Tédio

Houve um tempo em que os estudantes usavam uniforme. Todos iguais nas filas formadas para entrar em sala de aula. Filas imensas, organizadas por altura, começando dos mais baixos. Em colégios confessionais, como o Salesiano, por exemplo, antes de entrar para as salas de aula, um padra fazia uma pequena prédica – geralmente versava sobra um santo do dia. Os alunos rezavam um Pai Nosso ou Ave Maria, cantava-se o hino nacional e então, em silêncio, todos iam para as aulas do primeiro horário. Quando o professor chegava, todos se levantavam, o que acontecia também quando o diretor ou diretora também vinham à sala. Esse ritual se repetia dos sete anos em diante. Sim. A escolarização começava aos sete anos no grupo escolar. Antes havia apenas o jardim de infância, dos seis aos sete anos de idade. A escola era para quem já tinha recebido educação em casa, até os seis anos de idade. Depois vinha o ginásio. No meu caso, antes, um ano para o curso de admissão, no Colégio Salesiano. Havia opção por fazer apenas o exame de admissão ou o curso intensivo de seis meses. Meus pais nos matricularam no curso extensivo. Depois o ginasial e então o científico. Havia também duas outras opções: o clássico, quase em extinção àquela altura, e o técnico, para o qual migrei, cursando Edificações, na antiga Escola Técnica Federal, depois CEFET, agora, ao que parece IFET. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Era um tempo em que se estudava a Língua Portuguesa, de verdade, Língua Pátria: conjugação de verbos, análise sintática, classes de palavras, formação de palavras. Havia muita decoreba, não vou negar. No entanto, o que se estudava era LÍNGUA PORTUGUESA. Da mesma forma que no curso de Letras que já peguei capenga, moribundo, vislumbrando o abismo no que se encontra metido por mérito próprio. Mas não vou por aí, como diria José Régio. Tinha pensado em escrever outra coisa, quando comecei hoje, mas saiu isto. Talvez seja efeito da canícula inclemente. Pode ser que seja mais um chiste do inconsciente. Ops… uma rima. Há ainda a possibilidade de ser absoluta falta de vontade de falar de qualquer coisa. Está tudo muito chato. Perdem-se amizades por contraditório. A dizer algo, há que se pensar 285 vezes antes, pesando e medindo cada palavra, cada inflexão, cada referência, cada ilação. Perdeu-se completamente o gozo da argumentação, o orgasmo do raciocínio que vai se desenvolvendo como colear de cobra na água. Tudo muito chato. Tudo muito imediato, sem espessura, quase sem cor, com sons estridentes e, geralmente, em desarmonia caótica. Tudo muito chato. Tudo muito esquisito. Pra finalizar, faço minhas as palavras do heterônimo:

“Tão dado como sou ao tédio, é curioso que nunca, até hoje, me lembrou de meditar em que consiste. Estou hoje, deveras, nesse estado intermédio da alma em que nem apetece a vida nem outra coisa. E emprego a súbita lembrança de que nunca pensei em o que fosse, em sonhar, ao longo de pensamentos meio impressões, a análise, sempre um pouco factícia, do que ele seja.

Não o sei, realmente, se o tédio é somente a correspondência desperta da sonolência do vadio, se é coisa, na verdade, mais nobre que esse entorpecimento. Em mim, o tédio é frequente, mas, que eu saiba, porque reparasse, não obedece a regras de aparecimento. Posso passar sem tédio um domingo inerte; posso sofrê-lo repentinamente, como uma nuvem externa, em pleno trabalho atento. Não consigo relacioná-lo com um estado da saúde ou da falta dela; não alcanço conhecê-lo como produto de causas que estejam na parte evidente de mim.

Dizer que é uma angústia metafísica disfarçada, que é uma grande desilusão incógnita, que é uma poesia surda da alma aflorando aborrecida à janela que dá para a vida – dizer isto, ou o que seja irmão disto, pode colorir o tédio, como uma criança ao desenho cujos contornos transborde e apague, mas não me traz mais que um som de palavras a fazer eco nas caves do pensamento.

O tédio… Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer – tudo isto está no tédio sem ser o tédio, nem é dele mais que uma paráfrase ou uma translação. E, na sensação directa, como se de sobre o fosso do castelo da alma se erguesse a ponte levadiça, nem restasse, entre o castelo e as terras, mais que o poder olhá-las sem as poder percorrer. Há um isolamento de nós em nós mesmos, mas um isolamento onde o que separa está estagnado como nós, água suja cercando o nosso desentendimento.

O tédio… Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio… É como a possessão por um demónio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma. Dizem que os bruxos, ou os pequenos magos, conseguem, fazendo de nós imagens, e a elas infligindo maus tratos, que esses maus tratos, por uma transferência astral, se reflictam em nós. O tédio surge-me, na sensação transposta desta imagem, como o reflexo maligno de bruxedos de um demónio das fadas, exercidas, não sobre uma imagem minha, senão sobre a sua sombra. E na sombra íntima de mim, no exterior do interior da minha alma, que se colam papéis ou se espetam alfinetes. Sou como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu.

O tédio… Trabalho bastante. Cumpro o que os moralistas da acção chamariam o meu dever social. Cumpro esse dever, ou essa sorte, sem grande esforço nem notável desinteligência. Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras vezes no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim.

De mim porquê, se não pensava em mim? De que outra coisa, se não pensava nela? O mistério do universo, que baixa às minhas contas ou ao meu reclínio? A dor universal de viver que se particulariza subitamente na minha alma mediúnica? Para quê enobrecer tanto quem não se sabe quem é? É uma sensação de vácuo, uma fome sem vontade de comer, tão nobre como estas sensações do simples cérebro, do simples estômago, vindas de fumar demais ou de não digerir bem.

O tédio… É talvez, no fundo, a insatisfação da alma íntima por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. É talvez a insegurança de quem precisa mão que o guie, e não sente, no caminho negro da sensação profunda, mais que a noite sem ruído de não poder pensar, a estrada sem nada de não saber sentir…

O tédio… Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o cepticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade.” (http://arquivopessoa.net/textos/4524)

Resultado de imagem para tédio

3 respostas para “Tédio”.

  1. Boa noite meu querido amigo… peguei esta parte que cantávamos o hino nacional e que levantávamos quando professor, diretor ou qualquer convidado adentrasse a sala de aula,. mas escapei do curso de admissão (foi extinto antes). Não pensei 285 vezes para concordar com você… realmente está tudo muito chato. Antigamente era mais fácil… a gente esperava na saída da escola, arregaçava as mangas e chamava: “vem no osso!” rsrsrsrs. Brincadeiras a parte, mas… realmente esta tudo muito chato e esquisito! Entediante sim! Aproveito aqui para dizer que estou recebendo normalmente seus comentários (atualize a página para visualiza-los). Como respondi ao seu último comentário novamente repito aqui: sou seu fã! Um grande abraço meu caro… tenha um final de semana abençoado!

    1. Pois é… a chatice ainda grassa. Obrigado pela visita e pelo comentário. Gosto imenso de suas postagens também. Consigo comentá-las, sim, mas não consigo CURTI-LAS! Não sei o que se passa. Clico, clico, clico e… nada. Mas deixe estar. A gente vai se falando. Bom final de semana pra ti também, guri! Abraço

  2. Nova tentativa de comentar na sua página. O tédio é companheiro de quem é inteligente. Os anos passam e os cenários não mudam. Pelo menos os que deveriam mudar. Não creio que os Deuses nos salvem dele. Belo texto do Fernando Pessoa. Ótima postagem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: