17

Sábado. Noite de sábado. Sábado à noite, era mais explícito. Título de música, até. Dia de dormir à tarde. Ficar de bobeira em casa. Tomar um bom banho. fazer a barba. Sair de casa. O trabalho só volta na segunda. A faculdade ficou pra trás, na manhã do mesmo sábado. À noite, a fantasia. Os sonhos. A aventura. Sábado à noite. Como todos os outros sábado. A mesma cantilena. O mesmo itinerário. O carro estacionado do mesmo lugar, da mesma esquina. No mesmo bairro, a mesma casa. Sábado à noite. D. Hélia recolhia-se cedo. Domingo era dia de almoço em família. Quando a família aparecia. Sábado à noite. De repente, do nada, a prima chega e se refestela no cantinho preferido do ateliê. “Quero saber como vai sua sexualidade”. Assim na lata, sem mais. Da convivência mais chegada, apenas um carnaval com alguns familiares e amigos na capital federal. Nada mais. Os drinks, as fantasias. O rebolado na hora do samba. O marido machão e machista a criticar. A prima a incentivar. A tia mais jovem e mas aberta a rir. Muita cerveja. Os anos 70 foram mesmo de uma liberdade jamais conhecida. A geração de 50 sabe disso muito bem. O carnaval na lembrança. A pergunta (implícita) direta, na lata. E a conversa rola. E choro. E risada. E cigarro. Vinho tinto barato. O ateliê apertado. Carlos e a prima. Mais uns dois ou três. Prelúdio de mais uma noite de sábado. Depois, a capital federal. O passeio de final de semana. O choro convulso por conta da volta. O retorno O prazer intenso de mais um sábado à noite. Sylvio. Voltar. A lembrança e Paulo. Buenos Aires, nem um ano atrás. Depois de mais um sábado à noite, a promessa de realização de um de muitos sonhos. Sylvio. Voltar. O choro convulso e a solidariedade da prima. A psicologia ajuda. ais um sábado à noite. A prima solidária. Passa o tempo. O sonho não se concretizou. Morreu na casca. A prima solidária. O apartamento. Os passinhos curtos da prima chegando para o almoço. Joga os sapatos para o alto. Arranca a roupa e vai soltando pelo chão a caminho do banheiro. De banho tomado, nua, anda pela casa fumando. Veste uma camisa e se senta para almoçar. Todo o dia a mesma cantilena. O câncer no cérebro. A mudança para o Rio. A bomba de cobalto. A volta trágica. Corticoide. Corpo deformado. Na cama, ofende e xinga a melhor amiga, a confidente. A prima irritada. Transtornada. Manda a melhor amiga embora. Cai na rua e quebra a perna. A convalescença e a solidariedade de volta. O segredo. O aborto escondido da mãe, da família. A capital federal tem seus segredos. Sábado à noite. Não mais nos anos 70. Agora, no trabalho. Das 19 à uma da manhã. Todos os dias menos domingo. Sábado à noite, não mais. Aparece a prima. Amarfanhada. Descabelada. Bêbada? Cigarro torto na mão. “Vim aqui para você tirar a sua máscara”. O cordão de ouro A falta de atenção que levou a joia a leilão e a perda da cautela. A acusação de roubo. “Com a criação que você teve…”. A ousadia. O almoço. A joia reposta. O almoço a despedida. Não mais solidariedade. Não mais saber da sexualidade alheia. Não mais. O tempo passa. Os sábados à noite perdem brilho com o tempo. A pátina das experiências falhadas. Dos sonhos despertados. Das decepções. Sábado à noite não do mesmo jeito. A morte do pai. O velório com todos os irmãos. A repulsa. O abraço que a prima rejeita. Empurra. Faz careta. Constrangimento. Cena que se repete anos após ano. Volta o problema grave de saúde. Não mais corticoide. Não mais bomba de cobalto. O tempo que passa e as reviravoltas que causa. Inexplicável. Compreensível, mas inexplicável. O definhamento, Pés e mãos ficando redondinhos, fechadinhos. A risadinha infantil. A confusão mental. Os cabelos ficando grisalhos e compridos. A magreza. A voz infantilizada. Não mais a pergunta na lata. A sexualidade esquecida. Nem choro, nem solidariedade. Aborto, não mais. A amiga perdida. O primo afastado. A rejeição do luto. Um corpo estirado na cama, emagrecendo. Com um sorriso infantil A vozinha fininha de menina travessa. Enfim, a reunião de família, depois de muitos sábados à noite. O suspense. A aflição. “Vamos botar uma pedra sobre todos os problemas. É Natal. Recomeçamos do zero. Gosto muito de você!”. A surpresa. A indiferença. As memórias indo e voltando. As cenas em flashes escurecidos pela pátina do tempo e pelas controversas mudanças de comportamento. Da curiosidade sobre a sexualidade do primo a uma degenerescência digna de compaixão. Indo e vindo. Sobe e desce. Ri e chora. Grita e fica apática. Cai. Expulsa todo mundo de uma festa. Chora de saudade do pai. Chama para almoçar. Acusa de ladrão. Uma e duas medidas. Imprevisibilidade. Mudanças que se explica. Talvez não se aceitem, mas se explicam. O tempo que passa. A coleção de sábados à noite que deixa marcas. Umas claras, outras escuras. Contrastes constantes.

Uma resposta para “17”.

  1. Uma mistura de nomes conhecidos, alguns flashes e alguma ficção. Autobiografia também, aqui e ali. Angustiante. Mas instigante as well. Gostei.

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