Domingo no parque

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Li agora, de novo, uma frase atribuída a Churchil que diz: “Se você está atravessando um inferno, continue atravessando”. Faço duas considerações. A primeira diz respeito ao uso do pronome indefinido “um”. No discurso encerrado pela assertiva, esse pronome diz tudo, apesar de ser indefinido. Ele demonstra cabalmente que não um (numeral) inferno, mas vários. Sartre dizia, se não me equivoco, que “o inferno são os outros”. Ora, o cálculo de quantos “outros” há, ou poderá haver na vida de alguém, é impossível. Então, não há discussão: existem mais que um inferno. A segunda consideração se volta para a ideia de movimento. A frase indica que se deve continuar “atravessando”. Ora, o gerúndio é um modo verbal que denota exatamente isso: o movimento. Por outro lado, se se parar pra pensar, caso o sujeito que atravessa um inferno resolva parar por não conseguir suportar a travessia condenar-se-á a si próprio à eternidade infernal. O ato de continuar atravessando apresenta, ao menos, um opção: a de sair desse inferno, exatamente porque o atravessou. De mais a mais, se a Filosofia ensina, entre outras coisas, o significado de “moral”, deve-se chegar obrigatoriamente, à concussão de que insistir na travessia não é erro nem ignorância, é sabedoria: o gerúndio pode levar à solução. Essa pequeníssima digressão se deve ao fato de eu não conseguir aceitar a atitude de parte do funcionalismo público do Estado de Minas Gerais, quando, anteontem, “fecharam” importante rodovia da cidade, em nome de uma manifestação contra a decisão do governo do mesmo Estado em parcelar o 13º salário de 2018 e o restante da folha de pagamento ainda do ano passado em onze parcelas. Esta situação, a meu ver, revela uma e única coisa: a imbecilidade da atitude que se assemelha à daquele que resolve parar de atravessar o inferno circunstancial. Um: Impedir o direito de ir e vir é crime. Dois: o responsável por esta situação, anterior ao atual governo, é exatamente o governo imediatamente anterior – poderia até dizer que são os governos anteriores, mas o meu intuito é um tanto mais humilde no desenvolvimento desta argumentação que se quer consequente e lógica. Três: é até admirável o fato de o atual governo ter feito a proposta que fez e ter se mostrado decidido a fazer cumprir o que prometeu. Quatro: quer me parecer recoberta de lógica a atitude de se aceitar a proposta, em vista da absoluta falta de alternativa concreta. Cinco: o que é melhor, receber parcelado, ainda que demore, ou não receber? Bem. Isso tudo me faz pensar que estamos vivendo, creio que em todo o planeta – em que pese as recorrentes, ainda que raras, manifestações de atividade, decisão, proposta, invenção, modificação positivas – de difícil travessia. Um inferno. Há quem diga que isso faz parte de um processo de expurgo de males que se foram acumulando ao longo dos séculos desde que esse mundo apareceu no sistema solar. As variações deste tema são inúmeras e não me sinto preparado para discorrer sobre qualquer uma delas. Faço apenas referência. Quem quiser que vá buscas as fontes, as informações; vá fazer a pesquisa e chegar às conclusões. Isso, me parece, ainda é possível, sem ter que se pagar um tributo para além da necessidade. Bom domingo!

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Releituras

No início do ano coloquei uma meta para mim mesmo: reler os romances de Machado de Assis, na ordem de sua publicação. Mais pra frente pretendo fazer o mesmo com os contos e as crônicas. Só não faço com as poesias porque já tentei e não consigo gostar dos versos dele. Isso faz parte de um exercício mental para refrescar a mente como preparação para a leitura do novo romance do português João Tordo, que sai em Março, outros que ainda não li e dois ou três já lidos. Tenho tempo. Não tenho mais a obrigação de ler os livros como preparação para aulas. Nos últimos anos de docência, isso de falar sobre textos lidos por mim e supostamente pelos estudantes, causou-me imensos incômodos. Isso porque os chamados estudantes (não todos, evidentemente, sempre há exceções) simplesmente não faziam ideia sobre o que estava a falar, porque não leram o objeto de minhas considerações. Isso pode parecer despropositado. E é, muito mesmo! Mas essa foi a triste realidade de meus últimos anos de docência. Cheguei a afirmar, numa reunião departamental que havia naqueles três ou cinco anos finais conseguido me pós graduar em docência para desencarnados. Houve quem risse…

