nosso trabalho final de mestrado.

***

Da palavra angústia

Não se pode negar o absoluto poderio da palavra, quando consideramos o vasto campo coberto pela necessidade de transmissão de ideias. Assim, na Filosofia, a palavra conhece maior celebração, por sua capacidade de levar o homem à reflexão profunda de todas as suas possibilidades, a partir da abstração possibilitada e veiculada por ela mesma.

Particularmente, neste trabalho, podemos afirmar que um apalavra se apresenta como chave de compreensão do jogo es­tabelecido, e cada vez mais buscado, entre Filosofia e Litera­tura.

Antes de qualquer explanação, gostaríamos de deixar claro que não é nossa intenção corroborar tentativas de rotulação categorizante sobre a obra de qualquer escritor. No caso de Graciliano Ramos, muito se tem dito[1] e não nos parece opor­tuno discutir todas as abordagens feitas sobre sua obra. Não podemos, no entanto,deixar escapar uma oportunidade de exercitar nossa capacidade analítica no caminho proposto para alcan­çar objetivos maiores.

Podemos dizer, como vínhamos fazendo, que uma palavra-chave se apresenta como ponto departida para a nossa análise. É a palavra “angústia”.

Derivada do latim angustia, significa estreiteza, li­mite,restrição, ansiedade ou aflição intensa ou ainda, ânsia, agonia, sofrimento tormentoso, tribulação.

Destas primeiras considerações, podemos nos remeter a um contexto quase patológico, onde se localiza o espírito humano quando experimenta tal sensação. Gomo podemos deduzir, angústia não possui uma existência material, não chega a consti­tuir-se como ser, mas como sensação, sentimento.

A etimologia da palavra nos apresenta elementos interessantes. Na palavra angústia encontramos angusti elemento composicional do latim angŭstus que significa estreito, apertado, pontia­gudo.

Esta segunda consideração nos esclarece mais a situação criada pela palavra angústia. Seu caráter redutivo, e quase opressor, é evidente. Este traço define todo o espirito que circunda esta palavra quando consideramos sua significação no contexto da obra literária analisada.

Não é uma coincidência simples, ofato de angústia ser uma palavra-chave. Afinal,ela dá nome à narrativa de Graciliano Ramos[2]. Foi uma escolha propositada pois encontramos na Filosofia o respaldo de ideias que nos ajudarão a compreender, não só o título da obra, como também a relação que a Literatu­ra estabelece com aquela, nesta narrativa invulgar.

Dois dos precursores do Existencialismo fazem observações interessantes, são elas:

Segundo Kierkegaard, angústia e uma determinação que revela a condição espiritual do homem caso se manifeste de maneira ambígua e o desper­te para a possibilidade da liberdade. Já Heidegger coloca que é a disposição afetiva pela qual se configura a existência.

Destas duas observações podemos retirar duas ideias que serão trabalhadas posteriormente. Em primeiro lugar, um certo clima de opção, de escolha, que se define a partir do próprio clima de instabilidade, criado pela situação mesma da angústia. Em segundo lugar, a ideia de nadificação do ser, marcando a total impossibilidade de modificação da impassibilidade do homem diante dos objetivos finais, ontológicos, de sua própria existência.

Não temos a intenção de dar por acabada, pelo menos nos limites definidos por este trabalho, a discussão acerca desta palavra. Cremos, no entanto, que os elementos por ela veicula­dos, e até aqui apresentados, já nos oferecem luminosidade su­ficiente para que possamos desenvolver a análise proposta.

O texto de Graciliano Ramos parece ser de grande valia para esta análise. Ela também não é única. A riqueza de seu personagem central – Luís da Silva – e a qualidade técnica da narrativa impõem-se como parâmetros básicos mais que suficientes para a consideração de algumas categorias existencialistas em seu universo diegético.

***

Fundamentação teórico-filosófica

Começamos a nossa caminhada citando um dos autores con­sultados[3]:

“O existencialismo é uma filosofia em primeira pessoa, e em primeira pessoa concreta, que põe na Filosofia tudo de seu, e não nada de seu,como exigia o pensamento abstrato”.

Esta primeira citação nos direciona as especulações, colocando como vetor máximo o homem, o indivíduo, e sua medida. Não podemos falar do Existencialismo como mero exercício de abstração. Há necessidade intrínseca de levar em conta a concretude do indivíduo considerado no universo de sua existência e focalizado em sua impassibilidade total diante do mistério que o rodeia.

Kierkegaard já postulava esta necessidade ao considerar que a dificuldade do pensamento abstrato se concentra em todos os problemas da vida humana. Isto deve estar sempre presente,pois a abstração a par de seu valor operacional, em muitas si­tuações, tende a escamotear, a apartar, as dificuldades concretas do existir humano.

O pensamento abstrato não possui nenhum interesse imediato e próprio, mas a dificuldade da existência reside justa­mente no maciço interesse dirigido sobre a própria busca da essência, empreendida pelo homem que tenta pensar sobre ela; que tenta encontrar explicações, esclarecimentos sobre sua própria vida. O pensamento puro nos leva à verdade, mas misturado às paixões ou sentimentos, nos fornece opiniões que não nos permitem ter uma visão objetiva do mundo. Não nos deixa escapar de sua força de sacrifício.

A Filosofia existencialista distancia-se do abstrato e aproxima-se do que realmente existe na vida do homem que observa sua própria existência. O Existencialismo tenta refletir sempre sobre a experiência do ser humano na sua própria busca de essência.

O Existencialismo adapta como língua a linguagem do romance, principalmente, e também do teatro. Simone de Beauvoir já considera esta realidade e diz que “a descrição da essência pertence à Filosofia propriamente dita; só o romance permitirá evocar na sua realidade completa, singular e temporal, o jato original da existência”[4].

A abordagem individual da realidade se faz através da abstração de nossa própria existência, o que faz saltar aos olhos a verdadeira concretude, a realidade material das coisas fora de nós.A aventura de existir está muito dependentemente ligada à realidade material das coisas; isto nos leva à consideração do fato de que a observação da existência ultrapassa a materialidade, pois revela o caráter singular e único de cada existência em separado. A aparente contradição existente entre estas duas observações enfatiza o caráter de emergência que pode seri nferido das atitudes e colocações do indivíduo ao pen­sar a sua própria existência.

Segundo Aristóteles, a ciência começa pelo espanto e o Existencialismo, considerado num aparato científico, que supostamente envolve as especulações filosóficas, tem seu início no espantoso perceber da própria existência humana, o fato da vi­da. Esta percepção coloca mais uma característica particular, a de unicidade diante da possibilidade infinita, a individualidade no universo. Esta característica atribui, de antemão, uma qualidade de diferenciação plausível na investigação existencialista.

Há na existência do homem uma constante possibilidade de “vir a ser” que o põe, radicalmente, em relação à brutalidade material das coisas. Esta passagem, ou mesmo, a sua consideração, marca a primeira condição da existência humana, o esco­lher.

O homem é privilegiado pois pode optar pela existência desejada. De certa forma, esta condição parece contradizer-se quando observamos que não há escolha do par genitor. Este pon­to abre novas perspectivas que por ora ultrapassam nossos objetivos.

Na verdade, não basta escolher “ser”, mas “ser” o esco­lhido na existência que já está determinada. A partir desse ponto, podemos afirmar, com certeza, que este movimento dialógico estabelecido entre “ser” e “existir” é o responsável pelo aparecimento das angústias que se apresentam como elemento de discussão do próprio homem. Paulo Foulquié[5] nos dá uma visão bastante interessante deste ponto:

“Em cada circunstância, o homem,ao contrário, pode escolher entre muitas hipóteses: e só depois de sua escolha, sabe-se o que de fato ele escolheu, no que esta escolha o transformou, qual a sua essência”

A escolha do que somos revela a capacidade de obedecer. a uma consciência, caráter de responsabilidade que envolve qualquer atitude do homem.Nós temos nossa atenção sempre vol­tada para o exterior e esta é a única possibilidade de justificação de nossa própria consciência. Ao lado da responsabilida­de já prevista e, antecipadamente, existente, nos leva à consideração da liberdade de escola, dentro de um quadro de proba­bilidades concretas e acessíveis.

