Margarida

O que é que, em nome de Deus, pode vir a significar a expressão “exigir que os governos tenham paredes de vidro”? Escutei esta assertiva numa entrevista de uma moça. Já não lembro do nome dela. Não me lembro ou meu inconsciente me impede de lembrar e de verbalizar o tal nome? Pode ser que ele esteja a me proteger de um mal maior. De um jeito ou de outro, ouvi isso e não consegui entender. A conversa girava em torno de criminalidade e prisão e polícia e política e… e… e… Fiquei enjoado. Desliguei o videoclipe e resolvi escrever estas mal traçadas. Comecei relatando a náusea por conta do aquecimento que gosto de fazer, sempre. Desta feita, uma lacuna na tal conversa de rádio foi a que poderia girar sobre a situação daqueles que são considerados velhos e já não servem para nada. Isso mesmo. Em pindorama também vige esta falácia de que ter mais de trinta aos de idade, não ter o corpo malhado, não vestir roupa da moda, não frequentar lugares descolados, não gostar de sertanejo universitário – outra expressão esdrúxula que significa quase menos que nada – é sinal de envelhecimento. Ah… esqueci de listar o uso de gíria vazia de sentido na linguagem oral e a escrita sincopada – pra não dizer errada mesmo – na escrita como dois outros critérios importantes nesta composição de um barema antropológico… Durma-se com um barulho desses. Sendo assim, resolvi escrever sobre três livros. Um de poesia e dois de narrativa. Eu conheço pessoalmente a autora. Convivi um período bastante alongado entre 1986 e 1988 com ela. Foi minha orientadora de mestrado, depois de ter sido professora de uma disciplina: teoria da narrativa. Uma mulher interessante, inteligente, bonita, simpática. Tive o prazer de reencontrar-me com ela ano passado, ocasião em que fui presenteado com um de seus últimos livros, Laminário (7letras, 2017). Um volume de poesias. Tenho ciência de que corro o risco de ser tendencioso na avaliação do volume, por isso não o faço. Atenho-me à sua apresentação e, para tanto, aproveito-me do que vai escrito na página da Amazon, mais uma vez: “Com amplo domínio de todas as ferramentas de seu ofício, da riqueza de vocabulário à variedade de temas, do ritmo à rima, e com um olhar sagaz – e mordaz – sobre as cenas, os jogos, os disfarces do cotidiano, Margarida Patriota estreia como poeta com a mesma desenvoltura com que vem construindo há vários anos uma sólida carreira de escritora. Laminário é uma daquelas obras que merecem várias leituras, pois sempre trazem alguma nova descoberta a cada visita.” Não acrescento muita coisa, a não ser que percebo, entre as linhas poéticas que compõem o volume, a incrível sensibilidade para o detalhe que define uma imagem, uma cena, uma situação. A sofisticada trama poética de que se serve a autora, consegue pescar a ambiência poética da constatação da derrota, do fracasso, da surpresa e da decepção, da alegria e da sagacidade, do sarcasmo, da melancolia. O fazer poético de Margarida é contundente. Os dois volumes de narrativa – Elas por elas (contos) A lenda de João o assinalado-Cruz e Souza, o poeta negro (romance). No primeiro, a celebração do feminino transcende a orgiástica sedução do gênero, para se debruçar, como no caso dos poemas, naquilo que poderia ser negligenciado por banal, corriqueiro, peculiar, quase intimista. Há qualquer coisa do universo de Clarice. O primeiro texto do volume é quase um grito de guerra, inclusive em sua concepção estrutural – o texto contínuo, caudaloso, verborrágico. Os contos se locupletam da constatação de um feminino longe de certo “feminismo” com telhado de vidro, sem deixar de ser combativo em seu lirismo revisitado. O olhar incisivo e o corte cirúrgico nas minúcia da cotidiana existência da mulher, sustentam uma narrativa fluída que prende, mesmeriza. Já o romance, faz-se homenagem ao poeta que, por tradição, iconiza o Simbolismo no Brasil. A trama se aproxima do que faz Mario Claudio com seus textos de “interferência ficcional” na biografia de seus protagonistas. Margarida o faz, com galhardia, ficcionalizando, à sua maneira, a revisitação, desenvolvida por sua narrativa, da vida do poeta brasileiro. Em todos estes três volumes, lê-se o exercício poético – no sentido mais amplo do termo – de uma mulher senhora de seus recursos, com a dosada sensibilidade de mulher atenta a seu tempo e à sua História. Mais que vale a pena procurar ler.

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Do Sarcasmo

Eu bem que poderia escrever sobre o congressista que se diz perseguido e ameaçado de morte e que vai embora de Pindorama. Ou então, poderia falar do recente acontecido em Brumadinho. Poderia, ainda, juntar minha voz, uma vez mais ao alarido contra a votação secreta no senado, quando da eleição de seu novo presidente – como se isso, de fato, fosse mudar alguma coisa. Poderia. Poderia, mas não vou. E já escuto, mesmo que ao longe, os murmúrios e ranger de dentes daqueles que torcem o nariz para tudo o que escutam e leem, que não seja exatamente o que pensam ou dizem. Há cáfilas e alcateias e miríades e bandos de indivíduos formando este coro. Como diria em Português castiço alguém um pouco mais paciente do que eu: estou cavalgando e claudicando… Ou então, poderia arrematar com mais uma, no mesmo Português castiço: pouco se me dá se a zêmula claudique, o que me almejo é acicatá-la. Olhei no Houaiss e “zêmula” não está registrado. Mas o adagiário popular tem razões que a própria razão desconhece. Não vou falar sobre nada disso. Retomo minhas escrevinhações sem futuro comentado um livro que li recentemente: A vida na sarjeta: o círculo vicioso da miséria moral, de autoria de Theodore Dalrymple. Não custa insistir num ponto: o conceito de moral recoberto pelo termo utilizado no título da obra, não tem a pretensão de esgotar sua discursividade sob a perspectiva filosófica tout court. Na verdade, o viés é muito mais comportamental, quase político e econômico, mas um tanto distante das elucubrações filosóficas em estado puro. O humor autoral é reconhecidamente a marca de mais este passeio pela cultura britânica, objeto de desejo do autor. Na verdade, o nome que usa em seus livros é um pseudônimo. Mas isso não interessa aqui. Pode ser que alguém fazendo dissertação ou tese receba orientação para se debruar sobre o assunto com a promessa de sucesso e celebridade acadêmicos: a reverência pela pontificação sobre o nada… Voltemos ao que interessa.

Observando a sociedade britânica, o autor faz uma espécie de passeio durante o qual vai pontuando situações, comportamentos, ideias e atitudes que fazem consolidar a ideia de que existe um certo movimento intrínseco que leva à conservação do status quo dos males sociais de que se recente a Grã-Bretanha (ou deveria dizer o Reino Unido? Ou ainda, Inglaterra? Ai que preguiça…). Pois é. Na página da Amazon, encontramos o seguinte: “Este livro é o relato pungente da vida da subclasse inglesa e das razões de as pessoas persistirem nessa vida, escrito por um psiquiatra britânico que cuida da clientela de baixa renda de um hospital de periferia e dos detentos de uma penitenciária de Londres. A percepção fundamental do Dr. Dalrymple é a de que a pobreza continuada não tem causas econômicas, mas encontra fundamento em um conjunto de fatores disfuncionais, continuamente reforçados por uma cultura de elite em busca de vítimas. O livro apresenta dezenas de relatos reveladores e verídicos que são, ao mesmo tempo, divertidos, assustadoramente horríveis e bem ilustrativos, escritos em uma prosa que transcende o jornalismo e alcança a qualidade de verdadeira literatura.” As aspas se justificam, dado que não se sabe quem escreveu o parágrafo acima. Assim, usando-as, escapo da vociferação daqueles que militam no patrulhamento dos deslizes linguísticos que grassam por aí. Sobretudo os alheios, bien sûr! O que o psiquiatra deseja, penso eu depois da leitura de mais este livro de sua autoria, é que falta muito tutano para muita gente dizer as coisas com todas as letras, como o faz o psiquiatria que escreve na íngua de Shakespeare. Já em outros título, é possível perceber a sua tranquilidade em dar nome aos bois. Essa famigerada balela de “politicamente correto” nem sombra faz no pensamento neste autor de que gosto tanto. Vale muito a pena ler suas páginas. A contundência de suas observações, apoia-se numa leveza consistente e divertida, sarcástica ao final, que faz das páginas de seus livros um exercício do mais puro prazer intelectual, sem as firulas que a igualmente famigerada celebridade costuma colocar como conditio sine qua non para um livro ser um sucesso. Theodore Dalrymplee não está nem um pouco preocupado com isso. Eu também tenho me esforçado muito no exercício de não estar preocupado também. Fica, então o convite para quem quiser se deliciar com a leitura deste livro.

