Primórdios VI

Análise contrastiva de romances naturalistas brasileiros: Bom crioulo e A carne

Introdução

            A presente monografia e o resultado de estudos feitos durante o primeiro semestre letivo deste ano de 1986, na busca de traços marcantes de uma estética naturalista própria do ro­mance brasileiro; a partir da análise contrastiva de dois romances, que vão citados na bibliografia.

Não há preocupação – por força das circunstancial – de aprofundar, em sua totalidades, todos os extratos encontrados em narrativa literária. Tomamos por princípio de orientação e sistematização de trabalho, um gráfico mínimo de análise, onde os tópicos procuram estabelecer grandes linhas de análise que, de certa forma, podem ser aplicados a qualquer tipo de narrativa.

Tomando como base as diversas conceituações de Naturalismo, temos que concordar com certa observação que diz ser este movimento, no Brasil, um movimento “histérico”[1].

Podemos notar que tal expressão se deve a uma evidente falta de sistematização do trabalho criativo de nossos escritores naturalistas. Normalmente, tal categoria é estudada por nossas historiografia e crítica como um conjunto binário, ao lado do Realismo, o que faz com que deixemos de lado uma consideração particularizada de cada um dos elementos, de forma a determinar, com clareza, as características básicas de um pos­sível “Naturalismo brasileiro”.

Não podemos deixar de falar na apresentação teórica e prática do Naturalismo, idealizada e realizada por seu grande mestre Émile Zola.                           

Profundamente impressionado por leituras contemporâneas, e interessado em tudo que dizia respeito ás descobertas científicas, principalmente na área biomédica, o escritor francês vai propor toda uma teoria do romance que acaba por se constituir num “manifesto” do Naturalismo.

Para não deixar de lado uma tradição reconhecida, é na França que floresce o novo “movimento” literário, que difunde, era suas entrelinhas, as ideias preconizadas por Zola. Muitas delas baseadas na obra de Charles Beuchat[2].

A história do Naturalismo oferece ao escritor francês todo um ideário científico que vai ser motivo de preocupação, análise e transformação, em discurso literário, de altíssimo nível artístico.

Indiscutivelmente, é no ciclo dos “Rougon-Macquart” que Émile Zola se solta completamente, dando asas à sua imaginação criadora, domada apenas por um senso de organização e trabalho, poucas vezes superado no meio literário. Pode-se dizer que, é com ele que um painel da vida francesa, e, por extensão intrínseca, universal, ganha definição através de sua obra, estruturando-se em grandes linhas de desenvolvimento, que terminaram por consagrar o Naturalismo.

A preocupação com as movimentações da alma humana, a análise das relações sociais como germe de modificações estruturais desta mesma natureza, o caráter científico de observações detalhadas do homem no seu meio e algumas outras grandes linhas, acabam sendo tomadas como fundamento de um Naturalismo que se espalhou pelo mundo, quase que absolutamente vivificado pela obra de Zola.

A narratologia moderna, com sua inovação sistemática de trabalho científico resgata detalhes de gênese da obra de arte literária, que podem servir de aporte técnico necessário para conclusões mais profundas, sérias e definitivas. Suas especulações não fornecem modelos para aplicação direta, posterior, mas descreve comportamentos técnicos – de certa forma – recorrentes, para, a partir deles, postular alguns princípios fundamentais e indissociáveis de um estudo estético de obras literárias bem acabadas.

O presente trabalho se orienta a partir destas duas vertentes consideradas no âmbito da Literatura Brasileira.

Não é de nosso interesse imediato apresentar conclusões definitivas, mas apenas tentar veicular observações, suposições e fatos dentro de um plano quase que absolutamente estético.

Não estamos fechados a observações críticas que podem, sempre e mais, enriquecer as conclusões a que chegarmos.

***

Considerações gerais

1. Do título

            Ao depararmos com o título de qualquer livro, criamos uma expectativa muito grande em torno da história a ser contada por partirmos de associações imediatas, que remetem a outro universo (ou universos) de conhecimentos, experiências e, mesmo, expectativas já existentes em nós.O leitor sempre se deixa levar pelo nome do livro (e, pela ilustração da capa, consequentemente) na hora de sua escolha de leitura. Nosso inconsciente é muito mais forte que nos­so espírito crítico. Mesmo que seja custoso admitir isto.

