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A massa de ar cinzento e miasmático que o sonho movimenta no inconsciente não pode ser medida. Detectada, percebida, relatada, mas não medida. A confusão se faz ou se desfaz em ainda assim, nada muda nesse sofisma. Ou seria um axioma? A fidelidade e a eternidade, para além da homofonia não resguardam a mesma durabilidade. Trinta anos. Um casamento de amor, nos moldes sociais mais circunscritos à tradição e aos costumes. Pai farmacêutico, mãe cozinheira. Os outros dois genitores, desconhecidos. Um casamento tradicional. Dois filhos. A profissão da mãe e do pai conjugadas na composição de mais um lar. A construção de uma casa como sonho impossível, trasladado para o financiamento. O lar constituído de maneira sólida e conjugada. Dois filhos. Trinta anos e dormindo abraçados. O elogio doceiro do corpo dela. O abraço noturno que satisfaz, gratifica e fortalece. Trinta anos de idas e vindas. O ritmo diário das semanas profissionais. A cidade do interior. A estação ferroviária da capital. O rito de consumação de uma cumplicidade fomentada pelo amor, pela amizade, pelo compromisso comum. Conjugação de afetos e confianças. Até prova em contrário, incontestáveis. Trinta anos. As chatices de um. O ridículo de outro. As dúvidas quanto à educação dos filhos. A escola, os princípios, o comportamento que se reproduz numa espiral de verdade moral, por princípio. Uma história comum que jamais prenunciaria surpresas desagradáveis, até prova em contrário. Todos os dia correndo segundo um planejamento que se matinha no mesmo ritmo. A organização da casa que não deixava de ser praticamente um exemplo. As histórias familiares recontada incansável e eternamente nas fotografias expostas no buffet. A escada que divide os espaços domésticos. A biblioteca que coleciona experiência, gosto e fantasia. O tempo que passa no cotidiano de mais uma família. O jardim e a horta mantendo relações não descritas por afetos conjugados. O casamento do segundo filho. A formatura e a mudança para o interior quebrando o ritmo que sempre foi igual. Tédio? A saída de uma filha. A busca de realização de sonhos não previstos. A determinação de diferenças individuais inerentes ao cotidiano do sujeito em família. Diferença de opiniões, nada que ultrapasse o perímetro da conhecida e reconhecida normalidade: o âmbito das convenções arraigadas. A família que se reduz a dois e a continuidade do diário movimento as existência comum. O começo de tudo, de novo, outra vez. Trinta anos. Não há como não pensar nos versos de um poeta conterrâneo: “No meio do caminho tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / Tinha uma pedra / No meio do caminho tinha uma pedra / Nunca me esquecerei desse acontecimento / Na vida de minhas retinas tão fatigadas / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / Tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / No meio do caminho tinha uma pedra.” A pedra se desenha e formas múltiplas. Cronos não antecipa o momento. O destino, entidade incorpórea não cede a caprichos outros e decide, sozinho, o momento em que tudo deve acontecer. Do nada, de repente. Inopinadamente. Um dia como qualquer outro pode ser só mais um como qualquer, Persiste, inerente, a possibilidade ser outro dia, não igual a qualquer outro, mas outro dia. Um dia, de repente, do nada. O que é comum se repete, por um tempo. Alguns passos já conhecidos que não se questionam. marcação teatral que não é preciso mais recordar. Os passos se dão, as falas se repetem. Nada de errado com isso. Certo cansaço… pode ser O café a fazer, na espera do retorno do outro. Água, pó, açúcar. As xícaras na mesa sobre a toalha puída. O silêncio, acalanto: domus. Num relance, as malas prontas. O vulto no portal. Nenhuma palavra. O fim de uma história. Segundo capítulo que começa. A descobertas de detalhes obscurecidos pela confiança partilhada. O despertar de afetos ocultos, não experimentados. O completo silêncio, Por quê? Depois de vinte anos, não mais dormir abraçado, não mais o cheiro do outro, não mais a doméstica repetição do simples, corriqueiro, afetivo e banal. Não mais. O sumiço. A falta de explicações. A notícia por terceiros de mais um membro na família. A porta na cara: tentativa de visita e busca de reconciliação, uma explicação mínima, quem sabe. O corte de todos os projetos em andamento. Surto e choque. A desinformação e a hostil conivência dos outros que sabiam de tudo. abem onde o filho está, o que faz, com quem está. A família do filho que não se deu a conhecer. O proibitivo aviso de impossibilidade de contato, a inexplicabilidade do que não se conhece. Por quê? Vinte anos para tanto. Susto e choque não se resolvem como comprimido efervescente. O pó não desmancha. Os cacos. Os vinte anos rasgados como jornal velho. Por quê?

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