Machado de Assis é realmente um fenômeno cultural. Seus primeiros textos de narrativa longa são, na minha opinião, novelas estendidas: Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Em todos, os perfis femininos se equilibram com os masculinos, na representação ficcional de traços de caráter e de comportamento, quase exemplares. Esse conjunto de elementos descritivos se organiza num mesmo espaço: o Rio de Janeiro, de onde o escritor jamais arredou pé. As tramas se parecem, sempre e mais, à do conto em sua feição tradicional. A apresentação de um drama, geralmente amoroso, às vezes temperado com pitadas de questões morais e/ou políticas e adornadas de discussões filosóficas de amplo espectro constituem manancial mais que caraterístico deste autor. Até aqui nenhuma novidade. E não vou apresentada nenhuma também. Registro apenas a impressão dessa releitura, agora mais embalada pelos eflúvios do deleite genuíno da leitura que se faz sem o compromisso “acadêmico”. Retomo estes textos como um diletante, alguém interessado em gozar do processo estético que a mim é oferecido, mesmo sem o saber, pelo autor. De certa forma, ele sabia. Isso porque, a julgar pelas teorizações de Wolfgang Iser, enquanto escrevia, Machado de Assis delineava o desejado leitor que fosse capaz de acompanhá-lo nas sagas que compunha. Tanto é assim que, em muitos de seus livros – para não dizer em todos – a voz narrativa sempre se dirige diretamente z quem sustenta o volume diante dos olhos. Ainda hoje, tal expediente é rentável e provocativo, seduzindo o leitor, seja desavisado, ingênuo ou preparado. Estas três últimas três categorias são em sua nascença bastante discutíveis, mais ainda funcionam como vetores de orientação crítica. Em Ressurreição, temos uma história que se passa No Rio de Janeiro do século XIX. O Doutor Félix troca de amantes a cada seis meses e rompe com a última delas, Cecília. Viana, seu amigo, apresenta-lhe a irmã Lívia, uma bela mulher, viúva há dois anos, mãe de um menino de cinco anos. Começam a se relacionar como amigos, mas ao fim de alguns encontros e de algumas valsas os dois se apaixonam. De início vivem um amor discreto, oculto da sociedade. Porém, vários conflitos passam a ocorrer devido ao ciúme e desconfiança do protagonista. Depois de muitas idas e vindas, Felix acaba pedindo a viúva em casamento, mas volta atrás na véspera do matrimônio por causa de uma carta anônima com acusações falsas contra Lívia. Graças à intervenção do amigo Meneses, Félix se arrepende de seu gesto impensado e tenta se reconciliar, mas agora é Lívia quem não quer mais se casar com o médico desconfiado e instável. Já em A mão e a luva, o enredo conta a história de Guiomar, uma moça que de início (quando Estêvão se apaixona pela primeira vez por ela) está com 17 anos, afilhada de uma baronesa e deseja ascender socialmente. Ela é disputada por três homens: Jorge, Estêvão e Luís Alves. Estêvão tem caráter fraco, vacilante, indeciso, nascido mais para derrotas do que para vitórias. Jorge, sobrinho e preferido da baronesa, tem um amor quase ingênuo e, simultaneamente, um tanto malicioso. Luís Alves começa a admirar Guiomar apenas depois, com o passar do tempo. Porém, é um meio-termo entre os dois primeiros, pois ele é um homem resoluto e ambicioso. Jorge, com o apoio da baronesa e de sua governanta inglesa, Mrs. Oswald, pede a mão de Guiomar. No dia seguinte, Luís Alves faz o mesmo. Então, a baronesa pede a Guiomar que se decida entre os dois pretendentes. Ela diz que escolhe Jorge, porém a baronesa sabe que a afilhada quer casar-se com Luís Alves. Depois, Guiomar e Luís Alves casam-se e o trecho final do livro justifica seu título. No caso de Helena, a história começa com o anúncio da morte do Conselheiro Vale, pai de Estácio e irmão de Dona Úrsula. O Conselheiro é retratado como homem de boas relações, relativa fortuna e certo gosto pela vida boêmia. Em seu testamento, ele reconhecia uma filha natural chamada Helena, pedindo para a família que a recebesse assim que a menina saísse da escola. Já que a existência da moça era até então desconhecida para Estácio e Dona Úrsula, eles a recebem com sentimentos mistos. Estácio rapidamente acolhe a nova irmã e lhe conquista a confiança, enquanto Dona Úrsula resiste por algum tempo à ideia de dividir seus afetos com uma desconhecida. A vida prossegue harmoniosamente para a família do Conselheiro. Dona Úrsula adoece por um momento. Tendo notado o cuidado com que a nova parenta a velava, abandona todas as suspeitas a respeito de Helena. Logo o padre local (Padre Melquior) e outros amigos da família se afeiçoam por Helena e passam a tratá-la como alguém que sempre estivera na casa. Nesse meio tempo, Estácio se confronta com as imposições sociais comuns a um jovem abastado no Brasil da época: ele tem que casar-se e assumir um cargo público, duas ideias contra que resiste por certo tempo. A noiva que lhe fora designada, a frívola Eugênia, por vezes lhe causa profundo desagrado; um cargo público parece não corresponder a seus interesses pelas matemáticas e ânsia por liberdade tipicamente romântica. Helena, por fim, é aquela que parece guiar Estácio para os rumos esperados pela sociedade que os rodeia; durante o romance nota-se a crescente influência da meia-irmã nas decisões do moço. Helena também tem um pretendente; trata-se de Mendonça, antigo amigo de Estácio, de vida solta e recém-chegado da Europa. Estácio é acometido de profundos ciúmes pela união dos dois, sentimentos que saberá interpretar somente mais tarde, e relaciona-los-á com sua própria resistência contra Eugênia. É o padre Melquior quem desvenda o amor que Estácio nutre pela meia-irmã, apelando para que Estácio renuncie à sua paixão criminosa e siga uma vida normal. No mesmo instante em que a trama do amor proibido é desenrolada, surge uma complicação adicional. Descobre-se que Helena guardava um segredo o tempo todo, à primeira vista inofensivo; a moça tinha por hábito acordar cedo e fazer visitas a uma casa pobre, próxima à chácara do Conselheiro Vale, voltando antes de que seus parentes despertassem. Estácio é o primeiro a se preocupar com tais visitas, em grande medida por ciúmes, pondo-se a investigá-las junto a seus conhecidos. Ao fim, descobre-se que Helena visitava um homem, seu verdadeiro pai biológico (Salvador). No final do livro, Salvador conta como o Conselheiro Vale lhe roubara a esposa, a mãe de Helena, e optara por criar a criança como se fosse sua filha. Helena tinha consciência da história a todo momento, mas não contara a Estácio e Dona Úrsula a pedido de seus dois pais. Depois que a família descobre que Helena na verdade não foi filha natural do Conselheiro, em tese Estácio e Helena estariam livres para se entregarem ao seu amor, não mais incestuoso. Mas existem dois obstáculos: o primeiro, como lembra o padre, é o escândalo que representaria o rompimento dos compromissos já assumidos por ambos (com, respectivamente, Eugênia e Mendonça). O segundo é a crise de consciência de Helena por haver mantido a mentira que o pai e o Conselheiro Vale perpetuaram visando seu próprio bem. Ela também revela ter amado Estácio o tempo todo e haver intencionado unir-se com Mendonça por força da renúncia; uma vez que sente não poder recuperar a confiança da família do Conselheiro, adoece e morre em um período de sete dias. Por fim, Iaiá Garcia. Neste, Luis Garcia era um homem reservado (pai de Iaiá ) e que vivia exclusivamente por sua filha, Lina, uma garota mimada, que tinha toda a atenção de seu pai. Viúvo, vivia em uma casa mais afastada que se enchia de alegria quando Lina, ou melhor, Iaiá Garcia, chegava da escola. Na casa ainda havia um negro que era todo dedicado ao senhor e sua filha. No círculo pequeno de amizades de Luis estava a Sra. Valéria, também viúva. Esta tinha um filho, Jorge. E foi por ele que Valéria chamou Luis à sua casa. Acontecia que ela desejava mandar o filho à guerra do Paraguai e queria que Luis a ajudasse a fazer a cabeça do jovem. Justificava esse desejo afirmando que era seu dever como cidadão e também em referência às glórias e méritos que tais conflitos geram aos vencedores, não acreditando na morte do filho. Porém sua verdadeira razão era fazê-lo esquecer uma grande paixão. Estela Foi passar um tempo na casa de Valéria. E fora justamente essa moça que despertara em Jorge a paixão verdadeira. Jorge a amava e até chegou a se declarar e furta à moça um beijo, o que a fez resolver voltar à casa de seu pai. Mas ela apenas negava o amor que sentia, quando o descobriu logo acreditou na sua impossibilidade e o trancou para sempre ao fundo de seu coração. Jorge que fundia a realidade com romances tanto a sua paixão o ar literário, foi à guerra e lá se manteve fiel à paixão que em carta a Luis Garcia afirmava tê-lo transformado de criança a homem. Enquanto isso Estela não sofria de amores, seu sentimento era como que esquecido e ela mantinha-se orgulhosa, firme e até mesmo fria. Durante os anos em que Jorge ficou na guerra, Valéria, mesmo não acreditando em vestígios do romance de outros tempos, chamou Estela de volta à sua casa e viviam em perfeita harmonia. Como era seu intuito, a senhora falou à moça da necessidade de se casar e assim a segunda lhe disse que quando achasse o homem conveniente a avisaria. Nestas circunstâncias iniciou-se um convívio mais intenso entre a casa de Luis Garcia e de Valéria. Iaiá encantava a todos eles e ela e Estela logo se fizeram companheiras. Em seguida a menina deu a falar de um casamento entre seu pai e a companheira. Luis viu como as duas se davam bem, Estela viu como ele era um homem digno e assim se fez o casamento deles: companheirismo e respeito. Por fim, Jorge voltou da guerra – e cheio de glórias. Sua mãe já havia falecido. Ele também já sabia do casamento de Estela e, como sua família era amiga da de Luis, as visitas se fizeram necessária. Ele inicialmente se abalava enquanto ela era fria como dantes. Quando Luis Garcia se fez doente, a presença de Jorge se tornou mais presente e, como o doente lhe pedira que auxiliasse a família, ele passou a ser íntimo da casa da mesma forma que Procópio Dias era. A convivência ali era calma, no entanto, Iaiá que já se tornara moça parecia sentir por Jorge um desprezo injustificável. A doença de Luis Garcia teve fim, mas seus problemas no coração logo lhe tirariam a vida. Em certo tempo, em uma limpeza de papel que Luis fazia, encontrou ali a carta que Jorge lhe mandara lhe descrevendo seu amor fiel que se transformara de criança em homem. Achou graça de tal texto e deu-lhe para Estela ler. Ele não viu nenhuma das alterações por qual a esposa passara diante da carta, porém Iaiá viu. Em seguida a menina passou a desconfiar que houvesse entre a madrasta e Jorge um romance proibido que fosse mantido em segredo no coração dos dois. Nesse tempo também, Procópio Dias afirmava a Jorge o amor que tinha por Iaiá e pedia-lhe seu apoio, ainda mais porque se via obrigado a uma viagem ao Rio que demoraria quatro meses ou mais. Foi também aí que Iaiá mudou seu relacionamento com a madrasta e com Jorge. Para com Estela vivia de acordo a favorecer a paz doméstica e com Jorge se tornava amável. Este fez referência a ela sobre o amor de Procópio Dias, ao que a menina não mostrava nem um pouco de interesse. E bastaram esses meses que ele se mantinha fora para que Iaiá e Jorge iniciassem um romance, amavam-se de fato. Quando Procópio chegou já não se sentia tão abalado por Iaiá, mas ainda lhe guardava certa paixão. Ao mesmo tempo Luis Garcia sentia o peso dos problemas cardíacos que tinha e beirava a morte. Estela, que estava ciente do romance da enteada, não só afirmou se agradar de tal coisa como também incentivou o casamento dos dois o mais breve possível para que fosse possível a Luis Garcia ter o prazer de dar a bênção à filha. Infelizmente ele faleceu antes, Iaiá, que era profundamente ligada ao pai, ficou abalada por longo tempo e assim adiando seu casamento. Jorge, depois de certo tempo de luto, questionou à noiva sobre a data do casamento ao que ela respondeu com uma carta de rompimento. E encarregou ao negro fiel da família a entrega de outra carta a Procópio, tendo esperanças nos sentimentos que ele afirmara ter por ela. Jorge, como resposta a carta de rompimento, enviou outra a Estela perguntando o porquê da ação de Iaiá. Estela questionou à menina que respondeu que não poderia se casar com Jorge já que ela o amava. A madrasta, extremamente irritada, agiu até convencer Iaiá de que não havia amor nenhum entre eles e assim respondeu a Jorge que a carta da enteada não passara de um capricho. Por sorte, o negro achou melhor não entregar a carta a Procópio e assim o casamento de Jorge e Iaiá foi marcado e concretizado. Estela fora pra outra cidade onde arrumara um emprego. Seu pai, que nunca fora confiável para Luis Garcia, sempre viveu dos outros e desejava ver a filha junto a Jorge, não foi com ela. Madrasta e enteada trocavam cartas e no dia do aniversário de um ano da morte de Luis no cemitério Iaiá encontrou ali uma coroa deixada por Estela, a qual beijou como se fosse a madrasta, que sinceramente deixara ali flores ao falecido marido.

