Saudação

Como acadêmico da ALACIB-Mariana, uma de minhas funções é saudar novos membros, quando assim decidido pela diretoria. Logo, no sábado passado, fui mais uma vez a isto: fiz as boas vindas a Rodrigo Barreto Esquárcio que vai ocupar a cadeira de nº 16, patrono: Monterio Lobato, Segue o discurso.

O que dizer para ou o que dizer de um novo acadêmico? Além das palavras de praxe, é protocolar a busca de peculiaridades personalíssimas para dar destaque, seja pela existência, ela mesma, seja pela produção cultural e científica deste indivíduo. É disso que se trata aqui, sem tentar diminuir ou aumentar, quem faz a saudação a um novo acadêmico não pode deixar de congratular-se com o evento, dado que o novel vai igualar-se, em status, a seus pares já “assentados” no âmbito institucional a que se circunscreve. É a ascensão de mais um par. Portanto, antes de mais nada o espírito é de celebração e de homenagem, mesmo que, confesso, minha ignorância acerca de quem ‘é” Rodrigo Barreto Esquárcio, de fato, no duro, me impeça de dizer mais que o óbvio, na tentativa de ressaltar suas idiossincrasias, estas sim, responsáveis por seu, agora, ingresso definitivo neste colégio. Portanto, antes de continuar, digo ao novo acadêmico, seja bem-vindo.

Este bacharel em Direito nasceu sob o signo de Caranguejo, como se diz na península. É professor e radialista. Vai ocupar cadeira sob o patronato de Monteiro Lobato. Esses dados, assim frios, parecem não dizer nada, mas sempre é possível sua articulação, em busca de algo diferente. Quem nasce sob esse signo tem como elemento a água. Isso pode significar pureza, limpeza, transparência e alimento: a maior parte do planeta é água, o corpo humano funciona à base de água. Dizem que os cancerianos são românticos. Isso não posso garantir, vai de cada um. Como não conheço profundamente o novo acadêmico não posso afirmar nada neste sentido.

Monteiro Lobato é seu patrono, o que pode nos levar a pensar na trajetória profissional do novo acadêmico que, de certa forma, está circunscrita à educação, o que o aproxima de seu patrono. Ambos, ao que parece, dedicados à expansão do campo educacional, lato sensu, em Pindorama. Patrono e acadêmico são homens voltados para o universo dos livros, da leitura, do saber, da cultura. Cada um a seu modo. Essa concordância prenuncia estabilidade e sucesso, no âmbito do colégio em que Rodrigo Barreto Esquárcio ingressa. O fato de ter sua formação acadêmica – graduação e pós-graduação – circunscrita à área do Direito, associado ao fato de exercer atividade profissional no rádio, faz juntar dois outros elementos constitutivos de seu perfil público: a justiça e a divulgação. O primeiro, justiça, é princípio inescapável das atividades de quem se dedica ao Direito, às leis, à regulação moral, social e política de uma sociedade; o segundo, a divulgação, aponta para o serviço prestado à mesma sociedade cujos fundamentos legais e jurídicos estudou. Essa dupla nos diz um pouco, talvez, da personalidade do novel. Seus artigos e suas intervenções em eventos circunscritos à sua área de formação, em certa medida, são documentos factíveis e suficientes para a comprovação deste perfil de atividade profissional.

O bacharel radialista, ou vice-versa, ingressa hoje numa academia de “Letras” e “Ciências”. O gaúcho usa uma expressão assaz instigante: puxar a brasa para seu assado. É o que passo a fazer. E assim ajo, pensando na escolha do patrono, Monteiro Lobato – a ser saldado pelo ingressante, em seguida –, e na peculiar natureza do espírito desta academia: as letras, as famigeradas letras. Já as chamei de mortas e apagadas, por conta de experiências pessoais. No entanto, ainda conservo minha admiração e respeito por elas. Por isso, esse pequeno detalhe. A poesia, o conto, a crônica, o romance, as cartas, o diário, as memórias são gêneros textuais que podem ser produzidos – e o são, aos borbotões, mundo afora – pelas referidas “letras”. Esses gêneros, em seu desenvolvimento, se utilizam de matéria que atravessa todos, absolutamente todos, os campos do saber: a linguagem. Não existe matéria sob a face da terra que prescinda da linguagem para se dar a conhecer, se fazer compreendida, se difundir. Penso que é possível comparar a linguagem à docência. Nenhuma profissão se cria, se desenvolve, se mantém, se transforma, sem um professor. Talvez seja este o motivo de tanto temor em relação a quem domina – ou ensaia dominar – as idiossincrasias deste instrumento inelutável, imprescindível, absolutamente superior: a linguagem. Sobre linguagem, gostaria de fazer uma pequena digressão, citando alguém de quem gosto muito, mesmo depois de ter deixado de vez as lides acadêmicas na/da universidade. Trata-se de um pequeno trecho de As palavras e as coisas, livro de Michel Foucault. No trecho que vou citar, ele faz considerações sobre o que eu chamaria de dinamismo da linguagem, e seu papel no âmbito das chamadas “humanidades”. É o seguinte:

