Ritmo e sensibilidade

Durante os anos de magistério superior, fiz leituras que era obrigatórias por força do conteúdo a ser estudado a cada semestre. Particularmente, este estudo foi-se tornando, ao longo dos anos, repetido, dado que os conteúdos não mudavam e as disciplinas sob minha responsabilidade passarem a ser sempre as mesmas. Com o tempo, fui conseguindo ler outras coisas que não o que era obrigatório para as aulas. No entanto, sempre agia uma outra força da natureza, nefasta, que me impelia para o ócio: a preguiça. A ela se juntava ao desânimo causado pelo desinteresse quase absoluto dos meus ouvintes (jamais deixei de considerar a possibilidade de ser enfadonho, chato e desinformado, não seduzindo a mesma plateia), o desgaste emocional, espiritual e físico por contas das reuniões enfadonhas e inócuas e, por fim, certa dose de desespero por ver o barco se afundando e não poder fazer nada com a minha canequinha que só conseguia tirar alguns mililitros de água do barco. Um quadro que beirava o catastrófico. No meio desse quase caos, ainda consegui encontrar, até o início do período de dois anos que fecharam minha “carreira”, tempos, lapsos de cronologia, para saborear leituras outras que não as obrigatórias. Não foi o caso dos dois livros sobre os quais vou tecer algumas linhas: O quinze e Menino de engenho. Apesar de ter estudado bastante o Regionalismo, no contexto da Literatura Brasileira, para fins de doutoramento, não li o romance de Raquel de Queiroz. Já o de José Lins do Rego foi leitura de tardio tempo, já há décadas guardada na memória. Uma revisitação. Começo por ele. Tocante, a maneira como o autor vai conduzindo seu leitor pelos meandros memorialísticos de um menino da cidade que é transportado para um universo absolutamente desconhecido. O motivo é funesto: a morte da mãe. As descobertas e as surpresas do “menino de engenho” são muitas e múltiplas. Seu périplo pelo reino de Mnemósine é divertido melancólico, surpreendente e hilário. Tudo ao mesmo tempo. É tocante a maneira como a vez narrativa, á adulta, se reporta aos verdes anos do menino da cidade, em seu périplo pelo engenho, desbravando novas realidades. O jogo de focos narrativos também seduz e, às vezes, pode até confundir. O leitor mais atento escapa da esparrela de confundir a voz narrativa adulta com a maturidade da personagem que revive o seu passado. Ou seria isso mesmo. Por outro lado, parece patente a segurança desta mesma voz em se firmar como consciência de um tempo que passou, sem se deixar subjugar pela subjetividade que esta mesma consciência pode acarretar. De novo, não poderia ser exatamente assim. Mais uma vez, vai depender do leitor e de sua tenção, sua acuidade. Este é um romance que anda aos tropeços (calculado e seguros, não o seu correlato desorientado e perdido), sempre atento ao que ficou no passado. Um exercício sedutor de busca de fios perdidos para não se perder o novelo. Talvez seja esta uma das representações do que se convencionou chamar de ritmo. No tempo em que a “Teoria da Literatura” era mesmo uma disciplina (?) que partia e se construía a partir do texto literário. Parece óbvio, mas… Então. Creio que se pode encontrar, nos traços narratológicos que acentuei em meu comentário anterior sobre o romance de José Lins do Rego, um exemplo do tal de “ritmo” narrativo. Com igual convicção, acredito que há um exemplo melhor para ilustrar este conceito. É aí que entra o segundo romance aqui aventado: O quinze, da Raquel de Queiroz. Penso que confessei, logo de início, jamais ter lido este romance senão agora. Que deslumbramento. Em que pese a secura e a tragédia das cenas e da saga narrada, respectivamente, o romance é um deslumbramento só. Que delicadeza para tratar da famigerada seca. Que acuidade no desenho de cada personagem em seu dilacerado périplo em busca de uma explicação plausível para o que se passa. Neste romance, penso eu, encontra-se a demonstração cristalina do domínio da técnica e da arte de impor um ritmo à narrativa. A autora, com maestria, para além da galhardia com que desenha os retirantes e seu sofrimento no cenário inóspito do sertão, pagando seus tributos ao Regionalismo, vai além. Creio que não há, neste passo da História da Literatura escrita no Brasil, exemplo mais bem acabado do que seja o domínio da engenhosidade do ritmo narrativo. É simplesmente, impecável. A cada cena os diálogos compõe o clima necessário e suficiente para pintar, com tintas fortes, a peça do quebra-cabeça que o romance propõe para o leitor. O puzzle é prazeroso, apesar do áspero do tema e do assunto. O prazer advém da descoberta de como o relato vai, num crescendo, emoldurando os aspectos mais que fundamentais do discurso regionalista de denúncia e constatação. Uma espécie de exercício de redesenho de um campo limpo para (re)construção de uma pressuposta “nacionalidade” que, à altura do contexto a que se circunscreve o romance de Raquel de Queiroz, já se encontrava um tanto perdida em meio a experiências estéticas as mais variadas e de consequências ainda incalculáveis. Penso que este é um legado importante desta obra. Para muito além de ser um romance regionalista, O quinze é um texto do mais precioso quilate, sobretudo, no que diz respeito ao ritmo da narrativa. E não só…

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