28

Anos oitenta do século 20. Ainda era possível se divertir no Beirute. Não como no início, mas ainda possível. Já não havia casamentos improvisados entre bebedeiras homéricas e o tráfico de desejos escondidos, ali, permitidos, nos sábados à noite. Tráfego intenso. Possibilidades ilimitadas. Nada como doses cavalares de adrenalina no desejo do sexo que durasse para além da paixão. Os anos oitenta jamais serão superados. A barriga enorme. O rosto magro entre madeixas compridas e um olhar suave a sagaz. a barriga enorme dela. O grupo pequeno brincava que estava grávida de trigêmeos. A canseira no calor do cerrado. As leituras nas mesas desocupadas do segundo andar da Biblioteca Central no campus. As preleções da mulher do general que usava óculos de lentes grossíssimas. O parto seria logo. A barriga enorme. O grupo pequeno acompanhando cada passo. Até a tarde que anunciou o nascimento do menino, o terceiro filho. A visita no final da tarde. “Meu Deus, isso não é um bebê, é um sapo!”. Ela não podia rir. O leite minava dos seios fartos, plenos de leite. O bebê todo enrugado, soltando uma pelezinha amarela – icterícia. Cabelo preto e farto, como do pai. A felicidade da mãe. O grupo pequeno em glória ao redor da cama. As visitas e os cuidados. Os outros dois filhos, uns amores, a brincar e  imitar o amigo de fora. A construção da casinha, no mesmo terreno do sogro, onde já estavam os outros filhos dele. Área enorme, com um bosque e um lago dentro. A casinha de tijolos à vista. Selar o teto de concreto com verniz naval. A farra e os almoços divertidos e agitados. O bebê crescendo. Pintar as janelas e selar as paredes. Pintar o beliche. Casinha charmosa, pequena, uma casa de bonecas. O tempo que parecia não passar. Seis anos depois, no retorno, a farra do menino que nasceu feio e enrugado. Criança linda, amorosa e de boa memória. Só carinhos com o amigo da mãe. Cabelos lindos, pretos, lisos, fartos, como os do pai. Mais um tempo e o divórcio. O apartamento novo. O novo companheiro com nome de músico. O encontro de final de semana que trouxa saudades, com uma apresentação de balé depois do voo perdido. O jeitinho brasileiro no aeroporto. Os anos passam. O mesmo gosto pela poesia de Caetano Veloso e Clarice Lispector. A fascinação pela semiótica. Os anos passando e as mudanças sem sobreaviso. O concurso na câmara federal. O segundo ugar entre os excedentes. A segunda chamada salvando as finanças da família que crescia. As namoradas dos filhos. O namorado da filha. E mais tempo em cima para não deixar enterrar o afeto partilhado um dia. As memórias de um período de formação. Pouquíssimas cartas. Uma outra mensagem. O hiato do tempo a separar os corpos, mas sem conseguir dessumir as almas. O casamento de dois filhos. As duas netinhas. O filho mais velho “ajuntado”. O mais novo, o dos cabelos escorridos e pretos e fartos a jogar voleibol, a formar-se convicto de causas sociais. A tentativa frustrada da Medicina. A docência. E as coisas vão se desenrolando como se não houvesse acontecido nada. O reencontro esperado no final do ano. Final de um governo, por impedimento. Final de uma etapa. A reconquista do passado de mais de 30 anos. A combinação para reencontrar “as crianças”. Dois homens e uma mulher já formados, maduros. A do meio casada e mãe de duas meninas. O mais velho com sua companheira de cara esquisita. Ele continuava lindo e carinhos, como era lá atrás. O mais novo não pode esperar. A confusão com o endereço. Vir do outro lado da cidade tomou mais de quarenta minutos. O mais novo não pode esperar. As netas, a pizza, as conversas à mesa regadas a vinho. As risadas e uma certeza quentinha tomando corpo e alma a dizer que, sim, a amizade estava ali. Depois de tantos anos. Filhos e netas foram embora. O trabalho no dia seguinte. O avançado da noite não permitiu papo muito compridos. Mas o suficiente para saber que a amizade continuava ali. Isso é o que interessava. O estranhamento. “A mulher não fala coisa com coisa. Como é pode?”. Estranhamento. “Você não pode dizer isso dela. São sequelas das torturas.” Estranhamento. A despedida calorosa, carinhosa sentida. A promessa de contato mais frequente. A certeza da amizade. Daí a vereadora desconhecida morre. Consternação geral. Boa dose de exagero e represálias. O uso tendencioso de suposições em lugar de fatos. O exagero da imprensa, a perseguição tendenciosa. Quem era ela? Até aquele momento, ninguém. Mais uma. O fato do assassinato, inegável. A ribalta por causas pouco nobres. O exagero. De fato, alguma coisa que chamou a atenção, que mexeu com estruturas sociais, mas não podia ser tomado como vetor de comportamento. O exagero da imprensa. Os comentários. As reclamações. Uma anedota. Do estranhamento ao xingamento foi um passo. “Se não tem convicção, pior ainda, pra que colocar uma piada assim?”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: