Da leitura II

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Leitura crítica e teórica

A leitura é desenvolvida em dois momentos: um (o dos apontamentos) analítico; outro explicativo. O desenvolvimento de cada um destes aspectos dá origem a um gênero próprio: o crítico e o teórico respectivamente. A crítica é, seguindo o mesmo método filológico, o estudo dos critérios. A crítica literária será, por isso e em princípio, o estudo dos critérios utilizados em literatura – mais precisamente, na composição de obras literárias ou poemas. Ficam assim diferenciados do significado comum de comentário retórico à literatura e próximos da expressão croceana “caracterização da poesia”, se ela for tomada no sentido de um estudo dos critérios e não propriamente do “conteúdo da poesia, (do) sentimento que a poesia exprimiu” ou representou, porque o julgamento crítico é o da eficácia estética e o da consecução poética, interessando-lhe por isso mais a relação entre “forma” e “conteúdo” que a discussão sobre a natureza dos conteúdos. O crítico avalia, finalmente, se essa relação é adequada, produtiva em termos dos significados que permite produzir a partir dela num dado momento.

O crítico julga sempre, mas não o mesmo que o teólogo ou o juiz. A palavra “crítica” tem na sua origem, como “critério”, um verbo cujo significado primeiro era o de “apartar, escolher, estremar, separar”, razão pela qual o crítico era primo da crise, que era a discriminação decisiva num julgamento. Em uma das suas acepções (“escolher”), o crítico se aproximava assim do leitor, e na outra (“separar”) se declarava especificador, analista. Pela sua etimologia a crítica não é, portanto, somente o estudo dos critérios, ela não se reduz a uma “prática analítica”, porque esse estudo construcionista é realizado para produzir depois um julgamento que permita escolher entre o verdadeiro e o falso, o fruto bom e o que já não presta para comer. A análise dos critérios de composição serve então para fundamentar o julgamento, a separação entre o que é e o que não é.

Para o caso artístico, o verdadeiro e o falso podem-se traduzir como o que seja e o que não seja poético. O enquadramento jurídico em que se desenvolveu, num dado momento, o campo semântico da palavra é que chama pela retórica, pois quando se julga é-se julgado e é preciso então convencer quem nos lê da justeza das nossas posições, é preciso argumentar. Daí se generalizou a visão retórica da crítica, passando-se a atribuir a categoria de substância àquilo que era apenas consequência. Mas o crítico não é propriamente um advogado. O crítico só precisa de ter meios para destrinçar o poético do não poético, ele só precisa definir os critérios que permitirão distinguir a literatura dos outros discursos e das outras artes – pensando-se, por exemplo, na ficcionalidade ou na literariedade (problema já antigo, e cujas “soluções” intrínsecas no século XX – excetuando a aplicação do conceito wittgensteiniano de “semelhanças de família”, que não é substancialista – apenas atualizam as que Aristóteles na Poética desenvolvia ou potenciava). No momento em que define critérios distintivos, ainda que só a partir do levantamento dos que usou o poeta para compor a obra, o trabalho do crítico pode imiscuir-se no campo teórico, numa relação aliás desejável pelas implicações biunívocas entre os dois géneros. Convém, apesar dessa vantagem, que separemos a crítica literária da teoria, uma vez que a função de ambas é diferente, e, no entanto, ambas parecem ter às vezes à partida a mesma: fornecer os critérios que permitam aferir acerca da poeticidade dos textos que se nos apresentam publicamente como tal. Para isso precisamos primeiro de firmar filologicamente o significado da palavra “teoria”. Costuma utilizar-se o termo não reparando no seu significado etimológico. Se por acaso se fala dele é para relacionar a título de curiosidade visão e teoria, não orientando o facto qualquer reflexão mais desenvolvida. No entanto, as origens e a história da palavra esclarecem sem empobrecimento a tarefa do teórico.

A palavra (Theoria) compunha-se de duas raízes: a primeira, (Thea), significava “espetáculo” e, daí, por generalização, “vista”. A segunda aparece igualmente em (Theore), que designava o deputado dos Estados gregos aos grandes jogos: trata-se do verbo (oraw), que nomeava o ato de “vigiar”. O théore vigiava, pois, o espetáculo em nome da Polis e a théoria era essa deputação, era essa missão. Daí que o teórico (o que via) surgisse por oposição ao prático (o que negociava), numa dualidade marcada pela responsabilidade moral de um e pela negociação do outro. Quando o significado de Theoria passa, depois, a ser o de visão filosófica ou sistemática (por isso geral ou tendendo para construir uma visão geral), ele já traz consigo toda esta carga semântica. A theoria é então, mais que uma visão, a vigia do espetáculo. Ora, o espetáculo era por excelência o teatro e o teatro era principalmente uma representação poética da vida; o theore, por sua vez, é enviado em nome da cidade, melhor, em nome de quem dirigia institucionalmente a polis. Podemos pois dizer que a theoria é a tradução política da representação poética da vida, no sentido em que é a interpretação, socialmente marcada, do labor artístico. Por isso, a teoria da literatura, se fosse definida só em função destes dados, não seria um policiamento da literatura em nome do Estado, mas a leitura do espetáculo literário para a representação politicamente organizada e em função da urbe. Quer dizer que a teoria faz e estabelece oficialmente (e por ofício) a ligação institucional entre a comunidade politicamente representada e a literatura, explicando àquela o que se passa nesta, o que a poesia é na sua existência, a cada momento. Se no poeta predomina a responsabilidade pessoal da criação, da invenção e da composição, no teórico predomina a responsabilidade social da leitura – e para isso é que ele precisa dar-nos uma “visão geral” da literatura, uma visão por referência à qual se processem e enquadrem as explicações e interpretações de cada uma das obras. Ao construir uma visão geral, o teórico procura por vezes o que há de comum a todas as “partes” da literatura, algo suposto naturalmente literário, específico da arte verbal – e é aí que por seu lado se pode confundir com o crítico. Nele, porém, se a responsabilidade é à mesma social (na medida em que ele vai dizer o que é e o que não é poesia falando num discurso, não obrigatoriamente científico, mas “completamente inteligível”), a sua avaliação é feita por referência à descoberta dos critérios de composição rentabilizados pelos poetas, é “técnica”. Enquanto se preocupa com a arte da composição, o seu julgamento é meramente artístico e o seu procedimento procura ser exato na medida em que traz para a linguagem racional, avaliando-a e explicando-a, a utilização do critério. Separadas ficariam desta maneira a teoria (visão geral da literatura que enquadra “moralmente” as leituras consequentes) e a crítica (determinação da poeticidade a partir do estudo criterial das composições tidas como poéticas). O ponto de chegada do crítico (a determinação da poeticidade de uma obra) e o ponto de partida do teórico (a visão geral da literatura) vivem numa espécie de relação de causa e consequência, tendo por objeto principal o segundo termo das expressões crítica literária e teoria da literatura.

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