Retomada, mais uma

A terceira semana do primeiro mês de 2019 está a se acabar. Uma semana inócua, em lugar de dizer inútil, para as minhas leituras. Não li uma linha sequer. Não comecei a narrativa da escritora portuguesa recentemente conhecida. Não terminei a leitura dos contos de minha querida ex-professora e orientadora de mestrado. Não consegui avançar muitas linhas no/do livro que estou tentando terminar para, finalmente, tentar escrever o famigerado livro de cartas que cismei que tenho de escrever, desde que voltei de Coimbra, ainda em 2015. Procuro não me apoquentar com isso. Pode ser que consiga escrevê-lo. Pode ser que não. O tempo é que vai deixar claro o encaminhamento dos fatos em sua sequência. Mas da inocuidade desta semana, resta uma pequena luminescência de bom gosto: The wife, filme dirigido por Björn Runge (Björn L. Runge), 2017. Um tour de force de dois atores mais que impecáveis; Glenn Close e Jonathan Price. Não vou fazer um spoiler. Apenas uma afirmação: o filme diz sim à expectativa que se se criou em mim depois da leitura de algumas resenhas/sinopses/críticas do filme. Nada que tirasse o prazer de ficar os 140 minutos numa sala escura. Rindo quando era preciso. Ficando tenso quando necessário. Gratificado, quando os créditos fiais aparecem em sequência na tela. A performance de “La Close” é alguma coisa – como lido alhures – estupenda. O texto dela é relativamente curto, mas ela o amplia com as ênfases do olhar do sorriso de Gioconda, dos esgares, dos ademanes. Uma ATRIZ. Punto i basta. O filme não deixa a desejar e escapa incólume às diversas possibilidades de derrapar (feio) no melodrama ou no maniqueísmo aparentemente moral que a história insinua. O troteiro é adaptado de uma “novela”. Não a li. Penso que, diferentemente de outras situações similares, não o farei, quero ficar com as impressões gravadas pela sequência de fotogramas que tanto me impressionou. O plot do filme gira em torno de uma situação – infeliz e tristemente – que não pode ser classificada como não usual. Uma coisa que se repete e a própria História é testemunha. No entanto, a maneira como o núcleo dramático da narrativa fílmica é apresentada, faz do resultado uma demonstração de talento em estado puro, cristalino, contundente. Não há muito mais o que dizer. Gostei e recomendo. Com mais esta repetição, encerro meu retorno ou, pelo menos, mais uma tentativa de mantê-lo. Assim, concluo, ainda que inexplicavelmente, indicando uma ligação para um pequeno trecho de um dos muitos discursos de Barack Obama. Não sei dizer o porquê, exato, de coloca-lo aqui. Estava ouvindo/vendo o tal videoclipe quando um estalo mental me fez as linhas que aqui encerro…

Primórdios VII

A Literatura Comparada e o estudo de temas

Introdução

Estudar literatura não pode ser considerada uma prática simplificada ou automatizada. As nuances sempre estarão marcan­do presença e determinando abordagens e interpretações,

A orientação prevista pelo comparativismo eleva à enésima potência essa cadeia de complexidades interpretativo-analíticas. Toma-se muito mais fundamental a atenção aos detalhes, as nuances particularizantes, que vão redefinindo espaços de teori­zação.

O estudo de temas, na orientação da Literatura Comparada tem uma história quase tão antiga quanto a da disciplina à qual se integra. Não podemos dizer, com absoluta certeza, que o conceito fundamental de “tema” oriente constantemente os traba­lhos desta divisão. O próprio conceito, tal qual a disciplina, carece de um fechamento conteudístico. A grande variedade de circunstâncias significativas vai caracterizar este intervalo num círculo fechado. Este é um dos objetivos deste trabalho. Anteriormente, procuraremos dar uma visão globalizada do que se tem discutido a respeito dos estudos de tema, a partir de proposições teóricas de alguns estudiosos do assunto, propo­sições que conformam uma bibliografia básica sobre a qual continuam se assentando os esforços de teorização.

Trata-se de um trabalho desenvolvido a partir de um tí­pico teórico tomado de um programa dado para desenvolvimento da disciplina como crédito obrigatório para a aprovação no currículo de mestrado. Todavia, não podemos afirmar que a sua abordagem se faça do maneira exclusiva, individualizada.

No caso da Literatura Comparada, em que pese a infelicidade/impropriedade ou não do nome da disciplina, nada podo ser considerado individualmente. A relação das rubricas faz parte da natureza mesma da própria disciplina enquanto campo do espe­culação teórica. Assim, por exemplo, não podemos deixar de fazer remessas constantes à História das ideias, quando nos detemos no estudo de gêneros e movimentos. Por consequência, a ideia de cosmopolitismo/provincialismo não deixa de perpassar nossa atenção quando do estudo de fontes e influências ou mesmo de recepção e intertextualidade.

Acompanhando este raciocínio, podemos aceitar com bastante serenidade e segurança, a observação que delega ao estudo de temas – tematologia, parece-nos bastante apropriado enquanto generalização de conceito – um caráter de privilégio no quadro das rubricas encobertas pela Literatura Comparada enquanto dis­ciplina sistematizada a partir de uma vocação generalizada e não de um objeto definido e circunscrito a una metodologia inflexível e particularizada.

O grande objetivo implícito de todo este trabalho pare­ce ser, a nosso ver, a tentativa de constatação desse privilégio aglutinador da tematologia, quase que como una consequência especular do privilégio da própria disciplina à qual se submete operacionalmente.

É interessante ressaltar também que a consulta a manuais alguns, inclusive, já ultrapassados, quer do ponto de vista ideológico, quer do ponto de vista de conteúdo, não pode deixar de ser feita pelo simples fato de que é através da observação atenta do processo de gênese que podemos fazer ressaltar as princi­pais correntes – ideológicas e de conteúdo – que vão determinando os caminhos de emancipação da disciplina – Literatura Comparada – na qual localizamos o caráter geral e da Tematologia no particular.

Sem pretender ser exaurível ou tentar esgotar as possi­bilidades, o que nos parece óbvio, na tradição acadêmica, procu­raremos dar a este trabalho o feitio e a seriedade que as circunstâncias, que o particularizam, exigem para a sua completa e satisfatória realização e compreensão.

Cumpre-nos, ainda, dizer que a exemplificação prática foi suprimida do corpo do trabalho, uma vez que a proposta ini­cial do curso foi realizar uma pesquisa de cunho teórico sobre a matéria. Sendo assim, passamos agora ao desenvolvimento do nossas proposições.

***

Algumas proposições

Nesta parte do trabalho, procuraremos apresentar os elementos básicos que são operacionalizados teoricamente em cada um dos manuais consultados. É claro que se trata de um esboço do que cada autor pretendeu desenvolver com relação ao estudo de temas no âmbito da Literatura Comparada.

A sua apresentação procura acompanhar uma linha evolutiva baseada na cronologia da publicação das obras referenciadas, de maneira que possamos acompanhar, de certa forma, o caminho traçado pela evolução da matéria como meio de compreender melhor a disciplina exigida para a realização de trabalhos de orientação temática.

Sempre que possível, e cabível, nossa interferência far-se-á sentir para tentar aferir a veracidade de opiniões pessoais bem como discutir a veracidade e funcionalidade de certos princípios.

1. De van Thieghem

O mais antigo manual por nos consultado, apresenta alguns conceitos fundamentais da tematologia, como princípios operacionais para o que ele chama de literatura geral. Isto, por conta do conceito primário de Literatura Comparada que em sua época se fazia sentir com maior força persuasiva.

A tematologia, que aqui ainda não recebe esta terminologia, se responsabiliza pela análise e interpretação dos chamados “temas”, tipos e legendas. Sente-se uma profunda vinculação destes estudos com as literaturas populares. Pode-se dizer que tal vínculo também se dá em relação àquelas literaturas que continuam uma certa tradição “folclórica”, passando a outra fase de desenvolvimento sem negar as marcas das próprias origens.

Os estudos de tema não apresentam, apesar de merecerem atenção metodológica acurada em teses, artigos e trabalhos diversos, grande importância para a História da literatura.

É opinião do autor que a diferenciação individual, procurada por cada artista na interpretação de uma legenda dada, confere a esta uma singularidade tão grande que, por extensão, confere à tematologia um caráter que escapa à Literatura Comparada, porque ela não se ocupa de influências literárias.

Não podemos deixar de observar que muitas das opiniões expressas pelo autor, como a imediatamente anterior, parecera contradizer o espírito atual da disciplina. Forçoso é salientar que tais leituras se dão em direção a uma época que começava a sistematizar, teoricamente, uma disciplina que contava com anos de prática efetiva acumulada.

A identidade entre tema e personagens, levando em consideração as exigências de adaptabilidade de ambos para a consecução do objetivo proposto pelo autor, não confere a seus autores o status de influenciados um pelo outro. Não podemos partir do pressuposto errôneo de que haja sempre uma relação de forças causais na evolução de um tema. Isoladamente não.

Existe uma grande dificuldade de se estabelecer subdivisões rígidas para a tematologia, devido à vastidão do campo por ela abarcado e pela diversidade de trabalhos e estudos que podem ser realizados sob essa rubrica.

O estudo de temas exige um levantamento minucioso de dados concretos para a formulação de teses. Tal procedimento se faz essencial e, via de regra, é tomado como justificativa para o fracasso dos menos avisados e incompetentes.

Apesar de apresentar um campo vastíssimo de atuação, a tematologia não pôde, ainda, suplantar o estudo de fontes e in­fluências que é considerado a mola mestra dos estudos comparatistas em geral e da tematologia em particular.

2. De Guiyard

Este autor parece colocar um pouco mais elevado o pedestal da tematologia. Normalmente execrada pelos comparatistas mais tradicionais, os estudos de tema não podem ainda ser veiculados de forma independente. Diz ele, em seu livro A literatura comparada:

Com efeito, eles constituem apenas a matéria da literatura: esta começa com sua valorização, graças aos gêneros, à forma ou ao estilo”. (p. 54)

Ha sempre uma preocupação muito grande em caraterizar o estudo de temas como uma possibilidade recente e inovadora de estudos comparatistas; ele aparece como um direcionamento modi­ficado da orientação comparatista que vai estar sempre ligada ao “psicologismo” da narrativa moderna.

Para este autor, a tematologia aparece como uma grande contribuição para a História das ideias. Os temas veiculam o sentimento humano através de conteúdos quase que sistematizados. No fundo, as grandes ideias é que dão consistência a esta maté­ria da literatura.

3. De Etiemble

Num texto bastante crítico, em que o autor utiliza uma linguagem bastante simples, mas com intensa expressividade, Etiemble coloca toda a sua contestação com relação ao fechamento da Literatura Comparada em torno de quatro ou cinco literaturas europeias ou americanas, como campo mais propício para os estudos comparatistas e de tematologia.

Ele coloca a necessidade de busca de novos horizontes e a abertura para as literaturas escritas em línguas pouco conhe­cidas, o que faria crescer a bagagem cultural das especulações comparatistas.

Suas considerações sobre a tematologia acompanham a orientação geral que é proposta. Ele compreende que esta parece estar tomando um lugar de destaque no quadro geral dos estudos comparatistas, mas ainda, a nosso ver, bastante dependente da consideração evolutiva da História dos gêneros.

Em seu livro Comparaison n’est pas raison, ele faz uma proposta que engloba, sem sombra de dívida, a tematologia, como uma das prioridades da comparatística internacional. O trecho é o seguinte:

“… eu desejaria que, em todos os países onde se ensina nossa disciplina, uma associação verdadeiramente internacional de literatura comparada propusesse um certo número de ‘assuntos’ de interesse geral que seria tratado por todos a fim de mostrar aos estudantes do planeta que cada literatura deve qualquer coisa a todas as literaturas, e que todas se devem coisas mutuamente”. (p. 107).

Cremos que esta posição, bastante clara, denuncia as lacunas existentes na disciplina, em seu contexto atual, além de propor uma pratica globalizante dos estudos comparados – inclu­indo, evidentemente, a tematologia – que só beneficiaria a dis­ciplina como um todo.

4. De Pichois & Rousseau

Os dois autores parecem vincular a tematologia à procu­ra de uma universalidade que poderia ser encontrada a partir da consideração do folclore nacional, que permeia qualquer litera­tura nacional, e do caráter de fantástico que pode estar cristalizado no tratamento temático objetivado em cada obra literá­ria produzida.

Em seu livro La literatura comparada, eles fazem algumas observações interessantes a respeito destas considerações. Entre elas, apresentamos as seguintes:

“Quando se distanciaram, empírica ou racionalmente, estas questões de princípio, o estudo de temas e motivos folclóricos padece de um descré­dito provocado pelos abusos de um romantismo demasiado lírico, seguido por uma ciência pedante ou metafísica de origem germânica (…). Na pressa da síntese, os comparatistas se precipitaram so­bre o conteúdo mais banal de toda a literatura, fabulas, contos e lendas comuns a toda a humani­dade”. (p. 168)

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“A Literatura Comparada acolhe qualquer tema ou motivo que permita agrupar as obras sem reparar na nacionalidade, partindo da mais imediata causalidade até as afinidades indiretas”. (p. 176)

As duas citações parecem contraditórias, mas guardam duas particularidades da tematologia: a sua vinculação com o universal e a peculiaridade característica de cada forma de tratamento dado a um tema.

É de consenso dos autores a ideia de que, por quaisquer caminhos que possam ter passado, os temas mais nacionais ou particularmente trabalhados numa literatura, sempre se reportam aos mitos clássicos da antiguidade, que guardam consigo a originalidade conteudística dos primórdios da civilização ocidental e o status de matéria literária desde as primeiras produções.

Encampam também, como sendo um dos “departamentos” da tematologia, o estudo de tipos. Isto porque os tipos têm se tornado fonte de inspiração para muita literatura que se fez a partir de um elemento estratificado e de suas relações com outro elemento e com o próprio contexto no qual está originariamente inserido.

Chamam a atenção para o fato de que os comparatistas devem estar sempre atentos aos meandros da questão dos tipos para localizá-los dentro de obras que tenham valor. Não fazendo assim, correm o risco de procederem a um estudo sociológico das relações de elementos estratificados de uma comunidade qualquer.

Em suma, colocam como fontes temáticas para os estudos comparatistas a natureza: seus elementos, processos e criações; o homem e suas circunstâncias, sentimentos e situações de vida e os fatos mesmos da vida humana no planeta.

De Trousson

Considerada como um clássico dentro do quadro bibliográfico que versa sobre tematologia, a obra de Raymon Trousson trabalha quase à exaustão o assunto.

Partindo de um levantamento bastante completo e atuali­zado de obras teóricas sobre o assunto, o autor inicia sua obra colocando a situação da tematologia – ontem e hoje –no quadro de estudos comparatistas.

Faz um longo percurso, baseado também num levantamento minucioso, da problemática da terminologia. Define, operacional­mente, o conceito de tema, contrapondo as diversas variações sinonímicas existentes.

Aborda a questão da tradição histórica que pode definir uma linha de conduta na pesquisa tematológica, levando em consideração a imanência da obra literária; a problemática da sincronia e diacronia para a definição de uma orientação da tematolo­gia; a discussão sobre “fontes e influências”, alongada na con­sideração de originalidade (criação) e tradição; a delimitação geográfica e histórica da tematologia e a possibilidade de determinação de preferências de autores, de épocas e de nações para os estudos de natureza temática.

Finalizando seu trabalho, o autor coloca a profunda e essencial vinculação da tematologia como método e do tema como objeto, com o contexto histórico que os marca, direciona e orienta numa dada direção especulativa.

***

Confronto terminológico

É bem verdade que, via de regra, a definição de conceitos é o primeiro passo para a organização de um discurso sobre qualquer conteúdo. No caso da tematologia, não há quebra desta tra­dição acadêmica.

Neste trabalho, pareceu-nos melhor acompanhar a ordena­ção de conteúdos que se deu, analogamente, na própria História da Literatura Comparada: ela começou com uma prática ancestral sem centralização metodológica e, num segundo passo, começa a merecer teorizações sistematizadoras para a tentativa de organização do próprio conteúdo trabalhado.

Ao apresentar algumas proposições sobre o assunto, não nos preocupamos, em primeira instância, com uma diferenciação sistemática dos termos como forma de delimitar seus campos específicos de atuação. Fazemo-lo agora.

A diferença significativa de uma mesma palavra, de lín­gua para língua, se impõe como primeiro problema da tematologia no âmbito da Literatura Comparada. Motivo, tipo, fábula, mito, lenda, tema e legenda são palavras utilizadas como sinônimos, agravando a complexidade da questão terminológica.

Uma situação muito particular ocorre com relação ao termo “mito”. Geralmente considerado em seu contexto natural, a Antropologia, este termo não deixa de aparecer em outros contextos – a literatura particularmente – para significar aquele conteúdo que ultrapassou os limites da realidade, deixando para trás as caracterizações particularizadas, impondo-se como invariante universal de significação ciara que, via de regra, nos remete sempre aos primórdios de nossa própria origem, enquanto cultura ocidental.

Há de se levar em conta, nesta consideração, o caráter de “sagrado” que marca e envolve este conteúdo cultural denomina do mito.

Muito regulamente, usa-se mito e tema com a mesma pre­tensão significativa. Talvez, a tendência pelo uso de mito, ve­nha a representar urna certa possibilidade de eliminação da confusão terminológica que marca de modo peculiar esta rubrica.

Podemos considerar ainda o traço coletivo do mito que marca particularizando o conceito, enquanto tomado sob o enfoque de personagem mítico de um universo diegético. Com esta ob­servação, temos que acrescentar que, para o comparatista, não há Prometeu, Antígona ou Fedra exteriores ao texto literário. Estes personagens são sempre considerados em intensa e interna vinculação com o contexto textual, uma vez que e neste que se dá a apropriação “pessoal” do conteúdo universalmente reconhecido e respeitado.

