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Anos oitenta do século 20. Ainda era possível se divertir no Beirute. Não como no início, mas ainda possível. Já não havia casamentos improvisados entre bebedeiras homéricas e o tráfico de desejos escondidos, ali, permitidos, nos sábados à noite. Tráfego intenso. Possibilidades ilimitadas. Nada como doses cavalares de adrenalina no desejo do sexo que durasse para além da paixão. Os anos oitenta jamais serão superados. A barriga enorme. O rosto magro entre madeixas compridas e um olhar suave a sagaz. a barriga enorme dela. O grupo pequeno brincava que estava grávida de trigêmeos. A canseira no calor do cerrado. As leituras nas mesas desocupadas do segundo andar da Biblioteca Central no campus. As preleções da mulher do general que usava óculos de lentes grossíssimas. O parto seria logo. A barriga enorme. O grupo pequeno acompanhando cada passo. Até a tarde que anunciou o nascimento do menino, o terceiro filho. A visita no final da tarde. “Meu Deus, isso não é um bebê, é um sapo!”. Ela não podia rir. O leite minava dos seios fartos, plenos de leite. O bebê todo enrugado, soltando uma pelezinha amarela – icterícia. Cabelo preto e farto, como do pai. A felicidade da mãe. O grupo pequeno em glória ao redor da cama. As visitas e os cuidados. Os outros dois filhos, uns amores, a brincar e  imitar o amigo de fora. A construção da casinha, no mesmo terreno do sogro, onde já estavam os outros filhos dele. Área enorme, com um bosque e um lago dentro. A casinha de tijolos à vista. Selar o teto de concreto com verniz naval. A farra e os almoços divertidos e agitados. O bebê crescendo. Pintar as janelas e selar as paredes. Pintar o beliche. Casinha charmosa, pequena, uma casa de bonecas. O tempo que parecia não passar. Seis anos depois, no retorno, a farra do menino que nasceu feio e enrugado. Criança linda, amorosa e de boa memória. Só carinhos com o amigo da mãe. Cabelos lindos, pretos, lisos, fartos, como os do pai. Mais um tempo e o divórcio. O apartamento novo. O novo companheiro com nome de músico. O encontro de final de semana que trouxa saudades, com uma apresentação de balé depois do voo perdido. O jeitinho brasileiro no aeroporto. Os anos passam. O mesmo gosto pela poesia de Caetano Veloso e Clarice Lispector. A fascinação pela semiótica. Os anos passando e as mudanças sem sobreaviso. O concurso na câmara federal. O segundo ugar entre os excedentes. A segunda chamada salvando as finanças da família que crescia. As namoradas dos filhos. O namorado da filha. E mais tempo em cima para não deixar enterrar o afeto partilhado um dia. As memórias de um período de formação. Pouquíssimas cartas. Uma outra mensagem. O hiato do tempo a separar os corpos, mas sem conseguir dessumir as almas. O casamento de dois filhos. As duas netinhas. O filho mais velho “ajuntado”. O mais novo, o dos cabelos escorridos e pretos e fartos a jogar voleibol, a formar-se convicto de causas sociais. A tentativa frustrada da Medicina. A docência. E as coisas vão se desenrolando como se não houvesse acontecido nada. O reencontro esperado no final do ano. Final de um governo, por impedimento. Final de uma etapa. A reconquista do passado de mais de 30 anos. A combinação para reencontrar “as crianças”. Dois homens e uma mulher já formados, maduros. A do meio casada e mãe de duas meninas. O mais velho com sua companheira de cara esquisita. Ele continuava lindo e carinhos, como era lá atrás. O mais novo não pode esperar. A confusão com o endereço. Vir do outro lado da cidade tomou mais de quarenta minutos. O mais novo não pode esperar. As netas, a pizza, as conversas à mesa regadas a vinho. As risadas e uma certeza quentinha tomando corpo e alma a dizer que, sim, a amizade estava ali. Depois de tantos anos. Filhos e netas foram embora. O trabalho no dia seguinte. O avançado da noite não permitiu papo muito compridos. Mas o suficiente para saber que a amizade continuava ali. Isso é o que interessava. O estranhamento. “A mulher não fala coisa com coisa. Como é pode?”. Estranhamento. “Você não pode dizer isso dela. São sequelas das torturas.” Estranhamento. A despedida calorosa, carinhosa sentida. A promessa de contato mais frequente. A certeza da amizade. Daí a vereadora desconhecida morre. Consternação geral. Boa dose de exagero e represálias. O uso tendencioso de suposições em lugar de fatos. O exagero da imprensa, a perseguição tendenciosa. Quem era ela? Até aquele momento, ninguém. Mais uma. O fato do assassinato, inegável. A ribalta por causas pouco nobres. O exagero. De fato, alguma coisa que chamou a atenção, que mexeu com estruturas sociais, mas não podia ser tomado como vetor de comportamento. O exagero da imprensa. Os comentários. As reclamações. Uma anedota. Do estranhamento ao xingamento foi um passo. “Se não tem convicção, pior ainda, pra que colocar uma piada assim?”.

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