Antes de mais, devo agradecer a quem escreveu os artigos na Wikipedia, de onde tirei boa parte desta postagem. Além disso, como disse anteriormente, não disse ada de novo. A postagem teve apenas e somente o objetivo de expressar o meu prazer em reler o Machado de Assis. Punto i basta!

Vontade

Buza Ferraz morreu. Já faz um tempo. Dennis Carvalho ainda está vivo. Lembrei-me deles hoje pela manhã. Recebi mensagem com anexo: Rapsody in blue, com Leonard Bersntein ao piano. Uma peça estonteantemente linda, vibrante, contundente. Vai e volta em tons e semitons. A música de Gershwin foi tema de uma novela chamada Brilhante. Nela, os dois atores viveram um par romântico. A novela se arrasou entre 28 de setembro de 1981 e 27 de março de 1982. Nesta altura, imaginar cenas de intimidade e afeto mútuo entre dois homens ainda era uma coisa praticamente impensável. Lembro-me vagamente das entorses que diretor, roteirista e fotógrafo da novela tiveram que fazer para driblar a “moralidade” da época. A solução final, pareceu-me, então, adequada e suficiente. Cláudio e Inácio, personagens de Buza e Dennis, respectivamente, partem para Nova Iorque. Chica Newman (Fernanda Montenegro) mãe de Inácio observa, muito descontente, mas resignada (já fazem mais de trinta anos, pode ser que me engane), de longe. Os dois se olham, sorriem esfuziantemente e entram num túnel azul, simulando o corredor de embarque do aeroporto do Galeão, ao som da música e Gershwin. Tenho certeza da catarse experimentada por uma população já numerosa no rincão tropical. Mas nem uma palavra, nem um gesto efetivo, nem uma declaração explícita. A metáfora carregada de provocação fechava mais um capítulo da biografia de novelista do Gilberto Braga. Ouvi esta música fez-me lembrar de outra: Abertura 1812, de Tchaikovskyy. Esta, que eu me lembre, não fez parte de trilha sonora de novela. Escutei a peça, por primeira vez, aqui em Belo Horizonte. A produção foi completa: com sinos e canhões de verdade. Um sucesso. Quem já ouviu sabe do que estou falando. Emocionante!