A questão da terminologia revela uma compulsão para a classificação. A utilização da palavra “mito”, na significação temática era que por vezes e tomada, não quer estabelecer, aqui, uma discussão etimológica; tenta, na verdade, uma conjugação de considerações conceituais identificadas por uma gama variada de termos.

Neste primeiro momento de reflexão, não podemos deixar de levar em consideração a apropriação conceitual realizada pelos vários teóricos que, de certa forma, exemplifica a retórica gasta para a apresentação do problema.

Para Simon Jeune, temos tipos (legendários, bíblicos, literários, histéricos, etc.) e os temas (elementos da natureza, sentimentos, ideias).

Esta primeira classificação particular é o ponto de partida para uma malha fina de variações terminológicas de sentido. De autor para autor, um conceito pode ter seu nome trocado, sem que haja uma modificação total e absoluta em sua significação menos profunda. Assim, os tipos de Simon Jeune são os “persona­gens literários” de Pichois & Rousseau; Já Weisstein fala de “tema” para os tipos “individuais” e de “motivos” para algumas si­tuações em que se dinamizam ideias e sentimentos.

Uma esfera um pouco maior do problema conceitual, que e apresentada e considerada a partir de agora, nos coloca a consideração da questão de denominação do estudo em si mesmo.

Em Van Thieghem a tematologia – apesar de não aparecer especificamente com este nome – corresponde à tematologia como organização das obsessões de Roland Barthes; a acontecimentos ou situações infantis de J.-P. Webwe; à constelação de palavras, ideias e conceitos de J.-P. Richard; a um elementos verbal para G. Genot.

Podemos concluir que as nuances podem, por vezes, determinar diferenças e particularidades conteudísticas que “complicam” a questão terminológica. Há de se levar em conta o proble­ma da vaidade pessoal que acaba influenciando uma ou outra posição como forma de inovação, sem os cuidados necessários com as possíveis consequências negativas ou mesmo delicadas.

Por outro lado, podemos também chamar a atenção para uma outra etapa desta confrontação, que vai se ater particular­mente sobre as noções de tema e motivo.

Estas noções vinculam-se de maneira bastante aproximada, apesar de serem absolutamente independentes uma da outra. Daí a necessidade de questionamentos e conclusões individualizadas, num movimento maior de intercomplementaridade. Os conteúdos aqui veiculados podem ser tomados em sua especificidade, que os define de modo quase absoluto.

Acompanhando o raciocínio de Raymon Trousson, apresentamos algumas questões levantadas, por ele, sobre o assunto:

“O que é um motivo? Escolhemos chamar assim a um pano de fundo, um conteúdo largo, designando ora uma certa atitude ora uma situação de base, im­pessoal; o que os autores ainda não podem individualizar”. (Thèmes et mythes, p. 22)

Temos que admitir que há uma distância conteudística que separa o motivo, organizado na representação literária, dos arquétipos da espécie humana. Para utilizarmos uma expressão jungiana:

“O que é um tema? Convencionemos chamar assim a expressão particular de um motivo, sua individualização ou, se querem, a passagem do geral para o particular”. (Thèmes et mythes, p. 23)

Nesta etapa, consideramos a necessidade de levar em conta um evento duradouro num determinado espaço como mola mestra da caracterização conceitual de um tema.

Cremos não ser completamente inoportuna a observação de que o ponto de vista do autor citado parece inverter, pelo menos aparentemente, a localização dos termos no jogo de oposição geral/particular. Via de regra, o motivo parece estar sempre colocado no lugar em que aparece, aqui, o tema…

Podemos ainda, aventar a possibilidade de se considerar a distinção dos conceitos como pontos de defesa da própria dis­ciplina.

Parece haver um movimento de justificação da não neces­sidade de se considerar o tema como matéria mesma da literatura, complementada pela figura do “tipo” específico; e para determi­nar, como tal, o motivo que não carece do tipo, pois veicula a própria experiência humana em sua alteridade existencial.

O motivo é o elemento não literário que delimita as si­tuações e as atitudes fundamentais, por isso, é a matéria mesma da literatura, enquanto particularização no tratamento do conteúdo universal.

Há uma crítica muito forte contra a tematologia, enquanto preocupada com a extensão conteudístico-operacional de seus próprios conceitos, que tenta tirar dela seu caráter de profunda aplicabilidade quando diz que a tematologia é o estudo da evolução de um só personagem em todas as suas apresentações. Tal ob­servação, ao que nos parece, guarda uma certa dose de verdade. Não fosse assim, não haveria justificativa para trabalhos exaustivos como o de Jean Rousset, sobre Don Juan.

A tematologia descobre, analisa, compara e descreve as máscaras sob as quais o mesmo conteúdo temático costuma se apresentar.

O tema não pode ter mesmo uma significação única, uma vez que esta se dá através da apresentação variada e múltipla dos motivos. Parece haver uma relação de justificação exemplificada e variável; o tema está muito mais preso aos liames do tempo e do contexto histórico que o motivo.

Nota-se, assim, que há uma forte presença, e consequente influência, quase uma força coercitiva, das ideologias diacrônicas na determinação e descrição utilitária dos temas.

Os temas só existem em momentos dados, pois servem para veicular os conteúdos ideológicos de um passus da existência humana através dos mais diferentes motivos.

Falar das apresentações temáticas não pode ser uma prá­tica restrita a elementos interiores dessa representação, mas há de se levar em conta os entraves histórico-temporais.

Ainda uma outra característica é a viabilidade simbóli­ca do tema numa época determinada, e mesmo nas diversas obras de um autor num espaço de tempo limitado.

Concluiremos esta parte de nosso trabalho com a transcrição de dois trechos da obra de Raymon Trousson:

“Le thème, cristallisation et particularisation d’un motif est d’emblée objet littéraire parce qu’il n’existe pas qu’a partir du moment où le motif s’est exprimé dans une oeuvre, devenue le point de départ d’une série plus ou moins importante d’autres oeuvres, le point de depart d’une tradition littéraire”. (p. 26)

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la distinction à établir entre leg notions de thème et de motif apparait de première importance, non seulement en soi, sur le plan de la ter­minologie littéraire, mais aussi parce quelle déterminará des differences sensibles sur le plan metodologique”. (p. 30)

É nossa opinião, vale a pena acrescentar, que, das observações acima, podemos inferir uma característica primordial de um confronto terminológico no âmbito da teratologia, numa perspectiva comparatista: a operacionalidade dos conceitos. Sem esta preocupação, todo o esforço terá sido mero exercício retórico.

***

Conclusão

Faz parte da tradição da Literatura Comparada, enquanto disciplina sistematizada, começar pela prática para depois che­gar a uma teorização que organiza e esclareça as diversas possibilidades da matéria. Não deixamos de acompanhar esta tradição. Da busca, em dicionários gerais e especializados, do significado da palavra “tema”, podemos concluir que seu traço característico se localiza em sua essencialidade.

A noção de tema sempre nos reporta a um conceito de base fundamental para a realização de um discurso. Com relação à música, então, a definição toma-se muito clara, fazendo uma remessa direta ao conceito veiculado em literatura:

Motivo: o que é o germe do qual procede e no qual se desenvolve a composição.

Podemos, então, dizer que não existe uma obra literária se não houver um tema bastante preciso? Ou seria supor um exagero?

Realizando a mesma busca com a palavra “mito”, vimos que esta nos reporta a alguns conteúdos praticamente supra-reais. Faz constante referência às cosmogonias essenciais da humanida­de, conjugando valores fabulosos, fantásticos, utópicos.

Logo na primeira impressão, não podemos ter dúvida, nos é apresentada uma confusão, uma certa impossibilidade de identificação conceitual entre as duas palavras.

A Literatura, enquanto arte das palavras, não pode dei­xar que, nas teorizações que sobre ela se realizam, o bom senso na aplicação de termos precisos seja deixado de lado, sem uma explicação justa, plausível.

A querela terminológica, estabelecida entre tema e mito, cremos nós, nunca terá fim. É bom que se procure, portanto, a sua aplicação, sempre que possível, precisa, para que maiores confusões não sejam uma consequência negativa para a própria Literatura.

O estudo de temas, no âmbito da Literatura Comparada, parece não ter contado sempre com o aval dos comparatistas, apesar de ser uma prática especulativa bastante realizada por muitos deles.

É de se notar que, na tradição histórica da disciplina, muitos trabalhos identificados de maneira diferente, com títulos diferenciados, realizavam pesquisas de orientação temática. Esta observação, além de curiosa, pode sor tomada como ponto de partida para uma justificação da importância fundamental dos estudos de tema na perspectiva da Literatura Comparada.

Determinar o campo semântico dos termos analisados, para melhor compreender sua utilização, não esgota o leque de possibilidades da tematologia. Esta procura, sempre e mais, a nosso ver, a identificação e elucidação de certos invariantes univer­sais que vão sofrendo apropriações e tratamento individualizado, correspondente a cada contexto histórico e geográfico no qual se encontra uma especulação de cunho comparatista.