Podemos medir ou considerar o maior ou menor grau de qualidade de um livro, através da força de integração realiza­da pelo autor, entre a história narrada e o título que a nomeia. Isto, sem nos esquecermos de que a integração se dá também entre todos os outros elementos da obra de arte. Um exemplo magistral é Germinal, de Émile Zola[3].

O nome do romance francês nos remete à ideia de germinação, germe, geração. Podemos perceber de imediato que o paren­tesco do radical destas três palavras é absoluto. Ele é praticamente o mesmo.

Com a leitura do romance, percebemos que a integração desta palavra (e de todas as remessas por ela levantadas) com a narrativa desenvolvida não carece de pontos de contato, e mesmo de comprovação. Os fatos e personagens principais, as situações dramáticas primordiais, vão revelando este contexto de nascimento, de formação de algo novo.

Não podemos, nunca, deixar de admitir a absoluta influ­ência da Literatura Francesa sobre a nossa. Em muitos casos, o resultado desta se fez sentir com valores nacionais de grande expressão. Com o Naturalismo não foi diferente. Costuma-se falar que temos um Naturalismo histérico, como já aludimos ante­riormente. Talvez não fosse absolutamente indevido, associar esta conotação com um dos objetivos primários de nosso Naturalismo: o escândalo. Se partirmos para análise com este enfoque, não poderemos deixar de chegar às mesmas conclusões.

Aluísio Azevedo foi, dos escritores naturalistas, o que mais se aproximou – em termos de trabalho e criação – do “pai” francês. Temos outros autores. Adolfo Caminha e Júlio Ribeiro são dois deles, com os quais nos preocuparemos mais especificamente.

Bom crioulo é um romance que reúne elementos que, trabalhados com mais profundidade e cuidado estéticos, daria um excelente romance naturalista. As duas palavras que compõem o título nos levam a considerar uma temática racista da narrati­va. Esta é esperada. Parece que há intenção de se provar que o homem negro pode ser “bom, nos aspectos morais, religiosos, civis e até sexuais[4].

A capa do livro já nos induz ao problema racial – latente em algumas passagens do texto, mas pouco desenvolvido – que pode ser levado em conta. Uma caravela encima e emoldura o rosto de uma mulher branca de olhos azuis, ao lado de um negro com os traços estranhamente “delicados”. Sua beleza não pode ser negada, pelo menos em certo grau. A caravela já nos remete ao contexto da Marinha. Os dois rostos perecem formar o casal de um drama amoroso. As imagens vão fornecendo linhas de enca­minhamento possíveis, para a narrativa que vamos ler.

A carne já levanta suspeitas em relação ao sexo, ao pecado, ao erotismo e até à pornografia.

Em alguns detalhes, a nossa língua parece responder por uma riqueza semântica sem par. Com este título esperamos um livro ardente e até picante.

A capa[5] nos traz uma mulher sentada sobre uma almofada vermelha – de forma não muito definida – emoldurada por uma teia de aranha. É de se notar o clima de femme fatale que é criado, o que faz aumentar a expectativa, concentrada num pos­sível tom picante da narrativa.

Uma outra ilustração interessante é a de um pedaço de carne bovina, com filetes de sangue escorrendo de suas entranhas. Fica muito claro, então, a relação direta e possível de ser estabelecida entre a carnalidade humana e suas conotações eróticas e pecaminosas.

Um detalhe que, a nosso ver, não pode ser deixado de lado, é o de que o primeiro título é composto de nomes masculinos e o segundo de um nome feminino. Pode parecer insignificante a observação, mas. para a confirmação do caráter escandaloso de nosso Naturalismo, estes dois pontos nos revelam algumas asso­ciações interessantes, mais desenvolvidas com o correr da aná­lise.

***

2. Do tema

O estudo do tema tem chamado a atenção de muitos estudiosos, não só da atualidade, como de todas as épocas da crítica literária. Não ficaremos limitados a considerações de valor deste ou daquele posicionamento, relativas a este assunto.

Normalmente, o tema é único numa narrativa, comportando subtemas ou variações deste eixo central. O que assumimos neste trabalho é a determinação de temas, motivos e motivos temá­ticos; seguindo as orientações estabelecidas por um gráfico mínimo de análise, que visou minorar problemas de terminologia e conceitualização, para maior operacionalidade do próprio trabalho.

Adolfo Caminha apresenta três “possibilidades temáticas” para sua narrativa: a vida na Marinha, um triângulo amoroso entre raças diferentes e o homossexualismo.

A partir da leitura realizada, podemos dizer, com qua­se absoluta certeza, que o grande tema do livro é o homossexualismo masculino.

Passando por considerações acerca de detalhes da vida no mar, o autor não consegue explorar, com o devido e possível rendimento, as possibilidades narrativas criadas pelos elementos de níveis variados, com os quais o autor contou para desenvolver sua narrativa.

Podemos, então, esquematicamente, apresentar os principais motivos e motivos temáticos que poderiam ser mais explorados no próprio romance[6]:

– o amor homossexual masculino,

– o ciúme,

– o amor de um jovem por uma mulher mais velha,

– o castigo corporal para marinheiros insubordinados,

– o ninho de amor,

– o assassinato por ciúme,

– a vida de um marinheiro no mar e na terra.

A carne, narrativa quase linear, beirando o folhetinesco melodramático, não deixa de acompanhar, em seu tema, as ideias levantadas pelo título.

Poderíamos, de maneira geral, estabelecer para a narra­tiva o tema da sexualidade feminina.

É bem verdade que este, muito amplo, congrega motivos e motivos temáticos que esclarecem detalhes que poderiam ser mais explorados, mas que, de certa forma, são desenvolvidos por Júlio Ribeiro. Assim, temos:

– a sexualidade feminina,

– a gravidez moralmente condenável,

– o relacionamento sexual extraconjugal,

– a maternidade buscada,

– o suicídio,

– o casamento por necessidade de paternidade,

– os impulsos carnais estimulados pela natureza.

É claro que a expectativa criada pelo título se reflete na determinação de linhas temáticas possíveis, e estas, por sua vez, podem determinar fios narrativos, encadeamento de fa­tos, caracterização de personagens e definição de situações dramáticas.

Do ponto de vista de gênese da obra, podemos afirmar que a integração do título ao tema e deste (cumulativamente) ao discurso diegético da narrativa, determina o grau de quali­dade de uma obra literária.

Não há outra maneira de se conseguir uma boa narrativa se não houver esta integração. É claro que não desconhecemos a dinâmica própria de cada texto, de cada autor e, ainda, de cada época da História.

***

3.Dos demais extratos

A abordagem de todos os pontos do gráfico mínimo estabelecido para a análise narrativa e que foi utilizado – de maneira explícita – na primeira fase deste trabalho, nos dá uma vi­são do esqueleto das obras.

Uma dissertação que obedecesse às imposições de uma or­dem inflexível, transformaria o texto final num amontoado de comentários seriados e muitas vezes redundante.

O fato é que não podemos nos esquecer de que os pontos considerados no gráfico não podem aparecer ordenadamente de maneira inflexível. A narrativa não trabalha a partir de cumulação de dados, mas de tessitura de várias linhas de procedimentos peculiares a cada obra.

Desta forma, quando consideramos qualquer ponto do grá­fico – da narrativa propriamente dita, e não apenas do título e tema – temos que nos remeter, imediatamente, a pontos poste­riores ou anteriores que retifiquem observações feitas[7].

O primeiro passo será falar da ação. Não faremos qualquer subdivisão no corpo do texto.

Considerada como encadeamento dos fatos, a ação nos dois romances estudados quase não perde sua linearidade. A não ser no segundo capítulo de Bom crioulo, quando temos uma retrospectiva dos fatos narrados no capítulo de abertura como forma de justificar determinados fatos – a história não apresenta grande complexidade em seu desenvolvimento, descrevendo uma curva dramática ultra-simples, culminando num desenlace um tanto despropositado, sem muita preparação, e mesmo, coerência psicológica, em relação a seus protagonistas.

