Trecho

Hoje, resolvi publicar um trecho inicial da ficção que estou concluindo e que vai ser publicada em breve, assim espero…

“No diário que manteve e que, até prova em contrário, permanece inédito, há algumas observações pessoais que ajudam a elucidar um pouco o emaranhado de invenções que cercam a morte de Braulio Bras. Ao contrário desta morte, que nunca foi objeto de investigação, o acidente de que se tem notícia foi alvo de inquérito policial. Numa tarde de agosto, um domingo, Braulio Bras havia deixado São Paulo, pela via Dutra, em direção ao Rio de Janeiro no Opala dirigido por seu motorista particular. Por volta das 18 horas, já perto de Resende, de acordo com o boletim de ocorrência da polícia rodoviária federal, o carro se desgovernou, cruzou a pista e bateu de frente numa carreta FNM que vinha em sentido contrário. Desde este acidente muitas controvérsias foram criadas e espalhadas. A dúvida, mesmo com conclusão contrária da polícia, permanece sobre a possibilidade de atentado. Mas quem desejaria a morte de Braulio Bras? Muita gente ainda se pergunta sobre a real conclusão deste incidente.

Cabe aqui uma digressão. Por que fazer contar do relatório de investigação do espólio de Braulio Bras: observações acerca de fatos históricos tão emblemáticos, quanto fantasiosos, para não dizer mágicos? Numa das reuniões da comissão, falamos sobre isso. Discutimos a pertinência ou não da inclusão desse material.

Partindo do pressuposto de que a História como conhecimento é sempre uma representação do passado e que toda fonte documental para produzir esse conhecimento também o é, nada impede de pensar que existem relações insondáveis entre a História e as histórias que sobre ela, ou a partir dela, se contam. Por exemplo, o que acontece aqui: a atenção sobre diversos tipos de textos para pensar sua escrita, linguagem e leitura. Pensando que as narrativas que se criam a partir de eventos aparentemente desconexos – como é bem o caso aqui –, não se pode deixar de notar a representação acerca da realidade, dado que a escrita, a linguagem e a leitura são indivisíveis e estão contidas no texto, que é uma instância intermediária entre quem escreve e quem lê, mediado, factualmente, pela personagem do relato, ainda que muda. Há uma tríade a considerar na elaboração do conhecimento histórico, composta pela escrita, o texto e a leitura. No que se refere à instância da escrita ou da produção do texto, o relator se volta para saber sobre quem fala, de onde fala e que linguagem usa. Já ao enfocar o texto em si, o que se fala e como se fala são questões indispensáveis. Assim, “contextualizar” é indispensável para elucidar o lugar em que foi produzido, seu estilo, sua linguagem, a história do autor, a sociedade que envolve e penetra o escritor e seu texto. A época, a sociedade, o ambiente social e cultural, as instituições, os campos sociais, as redes que estabelece com outros textos, as regras de uma determinada prática discursiva ou literária, as características do gênero de escrita que se inscreve no texto, são questões que permeiam o texto escrito e constrangem o autor de um texto, deixando nele suas marcas. Tudo isso, por óbvio, escapa de qualquer investigação preliminar. Se o cuidado de quem lê não age em acordo com o rumo da investigação, os possíveis liames explicativos se perdem. Neste caso, as controvérsias tomam cona. No caso de Braulio Bras, parece ser esta a situação, até prova em contrário. Aqui não se pode deixar de lado o axioma de que é necessário ter por principal objetivo identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade cultural é construída, pensada, dada a ler. As representações do mundo social, como práticas intelectuais, dentre elas, as ficcionais, como as literárias, são sempre marcadas por múltiplos, complexos e diferenciados interesses sociais, sobretudo, aqueles dos grupos sociais que as forjam. Daí, ser necessário relacionar os discursos proferidos com a posição social de quem os produz e de quem os utiliza, visto que as percepções do social não são neutras; produzem e revelam estratégias e práticas que tendem a impor uma autoridade, uma hierarquia, um projeto, uma escolha (CHARTIER).”

5 respostas para “Trecho”.

    1. Vai continuar assim por um bom tempo ainda…

  1. Esse trecho dá o que pensar…

    1. que bom! Era esse mesmo o objetivo!

      1. Oba, então ponto para mim!

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