Porque é sexta-feira

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Chegou mais um final de semana. Pra variar, deu uma preguiça… Então, só vai isso:

Poema de Outono

No final da tarde,

ao redor da casa, a porta se abre:

os móveis postos, em seu lugar,

como deve ser,

mas falta alguém.

O lugar no estofado

marca a presença,

com as coisinhas ao canto.

Como deve ser,

mas falta alguém.

Falta alguém sempre

que na terra seca

onde houve, um dia, grama,

os pés já não tocam.

Apenas a sombra

de momentos idos,

guardados:

memória visual de um lugar,

longe.

Ainda assim, falta alguém.

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Lirismo em prosa

O que pode haver de comum entre uma aparição de Nossa Senhora e uma oficina de conserto de pianos? Aparentemente, nada! De fato, os dois tópicos parecem absolutamente dissociados. A coisa fica ainda mais complexa ao acrescentarmos a figura de um maratonista que morre durante uma corrida em Estocolmo, na Suécia. O jornal Observador, de Portugal traz a certa (https://observador.pt/especiais/francisco-lazaro-a-morte-ao-sol-do-carpinteiro-que-se-fez-mito-na-maratona/) matéria sobre o atleta: “E se é verdade que Lázaro terá sofrido muitos destes sintomas – os “delírios” no hospital, como que correndo, poderiam ser convulsões –, também é verdade que a aplicação de estricnina era prática comum, sem males de maior. O caso mais conhecido no uso de estricnina é talvez o de Dorando Pietri. Italiano, maratonista, pasteleiro na ilha de Capri, Pietri participou nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908. E cortou em primeiro lugar a meta. A custo, mas cortou. Chegou ao estádio coberto de estricnina no corpo, caiu repetidas vezes, esteve perto de desistir, mas acabou por concluir a prova, levado em ombros por juízes. Acabou a maratona em 2h54m46s, mas seria desclassificado, não pelo uso de estricnina, mas por ter sido auxiliado nos últimos metros. O vencedor seria Johnny Hayes, segundo classificado, com 2h55m18s. Armando Cortesão, que participou com Lázaro nos Jogos Olímpicos, negou então que o maratonista tenha morrido por envenenamento. E aponta as causas da morte: sebo. E calor. “O Lázaro não foi envenenado. Isso é um disparate! O Lázaro morreu por dois motivos: primeiro, porque se untou com sebo. Fui eu e o Fernando Correia, quando ele não aparecia à partida da maratona, que o procurámos no balneário e lá o encontrámos a besuntar-se com sebo. Não faço a menor ideia como Lázaro conseguiu arranjá-lo – ele que mal falava português –; mas conseguiu sebo e estava a untar-se… Eu e o Fernando ainda tentámos que ele tomasse banho, mas não havia tempo. E ele lá foi correr a maratona todo besuntado com sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração. E outra coisa: só ele e um japonês e que foram de cabeça descoberta àquele sol”, garantiu. .” Assim trata do assunto o periodista. O atleta desmaia durante a corrida e vem a morrer horas depois. Este é o mote que José Luis Peixoto toma para desenvolver o enredo de Cemitério de pianos, narrativa instigante que “viaja” na ideia de morte – ouso arriscar que há sempre a sombra da morte do pai do autor a pairar sobre seu texto, “mas esta é só a minha opinião” – e faz do discurso da memória, do fluxo de consciência, da poesia intrínseca à Língua Portuguesa (ainda que haja quem duvide de sua natureza melódica…), o modus operandi de um texto intenso, lírico, contundente. A morte do atleta narrada quilômetro a quilômetro vai seguindo acompanhada pelas anotações ficcionais que o autor tece, bordando um painel profundo, tocante da intimidade do sujeito, quase um sonho. Meu quase xará – não fosse a diferença de uma letra – é um poeta e sua narrativa nada fica a dever a qualquer dos versos que também compõe. Na mesma toada, Em teu ventre é outra narrativa que mistura, desta feita História e Ficção, envolvendo o aparecimento de Nossa Senhora na azinheira grande em Fátima. Os três pastorinhos são alvo da acuidade poética do autor que flui com sua característica melodia interna, ritmo próprio. O texto de José Luis Peixoto seduz pela plasticidade do ritmo e da sonoridade do verso que, em prosa, se faz perceber, página a página. Parece, em conclusão, que, afinal d contas, pode existir algo de comum entre a aparição e a oficina: um autor. Boa leitura!

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Histórias…

Era uma vez um homem. Um homem que veio do interior pra cidade grande à procura de trabalho. A mulher desse homem fazia doces deliciosos. O homem começou a vender os doces na porta de uma escola de um bairro da cidade. Nesse temo, era possível fazer isso, pois o vendedor era honesto e a doceira fazia os doces com ingredientes bons e com carinho. Durante anos o homem vendeu esses doces na porta da escola. Com o passar do tempo, além dos doces, começou a vender pipocas, balas e água de coco. Desde que começou a trabalhar na porta desta escola, havia um menino que, ao chegar à escola, saindo do carro de seu pai, passava pelo vendedor e dava bom dia, dando um tapinha cabeça dele. Anos e anos do mesmo jeito. Um bom dia seguido de um tapinha na cabeça. Muito tempo se passou, o menino cresceu e o homem continuava a vender seus produtos. Era querido por todos. A direção da escola gostava dele. Os guardas de trânsito – hoje inexistentes! – gostavam dele. O menino cresceu e continuou com o bom dia e o tapinha, agora, seguido de “gracinhas”, piadinhas e até pequenas observações ofensivas. Muito tempo passou. Um dia, depois de escutar o bom dia, levar o tapinha na cabeça e aguentar, um dia a mais, de piadinhas de mau gosto, o homem sacou uma arma e atou o jovem com dois tiros. O homem foi preso. Todos na escola ficaram assustados. Os guardas de trânsito comentavam. Os familiares do garoto assassinado vociferavam impropérios e exigiam justiça e vociferavam mais na televisão, no jornal, no rádio. Uma balbúrdia. Comoção nacional. Denúncia. Advogados. Processo. Reportagens escrita, falada e televisada. Chega o dia do júri popular. Depois da exposição final da promotoria, o juiz chama o advogado de defesa. Nome renomado na cidade, no Estado. Começa a exposição. Logo de início, o advogado para a exposição e começa a elogiar o juiz. Tece loas. Elogia exagera. Retoma a defesa e, mais adiante, torna a elogias o juiz, com a mesma insistência. Retoma uma vez mais e repete a mesma atitude por umas três ou quatro vezes. Tudo isso se passa em questão de minutos, alguns minutos apenas. De repente, irritadíssimo, o juiz despenca uma chiadeira de xingamentos, reclama do advogado, chama-lhe a atenção, esbraveja e exige do advogado de defesa a conclusão de sua exposição. Ele, calmamente, vira-se para o júri e comenta: se o juiz, por conta de três ou quatro assertiva minhas se irritou, e olha que eu estava a elogiar-lhe, imagina o homem que matou o jovem. E continuou nessa toada. Resumo da ópera: o homem foi absolvido. Não me perguntem sobre a literalidade da sentença e sua justificativa. Não o sei. O fato é que essa história não é ficção, aconteceu literalmente assim. Fica aqui pra pensar um pouco…

