Reler Machado II

Na releitura que estou fazendo dos livros de Machado de Assis, algumas coisas se confirmam. Outras passam desapercebidas, como é de se esperar. Há, porém, ideias (para mim) novas. Definir “novo” é de uma dificuldade imensurável, quase impossível. A cada instante, o conceito se renova e se alarga. Pois bem. A primeira ideia que me ocorreu foi, a partir da releitura, constatar que nas primeira quatro obras de narrativa longa (ao patrulheiros da genologia que me perdoem, mas não cedo ao impulso de generalizar) – Iaiá Garcia, Helena, Ressurreição e A mão e a luva, o feminino impera. Em primeiro lugar, nos títulos: todos formados por palavras de gênero feminino. Dois nomes próprios e três substantivos comuns. Seguindo esta linha de raciocínio, nova “coincidência”: nos quatro livros, as mulheres são protagonistas, ainda que apresentadas e conduzidas (como a cinematográfica Miss Daisy!) por um narrador cuja voz é masculina, bem masculina. Ora, o detalhe pode ser superficial e sem sentido, mas, na releitura, seu papel é contundente. Deste pseudo feminino representado – de fato as protagonistas aparecem como marionetes na mão de um narrador cioso de seu papel, cônscio de seu “poder” e atento à sua “responsabilidade” – estas personagens poderiam levar o autor incauto a concordar com a falácia que reúne estas quatro obras num conjunto equivocadamente denominado de “fase romântica”. No caso de Machado de Assis, as aspas são mais que fundamentais… Não vou me ater a este pormenor, mas faço questão de deixá-lo, aqui, devidamente registrado e ressaltado. Digo isso porque, ao fim e ao cabo, o desempenho destas mulheres de papel não chega a alcançar a potência de heroínas românticas como reza o ABC do Romantismo já, a esta altura, mais que conhecido. De mais a mais, o romantismo das histórias atém-se a um certo movimento de vai e vem, bem ao gosto, este sim, do Romantismo mais castiço, sem, contudo, alcançar o ápice da tragédia que também marca o mesmo Romantismo. Há que acrescentar que a “solução” dada pelo narrador a para cada uma das tramas não pode ipso facto ser alcunhada de romântica. Falta-lhe mais estofo. O que não pode levar à desvalorização do trabalho estético de Machado de Assis. De fato, o escritor merece os epítetos que recebeu. Isto me leva a pensar no quinto livro, Memórias póstumas de Brás Cubas. De cara, fico pensando na tradição de chamá-lo de “romance”. Ai, ai… a minha chatice, uma vez mais, não se aquieta e se pergunta, sempre e mais, será mesmo um romance? Vamos ver. Já o título aumenta a dúvida, se aceita como pressuposto, uma vez que traz em seu sintagma nominal uma palavra que pode, se assim o quiserem, ferir de morte os puristas em/de todas as teorias acerca do romance. Trata-se de “memórias”. No sentido mais restrito, o termo não remete imediatamente para espécie bem definida da prosa, consubstanciada ao longo do século XIX. Não. No passo seguinte, o adjetivo “póstumas” já cria outro estranhamento, talvez mais perspicaz e incômodo, simultaneamente. Memórias, sem sombra de dúvida, há de ser algo póstumo. Deixando a tentação de vibrar a corda da redundância para dissonar o título do livro, lembro que o próprio texto machadiano apresenta uma chave para abrir esta porta e tentar “entender” do que se trata. Vejamos: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. Estranho. A dedicatória é posterior à escrita do livro. Até aí, nada. Mas esta mesma dedicatória é igualmente marcada pelo caráter de coisa passada… póstuma. O possessivo “meu”, que particulariza cadáver, descortina um sofisma abissal: quem escreve a dedicatória e, por consequência, o livro, a história, é um morto. O estranhamento se adensa quando se lê, antes, o verbo “roer”, no pretérito perfeito. Nenhuma dúvida quanto à condição do autor: defunto. Melhor dizendo, para acompanhar a tradição: o defunto autor. Aliás, é o próprio autor, Machado de Assis, que insinua isso logo a seguir, no “Prólogo”. Depois dele, o autor, Brás Cubas, escreve um pequeno introito, intitulado “Ao leitor”. Pronto. Está armada a confusão! E se pode aumentar a dúvida, quando da leitura do último parágrafo que diz: “Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Destaco, a título de curiosidade, sempre remetendo ao que disse no início, a expressão “… ao chegar a este outro lado do mistério…”. Creio não ser abusado afirmar que o tal mistério é, ambiguamente, a vida e a morte, ambos vivenciados por Brás Cubas. Além do mais, a assertiva fecha o raciocínio e negação que sustenta o parágrafo. Como quis o mesmo autor em outra circunstância, juntando as duas pontas, permanecemos no mesmo ponto: a dúvida. Trata-se mesmo de um romance? Vale lembrar que as histórias narradas são mais episódios vivenciados e rememorados pelo autor defunto, o que não faz deles células dramáticas na/da construção do tecido narrativo peculiar de um romance. Fica a dúvida. Há que ler e reler, para tentar esclarecer. Será que é possível?

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