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Sancho Pança e Dom quixote. Inversão improvável, possível e nada gratuita. O gordo comezinho e o magro delirante. Monstros que se movimentam com o vento, moinhos do inconsciente. Toda a sorte de invenção e especulação: capacidade de reverter um processo corrente e demarcar um ponto para “um antes” e “um depois”. Não é apenas Literatura. A vida cotidiana também pode se representar por um par como este. Desde o começo, ainda que latente, esta possibilidade estava lá. As três meninas ainda faziam a prova. E o candidato tomava café com o chefe, em sua sala. “Não posso. O que vão pensar? Estou fazendo um concurso. Não posso!” O tempo passa. “pode sim” Eu sou o chefe!”. A convivência, para o bem e para o mal, estabelece um estágio adiante, o da colaboração, ainda que contra o resto. A delirante sanha dos descontentes e mal aceitos. Quase unanimidade. O fato de não obedecer aos princípios organizacionais mais elementares. A carona de todo dia, durante os primeiros anos. A amizade crescente. A espera da esposa de volta do Rio. A recuperação lá de baixo. As rixas com a coordenadora, passado quase revelado. A mesma origem, o encaminhamento diferente. Ciúme da francofonia alheia? Rancor por conta da burguesia letrada? De uma, as duas. Indecisão. O tempo passa. A evolução, nem um pouco natural da aceitação. Ciúme? A recuperação lá de baixo. A comissão editorial,  comitê de pesquisa, os eventos por convite. Ciúme? A amizade ratificada com a chegada da esposa. As quintas-feiras com Mirta Lady. Nome pronunciado sem sotaque. O pão de queijo, o café, o uísque: as confissões semanais em tertúlias que aprofundam laços e constroem projetos. Continuidade. O tempo passa. Fernando Pessoa morreu em 1935. No ano seguinte, pela pena de um escritor muito interessante, morre um médico brasileiro chamado Ricardo Reis, que se encontra com o fantasma do ortônimo. A celebração da arte no evento em homenagem aos 60 anos de morte do poeta. O marco inaugural da nova fase. Lá embaixo, mais trabalho, a vice coordenação, contra a vontade do chefe, mas não é ele quem manda. A nova comissão criada para diminuir burocracia. A continuação do comitê de pesquisa e do conselho editorial. Muito trabalho e a chanchada tomou conta da organização do evento. Presente de grego. Os quatro dossiês para as agências. Depois do intervalo das férias, os dossiês desfeitos e jogados na gaveta. Ciúme? A chanchada tomou corpo. Jantares temáticos, shows de fado, passeios, vernissage, lançamento de livro. Ultimatum. Ciúme, sem dúvida. Faca na bora, pé na porta: ou é evento ou e chanchada. No segundo caso. nada feito. Constrangimento. A trabalheira da organização. As caras e as bocas. A continuidade da carona, de quando em vez. A viagem a João Pessoa. “Não vai”. A viagem rápida, dois dias. Depois, a carona às vésperas do evento. As caras e as bocas. Ciúme? Sucesso absoluto no evento. Três dias trancado dentro de casa: descanso necessário. O retorno ao corriqueiro da banalidade repetida. A mesma empáfia. A tarde inesperada. A gritaria no corredor e a ignorância do assunto. Quer fazer uma informação circular, chame os alunos e peça-lhes discrição e segredo. Antes do final do dia, todo mundo sabe de tudo, em detalhes, com acréscimos. O jornalzinho: Sancho Pança e Dom Quixote, em papeis trocados. A fúria. A acusação de desvio de dinheiro, de roubo para uma viagem pessoal. A ameaça de processo. A confusão dos berros com a decana no corredor, todo mundo vendo e ouvindo. escândalo. Ciúme? Tudo esboroa. Tudo que é sólido se desmancha no ar…A decadência, o fim. A amizade da esposa como herança. A decisão e o escândalo: garota de recados. D. Irene e seu tique nervoso: o chefe mandou tirar suas coisas da sala. “Mandou? Vai ter que me dizer na lata.” O final de semana do acidente doméstico com a consequente licença médica. A decisão. A romaria de pares. Os pedidos, as súplicas. Choro e gritaria. Discussão. Chega. A demissão três semanas depois. A empáfia. “Veja que estou sendo magnânimo. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto e deixar tudo isso para trás.” A decisão tomada: demissão: auto exoneração. Nuvens cinzentas e pesadas no ar por algumas semanas. O tempo passa. Inesperadamente, o reencontro. Restaurante cheio, pessoas conhecidas a celebrar o reencontro. Alegria, risadas, gritaria e muito chope. O grito. O nome. A cena patética. O porre que não segura o extravasamento constrangedor: “Eu te amo! Você sabe que eu te amo”. O abraço e as lágrimas na mistura etílica das rédeas soltas. O constrangimento. Revelação. O tempo passa. A esposa se vai. Volta para sua cidade natal. O fim de tudo, Lembranças que se apagam. A retomada do contato, agora virtual. A doença. O pedido para um comentário. O tempo passa. Ainda há lacunas nas possíveis explicações.

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