(des)Autoria

Encontrei estes dois pequenos textos em um arquivo perdido no meu laptop. Não sei mais se fui eu quem os escreveu ou se copiei de alguém e me esqueci de registrar a autoria. Pelo sim, pelo não, vão aqui publicados pelas aspas. Se alguém, por acaso, descobrir a autoria, é favor me informar. Depois vão sair por aí dizendo que sou um plagiário. Tudo que não precisa acontecer comigo é algo parecido…

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“Cada um sabe de si. Mas há quem não saiba nada. Há quem pense apenas que o ser humano é um balão cheio de sentimentos e ideias vagando num universo habitado por alfinetes. A imagem não é perfeita, porque há balões e balões, assim como há alfinetes e alfinetes. Mas a ideia pode render alguma coisa. Mesmo num ambiente hostil, as ideias podem prosperar e não há que faça isso ser mentira, antes de um julgamento criterioso. Nesse mesmo ambiente alimentado pela hostilidade foram suas as palavras sobre aquele escritor português. Contra tudo e contra todos, àquela altura, as ideias foram como que esbofeteadas. O Mário de Sá-Carneiro. Não era possível condenar sem antes saber do todo.”

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“A palma das mãos vai ficando engelhada. Nos pés, mais exatamente nos calcanhares, uma bolinha incômoda, vulgarmente conhecida como esporão – será este mesmo o nome? – estava lá. Lembrava que um dia, tempos atrás, um remédio fiz com que desaparecesse. Mas cadê memória? Cadê lembrança? O nome escapava, acompanhada pelo tempo. Ainda assim, a esperança de poder entender o que se passara era mais forte. Mais forte que a própria vontade de seguir em frente. Seguia, mas por inércia, cedendo ao impulso da energia que faz a existência atravessar os atalhos e pistas deixados por Cronos. De nada adianta ter este tipo de certeza. O mais certo é que não havia escapatória. Os livros lidos, as lições estudas, os exemplos observados, nada disso conta. Mais vale saber que, um dia, mesmo inesperadamente, o sentido se apresenta. Pode ser de frente, na lata. Pode ser de repente, inesperado como um susto. As pessoas que acreditam na inteligência, no progresso e no entendimento, são as que tiveram uma infância infeliz. As outras, andam atônitas, quase zumbis, seguindo modas, acreditando em falácias, céleres para o abismo caminhando. Assim, não sei como é que leitores conseguem entender aquilo que se escreve. Depois de algum tempo, mesmo quem escreveu não sabe o sentido do que fez. Quando muito, pensa, em silêncio admirado “Fui eu mesmo?”. Ou por outra, desdenha: “Jamais escreveria tal bobagem”. Da mesma forma, fica difícil explicar porque a única coisa que torna possível a identidade é a ausência de mudança, mas ninguém acredita de fato que haja similaridade, quase semelhança entre o fato e o que se pensa do fato. Porque a contradição sei impõe, sempre, sem escapatória: quando sozinho, o desejo é estar acompanhado, e quando acompanhado, o contrário. Acreditar piamente, sem duvidar, de tal arbitrariedade de sentido é negar a própria capacidade de raciocínio. Isso pode ser a humanidade. É preciso muito tempo para formar-se gênio ou transformar-se num. Há que prevalecer o ócio criativo ficar sentado sem fazer nada, realmente sem fazer nada. Como Dorival, que criava poesia. Porque, ao fim e ao cabo, todo mundo tem medo da morte e se pergunta sobre seu lugar no universo. Por isso o poeta tem função: se não sucumbir ao desespero, vai encontrar antídotos para o vazio da existência, o veneno de pensar.”

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Inexplicável

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Dessas coisas que a lógica mais sofisticada não consegue explicar. Vinte e dois indivíduos que gastam tempo e esforço para correr atrás de uma bola, com o objetivo de coloca-la dentro de um quadrado com uma rede e, ó estupidez, ganham fortunas para tanto. A generalização aqui é permitida, o que não quer dizer que 100% da população que costuma gastar tempo e esforço para correr atrás de uma bola como celerados ganhe fortunas. Claro. A leis de Murph e de Gerson não combinam. De mais a mais, é preciso ressaltar que a estupidez é tamanha que existe o discurso falacioso, obviamente, que insiste em chancelar tal prática, carente de qualquer sentido, de profissionalismo. Como se profissionalismo fosse mesmo uma qualidade, ontologicamente sustentada. A gente sabe que não é… Há quem diga que tais indivíduos são atletas. Tenho minhas dúvidas. Atletas, eu diria, são aqueles que se dedicam ao esporte, pelo esporte, e não pelo sobrepeso de contas bancárias. De novo, a falácia do tal de profissionalismo não cola. Para completar é preciso não esquecer de que se esses 22 celerados quiserem não fazer nada direito, fazem e, para cúmulo do absurdo quem é dispensado é o técnico. Como se ele fosse o responsável – pelo menos o único! – pela derrota do “time…

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No outro lado desta moeda estão os incidentes ocorridos pelas alterosas. Um a mais tempo e outro muito recentemente. Mineradores cavam a terra, exaurem a terra, acumulam dejetos e não cuidam da manutenção. Simples assim. Daí, ocorrem os “acidentes”. Não vou dizer crimes porque vai que aparece um qualquer e me põe um processo de calúnia em cima. O incômodo vai ser meu, só meu, completamente meu. Por isso, fica acidente mesmo. Pois então. O acidente ocorre. Daí não tem mais jeito. Gritaria. Confusão. Sofrimento. Perdas. Mortes. Empobrecimento. Ruína. Parece a prefiguração do inferno. Para além de não assumirem a responsabilidade, as mineradores procrastinam, tanto quanto legalmente possível – e até impossível – para pagar o que deve. Deste momento em diante, qualquer alarme, e fazem desalojar mais gente. Tirar mais famílias de seu domicílio sob pena de ocorrerem mais acidentes. E as “autoridades” cumprem seu “poder”, assinando embaixo. Enquanto isso, as mineradoras continuam trabalhando, “produzindo”, gananciosamente enriquecendo, mais e mais… Durma-se com um barulho desses…

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Sei não, ou estou ficado mais rabugento com a idade, ou as coisas estão mesmo de ponta cabeça…

Tédio

Houve um tempo em que os estudantes usavam uniforme. Todos iguais nas filas formadas para entrar em sala de aula. Filas imensas, organizadas por altura, começando dos mais baixos. Em colégios confessionais, como o Salesiano, por exemplo, antes de entrar para as salas de aula, um padra fazia uma pequena prédica – geralmente versava sobra um santo do dia. Os alunos rezavam um Pai Nosso ou Ave Maria, cantava-se o hino nacional e então, em silêncio, todos iam para as aulas do primeiro horário. Quando o professor chegava, todos se levantavam, o que acontecia também quando o diretor ou diretora também vinham à sala. Esse ritual se repetia dos sete anos em diante. Sim. A escolarização começava aos sete anos no grupo escolar. Antes havia apenas o jardim de infância, dos seis aos sete anos de idade. A escola era para quem já tinha recebido educação em casa, até os seis anos de idade. Depois vinha o ginásio. No meu caso, antes, um ano para o curso de admissão, no Colégio Salesiano. Havia opção por fazer apenas o exame de admissão ou o curso intensivo de seis meses. Meus pais nos matricularam no curso extensivo. Depois o ginasial e então o científico. Havia também duas outras opções: o clássico, quase em extinção àquela altura, e o técnico, para o qual migrei, cursando Edificações, na antiga Escola Técnica Federal, depois CEFET, agora, ao que parece IFET. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Era um tempo em que se estudava a Língua Portuguesa, de verdade, Língua Pátria: conjugação de verbos, análise sintática, classes de palavras, formação de palavras. Havia muita decoreba, não vou negar. No entanto, o que se estudava era LÍNGUA PORTUGUESA. Da mesma forma que no curso de Letras que já peguei capenga, moribundo, vislumbrando o abismo no que se encontra metido por mérito próprio. Mas não vou por aí, como diria José Régio. Tinha pensado em escrever outra coisa, quando comecei hoje, mas saiu isto. Talvez seja efeito da canícula inclemente. Pode ser que seja mais um chiste do inconsciente. Ops… uma rima. Há ainda a possibilidade de ser absoluta falta de vontade de falar de qualquer coisa. Está tudo muito chato. Perdem-se amizades por contraditório. A dizer algo, há que se pensar 285 vezes antes, pesando e medindo cada palavra, cada inflexão, cada referência, cada ilação. Perdeu-se completamente o gozo da argumentação, o orgasmo do raciocínio que vai se desenvolvendo como colear de cobra na água. Tudo muito chato. Tudo muito imediato, sem espessura, quase sem cor, com sons estridentes e, geralmente, em desarmonia caótica. Tudo muito chato. Tudo muito esquisito. Pra finalizar, faço minhas as palavras do heterônimo:

“Tão dado como sou ao tédio, é curioso que nunca, até hoje, me lembrou de meditar em que consiste. Estou hoje, deveras, nesse estado intermédio da alma em que nem apetece a vida nem outra coisa. E emprego a súbita lembrança de que nunca pensei em o que fosse, em sonhar, ao longo de pensamentos meio impressões, a análise, sempre um pouco factícia, do que ele seja.

Não o sei, realmente, se o tédio é somente a correspondência desperta da sonolência do vadio, se é coisa, na verdade, mais nobre que esse entorpecimento. Em mim, o tédio é frequente, mas, que eu saiba, porque reparasse, não obedece a regras de aparecimento. Posso passar sem tédio um domingo inerte; posso sofrê-lo repentinamente, como uma nuvem externa, em pleno trabalho atento. Não consigo relacioná-lo com um estado da saúde ou da falta dela; não alcanço conhecê-lo como produto de causas que estejam na parte evidente de mim.

Dizer que é uma angústia metafísica disfarçada, que é uma grande desilusão incógnita, que é uma poesia surda da alma aflorando aborrecida à janela que dá para a vida – dizer isto, ou o que seja irmão disto, pode colorir o tédio, como uma criança ao desenho cujos contornos transborde e apague, mas não me traz mais que um som de palavras a fazer eco nas caves do pensamento.

O tédio… Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer – tudo isto está no tédio sem ser o tédio, nem é dele mais que uma paráfrase ou uma translação. E, na sensação directa, como se de sobre o fosso do castelo da alma se erguesse a ponte levadiça, nem restasse, entre o castelo e as terras, mais que o poder olhá-las sem as poder percorrer. Há um isolamento de nós em nós mesmos, mas um isolamento onde o que separa está estagnado como nós, água suja cercando o nosso desentendimento.

O tédio… Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio… É como a possessão por um demónio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma. Dizem que os bruxos, ou os pequenos magos, conseguem, fazendo de nós imagens, e a elas infligindo maus tratos, que esses maus tratos, por uma transferência astral, se reflictam em nós. O tédio surge-me, na sensação transposta desta imagem, como o reflexo maligno de bruxedos de um demónio das fadas, exercidas, não sobre uma imagem minha, senão sobre a sua sombra. E na sombra íntima de mim, no exterior do interior da minha alma, que se colam papéis ou se espetam alfinetes. Sou como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu.

O tédio… Trabalho bastante. Cumpro o que os moralistas da acção chamariam o meu dever social. Cumpro esse dever, ou essa sorte, sem grande esforço nem notável desinteligência. Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras vezes no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim.

De mim porquê, se não pensava em mim? De que outra coisa, se não pensava nela? O mistério do universo, que baixa às minhas contas ou ao meu reclínio? A dor universal de viver que se particulariza subitamente na minha alma mediúnica? Para quê enobrecer tanto quem não se sabe quem é? É uma sensação de vácuo, uma fome sem vontade de comer, tão nobre como estas sensações do simples cérebro, do simples estômago, vindas de fumar demais ou de não digerir bem.