Neste jogo de percepção,a existência e seus modos de percepção e análise nos trazem a imagem do outro.

Este fato constitui a concretização dos conceitos abs­tratos que são veiculados em todo este processo especulativo. Este conjunto de elementos determina a necessidade de confron­tação não só do indivíduo com ele mesmo, como entre todos os possíveis polos estabelecidos a partir da relação dialética considerada. Isto é apenas um condicionamento da própria existência humana era seu exercício ontológico.

Há,ainda, que se levar em conta a necessidade constan­te e fundamental, do compromisso individual com as próprias opções e resoluções (incluindo a sua própria negação). Este fator demonstra a adaptação necessária do processo ao caráter contingente da própria existência no mundo. É o reconhecimento de certa relatividade, apesar de aparentemente grande, ontoló­gica de todo o processo desenvolvido.

“Os nossos fins governam todas as nossas escolhas; a li­vre escolha de nossos fins acarreta a liberdade de todas as nossas determinações particulares”[6]. A partir desta observa­ção, podemos aventar um vínculo de consequência entre este processo de opção e responsabilidade e a angustia que dele decor­re. Não há como escapar a esta conclusão, pois a determinação de uma opção num conjunto de possibilidades determina o abandono das demais. A redundância se reflete no caráter – quase ób­vio – desta observação.

A angústia se apresenta, então, como uma consequência automática que não permite, praticamente,nenhuma modificação processual. É rejeitando todas as construções do espírito no mundo atual que ele se coloca que os existencialistas procuram dar por terminada e determinada esta contradição, que se reve­la no ato de escolher, sem nenhum princípio de escolha. Esta contradição se reflete também no momento de determinar no acerto ou não de toda e qualquer decisão. Aí se fundamenta a angústia existencialista.

A perspectiva individual da existência humana, de sua análise e de todos os desdobramentos ultrapassam a esfera da responsabilidade e da liberdade de opção. Ha ainda a consideração de estar no mundo com os outros. Esta observação coloca todos os homens, respeitadas as devidas diferenças, no mesmo ní­vel de condição existencial.

Partindo daí, podemos dizer, com certa segurança, que o diálogo é a possibilidade primeira e fundamental de mútua apresentação condicional. Há uma existência “com”, que não pode ser destituída de valore abandonada nas especulações que bus­cam generalizações filosóficas.

A preocupação constante do Existencialismo é reencontrar um sujeito existencial, o de nossa experiência pessoal,vivida; e restaurar o contato íntimo, na existência humana, entre a subjetividade e a transcendência, dois termos que estabelecem uma antítese, mas que se apresentara sempre e indissoluvelmente ligados.

O homem não constitui uma existência individualizada, no sentido de isolada do todo universal. Pelo contrário, faz par­te dele e nele atua de maneira operacional.

Até aqui, colocamos algumas observações generalizadoras acerca do Existencialismo, num enfoque principalmente filosófico. Não deixamos de lado a tentativa de operacionalizar estas ideias, tendo em vista a análise da narrativa que será posteriormente desenvolvida.

Uma consideração a mais, que podemos dizer importante, por particularizar um aspecto da especulação filosófica, diz respeito a Deus.

Esta ideia e a possível anulação de sua existência pos­tulam os fundamentos do Existencialismo. Dizemos isto, pois, o caráter finito da existência humana pede, como necessidade essencial o estabelecimento de valores básicos – funcionando como parâmetros – de moral e critério de avaliação e tomada deposição.

Implicitamente, em qualquer atividade proposta como instrumento de especulação filosófica, caracteristicamente existencialista, tem-se a necessidade de uma projeção para o infinito.

Retomando nosso discurso, preparando um momento de con­clusão, podemos levar em consideração duas posições precursoras do Existencialismo.

Para Heidegger, o homem é um ser para a norte. Isto se constitui como a grande possibilidade da vida humana, garantindo a existência de todas as outras possibilidades, consideradas menores, que vão preenchendo o tempo até o fato derradeiro.

Jaspers, na tentativa de negação da morte, postula para o homem uma fatalidade de naufrágio. O caos existencial vai tomando conta da própria vida, impedindo sua subsistência livre e desimpedida.