Muitos são os teóricos e os críticos que já se colocaram na posição de advogados do diabo, para melhor discutir a questão da validade ou não da tematologia nos estudos comparatistas.

Não temos a pretensão de ser definitvos, nem de acabar de vez com estas questões. Dentro de nosso modesto trabalho procu­ramos demonstrar o caráter privilegiado – quase fundamental – da tematologia.

Não nos parece absurdo afirmar que, indiretanente, esta rubrica da Literatura Comparada se liga profundamente a outras tais como: gêneros, movimentos, história das idéias, fontes e influências, recepção, etc.

Sem querer assinalar com a originalidade as nossas dis­cussões, pretendemos corroborar a opinião de muitos estudiosos do assunto que colocam a tematologia quase como o estudo da matéria literária em si mesma.

Dentro das pesquisas realizadas, ficou-nos a impressão de que, pela própria imprecisão de que se valem os termos utilizados em seus trabalhos, a tematologia acompanha a carência de sistematização mais rígida, característica muito particular à própria Literatura Comparada.

Nesta, as metodologias se multiplicam, dando origem a uma diversidade de orientações que acabam por confundir um pou­co a linha geral da disciplina. Acreditamos que, cora relação à tematologia acontece, analogamente, a mesma coisa. As buscas são tão numerosas e variadas, as direções tomadas aparentemen­te tão contraditórias, ou mesmo indefinidas, que provocam o questionamento interno da própria disciplina.

Não acreditamos num trabalho comparatistas de largo es­pectro, que não comporte a tematologia, como um de seus procedimentos fundamentais.

É nossa impressão que a tematologia se constitui um ponto de polarização dos trabalhos comparatistas por força de sua atuação universal, quase impossível de ser catalogada ou mesmo catalogada caracterizadamente de maneira sucinta.

Cinco possibilidades de enfocar a tematologia no âmbito dos estudos comparatistas podem se:

a) possibilidades discursiva e narrativa de se aproximar uma cultura nacional e sua literatura dos demais pontos de consideração comparatista;

b) instrumento de descoberta de cavilosidades ideológicas no discurso narrativo colocado em questão, dentro de um determinado contexto e em comparação com outros;

c) índice de grandes correntes de ideias que perpassam uma ou mais narrativas em qualquer contexto;

d) caminho aberto para um aprofundamento maior de uma imagologia, numa determinada literatura (em si mesma e em comparação com outras);

e) parâmetro de determinação da qualidade estática da criação, da apropriação, da parodia, da intertextualidade, etc.

Diante destas indagações, parece-nos ter se tomado pe­quena e quase sem importância a questão terminológica. Ao contrário! Não podemos deixar de acreditar que é na dinâmica mesma desta discussão que podemos localizar o vigor dos estudos de tema; o que só contribui para a afirmação e maior aproveitamento da Literatura Comparada. Esperamos ter demonstrado estas convicções com suficiente clareza.

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________. Imagem, metáfora, símbolo e mito. In: Teoria da Literatura. Lisboa, Publicações Europa-América, sd.

________. A crise da Literatura Comparada. In: Conceitos de crítica. Tradução de Oscar Mendes. São Paulo, Editora Cultrix, sd.

(Trabalho final da disciplina “Literatura Comparada”, Profª Neide de Faria)

Primórdios VI

Análise contrastiva de romances naturalistas brasileiros: Bom crioulo e A carne

Introdução

            A presente monografia e o resultado de estudos feitos durante o primeiro semestre letivo deste ano de 1986, na busca de traços marcantes de uma estética naturalista própria do ro­mance brasileiro; a partir da análise contrastiva de dois romances, que vão citados na bibliografia.

Não há preocupação – por força das circunstancial – de aprofundar, em sua totalidades, todos os extratos encontrados em narrativa literária. Tomamos por princípio de orientação e sistematização de trabalho, um gráfico mínimo de análise, onde os tópicos procuram estabelecer grandes linhas de análise que, de certa forma, podem ser aplicados a qualquer tipo de narrativa.

Tomando como base as diversas conceituações de Naturalismo, temos que concordar com certa observação que diz ser este movimento, no Brasil, um movimento “histérico”[1].

Podemos notar que tal expressão se deve a uma evidente falta de sistematização do trabalho criativo de nossos escritores naturalistas. Normalmente, tal categoria é estudada por nossas historiografia e crítica como um conjunto binário, ao lado do Realismo, o que faz com que deixemos de lado uma consideração particularizada de cada um dos elementos, de forma a determinar, com clareza, as características básicas de um pos­sível “Naturalismo brasileiro”.

Não podemos deixar de falar na apresentação teórica e prática do Naturalismo, idealizada e realizada por seu grande mestre Émile Zola.                           

Profundamente impressionado por leituras contemporâneas, e interessado em tudo que dizia respeito ás descobertas científicas, principalmente na área biomédica, o escritor francês vai propor toda uma teoria do romance que acaba por se constituir num “manifesto” do Naturalismo.

Para não deixar de lado uma tradição reconhecida, é na França que floresce o novo “movimento” literário, que difunde, era suas entrelinhas, as ideias preconizadas por Zola. Muitas delas baseadas na obra de Charles Beuchat[2].

A história do Naturalismo oferece ao escritor francês todo um ideário científico que vai ser motivo de preocupação, análise e transformação, em discurso literário, de altíssimo nível artístico.

Indiscutivelmente, é no ciclo dos “Rougon-Macquart” que Émile Zola se solta completamente, dando asas à sua imaginação criadora, domada apenas por um senso de organização e trabalho, poucas vezes superado no meio literário. Pode-se dizer que, é com ele que um painel da vida francesa, e, por extensão intrínseca, universal, ganha definição através de sua obra, estruturando-se em grandes linhas de desenvolvimento, que terminaram por consagrar o Naturalismo.

A preocupação com as movimentações da alma humana, a análise das relações sociais como germe de modificações estruturais desta mesma natureza, o caráter científico de observações detalhadas do homem no seu meio e algumas outras grandes linhas, acabam sendo tomadas como fundamento de um Naturalismo que se espalhou pelo mundo, quase que absolutamente vivificado pela obra de Zola.

A narratologia moderna, com sua inovação sistemática de trabalho científico resgata detalhes de gênese da obra de arte literária, que podem servir de aporte técnico necessário para conclusões mais profundas, sérias e definitivas. Suas especulações não fornecem modelos para aplicação direta, posterior, mas descreve comportamentos técnicos – de certa forma – recorrentes, para, a partir deles, postular alguns princípios fundamentais e indissociáveis de um estudo estético de obras literárias bem acabadas.

O presente trabalho se orienta a partir destas duas vertentes consideradas no âmbito da Literatura Brasileira.

Não é de nosso interesse imediato apresentar conclusões definitivas, mas apenas tentar veicular observações, suposições e fatos dentro de um plano quase que absolutamente estético.

Não estamos fechados a observações críticas que podem, sempre e mais, enriquecer as conclusões a que chegarmos.

***

Considerações gerais

1. Do título

            Ao depararmos com o título de qualquer livro, criamos uma expectativa muito grande em torno da história a ser contada por partirmos de associações imediatas, que remetem a outro universo (ou universos) de conhecimentos, experiências e, mesmo, expectativas já existentes em nós.O leitor sempre se deixa levar pelo nome do livro (e, pela ilustração da capa, consequentemente) na hora de sua escolha de leitura. Nosso inconsciente é muito mais forte que nos­so espírito crítico. Mesmo que seja custoso admitir isto.

Podemos medir ou considerar o maior ou menor grau de qualidade de um livro, através da força de integração realiza­da pelo autor, entre a história narrada e o título que a nomeia. Isto, sem nos esquecermos de que a integração se dá também entre todos os outros elementos da obra de arte. Um exemplo magistral é Germinal, de Émile Zola[3].

O nome do romance francês nos remete à ideia de germinação, germe, geração. Podemos perceber de imediato que o paren­tesco do radical destas três palavras é absoluto. Ele é praticamente o mesmo.

Com a leitura do romance, percebemos que a integração desta palavra (e de todas as remessas por ela levantadas) com a narrativa desenvolvida não carece de pontos de contato, e mesmo de comprovação. Os fatos e personagens principais, as situações dramáticas primordiais, vão revelando este contexto de nascimento, de formação de algo novo.

Não podemos, nunca, deixar de admitir a absoluta influ­ência da Literatura Francesa sobre a nossa. Em muitos casos, o resultado desta se fez sentir com valores nacionais de grande expressão. Com o Naturalismo não foi diferente. Costuma-se falar que temos um Naturalismo histérico, como já aludimos ante­riormente. Talvez não fosse absolutamente indevido, associar esta conotação com um dos objetivos primários de nosso Naturalismo: o escândalo. Se partirmos para análise com este enfoque, não poderemos deixar de chegar às mesmas conclusões.

