Três

São três os momentos do dia, as fases da vida, os lados do triângulo, as pessoas da Trindade Santa, as perguntas de esfinge para Édipo, as chamadas do brinde espanhol: arriba, adelante, adentro! Três. Dizem que um número forte, simbolizando o equilíbrio perfeito. São três as vidas da personagem principal do romance de João Tordo. O romance se intitula, por óbvio, As três vidas. Romance denso, grande, verboso, mas deliciosamente fluido. Da primeira leitura, ficou um sabor a Paul Auster. Comentei com o autor, quando o conheci pessoalmente em Zagreb. Rapaz tímido, simpático, um tanto gago. Talvez pelo nervosismos da situação àquela atura. Gostei do gajo. Gostei do livro dele. Já li outros. Estou curiosíssimo para ler o último que ele lançou A noite em que o verão acabou. O rapaz consegue escrever sem incomodar. A mim não me incomoda. Há autores que escrevem bem, mas incomodam, fazem a leitura de seus escritos quase um sacrifício. Não é o caso de João Tordo. A urdidura do texto que narra as três existências do narrador – que, neste caso, na leitura que fiz e refiz do romance, é o protagonista – é muito densa e leve ao mesmo tempo. Consegue criar um clima de suspense sem escorregar nas esparrelas que esse tipo de relato costuma imprimir, sobretudo nos filhotes de oficinas de escrita criativa. Não, definitivamente não é o caso de As três vidas. O princípio simples e corriqueiro, com as idas e vindas do trabalho e da convivência junto a uma família tanto abastada, quanto, funcional; a “demanda” de um graal particular: Camila e a existência depois disso tudo. Eis uma síntese precária das três vidas do protagonista, fruto da ilação proposta pelo título do romance. Interessante também é notar a força da imagem do funâmbulo, espécie de fio condutor de um dos planos narrativos do romance. Chave de leitura instigante. Numa das páginas espalhadas pelo mundo virtual, encontrei uma que reproduzo aqui, por ter dela gostado: “Que segredos rodeiam a vida de António Augusto Milhouse Pascal, um velho senhor que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e um rol de clientes tão abastados e influentes como perigosos e loucos? São estes mistérios que o narrador – um rapaz de família modesta – procurará desvendar durante mais de um quarto de século, não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por aquela estranha personagem se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida. Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta – época de todas as ganâncias – e cruzando a história sangrenta do século XX com a das suas personagens, As Três Vidas é, simultaneamente, uma viagem de autodescobertas através do «outro» e a história da paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Milhouse Pascal, e do destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do avô, inexoravelmente ligado à sorte de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da corda bamba em que se sustém.” (https://www.goodreads.com/book/show/5773883-as-tr-s-vidas) H[á uma passar que me intrigou por conta do esforço criativo do autor. É quando o narrador-protagonista relata umas conversas com o velho que o empregou, em Nova Iorque, durante a busca de Camila. Uma preciosidade de criação. Para mim, quase um mistério. Se tivesse paciência e saco, iria escrever um artigo sobre este passagem. Não digo qual é, explicitamente, para não estragar a surpresa de quem puder e quiser ler o romance. Porque vale a pena!

Uma resposta para “Três”.

  1. Que bom! Vamos ter que usar o malote…

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