Direito Comportamento
Cultura
Sociedade
Crítica

Lusitanidades

Acabei de ler os dois últimos livros escritos por um simpático e jovem escritor português, o João Tordo, a quem tive o prazer de conhecer em Zagreb, entre 2008 e 2010, quando lá vivi. São eles: Ensina-me a voar sobre os telhados e A mulher que correu atrás do vento, respectivamente. Dele já tinha lido outros dois livros – As três vidas, Anatomia dos mártires e Biografia involuntária dos amantes. O primeiro que li, As três vidas, fez pensar e sentir e ler um tanto de Paul Auster, ainda que com um tratamento trágico-lírico muito peculiar. João Tordo tem esta particularidade: sei lirismo, muito próximo de uma tragédia retumbante, escapa do melodrama pelo cuidado com que o autor localiza suas personagens no drama que engendra. Diferentemente de Paul Auster e de outros tantos que caminham pelas mesmas sendas, João Tordo define sua própria estrada, marcada por esta marca personalíssima de/em sua ficção. Os dois últimos trabalhos que somam em torno de novecentas páginas, são a culminância de um estilo que se construiu pelo fio da maturação de uma linguagem muito própria que parece paralisar acontecimentos em prol do mergulho em espíritos atormentados pela busca de um entendimento impossível (?) que, no entanto, anda disponível pelos desvãos da trajetória mesma daqueles que o procuram. Escritor eminentemente urbano, difere de José Luis Peixoto, seu conterrâneo e coetâneo – perdão pela rima involuntária – no que diz respeito, digamos, à “paisagem” que vai sendo desenhada – não retratada! – pela ficção de/em ambos. O trecho que segue, retirado de um dos volumes que acabei de ler (não vou dizer de qual para instigar os possíveis leitores destas linhas a procurarem pelos livros e tentarem encontrar a passagem citada – já, de antemão, sabendo da quase impossibilidade disto, pois os livros são um tanto caros… mas vale a pena!). Então, segue o trecho escolhido:

“Não sabemos o que é um sonho porque não sabemos o que não é um sonho. Foram muitos aqueles que, no decurso da história da literatura, insistiram nesta ideia. Tomemos, a título de exemplo, os versos de Edgar Allan Poe: “All that we see or seem/Is but a dream within a dream”. Ou Shakespeare, dito por Próspero, ainda mais fracturante: “We are such stuff/As dreams are made on, and our little life/Is rounded with a sleep”.  Porventura, a ideia mais pertinente é que o sonho e a vigília não são compartimentos estanques; misturam-se, fundem-se habilmente e, ao mesmo tempo, com imensa discrição, de tal maneira que é possível sonhar e saber que estamos a sonhar, e estar acor­dado sabendo que sonhamos. Talvez esta última ideia seja menos comum. Mas só o é porque, na vigília, que dura mais tempo (e apresenta maior consistência narrativa), existe a neces­sidade de nos assegurarmos do real, ou a vida seria uma panóplia de surpresas: rostos trocados, objectos desaparecidos, carros voadores.

Mas haverá alguém que tenha acreditado, mesmo que por um breve segundo, que o sonho da noite anterior, ou de há meses ou anos, foi realidade? Que era tão consistente como o chão ou as montanhas ou a chuva? É inútil esboçar argumentos ou tentar explicar esta ideia, mesmo a nós próprios. Seria como convencer Dom Quixote da sua loucura – e portanto, remover-lhe o véu da ilusão, condenando-o a um aborrecido destino enquanto Alonso Quijano. Ou convencer um homem desperto de que, na verdade, está a sonhar: Vogler, o mudo-falante, demonstrando-lhe a inépcia das suas ilusões. Tudo isto faria sentido se soubéssemos a diferença.”

Isso faz com que eu goste mais do escritor. Como disse, conheci-o, tímido, em Zagreb, durante uma oficina. Gosto do que ele escreve. Estou com outros títulos de sua autoria à espera de leitura. Vou fazê-lo, de certeza! Antes, porém, retomei o Peixoto, aqui citado, relendo dele O cemitério de pianos, mas este é um assunto para outra hora…

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Paradoxos

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Há pessoas que se prestam a desempenhar papéis tão rasos, tão pequenos, tão rasteiros, que a gente devia deixar de lado e desdenhar, desdenhar e desdenhar. É o caso dos quatro indivíduos que assinam o “documento” abaixo. Por uma questão de polidez e respeito, retirei os nomes dos mesmos, bem como todas as referências “documentais”. Como se trata de processo institucional… Trata-se de um “documento” que expressa a “opinião” dos quatro signatários sobre tese que escrevi, na tentativa de progredir à classe de titular. Depois da tentativa, frustrada pelo recalque e rancor dos signatários – sim, trata-se, na verdade, disso, mas declino do direito de expor as pessoas e os fatos, pois não quero me rebaixar ao nível dos envolvidos –, tive de tomar providências para alcançar meu intento, o que acabou por acontecer, apesar da tentativa de boicote, como se pode ler abaixo. O segundo texto é o parecer anônimo da Imprensa Universitária da Universidade de Coimbra que aceitou para publicação o livro oriundo da tese que os “quatro” disseram que era lixo. Em palavras, melifluamente estudadas, em fórmulas protocolarmente “adequadas”, os “quatro” foram vencidos e de maneira contundente, como se pode ler. Faz tempo queria escrever aqui sobre este assunto, de maneira mais extensa. Aí está. Depois disso, não quero mais falar sobre este assunto. Pelo menos, aqui!

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A comissão designada para avaliação do pedido de progressão para a Classe E com denominação Titular da carreira do Magistério Superior do docente José Luiz Foureaux de Souza Júnior, solicita dispensa da designação, por considerar a tese indefensável pelas razões abaixo enunciadas:

– desarticulação entre os capítulos e os argumentos que pretendem sustentar a tese;

 –equívocos em conceitos básicos das teorias acerca da leitura, da recepção, da psicanálise, da teoria da literatura e das inúmeras teorias críticas sem vinculação com o eixo central da tese;

– redução da perspectiva de leitura ao “olhar homoerótico”, sem se aprofundar nas contemporâneas teorias sobre o assunto;

– eleição, como objeto parcial da tese, das cartas de Alberto de Oliveira, sem garantir-lhes consistência, seja através da leitura do que não existe, seja através de uma elaboração ficcional dessas cartas;

– leitura insuficiente das cartas existentes, sem trazer à tona nenhuma teoria consistente acerca do gênero;

– negligência cabal no que se refere ao estudo de textos literários dos dois autores, em sua relação com as cartas, embora tenha anunciado repetidamente este propósito.

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Livro: As cartas não mentem: da amizade entre António Nobre e Alberto de Oliveira

Autor: José Luiz Foureaux de Souza Júnior

Resumo : O livro de José Luiz Fourreaux se interessa pela amizade dos poetas António Nobre e Alberto de Oliveira, tendo por base o homoerotismo, a partir da análise das cartas existentes e do conto do escritor Mario Cláudio, o qual trata sobre a amizade dos dois poetas.

Análise : O texto é de uma erudição rara, apresentando de forma bastante acadêmica a questão, seu embasamento teórico, e discutindo os conceitos propostos a fundo. Vale destacar a importância dada ao homoerotimso como ferramenta teórica, e o debate que o autor produz contrapondo este conceito à Teoria literária. Nesse sentido, o texto funciona como um marco teórico tão importante quanto a defesa dos estudos sobre homoerotismo e literatura feita por José Carlos Barcellos em 1999, algo que não se faz há bastante tempo, pois os estudos sobre homoerotismo voltaram-se para a praticidade do termo nas análisers literárias. O trabalho de Fourreaux é importante por defender e refletir sobre o conceito especificamente. Se os autores analisados podem não possuir muito interesse para o público brasileiro, o livro ainda assim é de muito interesse para os estudiosos de gênero, literatura e sexualidade. É necessário fazer uma revisão muito aguçada, pois existem muitas repetições, problemas de pontuação, assim como de referências bibliográficas, muitas das quais estão anotadas no manuscrito que nos foi enviado pela editora.

Parecer : Diante do exposto, sou favorável à publicação do material, caso seja do interesse da editora.