Aluísio Azevedo foi, dos escritores naturalistas, o que mais se aproximou – em termos de trabalho e criação – do “pai” francês. Temos outros autores. Adolfo Caminha e Júlio Ribeiro são dois deles, com os quais nos preocuparemos mais especificamente.

Bom crioulo é um romance que reúne elementos que, trabalhados com mais profundidade e cuidado estéticos, daria um excelente romance naturalista. As duas palavras que compõem o título nos levam a considerar uma temática racista da narrati­va. Esta é esperada. Parece que há intenção de se provar que o homem negro pode ser “bom, nos aspectos morais, religiosos, civis e até sexuais[4].

A capa do livro já nos induz ao problema racial – latente em algumas passagens do texto, mas pouco desenvolvido – que pode ser levado em conta. Uma caravela encima e emoldura o rosto de uma mulher branca de olhos azuis, ao lado de um negro com os traços estranhamente “delicados”. Sua beleza não pode ser negada, pelo menos em certo grau. A caravela já nos remete ao contexto da Marinha. Os dois rostos perecem formar o casal de um drama amoroso. As imagens vão fornecendo linhas de enca­minhamento possíveis, para a narrativa que vamos ler.

A carne já levanta suspeitas em relação ao sexo, ao pecado, ao erotismo e até à pornografia.

Em alguns detalhes, a nossa língua parece responder por uma riqueza semântica sem par. Com este título esperamos um livro ardente e até picante.

A capa[5] nos traz uma mulher sentada sobre uma almofada vermelha – de forma não muito definida – emoldurada por uma teia de aranha. É de se notar o clima de femme fatale que é criado, o que faz aumentar a expectativa, concentrada num pos­sível tom picante da narrativa.

Uma outra ilustração interessante é a de um pedaço de carne bovina, com filetes de sangue escorrendo de suas entranhas. Fica muito claro, então, a relação direta e possível de ser estabelecida entre a carnalidade humana e suas conotações eróticas e pecaminosas.

Um detalhe que, a nosso ver, não pode ser deixado de lado, é o de que o primeiro título é composto de nomes masculinos e o segundo de um nome feminino. Pode parecer insignificante a observação, mas. para a confirmação do caráter escandaloso de nosso Naturalismo, estes dois pontos nos revelam algumas asso­ciações interessantes, mais desenvolvidas com o correr da aná­lise.

***

2. Do tema

O estudo do tema tem chamado a atenção de muitos estudiosos, não só da atualidade, como de todas as épocas da crítica literária. Não ficaremos limitados a considerações de valor deste ou daquele posicionamento, relativas a este assunto.

Normalmente, o tema é único numa narrativa, comportando subtemas ou variações deste eixo central. O que assumimos neste trabalho é a determinação de temas, motivos e motivos temá­ticos; seguindo as orientações estabelecidas por um gráfico mínimo de análise, que visou minorar problemas de terminologia e conceitualização, para maior operacionalidade do próprio trabalho.

Adolfo Caminha apresenta três “possibilidades temáticas” para sua narrativa: a vida na Marinha, um triângulo amoroso entre raças diferentes e o homossexualismo.

A partir da leitura realizada, podemos dizer, com qua­se absoluta certeza, que o grande tema do livro é o homossexualismo masculino.

Passando por considerações acerca de detalhes da vida no mar, o autor não consegue explorar, com o devido e possível rendimento, as possibilidades narrativas criadas pelos elementos de níveis variados, com os quais o autor contou para desenvolver sua narrativa.

Podemos, então, esquematicamente, apresentar os principais motivos e motivos temáticos que poderiam ser mais explorados no próprio romance[6]:

– o amor homossexual masculino,

– o ciúme,

– o amor de um jovem por uma mulher mais velha,

– o castigo corporal para marinheiros insubordinados,

– o ninho de amor,

– o assassinato por ciúme,

– a vida de um marinheiro no mar e na terra.

A carne, narrativa quase linear, beirando o folhetinesco melodramático, não deixa de acompanhar, em seu tema, as ideias levantadas pelo título.

Poderíamos, de maneira geral, estabelecer para a narra­tiva o tema da sexualidade feminina.

É bem verdade que este, muito amplo, congrega motivos e motivos temáticos que esclarecem detalhes que poderiam ser mais explorados, mas que, de certa forma, são desenvolvidos por Júlio Ribeiro. Assim, temos:

– a sexualidade feminina,

– a gravidez moralmente condenável,

– o relacionamento sexual extraconjugal,

– a maternidade buscada,

– o suicídio,

– o casamento por necessidade de paternidade,

– os impulsos carnais estimulados pela natureza.

É claro que a expectativa criada pelo título se reflete na determinação de linhas temáticas possíveis, e estas, por sua vez, podem determinar fios narrativos, encadeamento de fa­tos, caracterização de personagens e definição de situações dramáticas.

Do ponto de vista de gênese da obra, podemos afirmar que a integração do título ao tema e deste (cumulativamente) ao discurso diegético da narrativa, determina o grau de quali­dade de uma obra literária.

Não há outra maneira de se conseguir uma boa narrativa se não houver esta integração. É claro que não desconhecemos a dinâmica própria de cada texto, de cada autor e, ainda, de cada época da História.

***

3.Dos demais extratos

A abordagem de todos os pontos do gráfico mínimo estabelecido para a análise narrativa e que foi utilizado – de maneira explícita – na primeira fase deste trabalho, nos dá uma vi­são do esqueleto das obras.

Uma dissertação que obedecesse às imposições de uma or­dem inflexível, transformaria o texto final num amontoado de comentários seriados e muitas vezes redundante.

O fato é que não podemos nos esquecer de que os pontos considerados no gráfico não podem aparecer ordenadamente de maneira inflexível. A narrativa não trabalha a partir de cumulação de dados, mas de tessitura de várias linhas de procedimentos peculiares a cada obra.

Desta forma, quando consideramos qualquer ponto do grá­fico – da narrativa propriamente dita, e não apenas do título e tema – temos que nos remeter, imediatamente, a pontos poste­riores ou anteriores que retifiquem observações feitas[7].

O primeiro passo será falar da ação. Não faremos qualquer subdivisão no corpo do texto.

Considerada como encadeamento dos fatos, a ação nos dois romances estudados quase não perde sua linearidade. A não ser no segundo capítulo de Bom crioulo, quando temos uma retrospectiva dos fatos narrados no capítulo de abertura como forma de justificar determinados fatos – a história não apresenta grande complexidade em seu desenvolvimento, descrevendo uma curva dramática ultra-simples, culminando num desenlace um tanto despropositado, sem muita preparação, e mesmo, coerência psicológica, em relação a seus protagonistas.

O gráfico possível de ser estabelecido, entre as linhas da história e a da narrativa não apresenta grandes variações, fazendo ver que o drama originário da história é um só.

A carne não apresenta estrutura diferente. O início da história não corresponde ao início da narrativa, uma vez que há alusões a fatos anteriores ao início desta. Lenita e Barbosa desempenham seus papéis numa linearidade dramática que não oferece grandes possibilidades de constituição de trama mais complexa.

O tema de cada uma das obras já nos coloca um universo reduzido de fios narrativos, uma vez que o aproveitamento dos elementos externos à narrativa não chega a ser satisfatória e completamente aproveitado. Abrimos aqui uma brecha para consideração do espaço nos dois romances.

A natureza está presente no universo diegético dos dois romances. O mar, a lua, as estrelas, a natureza e sua energia são elementos do meio cósmico da pouco rendimento nas duas narrativas.

Adolfo Caminha, ao colocar seu “crioulo” no mar, deixa escapar excelente oportunidade de mergulhar era grandes questões existenciais, que poderiam ocasionar um discurso naturalista da categoria dos de Zola.

Júlio Ribeiro vai um passo além. Muito pequeno, mas um pouco além.

A presença da natureza em seu romance chega a tomar co­res de funcionalidade e rendimento em seu discurso narrativo. É no seio da natureza, e sua exuberante presença – e beleza – que Lenita começa a vivenciar o desejo carnal e consequente amor por Oswaldo. Há um laço muito mais forte que chega a vislumbrar uma presença forte da mesma natureza decorativa.

Em relação a Bom crioulo, onde o mar e a natureza, como um todo, servem como pano de fundo para o desenvolvimento da narrativa, podemos dizer – com bastante segurança – que a natureza, como elemento do meio cósmico, chega a desempenhar a função de catalisadora de determinadas reações.

A mesma comparação não podemos fazer quando da consideração do meio social, caracterizando outra categoria espacial nos dois romances. Aqui, há uma corta coerência, pois em ambos os discursos a performance dos protagonistas acompanha os ditames impostos pelo meio social, não só da narrativa como dos personagens que dela participam. A posição social dos persona­gens não deixa dúvidas quanto à veracidade de suas atitudes, a não ser – e isto pode ser tomado como ponto comum às duas nar­rativas – no desenlace dramático da história. Suas atitudes não correspondem ao quadro pintado pelo discurso[8]. Ressalva deve ser feita para Amaro que, por força do ciúme, só podia ter procurado a morte de seu companheiro traidor. Não havia ou era saída para a resolução de seu drama interior. A sua paixão era muito grande e o senso de posse não deixava espaço para racio­nalizações que pudessem levá-lo a pensar em outra solução.

Em sua conotação mais primária e evidente, o espaço, nos dois romances, não perde nem ganha pontos. O conhecimento que dele têm os dois autores vai demonstrado na riqueza da descri­ção de cada ambiente. Como já foi dito, a intercomplementaridade entre os elementos é evidente, e dentro de cada um, a mesma relação se estabelece entre suas conotações.

Assim, o inventário dos lugares por onde se desenvolve a narrativa já remete ao clima propício ao desenvolvimento das cenas que vão descritas no discurso narrativo.

Não nos parece indevido, entretanto, considerar o espa­ço em sua funcionalidade, em relação aos personagens ou às si­tuações dramáticas.

Uma possível função para o espaço físico é mais que considerável, principalmente quando este propicia ou nega o desenvolvimento e conclusão de encadeamentos fatuais procurados pe­los próprios personagens dentro da intriga.

Em Bom crioulo, o navio – e, por extensão, a Marinha como instituição, marcando e determinando procedimentos sociais bastante característicos, peculiares mesmo – tem a função de adjuvante, em relação à paixão de Amaro por Aleixo (princi­palmente no início do romance, quando é descrito o processo de conquista e sedução e, também, a função de oponente (ver as cenas em que Amaro embarca na corveta para uma longa viagem e também as cenas do hospital)[9].

Na mesma medida, a variação se estabelece em relação à pensão de D. Carolina. Esta pode desempenhar as duas funções em relação à paixão que motiva toda a narrativa. Logo no início do romance, a pensão é adjuvante, quando acoberta a paixão dos dois marinheiros – com o consentimento e até incentivo de D. Carolina. Podemos perceber, inclusive, o tema do ninho de amor, ensejando uma circunstância dramática.

A natureza, em A carne, não só o meio físico é propício. Por extensão, o meio social quase conivente, com as re­lações extraconjugais de Lenita e Barbosa também o são. A natureza é adjuvante forte da descoberta de um corpo e de suas necessidades fisiológicas, desenvolvida por Lenita. Não haveria possibilidade de conciliar este processo, com a ajuda forte e determinante das forças da natureza.

Ao tentarmos uma comparação com Germinal, percebemos que o espaço – extrato particularmente caro ao romance naturalista – concorre para uma integração perfeita com os outros extratos, tornando a obra um todo coeso, compacto, de grande força e beleza estéticas. Isto, no caso do romance francês.

No caso dos romances brasileiros, temos um aproveitamento desintegrado dos outros extratos. Do ponto de vista da mon­tagem aos elementos na história contada, o espaço concorre pa­ra um enfraquecimento da narrativa. No entanto, o extrato, isolado em sua funcionalidade, ganha pontos que, se não enriquecem toda a narrativa, evidenciam progressos e preocupações férteis de nossos escritores.

O espaço, num romance, não teria muita razão de ser[10] se não colocássemos o elemento humano no cenário por ele cria­do. Num romance naturalista isto é fundamental. Sendo assim, passamos a falar do personagem.

Este elemento da narrativa pode ser apresentado ontologicamente, como entidade autônoma que desempenha um papel. Com esta observação, apresentamos as duas categorizações respeita­das por nossa análise: o personagem como ser humano e como função.

Nos dois romances, a função de seus personagens princi­pais (os protagonistas Amaro e Lenita) é a de fazer viável a comprovação da tese passível de justificativa dentro do tema levantado pela narrativa.

Este instrumento de operacionalização das principais te­ses do Naturalismo, encontram seus adjuvantes e seus oponentes. No caso da mulher órfã, a grande oponente parece ser a primeira mulher de Barbosa. Engano que vai se desfazendo com o desenro­lar da paixão nascente entre os dois e que encontra sua confirmação na busca de uma justificação moral para seus atos[11]. Sua oponente é, na verdade, uma imposição da moral social da época em que ela vive, particularmente.

Esta conclusão nos parece tão descabida! Mesmo se considerarmos a cerebralidade da personalidade de Lenita. É bom que se leve em conta, a força de atuação da natureza na descoberta da própria carnalidade, levando Lenita ao vislumbramento de sua maternidade necessária. Ela se descobre como ser que pode procriar, que pode repetir a criação da própria natureza. A atitude de afastamento em relação a Barbosa parece contradizer a liberalidade e maturidade intelectual da protagonista. No entanto, a patologia clínica nos apresenta muitos casos e exem­plos de reação contra a sexualidade quando do estado de gravi­dez. Tal afastamento pode ser procurado pelo homem e também pela própria mulher. Esta situação nos revela um ponto de forte cor naturalista, pouco explorado pelo autor e que poderia en­riquecer muito a narrativa.

Para Amaro, o oponente é uma mulher. De certa forma, esta oposição decorre também de um motivo temático fundamental – por nós tomado como tema do livro – o homossexualismo masculino.

Não estamos, com esta afirmação, deixando de levar em consideração a funcionalidade do espaço, como meio físico e como meio social – à qual já fizemos alusão – em relação ao personagem.

Como adjuvantes, podemos apresentar o pai de Barbosa, para Lenita (além da natureza, o grande adjuvante, de acordo com observações anteriores), é a condição de marinheiro, para Amaro. É claro que o detalhe poderia levar à consideração de mais alguns elementos que pouco ou nada acrescentariam ao desenvolvimento mesmo da narrativa e, consequentemente, de sua análise desenvolvida até aqui.

Outros personagens aparecem nas narrativas estudadas, mas sua função é aparentemente decorativa ou complementar, principalmente em algumas situações dramáticas.

A apresentação dos personagens principais acompanha a necessidade de comprovação das teses caras ao Naturalismo. É bom que se note o tom ético-moral dado a cada detalhe físico da aparência e da personalidade de cada um. Os traços vão compondo um outro elemento que vai desempenhar determinado papel no roteiro instituído pelo discurso do autor. Aqui, pode-se adiantar, encontramos um procedimento de profunda importância e grande rendimento no corpo da narrativa como um todo.

A integração da presença do elemento humano, o personagem, com a ação, determina uma relação de grande importância para o nosso trabalho: o tempo.

Em suas categorias – ordem, ritmo, pseudo-cronológico e distância temporal – o tempo oferece uma credencial bastante importante para o rendimento narrativo.

A apresentação de cada fato, em sua ordem supostamente natural e lógica, oferece a Bom crioulo a oportunidade de se desenvolver num ritmo “normal”. Não há grandes paradas ou diminuição no ritmo de desenvolvimento da história. A não ser pelo segundo capítulo, que retoma fatos anteriores ao início da narrativa – um rápido flashback. A narrativa de Adolfo Caminha se desenvolve numa linearidade paulatina que não se deslo­ca cronologicamente. A ambientação do romance corresponde à época mesma de sua publicação. Tal observação coloca por terra a possibilidade de distanciamento temporal, que, por sua vez, tem influência direta na voz narrativa e na perspectiva narra­tiva. O autor não se distancia, ou pelo menos, não parece que­rer tal atitude no desenvolvimento de seu discurso. Prevalece a linearidade.

Júlio Ribeiro consegue quebrar o ritmo de sua narrativa com a intromissão de cartas trocadas entre o casal protagonis­ta. Ha ainda as incríveis descrições botânicas e zoológicas que interrompem o desencadear de determinadas sequências, cri­ando bolsões de tempo, quando nada acontece[12].

Nos dois casos, a voz narrativa não se distancia muito do próprio discurso. Esta observação já foi feita com relação a Bom crioulo e parece confirmada em A carne.

Nos dois romances, o tempo do universo diegético parece ser o mesmo do universo real, mesmo que, aparentemente, possam ser estabelecidos pequenos saltos. Se fossem feitos gráficos determinantes da relação de fluxo entre tempo da narrativa e tempo da história, as linhas seriam praticamente paralelas em sua verticalidade, quase que absolutamente constante[13].

Põe-se agora, como passo final, a consideração de três elementos quase conjuntamente tomados sob o mesmo problema: a situação narrativa, a voz da narrativa e a perspectiva narrativa.

Apresentando caráter especificamente técnico, a situação da narração aparece como relação estabelecida entre narra­dor e leitor. Exerce influência direta sobre a voz narrativa e indireta sobre a perspectiva narrativa.

Nos dois romances, o narrador não se faz presente na narrativa, ele funciona quase como a câmara de visualização dos fatos narrados. Sua presença se faz sentir no discurso de maneira maciça. Dizemos isto porque há sempre a presença de impressões que não parecem ser a dos personagens mesmo. Os comentários deflagradores de sua intromissão não são tão eviden­tes, mas os posicionamentos éticos e estéticos nos dizem o contrário.

