Da leitura III

Dando continuidade, hoje, lembrei-me de colocar as aspas…

“Leitura histórica e metodológica

            Falta-nos referir ainda uma terceira disciplina, que não é a da leitura crítica nem a da leitura teórica, mas a da leitura histórica. A sua pertinência foi discutida e polemizada por muitos autores de referência, o que torna obrigatória uma reflexão sobre ela. De forma geral, a ideia dominante foi a de que os “métodos” das ciências “históricas”, “humanas” ou “sociais” são intrinsecamente diferentes dos métodos das “ciências naturais”. Karl Popper, em A miséria do historicismo, desmonta várias dessas posturas, ainda chamadas em seu socorro por René Wellek, que no entanto reagia a uma apropriação primária ou superficial do método científico, apropriação que estará na base do historicismo. Wellek perfilha uma ideia abrangente do que seja a teoria da literatura (um “organon de métodos”), que não coincide com a que demos acima, mas que se alicerça na distinção entre o estudo da literatura nos aspectos diacrônico e sincrônico. No aspecto sincrónico teríamos a crítica literária, no diacrónico a história literária ou da literatura, sendo a teoria o “estudo dos princípios da literatura e das suas categorias, dos seus critérios e matérias semelhantes”. A definição de Wellek respeita o traço de “visão geral” que estava bem no começo da história por assim dizer intelectual da palavra theoria. Para ele, a visão geral é a que junta a leitura histórica e a leitura crítica, refletindo sobre o conjunto e concedendo aos críticos e historiadores pontos de apoio teórico. É uma visão geral “tradicional”. Mas, pelas razões expostas até aqui, não nos parece que a crítica deixe de estudar os critérios e as categorias, ou que a história da literatura deixe de estudar os princípios e as matérias dominantes. E também nos parece que a perspectiva de Wellek lucraria em se libertar do historicismo que ainda lhe toca.

            Ela parece pressupor que o estudo da literatura em geral, e a história da literatura em particular, são feitos a partir da leitura das obras, indo-se do particular para o geral e por indução. Tal pressuposto vem dominando os estudos literários há muito tempo, e aceita-se facilmente que esse é o trajeto “conatural” à área, único também. Ora pode-se construir uma teoria, ou uma hipótese, por dedução, a partir de princípios ainda mais gerais (do âmbito da Estética, por exemplo), sendo posterior a leitura, que examina as deduções, que as experimenta nos textos e, nesse particular, é um exercício científico. A fortuna do método dedutivo no nosso século, no âmbito das ciências exatas, ou puras, ou duras, que tudo são metáforas e nem sempre muito próprias, aconselha-nos a pensar ao contrário de Wellek. À luz do método dedutivo pensado para as ciências sociais e humanas, a postura de Wellek é, talvez sem querer, historicista, no sentido de que fala Popper em A miséria do historicismo. Para muitos o historicismo consiste apenas na crença de que se pode penetrar a mentalidade das épocas e perceber intrinsecamente as atitudes e as obras que marcam essas épocas, sendo consequentemente possível despirmo-nos em relação aos nossos padrões de comportamento e estudarmos os períodos literários numa espécie de onisciência. A visão que Popper tem do historicismo é, porém, mais incisiva, chamando a atenção para uma característica metodológica: o historicista é indutivo, acredita que nas ciências humanas o melhor método parte dos factos (no caso, as obras) para os conceitos que explicam, traduzem ou localizam, na sua especificidade histórica, as leis do desenvolvimento literário, ou a biografia do organismo e da instituição literários. Daí que F. W. Bateson tenha, no passado, querido isolar a história da literatura da leitura crítica e da teoria, argumentando falaciosamente que a história se ocupa de factos verificáveis enquanto o “criticismo” se preocupava com opiniões e crenças (uma vez que parte das “ideias” e não das obras).

