24

Quinhentos e oitenta e sete quilômetros. A distância entre dois sonhos atravessados pelo tempo. Uma estrada longa para o compêndio de experiências que se acumulam e se revisitam e se repetem. A percepção é outra, mas se repetem. Duas capitais. Duas cidades. E o projeto de voltar  a um passado não esquecido, postergado. As vicissitudes que a vida não deixou de impor em mais de setenta anos. A tia e o sobrinho já prontos para a saga. Mais de nove horas. A rodoviária e seu movimento corriqueiro. Seu cheiro de queimado e estragado, numa mistura de dejetos industriais que movem de tudo. Muita gente e a falação de sempre. O vozerio que se confunde com o eco da voz nos alto-falantes, anunciado, a cada quinze minutos, as chegadas e partias. A tia e o sobrinho na plataforma. A espera do autocarro que vai levar mais de nove horas até o destino que aguarda. Chegadas e partidas: dois pontos de uma mesma viagem (como já disseram). O ônibus (poderia ser um trem) é outro, mas a estrada é a mesma. O caminho é o mesmo. E a dúvida: por que no céu a experiência é outra e não se identifica com esta? O vozerio e a apreensão do que pode acontecer. A animação da tia. A balbúrdia do embarque. As pessoas gritando e o arrastar das malas. A cara barbada do homem que fala sem parar. A tia tenta responder. “Os anjos do exército celeste vão brigar por você”. A pergunta da tia. O vozerio e o homem barbado falando sem parar. Não olhar para ele. Esta seria a chave de tudo. Não olhar para ele. “A guerra dos mundos não tem fim. Os homens vão morrer”. A cara de desconfiada da tia. O homem barbado falando sem parar. Não olhar para ele. O homem continua falando. A fila anda. O motorista observa atônito. O auxiliar empurra as malas para dentro do bagageiro. O vozerio. A gritaria. E a voz do homem barbado se sobrepondo sem ninguém para responder. O rodar monótono dos pneus no calor do asfalto. As horas que passam lentas. A letargia comunitária daquele autocarro. Empresa famosa, tradicional. Bancos forrados com imitação de couro vermelho. Flecha de prata. A estrada que corre embaixo dos pneus. O calor. O homem barbado que volta a falar. Silêncio abissal. “O fogo dos exércitos celestes”. A tarde de sol e os sonhos. As conversas em voz baixa. O barulho do motor e das rodas sobre o asfalto quente. O ar que entra pelas janelas. A parada do lanche. E o homem barbado continua em sua cantilena. “A guerra não tem fim para a humanidade. O exército celeste vencerá”. Ninguém dá confiança. O vozeiro da lanchonete. A vendedora atônita. Três ônibus parados ao mesmo tempo. O cheiro de água sanitária misturado ao cheiro de desinfetante. Banheiro público. Sem papel higiênico. Sem descarga. O cheiro ácido e o vozeiro no balcão. Misto quente engordurado. Suco de laranja passada. O vozerio. O calor. “As armas do diabo não vencerão a força do céu”. O vozerio e o calor aumentam com a chamada para o reembarque. Continua a saga. As conversas. Os risos. O vento que entra pela janela e a conversa sem fim do homem barbado. O motorista não presta atenção. Ninguém presta atenção. Tapinha nas costas do motorista. Do melhor lugar – primeira fila atrás do motorista – a visão da estrada a engolir o tempo sobre o asfalto quente. Barulho do motor e das rodas no asfalto. O tapinha nas costas do motorista. O silêncio. O barulho do motor. “Não adianta lutar contra as forças celestes. O exército dos anjos vai descer. O fogo dos céus vai destruir os homens maus. O pecado não vencerá. Os anjos acompanham o exército do senhor”. O ar quente entrando pela janela. O silêncio. O motorista imóvel em seu domínio da direção do ônibus. Autocarro é tão mais imponente. Ninguém responde Ninguém interage. A chegada. O vozerio da estação. O arrastar de malas. A gritaria. “O exército…”. Não olha, tia. A voz se perde na multidão agitada. As malas carregadas para o taxi. O hotel fica perto do centro. A balbúrdia. O riso safado do motorista de ônibus comentando a viagem com o colega. O alarido de crianças correndo para receber o pai que chega de viagem. A confusão. O calor. A voz do homem barbado já não se ouve. A barulhada da estação não deixa. Cada centímetro de espaço disputado pelos afoitos passageiros atrás de suas malas. O alarido, a confusão. A gritaria e o calor. O taxi para o hotel. A chegada. A visita que vai remontar ao passado. Sem o homem barbado para incomodar. Só não olhar para ele. O ar quente que entra pela janela do taxi. A tia que não gosta de ar condicionado. O barulho da cidade. Os prédios altos. O encontro com o passado que demorou anos. A saga que se repete agora de capital a capital. O telefonema e o convite. O taxi que corre num trânsito carregado e barulhento. Mais calor entrando pela janela com o ar quente. O rádio com a notícia da morte do presidente estrangeiro. A chegada. Mais um encontro.

2 respostas para “24”.

  1. Te garanto que na maior parte das viagens ocorrem cenas idênticas às que você , com sua sabedoria de vida e visão realística descreveu no seu post, para desespero dos passageiros. Ótimo texto!

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