Como fator de contemporaneidade, Sartre considera que o homem não tem um destino programável ou definível ontologicamente. O homem é um ser para o “nada”. O futuro da humanidade é o desaparecimento completo e este “nada” é que leva a cabo a existência  do próprio ser humano.

A existência do homem é, então, demarcada em sua finitude pelo nascimento e pela morte. O“vir a ser” e o “ter sido”são os dois termos de uma linha evolutiva,que marca, para to­do o sempre, todas as atitudes do homem em seu caminho de bus­ca da própria essência. Esta caracterização pela finitude, pode-se dizer, é que dá a marca de peculiaridade à existência – e existência  racional – do homem.

Podemos dizer, então, com alguma certeza, que uma atitude existencialista possui duas fontes principais: a tomada de consciência de urna situação histórica e social de crise e de revolução; e a mesma tomada de posição, com relação ao conhecimento que se desenvolve a partir da própria existência.

Concluímos esta primeira parte do trabalho, com uma citação instigante que deixa um campo aberto atrás de si[7]:

“Os existencialistas devolvem à palavra “existir”seu sentido etimológico. “Existir”quer dizer estar fora, ir para fora. Na palavra “existir”, o importante é o “ex”, que indica o movimento de algo para outra coisa. Existir é estar fo­ra do próprio centro, fora de si mesmo (…). O homem, enquanto existe, é o ser que está fora de si, o ser que se estranha a si mesmo, o ser lon­ge de si”.

***

Luís da Silva: possível estudo de caso

Chamamos esta parte do trabalho de possível estudo de caso pelo simples fato de que um nome comum identifica um ho­mem comum, um homem como qualquer outro. Seus traços de herói se perdem numa diluição quase completa de formas corriqueiras de existir.

Não tomamos parte muito expressiva no contexto de Luís da Silva talvez, por força do incômodo que sua situação e história criam em nossa própria existência, de mais a mais, con­cordamos com o professor Rui Mourão[8], quando diz que:

“O ana­lista deve se colocar diante da obra literária sem qualquer plano antecipado de trabalho, pondo em suspenso, inclusive, a sua carga organizada de conhecimentos, a fim de que a intuição crítica se realize em toda sua plenitude, é necessário deixar o texto falar, até que se revelem os seus suportes expressivos fundamentais.

A partir deste momento, o esforço de interpretação se orientará no sentido da descoberta da unidade da estrutura de significados, através do levantamento tanto mais completo quanto possível, dos diversos extratos, para que se chegue ao amplo descortínio da fisionomia íntima do fenômeno vivo. A crítica, entretanto, somente dará por terminada a sua tarefa quando esse devassamento dos suscetíveis níveis de significação atin­gir os planos mais amplos e gerais, em que o produto estético deixa de ser para o intérprete uma realidade absoluta, ganhan­do a dimensão relativa, que corresponde à própria maneira de se inserir no processo geral da cultura”.

Penetrando diretamente no texto de Angústia,podemos conferir que a utilização da prosa subjetiva, com os verbos quase sempre em primeira pessoa, causa efeitos que, supostamente, ultrapassam uma possível estruturação narrativa desejada pelo próprio autor. Como não temos certeza de suas reais intenções, baseamos nossas observações em processos evidentes de escritura,como a modificação do gênero narrativo que coloca em substantivos comuns a designação do ser que fala, dificultando a determinação da voz narrativa. Tal procedimento tende a estabelecer uma possível tentativa de universalização atemporal, e não determinada no espaço, dos problemas de comunicação de toda a problemática existencialista que pode ser inferida do discurso narrativo.

Todo o texto, a partir da consideração estilística da utilização do tempo verbal (um dos níveis plausíveis), coloca a situação de imobilidade do indivíduo diante do tédio causado pela inexplicabilidade de seu próprio drama existencial. Podemos perceber isto num dos trechos iniciais do texto de Graciliano

“Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem, e os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama”.

