Tradução

O gaiato abre a boca cheia de dentes para, numa prosódia lenta, arrastada, quase solene – o solene requer conteúdo elevado, por isso, o “quase” – comentar que certo time de futebol passou décadas desconhecido por que era “amador” e só passou a ter destaque depois que se tornou “profissional”. Confesso minha absoluta ojeriza e inquebrantável resistência ao uso destes termos, sobretudo no que diz respeito a esportes. Em se tratando de ludopédio, então, esta ojeriza, acompanhada da resistência se elevam a níveis inimagináveis. Entretanto, isso é chatice, muita chatice, mas permaneço com as mesmas convicções. Comento isso porque me peguei pensando no que leva um sujeito a escolher uma em vez de outra palavra, quando faz tradução de um poema. Sou leitor contumaz do jornal Rascunho. Confesso que, por muitas vezes, pensei em cancelar a assinatura para jamais ter que reviver a sensação angustiante de absoluta impotência diante do infinito desejo de ler o que lá se anuncia: os livros, meu Deus, os livros. Quanto mais se lê, menos se leu… a concorrência com o número de publicações é indecentemente injusta para os leitores. Mas continuo lendo as páginas do jornal de Curitiba. Na última edição, aparece a tradução de alguns poemas de Carl Rakosi. Penso que deve haver uma minúscula parcela da população do planeta que já tenha ouvido falar neste poeta de origem alemã. Interessante é notar que os poemas publicados e traduzidos no Rascunho estão apresentados em Inglês. Para mim, ainda que não goste em um pouco do idioma, facilita a expressão de mais uma de minhas chatices. Se estivessem publicados em Alemão, ficaria frustrado, pois não poderia dizer nada do que pretendo dizer… Trata-se da tradução de um poema pequeno. Aí vai ele, com a tradução publicada no Rascunho:

Song

On the wind

in the cool of the evening

I send greetings to my friend.

I ask him only to remember the day

Of our parting when we made a covenant

Of love by an apple tree.

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Canção

Sentindo o vento

No frescor da noite

Envio saudações a meu amigo.

Pedindo a ele desculpas para se lembrar do dia

em que nos despedimos, em que fizemos um pacto

de amor sob uma macieira.

Note-se que, já no primeiro verso, pode-se inserir uma dúvida: o uso do gerúndio verbal no lugar da preposição “On”. Penso ser interferência demasiada no verso original, pois a oração, em Inglês, a meu ver não suporta a tradução proposta. Eu traduzira quase literalmente: “No vento”. Pode ser que o tradutor tenha desejado manter o número de sintagmas do original. Vai saber. No segundo verso, o termo “cool” pode também ser traduzido por “calma” ou “frio”. Talvez “noite calma/tranquila”, poderia ser mais coerente com o sentimento traduzido pelo poema, enquanto lembrança. Portanto a ideia de frescor pode remeter a frieza, que vai em direção contrária ao conteúdo discursivo dos versos, supostamente, é claro! No primeiro verso da segunda estrofe, penso que a solução do tradutor também escorrega como no primeiro verso da estrofe anterior. A opção por manter o mesmo número de sintagmas, faz com que se perca a oportunidade de, uma vez mais, traduzir quase literalmente o verso original, mantendo a leveza do poema. Assim, em ugar do gerúndio, que conota continuidade, a tradução direta, em ordem igualmente direta – Eu peço a ele – manteria o clima do poema, ainda que o número de palavras fique diferente na tradução. Além disso, o tradutor extingue o termo “only”, o que faz com que, uma vez, mais a delicadeza do discurso poético seja mantida. O pedido é restrito a uma só ocorrência/oportunidade e, a meu ver, não carrega sentido de “cobrança”, mas de insistência afetuosa ligada à memória afetiva do solicitante. Repete-se, uma terceira vez, a mesma situação, com o penúltimo verso. A palavra “parting”, que pode significar despedida, partida, separação. A tradução, aqui, não é tão problemática. Entretanto, minha chatice não me deixa em paz e fico pensando se no lugar de despedida, a ideia poderia ser, mais especificamente de separação. Creio que é uma possibilidade, logo… O último verso, a meu ver, não faz tanta coceira no cérebro. Isto posto, apresento, para apreciação, a minha tradução:

Canção

No vento

na frescura da noite

Envio saudações a meu amigo.

Eu peço a ele apenas para lembrar do dia

De nossa separação quando fizemos um pacto

de amor sob uma macieira.

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