32

Os pés de chapa. Dedos mal desenhados e o calcanhar bem mal cuidado – pra não dizer rachado. Todo cuidado é pouco. Tudo o que se diz é lido e pode ser lido de forma diversa da que o sentido primário imprimiu. Este sentido nem sempre é percebido. Quase sempre é distorcido. Todo cuidado é pouco, pois. Mas os pés de chapa tinham dedos horrorosos, estavam bem mal cuidados. Estavam sim. Eram sim. Ainda se fosse esse o detalhe mais degradante. Foram tantos outros. Tantos… De nada adiantaram os mais de vinte anos de relacionamento anterior. Um intruso não reconhece isso. Não é capaz de equalizar o que isso significa. E não é pouco. Vinte, quase trinta anos, se não fossem mais. Ainda que fossem menos, o intruso não saberia, por genuína incapacidade. O clube dos intrusos começou devagar, insidiosamente. A aparente humildade do rapaz do interior que vem morar na cidade fez seu papel. Desempenhou com galhardia a persona simples, aprendiz, que respeita os laços de amizade e a experiência, a idade. Assim, devagar, com sorrisos melífluos que, depois, se revelaram sarcásticos e maldosos, maliciosos, num desvão de caráter comum entre os intrusos. É da cepa desse vírus. Os restaurantes antes frequentados pelos amigos. O DNA com a experimentação das criações do sushiman, em incontáveis noites de sábado. O grupo que se encontrava religiosamente a cada semana, a destilar ironia sofisticada, comentários cheios de conhecimento, gostos consolidados com capacidade e conteúdo. Nada de bracinhos levantados balançando de um lado para o outro. Nada de U-hu-hu-hu em lugar de letras de música que diziam o que a poesia desejava. Nada de filmes que eram esquecidos dois minutos depois da sessão. Não. Da literatura à música, da economia à política, dos costumes à História. Comportamento e opinião. Memória e vivência. Havia de um tudo. E o grupo sobejava criatividade, bom humor, graça e leveza. Sem estereótipos. Sem lugares comuns. Sem chavões e modelitos desgastados e vazios, pífios manequins de montra. Os anos que passam. Três endereços na capital federal. Quatro endereços na capital das alterosas. As caminhadas a pé pela Bahia, com direito a intromissão em casamento em Lourdes. O Lulu em sábados à noite, de antes. Com os intrusos, um restaurante – até interessante – em Santa Tereza. As idas e vindas. As festas e as conversas demoradas com marijuana, cerveja, cigarro e saudades de tempos outros. Parece que nos 70 tudo era mais fácil. A impressão é de que os anos 80 foram bem mais divertidos. Sem denegar a evidente diferença e suas mais diversas manifestações. Mas nada disso se compara ao furor iconoclasta do clube dos intrusos. Todos da mesma laia. Todos arrotando riqueza e poder. Todos regurgitando verdades absolutas e, por isso mesmo, vazios sofismáticos, a dizerem nada. Uma do interior como ele. Outra da capital. Um outro também da capital. Este não podia falar. Não tinha o que falar. Cérebro de ameba gripada. O corpo obedecendo aos padrões, as conversas sobre suplementos e rotina de “treinamento”. De quê? Não sabia dizer. Não podia dizer. Não tinha capacidade de dizer. Então veio o vice presidente do clube. Veio de lá, da terra da zangada. Do lugar que tem mais antropólogos por milímetro quadrado na face da terra. A impressão que se tem é que basicamente 95% da população “faz” antropologia lá. Estudar antropologia não dá status. Assim mesmo, em minúsculas. Um lugar em que as pessoas acreditam que só existe um continente que vale a pena considerar como “cultura”, a África. Pouco se me dá se disserem que isso é preconceito. Não é. Podem até dizer que é racismo. Não é. É simplesmente a constatação triste de fatos que conseguiram, pela intrusão, destruir trinta anos de uma história que teria muito a contar. Os registros se perderam. Não mais a possibilidade de recuperação. O elo que ligava as duas pontas da corrente se perdeu. Definitivamente. E o clube dos intrusos continua a babujar-se nos próprios miasmas. O comportamento frenético de quem acredita que não existe mais nada que tenha sentido, então. O conjunto de baboseiras que chamam de vida. Sem perder a verve de intrusos. Inseminar-se insidiosamente, pelas beiradas. Usar, com vilania, as armas mais pueris, para um contaminação nefasta e definitiva. Nenhum do grupo de antes conseguiu permanecer em ambiente tão pegajoso, sujo, engordurado e malcheiroso. Sem graça. Combinação perfeita para o vociferar de vozes intrusas. Um único sobrevivente a tentar permanecer, não incólume – por impossível –, mas a hastear a bandeira da memória. Esta que foi aos poucos perdida, entre tosse, febre e complicações outras. A explicação inalcançável e o “poder” da intrusão. Impedir o compartilhamento da perda com quem de direito. O supra sumo da baixeza: falta de qualquer resquício de caráter. Vilania. Caminho perfeito, trilhado por um par de pés de chapa, com os calcanhares mal cuidados, a soerguer um paquiderme de nadas.

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