Lacuna

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Certo “fenômeno” teve lugar durante o doutoramento. No seminário de Literatura Comparada, o último da ‘serie, a professora pediu que lêssemos A montanha mágica, do Thomas Mann. Um verdadeiro cartapácio. Ainda não tive oportunidade (e vontade!) de reler o romance. No entanto, ficou na memória o dito “fenômeno”. Ocorre que, entre os comentários feitos pela professora, um se dedicava (e longamente!) a uma determinada cena do romance. A leitura requerida serviria para discutir alguns tópicos acerca da Tradução, suas técnicas e seus métodos, as dificuldades e as possibilidades, os prós e os contras. Li o romance. Até hoje não consegui explicar por que na leitura, não consegui reconhecer a dita cena. Como disse, não reli o livro. Logo, não posso dizer que o fenômeno se repetiu. No entanto, isso me faz pensar na leitura e como ela pode nos enganar. Terei dormido quando li a tal passagem? Será que ela se apresenta de forma não tão destacada quanto à que foi referida pela professora? A cena existe mesmo na tradução? Sim, a professora, austríaca de nascença, leu no original. Ô inveja! pois é… Fico eu, então, sem saber. Frustrado, mas nem tanto. Muito mais curioso que outra coisa. Quem sabe, no meio de meu ócio criativo, situação constante agora até o fim de meus dias, eu consiga reler o cartapácio, não dormir na tal passagem e verificar sua existência. A ver.

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A mesma coisa está a se passar agora, ainda que as condições sejam diferentes. Desta feita, trata-se de Dom Quixote. Releio a obra monumental de Cervantes pela terceira vez. A edição que leio agora foi publicada por um “clube de literatura” do qual sou sócio. Outro cartapácio. Fizeram a edição em volume único, quase mil páginas. Com aparato terminológico interessante. Há termos risíveis, outros nem tanto. Coisas do espanhol do século dezessete. Muita coisa mudou. O “fenômeno”, em sua essência, é parecido. Trata-se de uma passagem em que o cavaleiro andante passa por uma “casa editora” e faz um comentário. Já estou pra lá da metade do que seria o segundo volume (como eu disse, a edição foi publicada num tomo só). e… nada! não consegui encontrar a tal passagem da qual não me lembro literalmente. Sei que menciona os comentários do cavaleiro, como eu disse, a partir da visita que faz a uma “editora”. Uso o temo com certo receio, mas… Deixa pra lá! Pode ser que tenha se passado o mesmo que da leitura do romance do escritor alemão. Não vou conseguir saber. No entanto, diferentemente daquele, há uma passagem (que também não localizei… ainda), retomada por outro escritor de língua espanhola. Nesta volta, na Argentina: Jorge Luis Borges. Trata-se de um conto (?): Pierre Menard, autor de Dom Quixote. A dúvida entre parênteses tem a ver com essa mania de classificação taxonômica para cada conjunto de páginas escritas que vêm a ser publicadas. Chamo de mania, agora. Mas isso é assunto para outra hora. No texto do escritor argentino, há uma passagem tirada do livro de Cervantes: “…a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.” A passagem consta do capítulo nove, da primeira parte.. O texto de Borges é quem indica. O interessante é que, no texto do escritor argentino, a passagem de Cervantes é repetida, literalmente, na obra que Pierre Menard está a escrever. Na cabeça dele, é o Quixote. Como é possível Alguém (é apenas uma personagem) dizer que é de sua autoria um trecho “copiado” de um livro considerado clássico no/do Ocidente? Pois é. Mas há uma explicação (Acredito que é possível. Já escrevi um ou dois artigos comentando o tópico). Cervantes escreve seu livro no século dezessete. Pierre Menard, no dezenove, salvo engano. O que muda não é o texto, mas sua percepção. Em outras palavras o leitor de Cervantes não é o mesmo de Pierre Menard. Aí está a diferença. Pensem um pouco. Reflitam. Hão de chegar à conclusão de que Pierre Menard não era doido. Eu também não sou! E não estamos sozinhos…

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