Logo nas primeiras páginas, percebemos que algo começa a se estruturar apesar da caótica apresentação de uma visão de coisas. Não sabemos ao certo com que estamos fazendo contato ou em que tempo objetivo nos encontramos. Começamos a distinguir o mundo social e geográfico em que vive nosso guia oculto, começamos a partilhar com ele suas próprias emoções, sem que elas percam sua absoluta particularidade, e a penetrar no seu próprio campo de visão da realidade; adotamos o seu enfoque. Neste contexto, o caráter filosófico do discurso, que passa a ser considerado filosófico, o mesmo que orienta a leitura do texto, a partir desta tentativa de universalização dos confli­tos vividos – já em processo – por um personagem que não se diferencia do narrador, demonstra toda a impassibilidade do homem diante da constatação da própria perplexidade.

O personagem de Angústia procura trazer todas as sen­sações, tudo o que lhe aconteceu no passado, para dentro de um único instante, o instante mesmo de sua conscientização diante da realidade objetiva dos fatos que vai sendo conscientizada.

O posicionamento do indivíduo diante da complexidade de sua própria existência, exige uma parada no tempo, como que querendo absorver, lucidamente, toda a carga sensível de sua aventura existencial; na tentativa de apreensão de um sentido,que se perdeu na própria experiencia do viver.Ainda no início de Angústia,encontramos outro trecho que ilustra com bastante força temática, as observações feitas até aqui:

“Não consigo escrever. Dinheiro e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mor­tandade e outras destruições, as duas colunas mal impressas,caixilho, dr. Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor e secretário,tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela,gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara ba­lofa do Julião Tavares muito aumentada. Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, misturando-se,formando um novelo confuso”.

Luís da Silva é um homem atormentado. Ele se sente acuado, vive a própria angustia de existir, imerso num mundo confu­so, caótico. Ele vai desenvolvendo um processo de descoberta, como se abrisse uma caixa,encontrando outra e depois outra. Faz sair uma emoção, uma recordação, uma visão, etc.; por aí chega a alcançar o infinito de sua experiência, quer dizer, co­meça a tocar a linha que esgota todos os compartimentos e subcompartimentos de sua lucidez. As anotações possíveis do que vai percebendo ficam reunidas num só instante, um compartimento maior: a caixa que comporta todas as outras caixas.

Podemos inferir um forte traço intimista no discurso de Graciliano Ramos, veiculado, é claro, por Luís da Silva.

Este intimismo, em algumas passagens, marca a aproxima­ção realizada entre o texto e algumas categorias da Filosofia marcadamente existencialista. Por exemplo, o individualismo, que não se fecha ao real pois tende a universalizações que possam emoldurar outras considerações diferenciadas. Outro exemplo muito ilustrativo é o da náusea,apresentada, colorida e muito evidenciada em determinados detalhes que perpassam todo o texto, criando climas opressivos, quentes até. Um abafamento agoniado,zumbir de moscas sobre mesas engorduradas, zunir do ouvido provocado pelo álcool,a terra, o sono, a sufocação.

O texto vai desenvolvendo de maneira ilustrada, quase comentada. “o espetáculo de uma consciência em funcionamento”. Podemos, a cada passo, acompanhar com o personagem cada etapa do processo de diluição do peso da existência humana diante da imensa opressão do infinito da vida.

Desta forma, há a realização de uma possível comunhão da Filosofia com a Literatura,apresentando as vantagens dos recursos estéticos no desenvolvimento de um raciocínio filosó­fico, sobre uma tese qualquer.

Os operadores estéticos fazem encobrir a aridez do conflito existencial puro, considerado pelo discurso da Filosofia na trama confusa e opaca de uma existência individual, sem grandes pretensões de importância. O texto não procura dimensionar juízos de valor sobre o discurso filosófico, nem sobre o discurso literário. Há um processo de intercomplementaridade de visões que proporciona um grande momento de reflexão, esteticamente construído.

Há uma proposta existencialista clara: o jogo estabele­cido entre essência e existência. Tal ludoterapia proporciona ao indivíduo a possibilidade de reabilitação de seu próprio ser diante da náusea, que o acomete perenemente. Luís da Silva participa do jogo e vai desfiando um novelo, procurando estabelecer parâmetros que possam beneficiá-lo na busca de solução de suas dúvidas, apreensões e projetos.

O professor Rui Mourão nos apresenta mais alguns elementos de orientação nas observações possíveis, no seguinte trecho de seu livro, já citado anteriormente:

“A impressão que se tem é de que, havendo atingido,nas suas viagens pelo tempo, o campo da meninice, de lá não deseje retomar. O presente em que nos coloca é qualquer coisa de anestesiante – um presente comprometido pela inação, um presente que parece estar fora do tempo,por não ser capaz de dar a ideia de sucessividade. Ele pertence à atualidade ou ao passado? À atualidade, mas bem que poderia pertencer igualmente ao passado, uma vez que o personagem insistia de tal maneira em reviver os dias idos que o passa­do acaba por se tomar a sua atualidade”.

Podemos dizer que, de acordo com estas observações, o texto de Graciliano Ramos apresenta as implicações da escolha do que se quer ser para a comprovação da tese – uma das principais – do Existencialismo. Estas constituem um pressuposto fundamental:a liberdade. O ser pode optar por sua existência e, assim, se localizar no tempo. Luís da Silva faz sua opção e percebe que a angústia que vivencia pode ter plantado uma de suas raízes na fundamentação desta liberdade de escolha. Ele escolheu uma dentre as inúmeras manifestações de possibilidade existencial veiculadas pelo tempo.

O fato de prender-se à prática de escrever artigos para o jornal, o fato de ser funcionário público, o fato de ser apaixonado por Marina e o fato de ter de se livrar de Julião Tavares – seu rival declarado – dimensionam e conduzem a opção de Luís da Silva, apontando para elas a solução que parece a mais adequada,aquela que poderá aplacar um pouco sua própria angústia, pacificando seu espírito. O sentir-se acuado pode terminar como uma solução procurada. Não é inoportuno apontar aqui uma abertura para possível abordagem psicanalítica do mesmo processo de opção entre as possibilidades de solução do im­passe existencial[9].

Podemos ainda observar que o texto se limita a acumular uma única forma verbal,contrariando as possibilidades de estabelecimento de uma sucessividade na apresentação dos fatos. A contraposição de formas verbais viabilizaria esta sucessivida­de. No entanto, parece que a atitude do autor é intencional. Mais uma vez, podemos dizer que o procedimento narrativo esco­lhido e responsável pela busca constante de compatibilização entre os discursos filosófico e literário;ou ainda, por sua intercomplementaridade operacional o significativa.

No fundo, os resultados obtidos por tal procedimento são essencialmente mais importantes:o texto construído em sua atemporalidade evidente, faz tornar mais perceptível a definição do drama existencial de Luís da Silva. Ele torna-se,gradualmente, mais visível em seus “flancos”.

A ansiedade intensa, a preocupação exclusivista de Luís da Silva, abrangem, de tal maneira, todas as áreas de sua consciência, que seus mergulhos no passado,no mundo da memória, não passam de ilusão. O que consegue é, simplesmente,trazer o passado para o presente, misturar as recordações com as angús­tias atuais e agravar ainda mais a sua atualidade de animal acuado. Tudo isto se deve à comparação que se estabelece entre as duas fases de sua vida.

A vida de Luís da Silva não é recheada de novidades, ao contrário, parece repetir sempre o clima de angústia e de per­da, que tivera sua primeira instância com a morte do próprio pai:

“O personagem narrador age de maneira intencional.Não está sendo lançado para esse ou aquele lado das lembranças, ao sabor de momentânea e ocasional emotividade, porém se encaminha para um destino certo,fixa uma data. Sentimos que está se colocando num ponto de partida para relatar uma história (…). Lutando, durante todo o tempo, pura escapar da consciência,via permanentemente frustrarem-se os seus esforços: não con­seguia se proteger satisfatoriamente no passado, nem obtinha apoio efetivo na realidade em que vivia.Acossado, correndo o risco de sucumbir, foi conduzido ao caminho do se esvaziar pela confis­são. (…) O sentido da segregação é por demais vivo no personagem e isso vai sendo marcado diante te de nos à medida que nos estampa a sua cosmovisão, que inclui como que uma barreira que o separa de tudo o mais. (…) Emparedado dentro de si próprio, o personagem não tem qualquer diretriz, não busca avançar em qualquer sentido –naufraga irremediavelmente. Entrega-se ao sabor de suas emoções, que não passam de insolúvel obsessão, de eterno retornar aos mesmos pontos”[10].