Mas por que estaria eu falando disso, assim, sem propósito, do nada? Já não sei. O que sei é que de manhã, quando ouvir Gerschwin, deu-me vontade de falar o que fazei pro primeiro. Depois, ouvir Tchaikovsky foi mais que emocionante, em exercício de afeto memorial. Uma dessas delícias inefáveis. Fica assim então. Falei o que me deu vontade de falar. Penso que não devo ser condenado por isso…

Da terrinha

Jacinto Lucas Pires escreveu, no início de sua carreira, dois livros: Para averiguar do seu grau de pureza e Universos e frigoríficos. Já falei deste rapaz aqui e de alguns de seus livros. O que ocorre é que o prazer de ler sua obra me faz retornar à página em branco para comentar, com elogios, o que li. O primeiro é uma coletânea de treze narrativas curtas que podem ser lidas sob uma mesma perspectiva: a dos sentidos possíveis da palavra “janela”. Essa dica fica por aqui, para não estragar o prazer de quem se dispuser a ler o volume. O segundo é uma peça de teatro. Reli-os hoje. Do segundo, repetiu-se a ideia de ver a montagem dirigida pela Beth Lopes, professor de teatro que conheci em Santa Maria-RS e que hoje, se não me encontro em equívoco, trabalha na ECA-USP. Não sei porque, mas quando das leituras, a imagem dela dirigindo a peça me veio à mente. Talvez seja por conta da aproximação possível do texto do escritor português com a obras de dois outros dramaturgos que causam similar “incômodo”: Beckett e Ionesco. O espírito do absurdo paira sobre os dois. Um espírito comum aos dois estrangeiros, diferente, porém, do incômodo oriundo do absurdo que se lê em O estrangeiro, de Camus. Mas isso já é uma outra história..

