Dois pontos

Assim que foi lançada na Netflix, vi todos os capítulos da série Messiah. Levei quase três dias para fazê-lo. Mas fiz. Fiquei muito bem impressionado. Claro está que, como produção norte-americana, se não me engano, a obsessão da agente do serviço secreto chega às raias do patético tal sua necessidade de denegar o óbvio e de perseguir sua teoria. Ela reúne todas as “provas” da “montagem” que o protagonista lidera e não consegue sair do mesmo lugar: o mar de dúvidas que a envolve e engolfa. Aliás, praticamente todos os estereótipos de certa histeria coletiva típica dos descendentes de tio sam estão ali: a adolescente rebelde sem causa, o religioso com dúvidas de fé, a esposa insatisfeita encharcando a própria malícia, o jovem ingênuo que se vê mesmerizado por um mito, o velho cínico que arregimenta jovens para fins questionáveis, a jornalista com ligações espúrias que lhe garantem furos de notícias, o político corrupto que trabalha contra a presidência da república, o presidente super poderoso que tem convicções abaladas, o agente federal que tem insegurança e a recalca. Tudo. Era para ser um dramalhão. Poderia ser um concerto de slogans com a finalidade de arregimentar adeptos. Não vejo assim. Eu posso estar enganado, mas acredito que o que se vê ao longo de todos os capítulos da primeira temporada da série é um desfile muito bem organizado de dúvidas, mitos, falácias, inseguranças, questionamentos e incertezas. O “toque de Midas”, diria eu, do fundo de minha ignorância fílmica, é colocar tudo isso num caldeirão que já está a ferver. A opção por deixar apenas a igreja incólume na passagem de um ciclone que destrói uma cidade inteira, abre as portas para um moralismo choroso cujo cheiro não se sente. As ligações intestinas entre inimigos do oriente, conspirando contra si mesmos é outra comporta que se abre e, ao ficar apenas na anunciação (ops!) deixa um rastro de coerência e verossimilhança no decorrer da narrativa. O ator que encarna o “messias” parece ter sido escolhido a dedo. Entre o deboche, o desdém e a raiva incontida, desvela a segurança e a acuidade outra narrativa, esta muito bem experimentada pelo ser humano em todos os seus matizes, independentemente de sua escolha religiosa, de sua formação, de sua educação ou da ausência dela. O fato está posto. A dúvida permanece. Um toque curioso e igualmente luxuoso: os idiomas dos diálogos que não se reduzem à língua de Shakespeare. Isso confere, indubitavelmente, mais consistência à narrativa do filme, à sua realização como exercício artístico de “criação”!

Na sequência, vi um filme que anda despertando atenções, a meu ver, pelos motivos errados. Dois papas. Não há o que acrescentar quanto ao desempenho dos atores que encarnam Bento XVI e Francisco. De Anthony Hopkins não poder-se-ia esperar menos, em que pese o redondo de sua expressão, contrastando com os traços afilados e mais retos do papa real. Já Jonathan Price parece ter sido feito para encarnar Francisco. Há momentos em que não se sabe quem é quem, tal a semelhança fisionômica e o physique du rôle impecável do ator na construção de sua personagem. Ficção (absoluta) ou não, drama criado a partir de “fatos”, leitura roteirizada de documentos oficiais, este não é o ponto. A proposta do filme, quer me parecer é colocar em questão o que muita gente tem falado e o que tem faltado, a cada dia mais, na face do planeta: tolerância. Não no sentido de “aguentar calado” oi de se resignar, mas no sentido cristalino e profundamente correto de interação, diálogo, troca. Os dois papas olham, pensam, andam, falam e agem, no filme, em direções diametralmente opostas. No entanto, estão, a todo momento, preocupados com os rumos que a realidade da instituição deve tomar. Para isso, fazem uso de sua inteligência, de sua formação, de sua experiências, de sua fé (ou ausência dela) de sua memória e, sobretudo de sua “consciência”. Creio que são estas as duas palavras que melhor definem a estratégia narrativa do filme, ou, antes de sua proposta: consciência e tolerância. Digo proposta porque não conheço o diretor e o roteirista e, assim, não posso deduzir por eles o seu próprio desejo. Como audiência, como leitor, como alguém que tem certa curiosidade intelectual, presumo ser possível falar em ternos de proposta em torno de consciência e tolerância.

4 respostas para “Dois pontos”.

  1. Dos Dois Papas, quando a arte provoca diálogo, mesmo sendo uma “adaptação da realidade”, ela cumpre seu papel. Mesmo arte servindo pra nada, como disse Wilde, ela irrita o tudo que nós achamos que temos.
    Interessante a metáfora de Religar (de religião) no começo e no final. De um telefone passa pelo wi-fi – como a modernidade na religação.

    1. Muito bem observado, meu caro!

  2. Não vi Messiah, mas deixou-me curiosa. sua análise do filme Dois Papas está perfeita, na minha modesta opinião. Sabe-se que a relação entre os sujeitos reais não foi exatamente cordial como a dos personagens. Também penso que a intenção de diretor e roteirista foi levantar as questões da Igreja Católica e seu esvaziamento por conta de posições retrógradas e de atitudes pouco tolerantes. O contraponto é, embora não expresso claramente, a figura do Cristo e seu amor incondicional pela humanidade. É uma apologia, se é que se pode dizer assim, da compaixão e da caridade que Jesus pregou. E uma desconstrução do mito da “santidade” dos sucessores de Pedro, ao mostrar duas pessoas “humanas”, exercitando sua humanidade no cotidiano. Gostei muito.

  3. Veja. Tenho a impressão de que você vai gostar!

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