O gráfico possível de ser estabelecido, entre as linhas da história e a da narrativa não apresenta grandes variações, fazendo ver que o drama originário da história é um só.

A carne não apresenta estrutura diferente. O início da história não corresponde ao início da narrativa, uma vez que há alusões a fatos anteriores ao início desta. Lenita e Barbosa desempenham seus papéis numa linearidade dramática que não oferece grandes possibilidades de constituição de trama mais complexa.

O tema de cada uma das obras já nos coloca um universo reduzido de fios narrativos, uma vez que o aproveitamento dos elementos externos à narrativa não chega a ser satisfatória e completamente aproveitado. Abrimos aqui uma brecha para consideração do espaço nos dois romances.

A natureza está presente no universo diegético dos dois romances. O mar, a lua, as estrelas, a natureza e sua energia são elementos do meio cósmico da pouco rendimento nas duas narrativas.

Adolfo Caminha, ao colocar seu “crioulo” no mar, deixa escapar excelente oportunidade de mergulhar era grandes questões existenciais, que poderiam ocasionar um discurso naturalista da categoria dos de Zola.

Júlio Ribeiro vai um passo além. Muito pequeno, mas um pouco além.

A presença da natureza em seu romance chega a tomar co­res de funcionalidade e rendimento em seu discurso narrativo. É no seio da natureza, e sua exuberante presença – e beleza – que Lenita começa a vivenciar o desejo carnal e consequente amor por Oswaldo. Há um laço muito mais forte que chega a vislumbrar uma presença forte da mesma natureza decorativa.

Em relação a Bom crioulo, onde o mar e a natureza, como um todo, servem como pano de fundo para o desenvolvimento da narrativa, podemos dizer – com bastante segurança – que a natureza, como elemento do meio cósmico, chega a desempenhar a função de catalisadora de determinadas reações.

A mesma comparação não podemos fazer quando da consideração do meio social, caracterizando outra categoria espacial nos dois romances. Aqui, há uma corta coerência, pois em ambos os discursos a performance dos protagonistas acompanha os ditames impostos pelo meio social, não só da narrativa como dos personagens que dela participam. A posição social dos persona­gens não deixa dúvidas quanto à veracidade de suas atitudes, a não ser – e isto pode ser tomado como ponto comum às duas nar­rativas – no desenlace dramático da história. Suas atitudes não correspondem ao quadro pintado pelo discurso[8]. Ressalva deve ser feita para Amaro que, por força do ciúme, só podia ter procurado a morte de seu companheiro traidor. Não havia ou era saída para a resolução de seu drama interior. A sua paixão era muito grande e o senso de posse não deixava espaço para racio­nalizações que pudessem levá-lo a pensar em outra solução.

Em sua conotação mais primária e evidente, o espaço, nos dois romances, não perde nem ganha pontos. O conhecimento que dele têm os dois autores vai demonstrado na riqueza da descri­ção de cada ambiente. Como já foi dito, a intercomplementaridade entre os elementos é evidente, e dentro de cada um, a mesma relação se estabelece entre suas conotações.

Assim, o inventário dos lugares por onde se desenvolve a narrativa já remete ao clima propício ao desenvolvimento das cenas que vão descritas no discurso narrativo.

Não nos parece indevido, entretanto, considerar o espa­ço em sua funcionalidade, em relação aos personagens ou às si­tuações dramáticas.

Uma possível função para o espaço físico é mais que considerável, principalmente quando este propicia ou nega o desenvolvimento e conclusão de encadeamentos fatuais procurados pe­los próprios personagens dentro da intriga.

Em Bom crioulo, o navio – e, por extensão, a Marinha como instituição, marcando e determinando procedimentos sociais bastante característicos, peculiares mesmo – tem a função de adjuvante, em relação à paixão de Amaro por Aleixo (princi­palmente no início do romance, quando é descrito o processo de conquista e sedução e, também, a função de oponente (ver as cenas em que Amaro embarca na corveta para uma longa viagem e também as cenas do hospital)[9].

Na mesma medida, a variação se estabelece em relação à pensão de D. Carolina. Esta pode desempenhar as duas funções em relação à paixão que motiva toda a narrativa. Logo no início do romance, a pensão é adjuvante, quando acoberta a paixão dos dois marinheiros – com o consentimento e até incentivo de D. Carolina. Podemos perceber, inclusive, o tema do ninho de amor, ensejando uma circunstância dramática.

A natureza, em A carne, não só o meio físico é propício. Por extensão, o meio social quase conivente, com as re­lações extraconjugais de Lenita e Barbosa também o são. A natureza é adjuvante forte da descoberta de um corpo e de suas necessidades fisiológicas, desenvolvida por Lenita. Não haveria possibilidade de conciliar este processo, com a ajuda forte e determinante das forças da natureza.

Ao tentarmos uma comparação com Germinal, percebemos que o espaço – extrato particularmente caro ao romance naturalista – concorre para uma integração perfeita com os outros extratos, tornando a obra um todo coeso, compacto, de grande força e beleza estéticas. Isto, no caso do romance francês.

No caso dos romances brasileiros, temos um aproveitamento desintegrado dos outros extratos. Do ponto de vista da mon­tagem aos elementos na história contada, o espaço concorre pa­ra um enfraquecimento da narrativa. No entanto, o extrato, isolado em sua funcionalidade, ganha pontos que, se não enriquecem toda a narrativa, evidenciam progressos e preocupações férteis de nossos escritores.

O espaço, num romance, não teria muita razão de ser[10] se não colocássemos o elemento humano no cenário por ele cria­do. Num romance naturalista isto é fundamental. Sendo assim, passamos a falar do personagem.

Este elemento da narrativa pode ser apresentado ontologicamente, como entidade autônoma que desempenha um papel. Com esta observação, apresentamos as duas categorizações respeita­das por nossa análise: o personagem como ser humano e como função.

Nos dois romances, a função de seus personagens princi­pais (os protagonistas Amaro e Lenita) é a de fazer viável a comprovação da tese passível de justificativa dentro do tema levantado pela narrativa.

Este instrumento de operacionalização das principais te­ses do Naturalismo, encontram seus adjuvantes e seus oponentes. No caso da mulher órfã, a grande oponente parece ser a primeira mulher de Barbosa. Engano que vai se desfazendo com o desenro­lar da paixão nascente entre os dois e que encontra sua confirmação na busca de uma justificação moral para seus atos[11]. Sua oponente é, na verdade, uma imposição da moral social da época em que ela vive, particularmente.

Esta conclusão nos parece tão descabida! Mesmo se considerarmos a cerebralidade da personalidade de Lenita. É bom que se leve em conta, a força de atuação da natureza na descoberta da própria carnalidade, levando Lenita ao vislumbramento de sua maternidade necessária. Ela se descobre como ser que pode procriar, que pode repetir a criação da própria natureza. A atitude de afastamento em relação a Barbosa parece contradizer a liberalidade e maturidade intelectual da protagonista. No entanto, a patologia clínica nos apresenta muitos casos e exem­plos de reação contra a sexualidade quando do estado de gravi­dez. Tal afastamento pode ser procurado pelo homem e também pela própria mulher. Esta situação nos revela um ponto de forte cor naturalista, pouco explorado pelo autor e que poderia en­riquecer muito a narrativa.

Para Amaro, o oponente é uma mulher. De certa forma, esta oposição decorre também de um motivo temático fundamental – por nós tomado como tema do livro – o homossexualismo masculino.

Não estamos, com esta afirmação, deixando de levar em consideração a funcionalidade do espaço, como meio físico e como meio social – à qual já fizemos alusão – em relação ao personagem.

Como adjuvantes, podemos apresentar o pai de Barbosa, para Lenita (além da natureza, o grande adjuvante, de acordo com observações anteriores), é a condição de marinheiro, para Amaro. É claro que o detalhe poderia levar à consideração de mais alguns elementos que pouco ou nada acrescentariam ao desenvolvimento mesmo da narrativa e, consequentemente, de sua análise desenvolvida até aqui.

Outros personagens aparecem nas narrativas estudadas, mas sua função é aparentemente decorativa ou complementar, principalmente em algumas situações dramáticas.

A apresentação dos personagens principais acompanha a necessidade de comprovação das teses caras ao Naturalismo. É bom que se note o tom ético-moral dado a cada detalhe físico da aparência e da personalidade de cada um. Os traços vão compondo um outro elemento que vai desempenhar determinado papel no roteiro instituído pelo discurso do autor. Aqui, pode-se adiantar, encontramos um procedimento de profunda importância e grande rendimento no corpo da narrativa como um todo.

A integração da presença do elemento humano, o personagem, com a ação, determina uma relação de grande importância para o nosso trabalho: o tempo.

Em suas categorias – ordem, ritmo, pseudo-cronológico e distância temporal – o tempo oferece uma credencial bastante importante para o rendimento narrativo.

A apresentação de cada fato, em sua ordem supostamente natural e lógica, oferece a Bom crioulo a oportunidade de se desenvolver num ritmo “normal”. Não há grandes paradas ou diminuição no ritmo de desenvolvimento da história. A não ser pelo segundo capítulo, que retoma fatos anteriores ao início da narrativa – um rápido flashback. A narrativa de Adolfo Caminha se desenvolve numa linearidade paulatina que não se deslo­ca cronologicamente. A ambientação do romance corresponde à época mesma de sua publicação. Tal observação coloca por terra a possibilidade de distanciamento temporal, que, por sua vez, tem influência direta na voz narrativa e na perspectiva narra­tiva. O autor não se distancia, ou pelo menos, não parece que­rer tal atitude no desenvolvimento de seu discurso. Prevalece a linearidade.

Júlio Ribeiro consegue quebrar o ritmo de sua narrativa com a intromissão de cartas trocadas entre o casal protagonis­ta. Ha ainda as incríveis descrições botânicas e zoológicas que interrompem o desencadear de determinadas sequências, cri­ando bolsões de tempo, quando nada acontece[12].

Nos dois casos, a voz narrativa não se distancia muito do próprio discurso. Esta observação já foi feita com relação a Bom crioulo e parece confirmada em A carne.

Nos dois romances, o tempo do universo diegético parece ser o mesmo do universo real, mesmo que, aparentemente, possam ser estabelecidos pequenos saltos. Se fossem feitos gráficos determinantes da relação de fluxo entre tempo da narrativa e tempo da história, as linhas seriam praticamente paralelas em sua verticalidade, quase que absolutamente constante[13].

Põe-se agora, como passo final, a consideração de três elementos quase conjuntamente tomados sob o mesmo problema: a situação narrativa, a voz da narrativa e a perspectiva narrativa.

Apresentando caráter especificamente técnico, a situação da narração aparece como relação estabelecida entre narra­dor e leitor. Exerce influência direta sobre a voz narrativa e indireta sobre a perspectiva narrativa.

Nos dois romances, o narrador não se faz presente na narrativa, ele funciona quase como a câmara de visualização dos fatos narrados. Sua presença se faz sentir no discurso de maneira maciça. Dizemos isto porque há sempre a presença de impressões que não parecem ser a dos personagens mesmo. Os comentários deflagradores de sua intromissão não são tão eviden­tes, mas os posicionamentos éticos e estéticos nos dizem o contrário.

A voz narrativa é a do próprio autor, heterodiegético, que, impessoalmente, vai descrevendo a história sem a preocupação de privilegiar a visualização de um dos personagens. Quem conta a história é o narrador. Ele sabe de cada passo, cada pensamento, cada intenção dos personagens. A reprodução dos diálogos, a preparação e comentário de determinados fatos e cenas e o desenlace de cada intriga, são resultado do trabalho do narrador.

Podemos dizer, com bastante segurança, que a variação dos modos narrativos (narração pura, diálogo direto, indireto e indireto-livre) comprovara a superioridade, a onisciência – para utilizar um termo de vasta amplidão, mas pouca consistência – do próprio narrador, em relação ao discurso desenvolvido.

Aqui, merece especial atenção uma comparação generaliza da com a narrativa de Germinal, romance adotado como parâme­tro para nossa leitura trabalhada.

Ha dificuldade acentuada, no nosso caso particular, em determinar, com clareza satisfatória, a questão da voz narrativa.

