Cartas da memória das Índias 2

Segue a segunda carta, um pouco menos longa!


CARTA DA REGIÃO MAIS FÉRTIL 
(a meu pai) 


É a região mais fértil em frutas que há no mundo, as quais são mui boas e excelentes; e todo o país é coberto de árvores de fruto, laranjas doces e azedas, limões de gosto mui suave e deliciosos, romãs, cocos, ananases e outras frutas da Índia. Carnes de todas as qualidades são ali abundantes; o peixe nunca falta. Há milho, mel, canas, açúcar e manteiga em abundância; mas não se cria ali o arroz, que é o principal alimento e vem de Bengala. Mas toda a canela do mundo só de lá vem e há dela florestas inteiras. Há também grande número de elefantes, muita quantidade de pedras preciosas, como rubis, jacintos, safiras, topázios, granadas, esmeraldas, olhos de gato e outras, as melhores da Índia, e por cima de tudo é lá que há a bela e grande pescaria de pérolas mui finas e belas; mas não há diamantes.

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vai certamente estranhar esta quase interminável carta 
pai 
há muito que o silêncio se fez entre nós 
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar 
e eu pobre de mim 
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo 
a cidade é veloz 
não sei se o pai poderá compreender esta velocidade 
aqui tudo se tornou de dia em dia mais doloroso 
minha mulher anda atarefadíssima com o arranjo da casa 
parece que mais nada existe para ela 
eu sempre na rua por aí 
porque não consigo mais suportar aqueles móveis 
onde o pó não chega a pousar 
não consigo suportar aquela barulheira de electrodomésticos 
continuamente a funcionarem 
já não consigo suportar a minha mulher 

saio de casa logo de manhã 
muitas vezes não me apetece ali voltar 
deambulo pela cidade gasto tempo de café em café 
perco me
noite dentro caminho sem direcção precisa 
sem saber para onde vou atravesso a cidade 
à procura não sei de quê 
o corpo esvaziou se lentamente e
com o passar do tempo sei agora 
este casamento foi um erro 
estou terrivelmente só 
talvez seja por isso que me lembrei de lhe escrever 


pai 
decidi partir 
não me pergunte para onde nem porquê 
partir é o que ressoa na minha cabeça 
viajar sem fim e jamais voltar 
também é inútil perguntar me as razões de tudo abandonar
este conforto enjoa me esta vida dá me vertigens e diarreia
de resto duvido que existam razões de peso 
tenho a certeza de suportar minha mulher 
se ainda a amasse 
partilharia com ela a loucura que adquiriu pela casa 
a semanal mudança de lugar dos móveis 
e mais estranho ainda 
quando põe a máquina da roupa a trabalhar sem nada lá dentro 
diz que adora aquele insuportável ronronar de aço 
que lhe faz muita companhia 
enfim 
se eu ainda a amasse talvez 

mas é certo que arranjei outras compensações 
a amizade segura de um amigo 
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto 
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado 
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo 
que quer 
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas 
e de beber 
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo 
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível 
desde que me conheço que me fujo 
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha 
não leve a mal estes desvarios 
no fundo teria sido melhor para mim ter ficado aí 
onde o tempo parece não avançar e a terra é fértil 
provavelmente hoje seria um desses pastores que meditam 
sobre as fases da lua mesmo antes delas se iniciarem 
é possível que hoje fosse um operário exemplar 
trabalharia sem sequer me pôr a questão de que há outro mundo 
por descobrir para lá do incessante roncar surdo das máquinas 
tudo explodiu dentro de mim e não sei como dizer lho
vou largar tudo 
a mulher o trabalho a cidade onde vivo a casa de que não gosto 
a cidade apagou em mim muitos desejos 
a única coisa que ainda faço com prazer é vagabundear 
o que não é muito 
mas sinto me livre e feliz e anónimo

olho a vida como se o mundo desabasse dentro de instantes 


quanto ao emprego não se preocupe 
vou escrever ao meu patrão para me despedir 
não sei o que me espera longe daqui 
nem onde pararei de viajar 
sei que devo partir de todos os lugares onde chegar 
se é que alguma vez vou chegar a algum lugar 
fascinam me sobretudo as cidades costeiras
nelas poderei embarcar para outras cidades 
ou ficar no cais ver os barcos afastarem se
e quedar me silencioso horas a fio
olhando os desaparecer
com o simples desejo de ir com eles 
mas ficar 
ficar um dia mais para que o desejo de partir se torne tão forte 
insustentável 
e me apeteça morrer em cada porto de partida e de chegada 
nesta incerteza viverei o resto dos meus dias 
atravessando mares devassando corpos e noites 
que de mastro em mastro se tornam peganhentas 
indecisas 

digo isto porque ultimamente tenho sonhado muito 
facto extraordinário que já não me acontecia há muito tempo 
nesses sonhos surgem se grandes planos de rostos
antigas topografias de corpos 
desenhados minuciosamente no espaço como mapas pormenorizados 
dalguma costa pedregosa 
paisagens exuberantes imagens a preto e branco 
semelhantes a fotografias ou a visões 
feras que silentemente passeiam pela praia 
e parecem não ter peso 
imensos mares que não consigo localizar nos mapas 
cheguei mesmo a comprar uma quantidade incrível de mapas 
passei noites a estudá los
senti a necessidade absoluta de saber onde encontraria 
aquelas paisagens de rostos e de feras com pêlo ruivo 
assim percorri estradas e arquipélagos 
percorri cidades sem me deter para pernoitar 
imaginei sedes e fomes terríveis doenças 
e nada consegui saber de mim mesmo 
nem onde se encontrava meu corpo 


por vezes acordava em sobressalto 
olhava minha mulher dormir 
perscrutava seu corpo moreno enrolado no lençol 
avistava praias espreguiçadas pela penumbra do quarto 
deve ter sido uma das últimas vezes que a amei 
mas só mais tarde comecei a ter visões 
ficava sentado na cama estático os olhos em alvo 
apercebia pequenas formas geométricas flutuantes 
delicados cristais movimentando se aderiam aos dedos
sementes de estrelas rebentavam deixando escorrer resina 
claridades pelas paredes abauladas 
o ar ficava incandescente 
podia vê lo e senti lo cortante sobre o peito
a princípio assustei me
mas com o tempo habituei me
como me habituei a ver no escuro a desolação de barcos naufragados 
e a viver sem corpo sem sombra e sem reflexo 
minha mulher achou melhor internarem me
mas nunca me foi visitar 
nem uma só vez enquanto estive atado a uma cama 
precisava tanto dela 
ou de alguém que me tocasse 
para me certificar que a vida ainda latejava no fundo do corpo 
não se assuste pai 
tudo isto passou e a morte parece não querer nada comigo 
de resto 
a vida também não 
talvez não devesse falar lhe destas coisas
que direito terei eu de o inquietar? de o perturbar? 
nem sequer lhe devia escrever 
na verdade fomo nos afastando tanto nos últimos anos
o pai já deve ter os cabelos todos brancos 
pouco ou nada tínhamos a dizer um ao outro 
o sol a chuva o mar e a tempestade eram me indiferentes
o cheiro quase doce da terra molhada 
não sei se o pai consegue imaginar o que é uma cidade 
que respiração ferida de cimento se exala dela 
um coração de gasolina e de néon palpita nas avenidas 
aos subúrbios de latas e de estrumeiras 
que cicatrizes sujas de lágrimas se abrem ao cair da noite 
e tudo brilha e tudo parece viver por trás do que já está morto 
entradas de cinemas montras jornais luminosos umbrais de luz 
poderá imaginar tanta luz em plena noite? 
o espaço rasgado por passos rostos barulhos sibilantes 
sirenes gritos aflições pequenos suicídios 
ignoro se o céu imenso daí não o acharia estreito aqui 
percebe agora como é que alguém se pode perder na noite? 
não sei 

noutros tempos é possível que tivesse vivido como aventureiro 
como esses homens tristes tisnados pelo mar 
viajavam 
levando mercadorias e mensagens iam de porto em porto 
enriquecendo fornicando rezando e largando enteados e sífilis 
quem sabe se não sou habitado pela sombra dum país qualquer 
muito antigo e distante 
ou apenas pelo eco duma língua que estala no coração 
uma voz um rosto murmurado um presságio 
então comecei por atravessar o rio nos cacilheiros 
de dia e de noite sem me aperceber que o tempo deste rio 
já o haviam pintado em retábulos magníficos 
e o rio só existia quando sonhava 
como se isto resolvesse alguma coisa ia e vinha 
sem nunca ter a sensação de quem chega ou de quem parte 
sentia me como que a boiar num tempo remoto
e de mais longe ainda que o meu próprio corpo podia lembrar 
um cheiro inquietante a sal devassa me a intimidade do sonho
corroía me a memória

pensei depois ao olhar as fotografias 
as poucas onde me conseguia reconhecer 
que resolveria esta angustiante procura 
julguei que se pudesse recuar ou avançar no tempo 
ser jovem e velho e velho e jovem simultaneamente 
talvez pudesse reencontrar me de novo ou insinuar me
no corpo fotografado 
encontraria o sorriso simples da infância que me revelaria o nome 
mas foi impossível 
porque aquele rapaz que sorria e me olhava 
com seus olhos em papel sépia não era eu 
e tive medo 
passava as noites a embebedar me
turvava a memória de tudo e de todos 
era me doloroso não conseguir corrigir o passado

a viagem que de manhã inicio é um sobejo de vida 
ignoro se irei parar a um desses países cuja linguagem desconheço 
e os costumes do amor me são estranhos 
não sei se haverá regresso 
mas não esquecerei a sua colecção de selos 
quando o pai receber um postal dum determinado lugar 
é sinal de que já nesse lugar não estarei 
será inútil tentar saber do meu paradeiro 
pouco importa se continuo vivo 
se calhar esta viagem não passa de pura imaginação 

tem de me desculpar esta última carta 
de resto pouco disse do que inicialmente lhe queria dizer 
paciência pai 
não nos veremos mais e eu tenho pena de nunca ter tocado 
os seus cabelos brancos 
mas de qualquer maneira já nos víamos muito pouco 
tanto tempo sem memória nos separou 

peço lhe que queime esta carta
destrua a
e se minha mulher lhe escrever ou telefonar 
diga que nada sabe do seu filho há muitos anos 
é melhor assim 
nenhum resíduo nenhum brilho deve assinalar a minha passagem

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