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Palavras…

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Alienado. Uma palavra simples, de sonoridade agradável. Sua prosódia não é problemática. Já houve momentos, na História da Língua Portuguesa, que seu uso foi mais politizado, no sentido mais espesso e rico deste adjetivo. Há outros momentos em que esta consistência se perdeu, em nome de outras expressões, mais condizentes com o circuito cultural da sociedade. Como tudo o mais, os sentidos são voláteis, não aprisionáveis e ricos, muito ricos, na miríade de nuances discursivas passíveis de construção com seu uso. No dicionário, sua “classe” é dupla. Por natureza, é adjetivo, mas pode ser utilizado como substantivo. São quatro, as acepções do termo. Cada uma, na sequência, acrescenta um detalhe, uma nuance, que faz da palavra um termo muito interessante. Seu uso, portanto, deve ser orientado por cuidado e sensibilidade para não se perder a riqueza semântica de dada um desses detalhes. São quatro, as acepções, como eu disse. A primeira diz que alienado é qualidade de algo que foi transferido; cedido, vendido. Nada de muito problemático. Quando alguém gosta de um anel ou de uma écharpe que porventura eu esteja usando, estando eu em um bom dia, tiro o anel do dedo ou a écharpe do pescoço e do para quem está a admirar. Pronto, alienei o anel ou a écharpe! A segunda acepção diz que alienado é aquele que sofre de alienação mental; louco, maluco, doido. Aqui, percebe-se um traço semântico mais espesso: a patologia do termo ou, no mínimo, de seu uso. A ausência de “razão”, ou melhor, de racionalidade nas atitudes, pensamentos e palavras pode sustentar a alcunha e alienado. Uma forma elegante, delicada, de tratar aqueles que já foram motivo de chacota, pena, medo e até raiva. Aquelas pessoas que eram retiradas do convívio social para serem “tratadas”. Foucault já tratou dessas idiossincrasias. Assim, alienação, nesta acepção, é coisa de doido, de hospital, de manicômio. Numa terceira camada semântica, o termo recebe a acepção daquele sujeito que sofre de alienação, que vive sem conhecer ou compreender os fatores sociais, políticos e culturais que o condicionam e os impulsos íntimos que o levam a agir da maneira que age. Aqui, o caráter patológico do sentido do vocábulo ganha espessura mais larga. Não há apenas a redutora referência a um comportamento doentio, mas acrescenta nuances racionais que associam o comportamento alienado. Este comportamento é percebido pelo sujeito que o tem e se transforma em objeto de análise e discussão, de questionamento. Ainda que não necessariamente vinculado à busca de solução dos incômodos causados, o alienado, nesta terceira acepção, é alguém que pensa sobre a própria condição. Ele se questiona sobre como isso teve início, como se manifesta, como se percebe em atos e pensamentos. Para além disso, esse mesmo sujeito busca, mesmo que inconscientemente, uma explicação para entender o que se passa consigo mesmo. Por fim, na quarta acepção, alienado é aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam; alheado. Muito longe de ser um sujeito “doente”, o alienado, neste quarto sentido, é um sujeito consciente de seu “estado” e equilibrado o suficiente para perceber que pode fazer uso desta condição como forma de autopreservação. Este alheamento não é, necessariamente, negativo, mórbido, patológico. Antes disso, é um estado de espírito que aponta para certa tranquilidade buscada pelo sujeito que se sente incomodado com o que está à volta. Esta á palavra que tem retumbado em meu pensamento ultimamente. Deve ser fruto da preguiça, da falta de sentido de tudo. A quarta acepção é a que melhor expressa o meu atual estado de espírito. Por uma questão de equilíbrio, de saúde. “Mas esta é só a minha opinião”…

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Por hoje é só

Fantástica a coluna da Cora Ronái hoje no O Globo!

Divulguem!

A caminho do brejo

Cora Ronái

A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos.

Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.

A lista não acaba.

Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.

Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.

Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais. Enquanto isso tem gente nas ruas estourando fogos pelos times de futebol!

https://m.oglobo.globo.com/cultura/a-caminho-do-brejo-20606929

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