Não temos, em nenhum dos dois romances brasileiros, um personagem privilegiado pelo autor na visualização das cenas,como Etienne, no caso de Germinal.

No caso de Bom crioulo, a narrativa se desenvolve a partir de Amaro. Lenita tem a mesma característica em A carne.

Apesar desta orientação, não podemos adiantar a conclusão de que estes dois personagens tenham o privilégio que caracteriza o romance de Zola, como acabamos de citar. Eles apenas determinam o jogo actancial das narrativas, nas quais se inscrevem. Eles colocam determinados objetivos particulares e contam com a adaptação de certos elementos do universo diegético para a conclusão dos mesmos. A particularidade desta evolução reside no fato de que estes encaminhamentos não se fazem pelo personagem privilegiado, mas pelo próprio autor que vai orien­tando cada passo.

***

Caixa de Texto: «


Conclusão

Encontramos, no notável romance francês, Germinal, a realização plena de todos os objetivos colocados pela estética naturalista do romance, teorizada e praticada por seu maior nome: Émile Zola.

Neste romance, encontramos um exemplo de integração completa de todos os elementos narrativos, textuais e extratextuais. Ele é um resultado tão completo, do ponto de vista téc­nico e de linguagem, que podemos chegar nele por diversos caminhos. Em outras palavras, infinitas são as portas por onde de­senvolvemos caminhos que abordem os mais diversos temas da es­tética à qual se filia.

Ao estabelecermos um confronto entre este romance e os dois outros, podemos sentir que, no caso dos romances brasileiros, há um atendimento pronto e imediato às grandes teses do Naturalismo. Principalmente aquelas voltadas pera as linhas mais escandalosas ou evidentes desta estética.

Os personagens de Zola têm apresentação clara, não per­dem sua identidade como seres humanos e desempenham funções em nada dispensáveis. Todos os elementos se integram. Esta frase fecha as possibilidades de discursos redundantes acerca da obra do escritor francês.

Os dois romances brasileiros pecam por várias “duvidas”, em vários aspectos de sua construção. De maneira geral, a integração de todos os elementos e pretendida, obedece a critérios conhecidos, cede seu poder à força de resultados imediatos, que acabam por minar o campo de sua fecundidade.

O espírito de busca da verdade científica sobrepõe-se, de maneira grosseira, aos procedimentos estéticos e narrativos necessários para a conformação dos textos, no plano universalizante proposto, de certa forma, pelo escritor francês, que sempre vai servir de exemplo e modelo para as criações nacionais dentro da estética naturalista.

A linearidade da narrativa, expressa pelo discurso do narrador deixa lacunas quase que absolutamente impedidas de preenchimento, uma vez que os fios narrativos – e, aqui, o plural é utilizado de maneira especificamente retórica – não con­seguem tecer uma trama que seja digna de comportar uma aborda­gem a nível de filigrana, tanto nos aspectos de conformação intrínseca como nos de rendimento dentro do plano narrativo desejável.

A discussão de problemas ética e moralmente condenáveis para a época, marcando o caráter escandaloso dos discursos de­senvolvidos nas duas narrativas, não ultrapassa os limites de abordagens tacanhas e muito reduzidas em suas possibilidades de discussão.

A coerência filosófica, sociológica e psicológica em alguns dos motivos temáticos não merecem, por parte dos dois escritores considerados, a atenção devida. O desdobramento de polêmicas, veiculado na evolução de uma possível “trama”, per­de sua essencialidade limitando as possibilidades dos romances. Tantas negativas parecem destruir, por completo, qualquer tentativa de valorização das obras analisadas. Não e bem assim. Enquanto obras de arte literária, numa consideração fenomenológica de sua construção estética, elas merecem toda uma carga de atenção e valorização. Em contrapartida, são conside­radas a partir de um plano estético específico – como é o do Naturalismo, proposto por Zola.

Não podemos deixar de levar em consideração o jogo entre teoria e prática de Zola. Em seu romance, magistral, ele dá cabal prova de todos os postulados levantados em sua teoria na­turalista do romance, eminentemente desenvolvida no Romance Experimental.

No caso dos dois romances brasileiros, vemos uma concentração intensa de esforços, dos dois autores, em levar a cabo algumas proposições estéticas. Eles se apegam quase que indissoluvelmente à teoria de Zola. Sua prática não chega a constituir correspondência com a do escritor francês.

Guardadas as devidas proporções, na comparaçao da indi­vidualidade artística, mantida em qualquer atividade intelectual, não podemos deixar de chegar à conclusão de que a prática dos escritores brasileiros deixa muito a desejar em relação à de Zola.

Neste momento, percebemos, correndo o risco de sermos plagiadores de opiniões alheias, a extrema histericidade de nosso Naturalismo, em suas proposições teóricas como em seus procedimentos narrativos. Baldado esforço de Adolfo Caminha e Júlio Ribeiro nestes romances!

***

Bibliografia

BEUCHAT, Charles. Histoire du Naturalisme. Paris, Éditions Correa, 1949, p. 13-35.

CAMINHA, Adolfo, Bom crioulo. São Paulo, Editora Ática, 1983. (Serie Bom livro)

RIBEIRO, Júlio, a carne. 18. Ed, São Paulo, Livraria Francisco Alves, 1944.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira: seus fundamentos econômicos. 41 ed, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1964.

ZOLA, Émile. Le roman experimental. Paris, Garnier-Flammarion, 1971, p. 59-97/213-235.

Notas e apontamentos de aulas: incluem observações feitas pelo professor, que veiculam toda uma bibliografia, extensa e complexa da narratologia moderna, que não vem citada explicitamente. (Trabalho final da disciplina “Tópicos especiais em Literatura Comparada”, Profª Neide de Faria)


[1] Salvo qualquer engano, esta expressão foi utilizada por Nelson Wemeck Sodré, obra citada na bibliografia deste1 trabalho.

[2] Verificar a indicação completa na bibliografia.

[3] Sempre que necessário e possível, faremos referência a este romance, uma vez que esta análise contrastiva encontra nele seu parâmetro absoluto de comparação. Dentro da estética naturalista, este fato não pode ser descartado.

[4] A comprovação ou admissão de afirmativas veiculadas no corpo da análise encontrarão sua resposta na conclusão do trabalho. O questionamento constante e “aberto” tentará levar a dúvida a um “crescendo” que proporcionará conclusões mais alusivas.

[5] Estas observações se baseiam em ilustração da capa de uma edição que não foi utilizada na leitura para a análise. Seus elementos, no entanto, enriquecem a observação da influência do título no estabelecimento de uma possí­vel poética do romance naturalista brasileiro.

[6] Voltamos a insistir no caráter de possibilidades e questionamentos que orientam nossas observações. Não estamos querendo atribuir ao autor, atitudes e procedimentos narrativos não desenvolvidos por ele.

[7] Estas primeiras observações servem de justificativa para o título desta parte do trabalho e da própria acumulação de dados e comentários realizados a partir da análise da estrutura apresentada.

[8] Poderíamos tomar este aspecto como confirmação da tese que defende o caráter determinista advogado pelo Naturalismo no Brasil. O “crioulo” só poderia fazer o que fez da mesma forma que engravida sem casar. Há uma profunda conotação ética em cada palavra, cada gesto.

[9] A passagem de Amaro pelo hospital se constitui um exercício de penetração psicológica na personalidade do persona­gem. É um momento caro ao romance naturalista, desenvolvido com bastante qualidade e rendimento por Adolfo Caminha. Note-se que a ausência de Aleixo á completa…

[10] Não queremos, aqui, criar polêmicas acerca das possibilidades deste elemento narrativo e seus possíveis rendimentos num romance. Acreditamos em seu valor estético,além do narrativo. A redundância da frase nos parece necessária.

[11] Aqui nos remetemos ao motivo temático da gravidez moralmente condenável, já apresentada anteriormente, e de presença tão marcante em tantos outros romances – não só naturalistas.

[12] Este aspecto particular, a nosso ver, pode ser tomado como procedimento narrativo tendente a desenvolver cer­to caráter científico do texto literário, como forma de responder a uma busca generalizada do Naturalismo em sua condição estética.

[13] Referência aos gráficos de Ricardou, em obra comentada em sala de aula.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s