Este longo trecho parece comprovar, através de especulações sobre o texto de Graciliano Ramos, o exercício das principais teses existencialistas na pessoa de Luís da Silva. Ele se sente acuado – num determinado momento de sua vida, não podemos nega r–, tem necessidade de dar vazão à sua angústia, percebe-se um verdadeiro oceano de possibilidades, faz sua opção, reage aos acontecimentos dela decorrentes sem faltar com sua responsabilidade, leva suas atitudes às últimas consequências, e,como era de se esperar, parece tornar-se um homem de espírito pacificado.

Para terminar esta exposição, gostaríamos de citar outro trecho do texto de Graciliano Ramos que, a nosso ver, pro­porciona uma visão sintética de uma possível formulação existencialista de sua narrativa. É o seguinte:

“A réstia descia a parede, viajava em cimada cama, saltava no tijolo –e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas, 0 relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vi­nham de fora as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante c dia. E o dia estava dividi­do em quatro partes desiguais uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolos, outra parede. Depois era a escuridão cheia do pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios, boiava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava à superfície,tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, os braços da treva que me queriam agarrar”.

***

 Conclusão

Luís da Silva e um homem qualquer. Sua condição não o coloca em posições privilegiadas de existir, mas vai proporcionando situações optativas. Sua angústia aumenta na medida em que vai se sentindo mais pressionado, acuado mesmo, por uma situação absolutamente insustentável.Ele decide por uma atitude; determinadamente, arca com as suas consequências,pacifica-se. Este personagem é comum, é ímpar, mas é cada um de nós. Sem qualquer condicionamento temporal, ou mesmo circunstancial, peculiar.

Graciliano Ramos, no plano da narrativa, cria um universo por demais conhecido. Com um toque de gênio, porém, transforma sua história num primoroso tratado, quase um estudo de caso – como ousamos chamar a última parte deste trabalho – onde ca­da detalhe descritivo, cada ponta de pensamento do personagem, deflagra um processo de abordagem do ser do homem, em obediên­cia quase servil às principais teses do Existencialismo.

Não há, e isto não seria absolutamente necessário, pre­ocupação com escolha deste ou daquele filósofo e de sua doutrina ou sistematização[11].

O pensamento é um processo fluído e acumulativo. Este postulado é que orienta os parâmetros filosóficos do texto li­terário.

Luís da Silva sente-se insatisfeito, angustiado mesmo, com sua condição socioeconômica e aflige-se com uma paixão não resolvida, não consumada. Os oponentes são muitos.O indi­víduo sente-se acuado pela própria impassibilidade que enfati­za a finitude de seus recursos diante do peso infinito da existência. O indivíduo busca sua essência e pressente o momento de optar por caminhos que viabilizem sua finalidade existencial.Luís da Silva conhece as consequências do ato pensado e age, assumindo total responsabilidade por sua própria opção. Cônscio de que pode perder sua liberdade por não poder desfrutar de sua paixão, resolve colocar um ponto final no peso opressivo da angústia que pontua sua vida e elimina seu principal oponente – Julião Tavares – quase um símbolo. O indivíduo pacifica-se e então percebe a profundidade do “nada”, do “naufrágio” completo que conclui todo o processo de eleição.

A narrativa de Graciliano Ramos utiliza de recursos de linguagem, aparentemente simples, como meio de viabilizar um discurso filosófico de alto nível. A ousadia de utilizar pala­vras corriqueiras em detrimento de vocábulos técnicos, ou antes, específicos, nos proporciona grande abertura para penetração no texto. Os personagens não alçam grandes voos estilísti­cos e sua vida fica quase ensimesmada: há completa identifica­ção com o concreto do dia adia.

A dificuldade em se estabelecer de quem e a voz narrativa, livra o discurso de se tornar pesado, ou mesmo pastoso. Este último adjetivo se aplica, magistralmente, ao universo diegético aí reside uma de suas qualidades filosóficas, a materialidade da náusea sartreana.

