Do ouro lado

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Eu bem que poderia escrever sobre o congressista que se diz perseguido e ameaçado de morte e que vai embora de Pindorama. Ou então, poderia falar do recente acontecido em Brumadinho. Poderia, ainda, juntar minha voz, uma vez mais ao alarido contra a votação secreta no senado, quando da eleição de seu novo presidente – como se isso, de fato, fosse mudar alguma coisa. Poderia. Poderia, mas não vou. E já escuto, mesmo que ao longe, os murmúrios e ranger de dentes daqueles que torcem o nariz para tudo o que escutam e leem, que não seja exatamente o que pensam ou dizem. Há cáfilas e alcateias e miríades e bandos de indivíduos formando este coro. Como diria em Português castiço alguém um pouco mais paciente do que eu: estou cavalgando e claudicando… Ou então, poderia arrematar com mais uma, no mesmo Português castiço: pouco se me dá se a zêmula claudique, o que me almejo é acicatá-la. Olhei no Houaiss e “zêmula” não está registrado. Mas o adagiário popular tem razões que a própria razão desconhece. Não vou falar sobre nada disso. Retomo minhas escrevinhações sem futuro comentado um livro que li recentemente: A vida na sarjeta: o círculo vicioso da miséria moral, de autoria de Theodore Dalrymple. Não custa insistir num ponto: o conceito de moral recoberto pelo termo utilizado no título da obra, não tem a pretensão de esgotar sua discursividade sob a perspectiva filosófica tout court. Na verdade, o viés é muito mais comportamental, quase político e econômico, mas um tanto distante das elucubrações filosóficas em estado puro. O humor autoral é reconhecidamente a marca de mais este passeio pela cultura britânica, objeto de desejo do autor. Na verdade, o nome que usa em seus livros é um pseudônimo. Mas isso não interessa aqui. Pode ser que alguém fazendo dissertação ou tese receba orientação para se debruar sobre o assunto com a promessa de sucesso e celebridade acadêmicos: a reverência pela pontificação sobre o nada… Voltemos ao que interessa.
Observando a sociedade britânica, o autor faz uma espécie de passeio durante o qual vai pontuando situações, comportamentos, ideias e atitudes que fazem consolidar a ideia de que existe um certo movimento intrínseco que leva à conservação do status quo dos males sociais de que se recente a Grã-Bretanha (ou deveria dizer o Reino Unido? Ou ainda, Inglaterra? Ai que preguiça…). Pois é. Na página da Amazon, encontramos o seguinte: “Este livro é o relato pungente da vida da subclasse inglesa e das razões de as pessoas persistirem nessa vida, escrito por um psiquiatra britânico que cuida da clientela de baixa renda de um hospital de periferia e dos detentos de uma penitenciária de Londres. A percepção fundamental do Dr. Dalrymple é a de que a pobreza continuada não tem causas econômicas, mas encontra fundamento em um conjunto de fatores disfuncionais, continuamente reforçados por uma cultura de elite em busca de vítimas. O livro apresenta dezenas de relatos reveladores e verídicos que são, ao mesmo tempo, divertidos, assustadoramente horríveis e bem ilustrativos, escritos em uma prosa que transcende o jornalismo e alcança a qualidade de verdadeira literatura.” As aspas se justificam, dado que não se sabe quem escreveu o parágrafo acima. Assim, usando-as, escapo da vociferação daqueles que militam no patrulhamento dos deslizes linguísticos que grassam por aí. Sobretudo os alheios, bien sûr! O que o psiquiatra deseja, penso eu depois da leitura de mais este livro de sua autoria, é que falta muito tutano para muita gente dizer as coisas com todas as letras, como o faz o psiquiatria que escreve na íngua de Shakespeare. Já em outros título, é possível perceber a sua tranquilidade em dar nome aos bois. Essa famigerada balela de “politicamente correto” nem sombra faz no pensamento neste autor de que gosto tanto. Vale muito a pena ler suas páginas. A contundência de suas observações, apoia-se numa leveza consistente e divertida, sarcástica ao final, que faz das páginas de seus livros um exercício do mais puro prazer intelectual, sem as firulas que a igualmente famigerada celebridade costuma colocar como conditio sine qua non para um livro ser um sucesso. Theodore Dalrymple não está nem um pouco preocupado com isso. Eu também tenho me esforçado muito no exercício de não estar preocupado também. Fica, então o convite para quem quiser se deliciar com a leitura deste livro.

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