Margarida

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O que é que, em nome de Deus, pode vir a significar a expressão “exigir que os governos tenham paredes de vidro”? Escutei esta assertiva numa entrevista de uma moça. Já não lembro do nome dela. Não me lembro ou meu inconsciente me impede de lembrar e de verbalizar o tal nome? Pode ser que ele esteja a me proteger de um mal maior. De um jeito ou de outro, ouvi isso e não consegui entender. A conversa girava em torno de criminalidade e prisão e polícia e política e… e… e… Fiquei enjoado. Desliguei o videoclipe e resolvi escrever estas mal traçadas.

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Comecei relatando a náusea por conta do aquecimento que gosto de fazer, sempre. Desta feita, uma lacuna na tal conversa de rádio foi a que poderia girar sobre a situação daqueles que são considerados velhos e já não servem para nada. Isso mesmo. Em pindorama também vige esta falácia de que ter mais de trinta aos de idade, não ter o corpo malhado, não vestir roupa da moda, não frequentar lugares descolados, não gostar de sertanejo universitário – outra expressão esdrúxula que significa quase menos que nada – é sinal de envelhecimento. Ah… esqueci de listar o uso de gíria vazia de sentido na linguagem oral e a escrita sincopada – pra não dizer errada mesmo – na escrita como dois outros critérios importantes nesta composição de um barema antropológico… Durma-se com um barulho desses. Sendo assim, resolvi escrever sobre três livros. Um de poesia e dois de narrativa.

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Eu conheço pessoalmente a autora. Convivi um período bastante alongado entre 1986 e 1988 com ela. Foi minha orientadora de mestrado, depois de ter sido professora de uma disciplina: teoria da narrativa. Uma mulher interessante, inteligente, bonita, simpática. Tive o prazer de reencontrar-me com ela ano passado, ocasião em que fui presenteado com um de seus últimos livros, Laminário (7letras, 2017). Um volume de poesias. Tenho ciência de que corro o risco de ser tendencioso na avaliação do volume, por isso não o faço. Atenho-me à sua apresentação e, para tanto, aproveito-me do que vai escrito na página da Amazon, mais uma vez: “Com amplo domínio de todas as ferramentas de seu ofício, da riqueza de vocabulário à variedade de temas, do ritmo à rima, e com um olhar sagaz – e mordaz – sobre as cenas, os jogos, os disfarces do cotidiano, Margarida Patriota estreia como poeta com a mesma desenvoltura com que vem construindo há vários anos uma sólida carreira de escritora. Laminário é uma daquelas obras que merecem várias leituras, pois sempre trazem alguma nova descoberta a cada visita.” Não acrescento muita coisa, a não ser que percebo, entre as linhas poéticas que compõem o volume, a incrível sensibilidade para o detalhe que define uma imagem, uma cena, uma situação. A sofisticada trama poética de que se serve a autora, consegue pescar a ambiência poética da constatação da derrota, do fracasso, da surpresa e da decepção, da alegria e da sagacidade, do sarcasmo, da melancolia. O fazer poético de Margarida é contundente. Os dois volumes de narrativa – Elas por elas (contos) A lenda de João o assinalado-Cruz e Souza, o poeta negro (romance). No primeiro, a celebração do feminino transcende a orgiástica sedução do gênero, para se debruçar, como no caso dos poemas, naquilo que poderia ser negligenciado por banal, corriqueiro, peculiar, quase intimista. Há qualquer coisa do universo de Clarice. O primeiro texto do volume é quase um grito de guerra, inclusive em sua concepção estrutural – o texto contínuo, caudaloso, verborrágico. Os contos se locupletam da constatação de um feminino longe de certo “feminismo” com telhado de vidro, sem deixar de ser combativo em seu lirismo revisitado. O olhar incisivo e o corte cirúrgico nas minúcia da cotidiana existência da mulher, sustentam uma narrativa fluída que prende, mesmeriza. Já o romance, faz-se homenagem ao poeta que, por tradição, iconiza o Simbolismo no Brasil. A trama se aproxima do que faz Mario Claudio com seus textos de “interferência ficcional” na biografia de seus protagonistas. Margarida o faz, com galhardia, ficcionalizando, à sua maneira, a revisitação, desenvolvida por sua narrativa, da vida do poeta brasileiro. Em todos estes três volumes, lê-se o exercício poético – no sentido mais amplo do termo – de uma mulher senhora de seus recursos, com a dosada sensibilidade de mulher atenta a seu tempo e à sua História. Mais que vale a pena procurar ler.

A imagem pode conter: Margarida Patriota, sorrindo

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