O livro nos coloca em contato com alguns momentos de uma vida qualquer. Paradoxalmente, sua universalidade é inegá­vel. Ao lado do altíssimo nível estético do texto, podemos ad­mitir, sem qualquer dúvida, a profundidade filosófica de sua frase.

Se um dos grandes impasses da pretensa ciência literária é encontrar exemplos deligação estrutural e artística da pró­pria Literatura com a Filosofia, temos com Angústia um exemplo perfeito desta integração. Voltando ao início de nossas obser­vações, basta apenas prestar atenção ao nome da obra…

***

Bibliografia

A – De análise

RAMOS, Graciliano. Angústia. 3 ed. Rio de Janeiro, Editora e Livraria José Olympio, 1947.

B – Crítica

CRISTOVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estruturas e valores de um modo de narrar. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Brasília/Rio, 1977. Coleção Letras.

LIMA, Luís Costa. Por quê Literatura?. Petrópolis, Editora Vozes, 1966.

MOURÃO, Rui.  Estruturas: ensaio sobre o romance de Graciliano Ramos. Belo Horizonte, Edições Tendência, 1969.

C – De apoio

BUENO, Francisco da Silveira.Grande dicionário etimológico-prosódico da Língua Portuguesa. São Paulo, Edição Saraiva, 1963.

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982.

FATONE, Vicente. Introducción al existencialismo. 4 ed. Buenos Aires, Editorial Columba, 1962. (Coleção Esquema,4)

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1975.

FOULQUIÉ,Paul. O existencialismo. Trad. de J.Guinsburg.  São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1955.

GARAUDI, Roger. Perspectivas do homem. Trad. de Reinaldo Alves Ávila. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1966.

KIERKEGAARD, Sören. O conceito de angústia. Trad. João Lopes Alves. 2 ed. Lisboa, Editorial Presença, s. d. (Coleção Divulgação e ensaio, 7)

LIMA, Alceu Amoroso. O existencialismo. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1951.

PENHA, João da. O que é o existencialismo. São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.(Coleção Primeiros passos)

(Trabalho final da disciplina Filosofia e Literatura, Prof. João Ferreira)


[1] Esta afirmação vem deixar clara nossa isenção com relação a toda e qualquer crítica que possa ter sido veiculada a partir da consideração da obra deste autor sob o enfoque do Existencialismo.Partimos deste pressuposto, pois o nosso objetivo maior esta além deste trabalho, o que não deixa de ter sua importância peculiar.

[2] A escolha desta palavra é completamente arbitrária. Poderíamos ter escolhido “existência”, já que se liga por traços etimológicos ao tema do trabalho – o Existencialismo. Pareceu-nos mais interessante, porém, estabelecer uma ligação com o clima, o tom, o tema suscitado pela obra, através de seu título.

[3] FATONE. Introducción al existencialismo…

[4] BEAUVOIR,Simone de. O existencialismo e a sabedoria das nações. Lisboa, Editora Minotaure, 1965 (Coleção Ensaio)

[5] FOULQUIÉ, Paul. O existencialismo

[6] Idem.

[7] FATONE, Vicente. Obra citada.

[8] MOURÃO, Rui. Estruturas: ensaio sobre c romance de Graciliano Ramos…

[9] Esta observação se fundamenta numa constante alusão à pessoa do avô do personagem, juntamente com outras imagens do passado do próprio Luís da Silva: Rosenda, o pai, alguns aspectos de sua vida ulterior. Em termos de abordagem psicanalítica, é interessante notar a falta de alusão explícita à imagem da mãe do personagem. Todas estas possibilidades têm, além de tudo, a missão de remeter sempre a uma consideração fenomenológica do texto em estudo.

[10] MOURÃO, Rui. Obra citada.

[11] Esta afirmação não pretende anular a validade de toda a diversidade do pensamento filosófico existencialista. Tentamos apenas condensar as correntes mais representa­tivas, em grandes linhas de pensamento, procurando recuperar os pontos recorrentes 
– mesmo que identificados por terminologia diferenciada, apesar de sinônima, mui­tas vezes – das principais posições.Respeitamos a ordem de evolução do pensamento existencialista e acatamos sua ordenação; tendo em vista que nunca é demais ousar…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s