O tédio… É talvez, no fundo, a insatisfação da alma íntima por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. É talvez a insegurança de quem precisa mão que o guie, e não sente, no caminho negro da sensação profunda, mais que a noite sem ruído de não poder pensar, a estrada sem nada de não saber sentir…

O tédio… Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o cepticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade.” (http://arquivopessoa.net/textos/4524)

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Reler Machado II

Na releitura que estou fazendo dos livros de Machado de Assis, algumas coisas se confirmam. Outras passam desapercebidas, como é de se esperar. Há, porém, ideias (para mim) novas. Definir “novo” é de uma dificuldade imensurável, quase impossível. A cada instante, o conceito se renova e se alarga. Pois bem. A primeira ideia que me ocorreu foi, a partir da releitura, constatar que nas primeira quatro obras de narrativa longa (ao patrulheiros da genologia que me perdoem, mas não cedo ao impulso de generalizar) – Iaiá Garcia, Helena, Ressurreição e A mão e a luva, o feminino impera. Em primeiro lugar, nos títulos: todos formados por palavras de gênero feminino. Dois nomes próprios e três substantivos comuns. Seguindo esta linha de raciocínio, nova “coincidência”: nos quatro livros, as mulheres são protagonistas, ainda que apresentadas e conduzidas (como a cinematográfica Miss Daisy!) por um narrador cuja voz é masculina, bem masculina. Ora, o detalhe pode ser superficial e sem sentido, mas, na releitura, seu papel é contundente. Deste pseudo feminino representado – de fato as protagonistas aparecem como marionetes na mão de um narrador cioso de seu papel, cônscio de seu “poder” e atento à sua “responsabilidade” – estas personagens poderiam levar o autor incauto a concordar com a falácia que reúne estas quatro obras num conjunto equivocadamente denominado de “fase romântica”. No caso de Machado de Assis, as aspas são mais que fundamentais… Não vou me ater a este pormenor, mas faço questão de deixá-lo, aqui, devidamente registrado e ressaltado. Digo isso porque, ao fim e ao cabo, o desempenho destas mulheres de papel não chega a alcançar a potência de heroínas românticas como reza o ABC do Romantismo já, a esta altura, mais que conhecido. De mais a mais, o romantismo das histórias atém-se a um certo movimento de vai e vem, bem ao gosto, este sim, do Romantismo mais castiço, sem, contudo, alcançar o ápice da tragédia que também marca o mesmo Romantismo. Há que acrescentar que a “solução” dada pelo narrador a para cada uma das tramas não pode ipso facto ser alcunhada de romântica. Falta-lhe mais estofo. O que não pode levar à desvalorização do trabalho estético de Machado de Assis. De fato, o escritor merece os epítetos que recebeu. Isto me leva a pensar no quinto livro, Memórias póstumas de Brás Cubas. De cara, fico pensando na tradição de chamá-lo de “romance”. Ai, ai… a minha chatice, uma vez mais, não se aquieta e se pergunta, sempre e mais, será mesmo um romance? Vamos ver. Já o título aumenta a dúvida, se aceita como pressuposto, uma vez que traz em seu sintagma nominal uma palavra que pode, se assim o quiserem, ferir de morte os puristas em/de todas as teorias acerca do romance. Trata-se de “memórias”. No sentido mais restrito, o termo não remete imediatamente para espécie bem definida da prosa, consubstanciada ao longo do século XIX. Não. No passo seguinte, o adjetivo “póstumas” já cria outro estranhamento, talvez mais perspicaz e incômodo, simultaneamente. Memórias, sem sombra de dúvida, há de ser algo póstumo. Deixando a tentação de vibrar a corda da redundância para dissonar o título do livro, lembro que o próprio texto machadiano apresenta uma chave para abrir esta porta e tentar “entender” do que se trata. Vejamos: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. Estranho. A dedicatória é posterior à escrita do livro. Até aí, nada. Mas esta mesma dedicatória é igualmente marcada pelo caráter de coisa passada… póstuma. O possessivo “meu”, que particulariza cadáver, descortina um sofisma abissal: quem escreve a dedicatória e, por consequência, o livro, a história, é um morto. O estranhamento se adensa quando se lê, antes, o verbo “roer”, no pretérito perfeito. Nenhuma dúvida quanto à condição do autor: defunto. Melhor dizendo, para acompanhar a tradição: o defunto autor. Aliás, é o próprio autor, Machado de Assis, que insinua isso logo a seguir, no “Prólogo”. Depois dele, o autor, Brás Cubas, escreve um pequeno introito, intitulado “Ao leitor”. Pronto. Está armada a confusão! E se pode aumentar a dúvida, quando da leitura do último parágrafo que diz: “Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Destaco, a título de curiosidade, sempre remetendo ao que disse no início, a expressão “… ao chegar a este outro lado do mistério…”. Creio não ser abusado afirmar que o tal mistério é, ambiguamente, a vida e a morte, ambos vivenciados por Brás Cubas. Além do mais, a assertiva fecha o raciocínio e negação que sustenta o parágrafo. Como quis o mesmo autor em outra circunstância, juntando as duas pontas, permanecemos no mesmo ponto: a dúvida. Trata-se mesmo de um romance? Vale lembrar que as histórias narradas são mais episódios vivenciados e rememorados pelo autor defunto, o que não faz deles células dramáticas na/da construção do tecido narrativo peculiar de um romance. Fica a dúvida. Há que ler e reler, para tentar esclarecer. Será que é possível?