De sorte que, no âmago da linguagem falada como da escrita, o que se descobre é o espaço retórico das palavras: esta liberdade que o signo tem de vir colocar-se, segundo a análise da representação, sobre um elemento interno, sobre um ponto de sua vizinhança, sobre urna figura análoga. E se as línguas têm a diversidade que constatamos, se, a partir de designações primitivas que, sem dúvida, foram comuns por causa da universalidade da natureza humana, não cessaram de se desen­volver segundo formas diferentes, se tiveram cada qual sua história, seus modos, seus hábitos, seus esquecimentos, é porque as palavras têm seu lugar não no tempo, mas num espaço onde podem encontrar o seu local de origem, deslocar-se, voltar-se sobre si mesmas, e desenvolver lentamente toda urna curva: um espaço tropológico. Atinge-se, assim, aquilo mesmo que servirá de ponto de partida para a reflexão sobre a lingua­gem. Entre todos os signos, a linguagem tinha a propriedade de ser sucessiva: não porque ela própria tivesse pertencido a uma cronologia, mas porque estendia em sonoridades sucessivas a simultaneidade da representação. Mas essa sucessão, que analisa e faz surgir uns após outros elementos descontínuos, percorre o espaço que a representação oferece ao olhar do espírito. De sorte que a linguagem não faz mais que colocar numa ordem linear as dispersões representadas. A proposição desdobra e faz ouvir a figura que a retórica torna sensível ao olhar. Sem esse espaço tropológico, a linguagem não seria formada de todos esses nomes comuns que permitem estabelecer uma relação de atribuição. E, sem essa análise das palavras, as figuras teriam permanecido mudas, instantâneas e, apenas distinguidas na incandescência do instante, logo cairiam numa noite onde nem sequer existe tempo.

Desde a teoria da proposição até a da derivação, toda a reflexão clássica da linguagem – tudo isso a que se chamou “gramática geral” – não é mais que o denso comentário desta simples frase: “A linguagem analisa”. Nisto é que foi abalada, no século XVII, toda a experiência ocidental da linguagem – ela, que até então sempre acreditara que a linguagem falava.

Dando um passo para concluir este ato de saudação, evoco um poeta, não sem antes desejar ao novo acadêmico sucesso nesta nova dimensão a que se acomoda. Saiba que a importância deste ato suplanta, em muito, a mera vaidade pessoal ou um pressuposto e equivocado status quo de superioridade. Não. Em institutos como este que agora o recebe, há que cultivar a humildade que se revela no reconhecimento da pequenez humana diante do universo infindável do “sentido”. Penso que, ao fim e ao cabo, é disso que se trata, ou, pelo menos, que dever-se-ia tratar. Este conceito é o ponto de fuga de buscas, estudos, obras, produções, desejos e atividades: o sentido. Concluo então, chamando à ribalta, um poeta, na verdade, uma personalização, entre outras, de um poeta que, penso, é conhecido de muitos. Com seus versos, encerro minha saudação:

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

         No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

         Brilha, porque alta vive.

Na repetição imperativa do verbo poético, nestes versos, é possível encontrar a síntese da atitude de um sujeito que se sujeita – desculpem a redundância – a participar de um colégio multifacetado, ainda que reunido sob a égide um mesmo propósito: a expansão da cultura, em sentido mais largo. Seja muito bem-vindo, Rodrigo Barreto Esquárcio.

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