Ecos do passado III

Ouro texto cuja origem e objetivo se perdem no emaranhado de uma memória já combalida elo ócio criativo. Ao fim e ao cabo, não interessa – para mim, agora – determinar esta referência. Assim como não há referências bibliográficas registradas ao final – não se trata de artigo, tese ou dissertação – fica o texto como mais uma especulação a, se minha proverbial síndrome de Macunaíma deixar, fazer parte de um livro pretendido.

A recepção literária com uma (outra) escrita à deriva: estética ou teoria?

(…) o texto é lembrança de uma outra tela. Texto, que se lembra de um tex­to anterior. O grau zero da escritu­ra não existe e talvez jamais tenha existido. A literatura é sempre de segundo grau, não em relação à vida ou à realidade social de que ela se­ria mimésis (Auerbach), mas em rela­ção a ela mesma, e o plágio não é senão um caso particular dessa escritura sempre derivada de uma outra.

(Michel Schneider, Ladrões de palavras)

Eu começaria fazendo, uma pergunta muito comum. Uma pergunta que cada um de nós já se fez, pelo menos, uma vez na vida, não importa onde nem quando: o que é que eu estou fazendo aqui? Banalidade? Desinformação completa? Não parece. Esta pergunta é a responsável pela abertura de um atalho, um recorte, uma rasura nesta folha em branco. Uma página que pa­rece uma boca aberta. A hiância da página em branco metamorfoseia-se agora nesta fala que tenta, mais uma vez, suturar essa “falha”.

Nesta mesma medida, a Teoria da Literatura pode ser lida como es­te texto que se inscreve num espaço desejoso de esclarecimento, de compreensão. Ele é, também, mais uma demanda de amor. Neste sentido, quatro disciplinas podem ser apontadas como os pilares de um edifício: a teoria, a história, a análise e a crítica. Estou apostando na simplicidade didática de um conhecimento pressuposto. Dentre os quatro pilares, destaco o primeiro, mais ousado: a Teoria da Literatura. Ela tem se mostrado, na verdade, um grande conjunto de disciplinas afins que se completam, se interpenetram, questionam-se mutuamente. A continuar acreditando neste “modelo”, é possível afirmar que uma destas disciplinas “segundas” é a Estética da Recepção. E aqui, uma primeira questão aparece: é estética ou Teoria da recepção? A terminologia sempre foi, é, e será um nó a ser desfeito, pelo menos em projeto, pela Teoria da Literatura.

A proposta deste texto se alarga um pouco mais quando se vislumbra, na atualidade – e tome-se aqui este termo em seu sentido mais largo – a articulação de mais uma disciplina igualmente pletora de experiências, ousadias e desejos intelectuais voltados para a literatura. Trata se da Literatura Comparada. Este alargamento é viabilizado pelo contato com a Psicanálise e a retomada de uma linha de pesquisa específica: o estudo de fontes e influências. Estes parecem ser os pontos que delineiam o perímetro de abordagem do texto que se escreve aqui e agora. Qualquer outra especulação, ou possibilidade, fica fora se cogitação, enquanto elemento específico a ser considerado.

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Por volta de 1967, um grupo de investigadores, reunidos sob o nome de “Escola de Constança”, publicava uma série de textos que, paradoxalmente, não podem, ser classificados de programáticos. Neste sentido, acrescento aqui algumas palavras de Wolfgang Iser, quando faz considerações sobre o texto literário em seu artigo “Problemas da teoria da literatura atual”:

(…) o texto literário é um ato intencional dirigido a um certo mundo, o mundo com que ele se relaciona não é repe­tido, mas experimenta ajustes e correções (…). A função do texto literário se funda portanto nas maneiras de fazer um balanço de um mundo problemático ou por ele problematizado.

Deixando de lado, por ora, as possíveis ligações entre a citação e o texto que se lê, não é sensato abandonar a imensa operacionalidade de uma palavra simples “função”. Ela detona um movimento de revisão de certos conceitos, igualmente operacionais, que a Teoria da recepção pro­põe para a Teoria da Literatura, como um todo. O momento histórico em que os primeiros textos da Escola de Constança aparecem é de extrema fecundidade. A revisão crítica do Estruturalismo já se processava de maneira serie e profunda. Por outro lado, os posicionamentos de uma outra linha de abordagem, a Hermenêutica, aponta­va para a renovação criativa do trabalho de investigação literária. Neste sentido, a função emerge como uma questão fundadora de uma “teoria da leitura”. A leitura não é um movimento linear, progressivo, diz Terry Eagleton. Continuando em sua linha de raciocínio, é mais que necessário afir­mar que não se processa uma acumulação de sentidos. Na medida em que se lê, as especulações iniciais acerca do texto lido estabelecem, geram, um quadro suficiente de referências para aquele momento da leitura. A interpretação, momento seguinte, acaba por continuar esta sucessão, bem como pode modificar, em retrospectiva, o entendimento da leitura original, da leitura primeira.