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Do ouro lado

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Eu bem que poderia escrever sobre o congressista que se diz perseguido e ameaçado de morte e que vai embora de Pindorama. Ou então, poderia falar do recente acontecido em Brumadinho. Poderia, ainda, juntar minha voz, uma vez mais ao alarido contra a votação secreta no senado, quando da eleição de seu novo presidente – como se isso, de fato, fosse mudar alguma coisa. Poderia. Poderia, mas não vou. E já escuto, mesmo que ao longe, os murmúrios e ranger de dentes daqueles que torcem o nariz para tudo o que escutam e leem, que não seja exatamente o que pensam ou dizem. Há cáfilas e alcateias e miríades e bandos de indivíduos formando este coro. Como diria em Português castiço alguém um pouco mais paciente do que eu: estou cavalgando e claudicando… Ou então, poderia arrematar com mais uma, no mesmo Português castiço: pouco se me dá se a zêmula claudique, o que me almejo é acicatá-la. Olhei no Houaiss e “zêmula” não está registrado. Mas o adagiário popular tem razões que a própria razão desconhece. Não vou falar sobre nada disso. Retomo minhas escrevinhações sem futuro comentado um livro que li recentemente: A vida na sarjeta: o círculo vicioso da miséria moral, de autoria de Theodore Dalrymple. Não custa insistir num ponto: o conceito de moral recoberto pelo termo utilizado no título da obra, não tem a pretensão de esgotar sua discursividade sob a perspectiva filosófica tout court. Na verdade, o viés é muito mais comportamental, quase político e econômico, mas um tanto distante das elucubrações filosóficas em estado puro. O humor autoral é reconhecidamente a marca de mais este passeio pela cultura britânica, objeto de desejo do autor. Na verdade, o nome que usa em seus livros é um pseudônimo. Mas isso não interessa aqui. Pode ser que alguém fazendo dissertação ou tese receba orientação para se debruar sobre o assunto com a promessa de sucesso e celebridade acadêmicos: a reverência pela pontificação sobre o nada… Voltemos ao que interessa.
Observando a sociedade britânica, o autor faz uma espécie de passeio durante o qual vai pontuando situações, comportamentos, ideias e atitudes que fazem consolidar a ideia de que existe um certo movimento intrínseco que leva à conservação do status quo dos males sociais de que se recente a Grã-Bretanha (ou deveria dizer o Reino Unido? Ou ainda, Inglaterra? Ai que preguiça…). Pois é. Na página da Amazon, encontramos o seguinte: “Este livro é o relato pungente da vida da subclasse inglesa e das razões de as pessoas persistirem nessa vida, escrito por um psiquiatra britânico que cuida da clientela de baixa renda de um hospital de periferia e dos detentos de uma penitenciária de Londres. A percepção fundamental do Dr. Dalrymple é a de que a pobreza continuada não tem causas econômicas, mas encontra fundamento em um conjunto de fatores disfuncionais, continuamente reforçados por uma cultura de elite em busca de vítimas. O livro apresenta dezenas de relatos reveladores e verídicos que são, ao mesmo tempo, divertidos, assustadoramente horríveis e bem ilustrativos, escritos em uma prosa que transcende o jornalismo e alcança a qualidade de verdadeira literatura.” As aspas se justificam, dado que não se sabe quem escreveu o parágrafo acima. Assim, usando-as, escapo da vociferação daqueles que militam no patrulhamento dos deslizes linguísticos que grassam por aí. Sobretudo os alheios, bien sûr! O que o psiquiatra deseja, penso eu depois da leitura de mais este livro de sua autoria, é que falta muito tutano para muita gente dizer as coisas com todas as letras, como o faz o psiquiatria que escreve na íngua de Shakespeare. Já em outros título, é possível perceber a sua tranquilidade em dar nome aos bois. Essa famigerada balela de “politicamente correto” nem sombra faz no pensamento neste autor de que gosto tanto. Vale muito a pena ler suas páginas. A contundência de suas observações, apoia-se numa leveza consistente e divertida, sarcástica ao final, que faz das páginas de seus livros um exercício do mais puro prazer intelectual, sem as firulas que a igualmente famigerada celebridade costuma colocar como conditio sine qua non para um livro ser um sucesso. Theodore Dalrymple não está nem um pouco preocupado com isso. Eu também tenho me esforçado muito no exercício de não estar preocupado também. Fica, então o convite para quem quiser se deliciar com a leitura deste livro.

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Margarida

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O que é que, em nome de Deus, pode vir a significar a expressão “exigir que os governos tenham paredes de vidro”? Escutei esta assertiva numa entrevista de uma moça. Já não lembro do nome dela. Não me lembro ou meu inconsciente me impede de lembrar e de verbalizar o tal nome? Pode ser que ele esteja a me proteger de um mal maior. De um jeito ou de outro, ouvi isso e não consegui entender. A conversa girava em torno de criminalidade e prisão e polícia e política e… e… e… Fiquei enjoado. Desliguei o videoclipe e resolvi escrever estas mal traçadas.

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Comecei relatando a náusea por conta do aquecimento que gosto de fazer, sempre. Desta feita, uma lacuna na tal conversa de rádio foi a que poderia girar sobre a situação daqueles que são considerados velhos e já não servem para nada. Isso mesmo. Em pindorama também vige esta falácia de que ter mais de trinta aos de idade, não ter o corpo malhado, não vestir roupa da moda, não frequentar lugares descolados, não gostar de sertanejo universitário – outra expressão esdrúxula que significa quase menos que nada – é sinal de envelhecimento. Ah… esqueci de listar o uso de gíria vazia de sentido na linguagem oral e a escrita sincopada – pra não dizer errada mesmo – na escrita como dois outros critérios importantes nesta composição de um barema antropológico… Durma-se com um barulho desses. Sendo assim, resolvi escrever sobre três livros. Um de poesia e dois de narrativa.