            Como Wellek nota, trata-se de uma posição insustentável. Desde logo porque a história menos crítica é a menos literária. Em segundo lugar porque não há facto histórico mais fixo para examinar – e, portanto, verificar – que uma obra após a morte do seu autor, e a obra é o objeto central da atenção crítica ou teórica. O texto que fica escrito, no final da vida, seja sob a forma de anotações ou mudanças ao que está publicado, seja sob a forma definitiva de um livro, não muda mais. Podem mudar as teorias, os enquadramentos históricos, as leituras críticas, até mesmo a ideia dessa obra entre os leitores especializados pode-se alterar pela descoberta de manuscritos, etc.; mas aquele conjunto de letras que forma o livro não muda quando o vemos. O que muda é o seu funcionamento em nós, o seu funcionamento histórico no sentido que a palavra toma em Jauss, ou em nós como entidades criativas, as de que falava Pobiebniá na sua famosa definição: “um predicado constante com um sujeito modificável”. Ora, por isso mesmo, a tarefa do historiador literário é mais dificilmente “científica” do que a do crítico ou do teórico, porque ele resumirá as anotações, explicações e interpretações das leituras críticas e teóricas adequando-as ao que na mesma época é dito sobre outros aspectos da atividade cultural. Ele aproxima interpretações ou explicações sobre processos diacronicamente balizados. E nada é mais arbitrário, nesse tipo de estudo, nada é mais enganador do que o agrupamento das obras em balizas cronológicas ou categóricas. 
        A História da Literatura não tem sido, realmente, uma ciência, mas uma forma de historicismo, de importação de métodos que são defendidos como os mais apropriados aos estudos históricos, e que são absorvidos com um pressuposto determinista. Se o objetivo central do historicismo é, quando se dá o passo idêntico para a Sociologia, o de estabelecer as leis da transformação social, quando ele salta para os estudos literários o que pretende é, quando muito, “estabelecer as leis da transformação” literária. O objetivo em si é discutível, porque não precisamos pressupor a existência de “leis” imutáveis para estudarmos a “transformação”. Mas um dos problemas principais do historicismo em literatura, ou da suposição dos métodos “históricos” como os mais apropriados à ciência literária, não se prende só com o objetivo; nasce de considerarem, os seus defensores, que a inserção dos eventos literários no contexto histórico, e o seu enquadramento nas constantes da “evolução” de uma literatura, dão por si sós a imagem de como funciona o sistema respectivo. 
        Esta procura de exclusividade científica foi sentida já noutras áreas, por exemplo na Sociologia ou no estudo de artes como a da pintura. A redução é sempre a mesma: “A ciência social não é mais do que história”; a ciência literária também não seria mais do que isso. Ora o sistema tem variáveis internas, ele é o resultado da sociedade e da história, mas também é o resultado de si mesmo, facto para o qual os formalistas e estruturalistas haviam chamado a nossa atenção. Há modos de um texto funcionar que não dependem da época em que ele foi escrito, nem da nossa, mas de condições estruturais, por assim dizer, que se podem repetir em locais e tempos diversos tal como sucede com muitos fenómenos físicos. Por isso concordamos com Wellek em que as vertentes sincrónica e diacrónica, a do crítico e a do historiador, devem ser conjugadas para alcançarmos uma visão geral das obras literárias. No entanto, o conceito de estudo da literatura de Wellek junta-se com o dos historicistas no ponto fulcral que é o da definição dos métodos. A crença que o anima é a de que as leis do sistema se atingem por indução. Por indução, na lógica, e pelo menos desde Bacon, quer dizer partindo dos factos acumulados para inferir os princípios que os produziram; consequentemente, o raciocínio por indução é um raciocínio a posteriori. No nosso caso: só depois de escritas as obras que definem a literatura podemos estabelecer, por exemplo, o que seja a literariedade, e fazêmo-lo por inferência.

            Nos estudos histórico-literários os historicistas defendem que a inferência funciona por abdução, ou seja, por um tipo de raciocínio que só pode ser um silogismo frágil, alcançar uma conclusão meramente consensual, e a partir do levantamento dos indícios disponíveis como dissemos. Os estudos históricos e literários haviam, por isso, de ser uma espécie de parente pobre da ciência, que não podia garantir explicações cabais. E viam-se remetidos a uma espécie de beco sem saída, o “de toda a história: isto é, para descobrir o esquema de referência (…) temos de estudar a história; mas não podemos estudar a história sem termos em mente algum esquema de selecção”. Como diria Fidelino de Figueiredo, é aqui que desempenha o seu papel a hipótese. Que Wellek exemplifica falando no soneto, “um certo esquema externo, patente, de classificação” que “proporciona o ponto de partida necessário”. O exemplo é ainda o de uma forma histórica e geograficamente muito marcada, mas proporciona ainda assim uma identificação estrutural que atravessa mais do que um período e mais do que uma história literária. De qualquer modo é ainda abdutivo.

A abdução era, para Charles Peirce, o método para a criação das hipóteses e a tarefa descrita por Wellek faz isso. Porém, a construção de suposições provisórias, tal como delas fala Fidelino de Figueiredo, não segue obrigatoriamente essa origem, se considerarmos o seu funcionamento na maioria das ciências. Fidelino de Figueiredo era, nessa altura, uma espécie muito bem definida de historicista: reconhecia que a construção da hipótese detinha um “grande papel” nas ciências exatas, encontrando nos cientistas ao mesmo tempo “os maiores construtores do saber” e os “grandes creadores de hypotheses”; mas acha que a crítica só pode falar de factos “singulares”. A originalidade do seu pensamento vem depois e consiste em perceber que as hipóteses eram criações; e ela está limitada pela ideia de que a crítica tende a tornar “verdades definitivas” as hipóteses “histórico-literárias, quando se confirmam documentalmente por um dado novo, não pela repetição experimental”. 
Neste último ponto Fidelino de Figueiredo está preso ao que disse antes sobre a “singularidade” das explicações histórico-literárias, motivo pelo qual não prevê que a revisitação de um mesmo documento, sob nova hipótese, testa ainda compreensões anteriores, sendo por essa repetição experimental que testamos os programas de leitura anteriores, “singulares” ou estruturais eles sejam. Ora, marcado pelo “indutivismo”, Fidelino de Figueiredo supõe que, da notícia de um novo “dado”, chegamos à confirmação de uma hipótese anterior por generalização, inferência e abdução. Mas é de supor que os críticos literários não visem ditar “verdades definitivas”, e também é de esperar que não se reportem apenas a factos singulares, mas a exemplos que expõem critérios gerais de composição seguidos pelos poetas, critérios que são passíveis de uma definição estrutural.”

Análise, Crítica, Cultura, Interpretação, Leitura

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