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Endorinologista e Metabologista. Eu o chamo de endocrinologista de amplo espectro. É o médico com quem me faço acompanhar clinicamente agora. A esta altura, eu precisaria de um geriatra. Não vou procurar um geriatra desconhecido, que não tem a mínima ideia de minha histórica e de meu histórico familiar para começar do zero. Por isso escolhi ele: o endocrinologista de amplo espectro. Esse epíteto se deve ao fato de que ele não se prende aos laços da endocrinologia e da metabologia para clinicar e acompanhar seus pacientes. Ele atenta para a cardiologia, a angiologia e até a pneumologia. Ele deu uma sobrevida mais alongada para mamãe, cuidou de papai nos últimos anos de sua vida e fez em excelente trabalho com meu irmão. Por isso, eu o escolhi. Ele conhece meu histórico familiar e tem uma visão mais holística da medicina. Gosto dele. Confio nele. E por isso causou-me espanto, positivo de qualquer maneira, o comentário que fez hoje. Falando com ele sobre as últimas leituras que tenho feito, acresci que gostaria de escrever memórias, ainda que minha vida seja de interesse de muito pouca gente, talvez só de meu interesse mesmo. Ele disse para eu escrever a biografias de meus pais. Uma ideia a se pensar, uma ideia instigante, ainda que eu saiba, de antemão, que muitas fontes já se foram. Talvez eu pudesse escrever uma biografia ficcionalizada. O leitor ficaria em dúvida sobre o que é fato e o que é ficção. Tudo isso para chegar em quatro títulos de livros: Lições de abismo, O nariz do morto, O anel e O livro de Antônio. O professor google vai dizer que ambos são escritores católicos, nomes de destaque no pensamento católico brasileiro. O mesmo professor há de classificar o primeiro título como um romance e os demais como livros de memórias. Ele não está de todo errado. No entanto, o que me faz escrever sobre estes quatro livros – o primeiro de autoria de Gustavo Corção e os demais, de autoria de Antônio Caros Villaça – não vão ao encontro de uma teoria de gêneros narrativos. Longe disso. Já não me sinto obrigado a justificar este tipo de abordagem ou embasamento para proferir opinião, ou impressão de leitura. Já pressinto narizes torcidos, mas vou deixá-los de lado. Os quatro livros são quatro peças IM-PRES-SIO-NAN-TES descrita. E de escrita literária. Em que pese o fato de os quatro poderem ser articulados a um fio autobiográfico inegável – eu não vejo por que esse tópico ainda causa tanta objeção! –, nada nele basta para reduzir o monumento de escrita literária que constroem. Bom é lembrar que nenhum dos autores frequentou as famigeradas oficinas e escrita criativa – como se essa coisa pudesse ser capaz de formar talentos… ninguém me demove da certeza de que o talento é nato, congênito, “essencial”, o que se pode é aperfeiçoá-lo, burilar suas restas, fazê-lo mais consistente – nem ganhou prêmio literários patrocinados por editoras e “governos” com o fim de “abastecer o mercado livreiro”. Jamais! ambos foram ES-CRI-TO-RES. Coisa raríssima hoje em dia. Por força de consequência, os dois deveriam ser estudados, lidos e relidos, incensados como reais e inescapáveis bastiões da tão empobrecida Literatura Brasileira. O livro de Corão é um soco no estômago, daquele que impossibilitam qualquer reação que não seja a de total e absoluta reverência à sua contundência inegável. O quase solilóquio de um homem em situação limite, faz com que o leitor faça deslizar seu olhar pelas linhas do texto enquanto se arrepia com as imagens, o caráter direto e cru das assertivas, a melancolia que envolve algumas observações e um forte espírito cético que a tudo aponta com a varinha da quase insensatez. Um texto “poético” por excelência que faz de Gustavo Corção um escritor, como disse acima, inescapável. O fato de ser “arrolado” no panteão dos escritores católicos não diminui em nada a preciosidade de sua escrita. Texto denso, pesado, bonito, bem escrito. Um exemplo do que a Língua Portuguesa pode oferecer em ternos de recursos sintáticos e semânticos para articular um discurso que está anos luz à frente de muito do que se tem produzido com o mesmo código, o que é triste. Não mais triste que constatar que o autor foi, de fato, abandonado numa esquina qualquer da História da Literatura Brasileira. Não muito distante dele, está Antônio Calos Villaça, que tive o prazer de conhecer pessoalmente em duas ocasiões. Dele tenho duas cartas pessoais e uma memória que vai ficar guardada no cofre das preciosidades afetivas que a existência proporciona assim, gratuitamente. Um andar curtinho, ritmado pela enorme quantidade de banha que adiposamente se espalhava no traje preto, constante de sua figura. O arremate ficava por conta da imensa barba branca – barba de monge, que foi – que emoldurava um rosto quadrado iluminado por dois olhinhos pequenos e absurdamente penetrantes. Uma mente mais que admirável. Dele, os três outros títulos mencionados. Mesclando lembranças de seu passado sofrido e um tanto agressivo, passeia por longas referências a autores e livros que compulsou e, em muitos casos, com quem conviveu seja por períodos longos, seja fortuitamente. Um homem de biblioteca e de livraria, de capela e de restaurante. Da solidão dos quartos e dos caminhos abertos da natureza que apontavam para a imensa criação divina, como soe acontecer no pensamento católico. Os livros do Villaça são, como o de Corção, um poema bem-acabado. Escrito em ritmo personalíssimo que envolve o leitor em bruma de acuidade penetrante, de sutil ironia, de desvelamento melancólico e de uma verdade incontestável: a fugacidade da vida e sua absoluta relatividade. Villaça é outro nome esquecido por essas esquinas tão “festeiras”, tão de “feiras” e de festivais… Uma pena.

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