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Reler Machado I

Na tentativa de completar a releitura dos romances de Machado de Assis (na segunda etapa, se conseguir vencer a preguiça, é reler a contística toda), deparei-me com uma ideia que, imagino, está longe de ser original. Nos quatro primeiros volumes Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Lívia, Guiomar, Helena e Iaiá são as protagonistas incontestes. A trama que as envolve é aparentemente simples. O advérbio se justifica pois, como é sabido, NADA em Machado de Assis é casual, corriqueiro e simples. Ainda que as aparências ficcionais da trama – em seu espaço, em seu tempo e na urdidura do relato – demonstrem certa credulidade simplória, pela suposta facilidade do enredo. Não. Definitivamente não. De fato, estes quatro romances, poderiam tranquilamente ser tomados como “novelas” esticadas. O relato se resume a entrecho comum aos quatro livros: o casamento das quatro protagonistas. Entre idas e vindas, ainda que variadas, correspondendo a um mesmo impulso, o autor exerce com maestria sua perícia, apresentando o caráter feminino de maneira inesperada para o momento em que se insere a publicação dos quatro tomos. É costume dizer que estas quatro narrativas “pertencem” a um suposto “ciclo romântico” no conjunto da obra – infelizmente esta expressão anda tão desgastada… Nada mais equivocado, mesmo que tal pressuposto seja uma muleta didática no espaço da sala de aula, ainda assim, nos níveis iniciais da escolarização. Definitivamente. Isso é um equívoco. O motivo é simples: nenhuma das quatro, ipso facto, corresponde ao modelo romântico de protagonista de romance. Não vou descer “às profundas” para demonstrar tal tese. Não estou escrevendo um tratado ou uma tese de livre docência. Não tenho que provar nada a ninguém. Não mais. Digo apenas aquilo que constato da releitura que faço dos textos citados. Como diz o adagiário popular: o incomodados que se retirem. Neste caso particular, que parem de ler e vão fazer outra coisa que lhes agrade mais… As mulheres, nestes livros, a meu ver, reúnem aspectos de uma única mulher que vai, mais adiante, sintetizar tais ademanes e firulas feminis. De fato, o espírito crítico do Realismo, acrescido do sarcasmo machadiano, temperam o entrecho das quatro primeiras narrativas. A apresentação das mulheres, como ponto fulcral do relato, denota a preocupação do autor com um retrato fiel de parte da sociedade que pinta em suas narrativas: a mulher. O quadro é pintado com requinte e sobriedade, sempre salpicado de frívolas comparações, finas ironias e a observação acurada de um olhar de lince que o narrador acaba por mediar. Este traço, as protagonistas não corresponderem ao modelo clássico da personagem romântica, aqui, é suficiente para deixar de lado, de uma vez por todas essa bobagem de romantismo. O fato que permanece da deliciosa – como sempre – leitura dos textos de Machado é que este detalhe vai sofrer mudança radical a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas. Já no título, a mudança de gênero é incontestável. O protagonista é homem. O mesmo sucede com os livros subsequentes: Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Todos homens. Mas isso é matéria para outra conversa, outra hora…

Machado de Assis
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