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Foram, no máximo, oito dias. Entre o aniversário do neto e a internação. Uma semana mais um dia. Muito pouco tempo. Muita intensidade para um curto espaço de tempo. Muita tensão a se acumular. A saga começara no domingo mesmo do aniversário do neto. O pai de uma amiga, assim, de repente, morre. Depois do almoço de aniversário, levar a avó ao hospital. Passar no velório. Fazer o que manda a civilidade e a amizade – então ainda amizade; não havia como prever o futuro; não era possível adiantar o passo e evitar a separação que depois houve, quase vinte anos depois. A amizade que começa num “encontro” de jovens da igreja católica. A identificação. A amizade entre as famílias. O convívio. A separação de um ano pela experiência religiosa. O retorno. A amizade. Anos a fio. Morre o pai da amiga. Oito dias antes. Depois morre a mãe. O aviso. A viagem. A ausência no velório e no enterro. Depois uma visita. O silêncio. Braços cruzados. Nenhuma palavra e os rompantes. Mais uns meses e o recado. A busca. Os recados deixados com os irmãos. Um final de semana e nada. Na terça-feira o telefonema. “Tudo bem? Você me procurou”. Recebi um recado. O que foi? “Precisava de um telefone, mas já encontrei”. Tudo bem no mais? “Tudo”. E o mestrado, como é que andam as pesquisas? “Bem”. Várias perguntas longas seguidas de monossílabos. Anos se passaram sem contato. O fim da amizade. O que não poderia ter sido previsto naquelas noites dos oito dias. Oito dias. O almoço e aniversário em família. O vinho. A zonzura. Depois o hospital. O cheiro insuportável do hospital. Parece que todos eles têm o mesmo cheiro. Mistura de lixo com éter. Inebriante. Murcho e úmido. Um miasma. O insuportável cheiro de hospital antes da ausência de cheiro do velório. as pessoas e seus perfumes se misturavam. Velório, ao contrário de hospital, não tem cheiro. Oito dias. Nessa ordem. Almoço, hospital, velório. Tudo num dia só. No primeiro dos oito dias que se seguiram. No correr da semana, as agruras do dia a dia mais comum. As visitas diárias ao hospital para visitar a avó. As notícias que chegavam de lá, pelos pais, depois das visitas, à noite, depois do trabalho. Uma semana. Todas as noites, a mesma cantilena. As notícias do médico. Diverticulite. Colostomia. Uti. Uma semana de oito dias demorados, longos, tensos, tristes. Oito dias. Os irmãos foram chamados. O prognóstico ruim. Muitos anos de viuvez. Muitos anos de lágrimas e saudades do marido. Muitos anos de visitas ao apartamento antes das aulas. A cerveja gelada, o molho de carne pra molhar o pão. A cerveja. As conversas. Risos e lágrimas, revelações. As visitas que findavam por cabulação das aulas. No dia seguinte, o pito. A avó xingando o neto pela cerveja demais, pela falação demais. As risadas. Muitos anos. Agora a agonia numa uti. Igual a todas as uti’s. Oito dias depois, a notícia do prognóstico ruim. lamento. Choro. Silencio em casa. Televisão desligada. A nora recebendo telefonema do segundo filho e reclamando. “Vê se não chora. Se é pra dar notícia, fala, com calma. Não chora à toa”. Não adiantou. Na véspera do oitavo dia, mais um telefonema. E o filho chorou. O irmão xinga e conversa. O quadro piorou. Na segunda-feira, oito dias depois a notícia. “Mamãe…”. E o choro convulsivo. A nora corre para o hospital. Liga para o trabalho do filho. No hospital uma cunhada da mãe está com ela. Convulsa. Aos gritos. Xingando o cunhado. A avó não tinha morrido. Ele chorou em vez de falar. Os gritos. O choro convulso. Os gritos. O cunhado chega. A mãe avança sobre ele. Tapas. Gritos. Choros. Mais gritos. O cunhado mudo. Quedo. Paralisado. A dor da perda da mãe. O susto com a cunhada. E mais gritos, mais tapas. Reclamações. A outra cunhada dá um safanão na mãe. Joga-a no sofá. “Para com isso!”. Ela cai num choro doído, molhado, sentido e silencioso no sofá da sala de espera da ala da uti no hospital. A crise passou. A cunhada se desculpa. A mãe chora. O telefonema para o filho. Não morreu. O almoço. Os avisos sobre o engano. Depois do almoço, na tarde do oitavo dia, a confirmação da morte. Definitiva, agora. Toca telefonar de novo. Lista imensa. Sem choro. Sem grito. sem safanão. A notícia que se espalha como água no deserto: rápida. E desaparece no tempo. Oito dias de tensão rebentando em momentos tensos numa sala de espera de uti. Oito dias. E tudo parecia um conto, uma história que se passa na tela de um cinema, mas custa a parecer real. Oito dias de agonia, de tensão, de espera e desesperança. Oito dias entre o almoço com o neto e a morte da avó. Um tempo que não se calcula com horas. Um tempo que não pode ser parado com safanões. A explosão que não se controla e que. necessária, acontece. Oito dias depois.

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