Machado, de novo

Acabei de reler Dom Casmurro e estou terminando a leitura das obras de Santa Tereza d’Ávila, cheguei à “Quinta morada” hoje. Creio não ser possível, assim, de cara, sem mais nada, estabelecer qualquer relação entre os dois textos. Um é cético, a outra, fervorosa in extremis. Nem vou tentar. Peguei agora essa mania de ler dois livros ao mesmo tempo, em dias alternados, sobretudo na leitura de após o almoço. Continuo lendo um só antes de dormir, quando a internete não me seduz… É fato, Dom Casmurro é um mais que excelente livro. Junto com Esaú e Jacó, inaugura o que comecei a chamar de fase romanesca de Machado de Assis. Antes desses dois, o autor carioca escreveu novelas e um livro de memórias, ainda que a avesso, na contramão. Como o que escrevo aqui não constitui trabalho “acadêmico”, nem vou me preocupar em dar explicações sobre isso ou aquilo. Anoto apenas as minhas impressões de leitura e deixo o que vier depois para quem quiser se preocupar com possíveis desdobramentos e/ou ilações. Pois é. Está lá, escrito com todas as letras. Capitu chama Bentinho de mentiroso. Na lata. Já não me lembro exatamente onde, mas está lá, escrito, literalmente: “mentiroso”. Uma amiga minha, a Eni, faz essa insinuação em sua tese de doutoramento ou, se não me equivoco, chegamos a conversar sobre isso. Faz tanto tempo… Uma tese brilhante. Mas votando à vaca fria, Bentinho é mentiroso. Se não tanto, no mínimo, maquiavélico, pois consegue dar todas as informações necessárias ao leitor desconfiado – menos que ele – induzindo-o a concluir que Capitu é traidora. Entretanto, estas mesmas informações não conseguem sustentar a mesma hipótese. Não é possível afirmar com todas as letras que Capitu traiu Bentinho. Já fiz essa pergunta antes: isso é mesmo necessário ou interessante? Disso todo fica uma lição: Dom Casmurro é um livro contundente. De um detalhismo quase chinês, de tão detalhado. Ao mesmo tempo que sua complexidade pode fazer perder o sono, ela seduz e excita, pois faz com que o leitor não se perca nas entrelinhas – que não são poucas – da narrativa. Um episódio doméstico transformado numa quase saga demiúrgica. Todas as personagens, para além do protagonista que é também o narrador, são decorativas. Esta hipótese também merece discussão. Como a anterior, vai ficar para as calendas. Permanece a certeza de que este romance é para ser lido e relido, sempre que der vontade, ou quando se quer fazer o tico e teco funcionarem um pouco mais. Punto i basta!

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