Língua

Então é assim. Um rapazinho loirinho, de olhos azuis, branquinho, malhadinho, tatuadinho, vestidinho com roupinhas da moda e com aquela voz típica de adolescente ianque, aparece na tela do computador (pode ser tablet, celular também!), falando com um sotaque dos mais postiços, esmaiados e empostados e avisa que vai comentar sobre uma coisa que os brasileiros costumam fazer. Ele diz que brasileiro não faz como os norte-americanos ao responder a uma pergunta. Quando se faz uma pergunta a um norte-americano, diz o rapaz, ele responde “yes”! Então, o rapaz diz, com cara de desdém, deboche e sarcasmo, que os brasileiros respondem a esta pergunta com um verbo. Você sabe as horas? Sei. Você está com fome? Estou. Você pode me indicar o caminho? Posso. Você vai à festa? Vou. Na apresentação que o rapazinho faz, o que se percebe é que ele está a dizer, implicitamente, que o brasileiro está errado. Eu acrescentaria, com toda a minha chatice, que ele pressupõe que isso é, para além do erro, um defeito, um pecado, quase um crime. Ora, ora… Vamos a ver… O coitadinho do rapazinho não sabe, ao certo, o que é idiossincrasia. Além disso, ele não deve saber que existe uma coisa chamada Linguística, que, por acaso, é uma “ciência” (Não vou entrar no mérito da discussão desse axioma aqui!) que explica entre outras coisas esse tipo de fenômeno que, por sua natureza, pode ser arrolado ao paradigma de “cultural”. Mas o rapazinho não sabe disso. Ele deve saber que é “descolado” falar esse tipo de coisa na internete. Sim, com “e” no final, como eu escrevo na língua que eu falo, a Língua Portuguesa (Outro mérito cuja oportunidade de discussão vou deixar passar!). Ele deve “achar” que faz sucesso e que se mostra “antenado” ao afirmar tais bobagens. Ele deve fazer parte daquele grupelho que acredita que se pode usar a vogal “e” como marca de anulação do caráter binário da língua. E esta é uma das mais abrangentes, contundentes, estonteantes e irrecorríveis bobagens. (Pela terceira vez, vou declinar do direito de me deter no mérito da questão). Pois é. Essa “espécie” de animais anda aumentando sua população no gênero humano. Sim, gênero. A humanidade é um gênero, como a animalidade, como a mineralidade. Não como o sexo. Este não é gênero. É sexo mesmo. E binário, para desespero daqueles que se se acham superiores por defenderem que a língua não pode ser binária. Como se mudar a natureza de uma língua coubesse na estreiteza molecular da área ocupada telo tico e pelo teco dessa patuleia. Mas sexo foi, é e sempre será binário: masculinos e feminino. Já sua derivada, a sexualidade… Ou mesmo sua prima rica, a identidade. Bem, entender isso requer muito esforço encefálico e cognitivo. Prática proibitiva para os espécimes em questão. Se é que me entendem. Creio que é por essas e por outras que, dentre outras influências, que chegamos onde estamos; convivemos com a intrusão nefasta do “aí” em lugares onde ele não é chamado, onde ele não cabe, onde ele é persona non grata. Usei o Latim, de propósito, para irritar a patuleia que nem se lembra que existiu uma língua chamada Latim e que ela é a célula mater (de novo!) da própria Língua Portuguesa! Convivemos com a pronúncia subserviente (recorde) de uma palavra que em Língua Portuguesa se pronuncia “recorde”. Lembrem-se os acentos aqui são usados para marcar a tonicidade da pronúncia. Eu sei que as palavras não são acentuadas em sua grafia. Essa convivência nefasta irrita, enoja, dá preguiça. Não vou me demorar mais e não vou dar explicações. Vou apenas concluir reproduzindo um soneto do Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, só pra contrariar:

Última flor do lácio, inculta e bela,

és, a um tempo, esplendor e sepultura,

ouro nativo, que na ganga impura,

a bruta mina entre os cascalhos vela.

Amo-te assim, desconhecida e obscura.

tuba de alto clangor, lira singela,

que tens o trom e o silvo da procela

e o arrolo da saudade e da ternura.

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

de virgens selvas e de oceano largo.

Amo-te, ó rude e doloroso idioma.

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”

e em que Camões chorou, no exílio amargo,

o gênio sem ventura e o amor sem brilho.

2 respostas para “Língua”.

  1. Pena que não fui sua aluna… Cada uma dessas postagens é uma aula, de puro brilho. Salve!

    1. Às vezes, sinto saudade dos tempos de Santa Maria. dos primeiros anos em Mariana, mas só dos primeiros anos. Quando dar aula era um prazer e eu viajava, acompanhado de quem se interessava e era bastante gente. Mas passou. Acabou. E o ócio criativo me gratifica de maneira mais que satisfatória…

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