A voz narrativa é a do próprio autor, heterodiegético, que, impessoalmente, vai descrevendo a história sem a preocupação de privilegiar a visualização de um dos personagens. Quem conta a história é o narrador. Ele sabe de cada passo, cada pensamento, cada intenção dos personagens. A reprodução dos diálogos, a preparação e comentário de determinados fatos e cenas e o desenlace de cada intriga, são resultado do trabalho do narrador.

Podemos dizer, com bastante segurança, que a variação dos modos narrativos (narração pura, diálogo direto, indireto e indireto-livre) comprovara a superioridade, a onisciência – para utilizar um termo de vasta amplidão, mas pouca consistência – do próprio narrador, em relação ao discurso desenvolvido.

Aqui, merece especial atenção uma comparação generaliza da com a narrativa de Germinal, romance adotado como parâme­tro para nossa leitura trabalhada.

Ha dificuldade acentuada, no nosso caso particular, em determinar, com clareza satisfatória, a questão da voz narrativa.

Não temos, em nenhum dos dois romances brasileiros, um personagem privilegiado pelo autor na visualização das cenas,como Etienne, no caso de Germinal.

No caso de Bom crioulo, a narrativa se desenvolve a partir de Amaro. Lenita tem a mesma característica em A carne.

Apesar desta orientação, não podemos adiantar a conclusão de que estes dois personagens tenham o privilégio que caracteriza o romance de Zola, como acabamos de citar. Eles apenas determinam o jogo actancial das narrativas, nas quais se inscrevem. Eles colocam determinados objetivos particulares e contam com a adaptação de certos elementos do universo diegético para a conclusão dos mesmos. A particularidade desta evolução reside no fato de que estes encaminhamentos não se fazem pelo personagem privilegiado, mas pelo próprio autor que vai orien­tando cada passo.

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Conclusão

Encontramos, no notável romance francês, Germinal, a realização plena de todos os objetivos colocados pela estética naturalista do romance, teorizada e praticada por seu maior nome: Émile Zola.

Neste romance, encontramos um exemplo de integração completa de todos os elementos narrativos, textuais e extratextuais. Ele é um resultado tão completo, do ponto de vista téc­nico e de linguagem, que podemos chegar nele por diversos caminhos. Em outras palavras, infinitas são as portas por onde de­senvolvemos caminhos que abordem os mais diversos temas da es­tética à qual se filia.

Ao estabelecermos um confronto entre este romance e os dois outros, podemos sentir que, no caso dos romances brasileiros, há um atendimento pronto e imediato às grandes teses do Naturalismo. Principalmente aquelas voltadas pera as linhas mais escandalosas ou evidentes desta estética.

Os personagens de Zola têm apresentação clara, não per­dem sua identidade como seres humanos e desempenham funções em nada dispensáveis. Todos os elementos se integram. Esta frase fecha as possibilidades de discursos redundantes acerca da obra do escritor francês.

Os dois romances brasileiros pecam por várias “duvidas”, em vários aspectos de sua construção. De maneira geral, a integração de todos os elementos e pretendida, obedece a critérios conhecidos, cede seu poder à força de resultados imediatos, que acabam por minar o campo de sua fecundidade.

O espírito de busca da verdade científica sobrepõe-se, de maneira grosseira, aos procedimentos estéticos e narrativos necessários para a conformação dos textos, no plano universalizante proposto, de certa forma, pelo escritor francês, que sempre vai servir de exemplo e modelo para as criações nacionais dentro da estética naturalista.

A linearidade da narrativa, expressa pelo discurso do narrador deixa lacunas quase que absolutamente impedidas de preenchimento, uma vez que os fios narrativos – e, aqui, o plural é utilizado de maneira especificamente retórica – não con­seguem tecer uma trama que seja digna de comportar uma aborda­gem a nível de filigrana, tanto nos aspectos de conformação intrínseca como nos de rendimento dentro do plano narrativo desejável.

A discussão de problemas ética e moralmente condenáveis para a época, marcando o caráter escandaloso dos discursos de­senvolvidos nas duas narrativas, não ultrapassa os limites de abordagens tacanhas e muito reduzidas em suas possibilidades de discussão.

A coerência filosófica, sociológica e psicológica em alguns dos motivos temáticos não merecem, por parte dos dois escritores considerados, a atenção devida. O desdobramento de polêmicas, veiculado na evolução de uma possível “trama”, per­de sua essencialidade limitando as possibilidades dos romances. Tantas negativas parecem destruir, por completo, qualquer tentativa de valorização das obras analisadas. Não e bem assim. Enquanto obras de arte literária, numa consideração fenomenológica de sua construção estética, elas merecem toda uma carga de atenção e valorização. Em contrapartida, são conside­radas a partir de um plano estético específico – como é o do Naturalismo, proposto por Zola.

Não podemos deixar de levar em consideração o jogo entre teoria e prática de Zola. Em seu romance, magistral, ele dá cabal prova de todos os postulados levantados em sua teoria na­turalista do romance, eminentemente desenvolvida no Romance Experimental.

No caso dos dois romances brasileiros, vemos uma concentração intensa de esforços, dos dois autores, em levar a cabo algumas proposições estéticas. Eles se apegam quase que indissoluvelmente à teoria de Zola. Sua prática não chega a constituir correspondência com a do escritor francês.

Guardadas as devidas proporções, na comparaçao da indi­vidualidade artística, mantida em qualquer atividade intelectual, não podemos deixar de chegar à conclusão de que a prática dos escritores brasileiros deixa muito a desejar em relação à de Zola.

Neste momento, percebemos, correndo o risco de sermos plagiadores de opiniões alheias, a extrema histericidade de nosso Naturalismo, em suas proposições teóricas como em seus procedimentos narrativos. Baldado esforço de Adolfo Caminha e Júlio Ribeiro nestes romances!

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Bibliografia

BEUCHAT, Charles. Histoire du Naturalisme. Paris, Éditions Correa, 1949, p. 13-35.

CAMINHA, Adolfo, Bom crioulo. São Paulo, Editora Ática, 1983. (Serie Bom livro)

RIBEIRO, Júlio, a carne. 18. Ed, São Paulo, Livraria Francisco Alves, 1944.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira: seus fundamentos econômicos. 41 ed, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1964.

ZOLA, Émile. Le roman experimental. Paris, Garnier-Flammarion, 1971, p. 59-97/213-235.

Notas e apontamentos de aulas: incluem observações feitas pelo professor, que veiculam toda uma bibliografia, extensa e complexa da narratologia moderna, que não vem citada explicitamente. (Trabalho final da disciplina “Tópicos especiais em Literatura Comparada”, Profª Neide de Faria)


[1] Salvo qualquer engano, esta expressão foi utilizada por Nelson Wemeck Sodré, obra citada na bibliografia deste1 trabalho.

[2] Verificar a indicação completa na bibliografia.

[3] Sempre que necessário e possível, faremos referência a este romance, uma vez que esta análise contrastiva encontra nele seu parâmetro absoluto de comparação. Dentro da estética naturalista, este fato não pode ser descartado.

[4] A comprovação ou admissão de afirmativas veiculadas no corpo da análise encontrarão sua resposta na conclusão do trabalho. O questionamento constante e “aberto” tentará levar a dúvida a um “crescendo” que proporcionará conclusões mais alusivas.

[5] Estas observações se baseiam em ilustração da capa de uma edição que não foi utilizada na leitura para a análise. Seus elementos, no entanto, enriquecem a observação da influência do título no estabelecimento de uma possí­vel poética do romance naturalista brasileiro.

[6] Voltamos a insistir no caráter de possibilidades e questionamentos que orientam nossas observações. Não estamos querendo atribuir ao autor, atitudes e procedimentos narrativos não desenvolvidos por ele.

[7] Estas primeiras observações servem de justificativa para o título desta parte do trabalho e da própria acumulação de dados e comentários realizados a partir da análise da estrutura apresentada.

[8] Poderíamos tomar este aspecto como confirmação da tese que defende o caráter determinista advogado pelo Naturalismo no Brasil. O “crioulo” só poderia fazer o que fez da mesma forma que engravida sem casar. Há uma profunda conotação ética em cada palavra, cada gesto.

[9] A passagem de Amaro pelo hospital se constitui um exercício de penetração psicológica na personalidade do persona­gem. É um momento caro ao romance naturalista, desenvolvido com bastante qualidade e rendimento por Adolfo Caminha. Note-se que a ausência de Aleixo á completa…

[10] Não queremos, aqui, criar polêmicas acerca das possibilidades deste elemento narrativo e seus possíveis rendimentos num romance. Acreditamos em seu valor estético,além do narrativo. A redundância da frase nos parece necessária.

[11] Aqui nos remetemos ao motivo temático da gravidez moralmente condenável, já apresentada anteriormente, e de presença tão marcante em tantos outros romances – não só naturalistas.

[12] Este aspecto particular, a nosso ver, pode ser tomado como procedimento narrativo tendente a desenvolver cer­to caráter científico do texto literário, como forma de responder a uma busca generalizada do Naturalismo em sua condição estética.

[13] Referência aos gráficos de Ricardou, em obra comentada em sala de aula.