A partir, destes dados, a função do texto literário deixa de ser meramente semântica. Outros quadrantes serão atingidos. É nesta direção que Regina Zilberman, em seu recentemente publicado Estética da Recepção e história da literatura, diz: “Ler assume hoje um significado tanto literal, sen­do, nesse caso, um problema de escola, quanto metafórico, envolvendo a sociedade (ou, ao menos, seus setores mais esclarecidos) que busca encontrar sua identidade pesquisando as manifestações da cultura.”

Citada aqui para ilustrar o primeiro passo dado neste “atalho”, a professora gaúcha acaba apresentando duas outras questões cruciais para a Estética da recepção, a identidade e a história. Com relação à primeira, é bom que se diga da oportunidade criada pelos estudiosos da Escola de Constança, no sentido de abranger os tra­balhos historiográficos de determinação ou, ao menos, de delineamento do perfil nacional das mais variadas literaturas. Por outro lado, a questão da história emerge de maneira fulminante: é mais que necessário rever os parâmetros de aproximação entre Literatura e História. Não há porque continuar acreditando na suposição de que a Teoria da recepção fixaria os limites da importância de tais ou quais obras, consagradas ao púlpito da historiografia literária, de qualquer nacionalidade. Esta seria uma atitude até naif. Torno, às palavras de Regina Zilberman:

Oferecer a estética da recepção como um novo figu­rino ou esperar que ela encontre seguidores e adeptos entre nós, seduzidos por suas promessas e já saturados de alguma outra corrente crítica, ou filosófica, é não apenas ter uma visão frívola da teoria da literatura (…), significa também colaborar para a alienação e dependência culturais, de que aquela frivolidade é um dos sintomas.

É neste sentido da antifrivolidade que se faz útil, rentável e instigante ler a contribuição de Jauss, com suas “teses sobre a história”. A Estética da recepção seria então uma nova teoria da literatura; nova porque ancorada no interminável manancial da “historicidade da arte”. Este e o elemento decisivo para que se possa desejar – sempre e mais – a compreensão do significado da Literatura, no conjunto da vida social. Assim, pode-se afirmar, como meta principal da Teoria da recepção a reabilitação – constantemente perseguida – da Literatura enquanto marca outra desta mesma historicidade.

Ainda na grande abrangência da Teoria da Literatura, a Estética da Recepção vem oferecendo um leque de sugestões, variado e competente, instigante e iluminador. Estas se voltam, principalmente, para a História da Literatura. Não deixam de colaborar com a Literatura Comparada e marcam a crítica literária. É obvio que as consequências disso recaem sobre a questão do ensino da literatura: isto é outra história… Mas não é só isso, A Teoria da recepção, nas palavras (mais uma vez!) de Regina Zilberman, apresenta-se como uma teoria em que a investigação muda de foco: do texto, enquanto estrutura imutável, ele passa pa­ra o leitor, o “Terceiro Estado” seguidamente marginalizado, porém não menos importante, já que é condição de vitalidade da Literatura enquanto instituição social.

Outro desdobramento é vislumbrado aqui. A dupla dinâmica agora é formada pelas noções de estrutura e de leitor. Com relação à primeira, é bom que se diga que existe um relacionamento entre os elementos que constituem a “estrutura” do texto literário. Este relacionamento instaura um certo “procedimento”, que possibilita a produção, a construção de um sujeito do/no texto. Isto porque, nas propostas vindas, inicialmente, de Constança, passou-se a ser verificado um esforço de encontrar um conjunto de “modos de acesso intersubjetivos à literatura”, é a derrocada da imanência do texto literário, tão cara ao Estruturalismo, herança perversa de um certo olhar oriundo da fenomenologia husserliana, outra cesura filosófica.

Num rápido intercurso, Heidegger, leitor de Husserl, trabalha ar­duamente nesta linha. Motivo pelo qual, num certo sentido, pode compor esta herança fenomenológica da Estética da Recepção. O sentido do texto, contrariamente a este posicionamento, não é “dado”, aprioristicamente. Os procedimentos do texto literário, neste âmbito da especulação teórico/estética, esclarecem o modo como e produzido seu sentido de “conjunto”. Há a subliminar aparição do mito do eterno retorno. O sentido, enquanto hori­zonte final, de expectativa do texto, fica fora de cogitação. Desprovido de relações “conjunturais”, abstrai-se. E o sentido deste “sentido” é sua função.

Retomando o fio da meada, tentando acompanhar o raciocínio de Wolfgang Iser, as estruturas têm o caráter de indi­cações pelas quais o texto se converte em objeto imaginário, na consciência de seu receptor. Este receptor é o leitor – implícito, preparado, adequado, crítico, etc., as denominações são muitas. É o aludido “sujeito” (e a etimologia não pode ser, aqui, desprezada de forma alguma!). Este sujeito é “construído” pelo contraste, pela polaridade, pela diferen­ça, pela repetição, pelo paralelismo, pela sinceridade e pela gradação operados pelo próprio texto. Seria demasiado pensar em alienação e clivagem? É isto que possibilita, paradoxalmente, afastar a compreensão do gosto subjetivo, em favor de uma “consideração objetivável” da Literatu­ra. É claro que, rio jogo de palavras, o desejo se manifesta, fazendo re­tornar um recalcado por demais conhecido, e especulado! Este objeto ser­ve a este desejo.

Seguindo estes rastros, não se trata de uma aberração afirmar que os conceitos-chave da Teoria da Literatura deixam de lado sua ingenuidade. Esta ainda é explosiva, desintegradora mesmo, quando se trata de en­contrar um “único sentido”, conforme quer Iser. Seria possível, então, perguntar se a Estética da Recepção, no âmbito da Teoria da Literatura, se presta ao papel de “instrumento” desta busca. O sentido não é o horizonte de expectativa do texto literário, mas apenas dos discursos da Teoria da Literatura, e por consequência da Teo­ria da recepção, que agem desta forma para que o texto se torne traduzi- vel. A recepção, neste enquadramento, é muito mais que um processo semântico. É um processo de experimentação, de uma configuração do imaginário, projetado no texto. No âmbito da “recepção”, produz-se, no leitor, o objeto imaginá­rio do texto. É uma experiência sempre revivida: desejo latente. A recepção está mais próxima da experiência do texto, da experiência do imaginário que este texto projeta, desvela, revela. Não é uma interpretação, uma semantização do imaginário. É assim que a recepção, por força de experienciar um imaginário, transforma-se em objeto de uma interpretação ou­tra.

Mudado o foco das especulações para o leitor, é bom que se diga, com as palavras de Terry Eagleton, em seu livro Teoria da literatura: uma introdução, que “(…) o leitor abordará a obra com certos “pré-entendimentos”, um vago contexto de crenças e experiências dentro dos quais as várias características da obra serão avaliadas.” O leitor é este sujeito desejado na/pela obra. Esta é originalmente “aberta”, mas esta abertura é objeto de gradual eliminação, pois o leitor passa a construir uma hipótese de trabalho, capaz de explicar e fazer coerentes o maior número possível de elementos desta mesma obra. Na ambiguidade do termo leitor, a Teoria da recepção constrói o seu texto. Vai tecendo suas observações e constatações. Inscreve seus desejos e metaforiza suas imagens no écran. A folha de papel é o simulacro da tela branca. Nenhuma leitura é inocente. Por fim, todo texto literário é construído a partir de um certo sentimento em relação ao seu público potencial. Ele inclui a imagem do seu próprio destinatário.

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Caixa de Texto: O

Filha (perversa?) dá Hermenêutica, a Estética da Recepção desdobra o mito que acentua o caráter da consumição pelo fogo. Hermes diz presente. Passando pela obsessiva metodologia, na busca de uma verdade inalcançável – porque feita de palavras – Gadamer também diz presente, algum tempo depois. Adorno contribui, num momento mais adolescente da especulação “recepcional” – o nome é, em sua natureza, impróprio, pobre, mas muito sintomático –, com a negatividade. Aqui, ela poderia apontar para uma interlocução com Barthes e a sua noção de desvão. Mais tarde, a Linguística aponta para a questão do caráter pragmático da linguagem literária. Denegação? A recepção, nos moldes de Fisch daria conta de simbolizar a castração imaginária operada pelo texto literário em seu leitor, novamente a ambiguidade.

Hoje, depois de passado o momento em que a “tradição” reinou solene e absoluta como objeto de desejo – Octávio Paz com suas rupturas modelizantes e Hobsbawn com sua fascinada invenção apontam para estas “ruínas” –, os trabalhos da Recepção apontam para novas direções igualmente questionadoras, inegavelmente sedutoras. Uma: a revisão provocada pelos novos posicionamentos da História, Le Goff e Guinsburg seriam dois vetores desta inversão molecular na busca, de verdades, pulsações de desejo… Outra: a revisão de conceitos, caros à Literatura Comparada como o de fontes e influências. Estar-se-ia nadando nas águas de um quinto oceano li­terário, interdisciplinado e rebelde oceano?

No fim, a constatação óbvia: mais um texto se escreveu e se inscreveu. Um texto para ser lido: criando um pequeno horizonte de expecta­tivas, em que a imagem desejada/desejante de um sujeito, de um leitor em toda a sua ambiguidade, foi projetada. Como será a recepção deste texto que, mesmo que não queiram outros leitores, é um texto “literário”? Ah, a etimologia… No fundo, continuam notáveis, perceptíveis, as pulsações de um desejo, sempre o mesmo desejo.

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