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Eu conheço pessoalmente a autora. Convivi um período bastante alongado entre 1986 e 1988 com ela. Foi minha orientadora de mestrado, depois de ter sido professora de uma disciplina: teoria da narrativa. Uma mulher interessante, inteligente, bonita, simpática. Tive o prazer de reencontrar-me com ela ano passado, ocasião em que fui presenteado com um de seus últimos livros, Laminário (7letras, 2017). Um volume de poesias. Tenho ciência de que corro o risco de ser tendencioso na avaliação do volume, por isso não o faço. Atenho-me à sua apresentação e, para tanto, aproveito-me do que vai escrito na página da Amazon, mais uma vez: “Com amplo domínio de todas as ferramentas de seu ofício, da riqueza de vocabulário à variedade de temas, do ritmo à rima, e com um olhar sagaz – e mordaz – sobre as cenas, os jogos, os disfarces do cotidiano, Margarida Patriota estreia como poeta com a mesma desenvoltura com que vem construindo há vários anos uma sólida carreira de escritora. Laminário é uma daquelas obras que merecem várias leituras, pois sempre trazem alguma nova descoberta a cada visita.” Não acrescento muita coisa, a não ser que percebo, entre as linhas poéticas que compõem o volume, a incrível sensibilidade para o detalhe que define uma imagem, uma cena, uma situação. A sofisticada trama poética de que se serve a autora, consegue pescar a ambiência poética da constatação da derrota, do fracasso, da surpresa e da decepção, da alegria e da sagacidade, do sarcasmo, da melancolia. O fazer poético de Margarida é contundente. Os dois volumes de narrativa – Elas por elas (contos) A lenda de João o assinalado-Cruz e Souza, o poeta negro (romance). No primeiro, a celebração do feminino transcende a orgiástica sedução do gênero, para se debruçar, como no caso dos poemas, naquilo que poderia ser negligenciado por banal, corriqueiro, peculiar, quase intimista. Há qualquer coisa do universo de Clarice. O primeiro texto do volume é quase um grito de guerra, inclusive em sua concepção estrutural – o texto contínuo, caudaloso, verborrágico. Os contos se locupletam da constatação de um feminino longe de certo “feminismo” com telhado de vidro, sem deixar de ser combativo em seu lirismo revisitado. O olhar incisivo e o corte cirúrgico nas minúcia da cotidiana existência da mulher, sustentam uma narrativa fluída que prende, mesmeriza. Já o romance, faz-se homenagem ao poeta que, por tradição, iconiza o Simbolismo no Brasil. A trama se aproxima do que faz Mario Claudio com seus textos de “interferência ficcional” na biografia de seus protagonistas. Margarida o faz, com galhardia, ficcionalizando, à sua maneira, a revisitação, desenvolvida por sua narrativa, da vida do poeta brasileiro. Em todos estes três volumes, lê-se o exercício poético – no sentido mais amplo do termo – de uma mulher senhora de seus recursos, com a dosada sensibilidade de mulher atenta a seu tempo e à sua História. Mais que vale a pena procurar ler.

A imagem pode conter: Margarida Patriota, sorrindo

Iniciando o ano com lançamentos – NML #12

Um blogue que vale a pena!

Anatomia da Palavra

Livros empilhados e usados coleçãoImagem: Wikimedia. Licença (CC BY-SA 3.0).


Confira os melhores lançamentos que abrem o ano de 2019!


O início do ano nunca é um bom momento para lançamentos de livros. As editoras não fazem grandes anúncios, nem há muitas publicações saindo. Esse é um momento de planejamento para mais um ano de trabalho, um momento de (re)organização, novas contratações e mudanças.

Porém, algumas publicações bem interessantes já foram anunciadas, e, em breve, chegarão às prateleiras, tanto físicas, quanto digitais.

Quer conhecer alguns desses lançamentos? Continue lendo e confira!

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