Insistência

Quis escrever um poema sobre a cor alaranjada do por do sol. O poema não saiu. O céu escureceu. Uma chuva miúda caiu. Mas o poema ficou encruado lá em cima, depois das nuvens. Ou ficou embaixo da terra, esperando melhor momento para brotar. O que fazer? Sem saber ao certo, caminhei. Trinta minutos. Quarenta voltas. Quatro mil metros. Dose diária de um remédio amargo a fazer efeito se tomado, religiosamente de segunda a sexta. Ainda assim, mesmo medicado, o poema não saiu. Nas páginas do livro experimental de Nuno Bragança, a procura pelos verso exato se perdeu. Os nomes das personagens. A reprodução do que vai na cabeça de cada personagem. A diagramação de algumas páginas e a intermitência de trechos em letra miudinha, em itálico, em primeira pessoa, a eriçar os pelos da cabeça e dar coceira no cérebro. Nada do poema sair. O chimarrão, preparado fora do rincão gaúcho. A mistura de suco de acerola, limão e um pozinho mágico para, supostamente, acelerar o metabolismo: gengibre, guaraná e peca peruana. Se não me engano. O margo agiu, mesmo com o adoçante. O efeito foi esperado e desejado no ato de beber. Nada de poema. O ouvido já quase calejado por dias e dias com o mesmo assunto, os mesmos números, a mesma histeria, as mesmas preocupações e um único fato: irritação, estresse, impaciência. Mas nada de poema. A descrição, em palavras, do alaranjado do ocaso não seria perfeito. Não faria à experiência visual da mesma cor. Não cederia ao impacto do mesmo ocaso. A repetição que fascina. A imaginação que se mexe, sem conseguir produzir o poema. O pão velho dos cachorros. A goma de tapioca na pia, a esperar pelo fogo e pelo queijo e pelo ovo, depois da manteiga. Os nacos vermelhos da melancia na geladeira. A brisa fresca que passa vez por outra. A mesmice do nada que ainda, assim, renova. E o poema não saiu.

5 respostas para “Insistência”

  1. Não saiu o poema, mas aí está um belo texto, com requintes de poesia. Para além da impaciência e do cansaço dos dias estatísticos que vimos vivendo. Gostei. Depois me fale sobre o pozinho mágico: onde encontrá-lo? Qual a “posologia”? Aguardo. Beijinho.

    • O pozinho mágico é composição da moça que me vende queijo às sextas-feiras. Não sei a posologia exata. Ela diz que são três medidas iguais de gengibre em pó, guaraná em pó e a tal de paca peruana (não tenho certeza se é este mesmo o nome. Confirmo depois de amanhã!). beijinho

  2. Não se impaciente , pois tudo tem o seu momento exato de sair ou aflorar à tona! Seu poema sairá no momento dele e não no seu . Como sempre textos impecáveis e bem atrativos de se ler.A receita da moça é verdadeira.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: