Impressões

Reli, com indescritível prazer Incidente em Antares. A releitura me trouxe à lembrança uma cena hilária. Numa roda de chimarrão, recém-chegado em Santa Maria-RS, tendo lido um pouco antes todo o ciclo de O tempo e o vento (que ainda vou reler!), comentei que uma das primeiras viagens que desejava fazer pelo Rio Grande do Sul era visitar Santa Fé. Todos os olhos se voltaram para mim. Constrangimento e mal; estar. Depois, uma gargalhada generalizada. E eu com cara de bobo. Uma colega, professora de Linguística (Daria tudo para me lembrar do nome dela agora!), entre uma gargalhada e outra, disse que eu não conseguiria. Eu ainda perguntei por quê. Alguém disse que Santa Fé só existe no romance do Erico Verissimo. Se eu fosse a Cruz Alta e a Júlio de Castilhos poderia ter uma ideia do cenário que serviu de inspiração para o autor. Que falta de graça a minha. Depois, numa roda de professores de Literatura, a mesma história eu contei. As mesmas risadas, desta feita, inclusive, minhas. Mas na conversa pude comentar que tive esta impressão tal a força da narrativa do Erico Verissimo. A sua linguagem “realista” (As aspas se justificam. Não estou associado o nome do autor e sua obra ao “movimento” originário do/no século XIX, no Brasil. O realismo a que me refiro é o da força materializante de sua linguagem. O vigor dos diálogos. O vocabulário esculpido de maneira magistral pela realidade que era a dele. Portanto, nada mais natural, sensato e elogiável que este realismo. Isso fez com que acreditasse, foro íntimo, na existência cartográfica de Santa Fé. Pois é. Reli com imensurável prazer. O livro é dividido em duas partes. A leitura que fiz e refiz me leva, salvo engano, a ver a primeira parte do livro dividia em dois. Um primeiro momento em que o autor desenha o pano de fundo. Num segundo passo, contextualiza geográfica, política e sociologicamente as personagens, assim dando mais sabor à sua narrativa. A segunda parte, o “incidente” propriamente dito, fala por si. Com as duas primeiras mãos de tinta a cena se desenvolve e se apresenta aos olhos do leitor de maneira contundente. Um humor refinadíssimo, beirando o sarcasmo mais feroz. Há uma cena, para mim, emblemática desse traço do texto de Erico Verissimo. É quando ele coloca na voz de uma de suas personagens chacota com o próprio nome. Um exercício de autodepreciação que não compromete em nada o conjunto narrativo. A atualidade da obra, guardadas as devidas proporções, é incontestável. Fosse lançado hoje, faria eco ao incontável monte de barbaridades que vivemos inertes, absortos, gritando apenas contra aqueles que não pensam como nós. Vejam que não me eximo. O problema é geral. Então… Não vou comparar Erico Verissimo com Eça de Queiroz, Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Não vale apena. Não acredito muito em comparações valorativas. Com o tempo, consolidei uma certeza: o que se diz sobre uma obra é efeito da leitura que dela fizemos. O mais é detalhe, firula, enfeite, pra não dizer invenção de moda. Ao fim e ao cabo, o que vale mesmo é esta impressão, o soco no estômago, o “busílis”, como dizia Rubem Fonseca em um de seus romances. Erico Verissimo, contador de histórias – como poucos, pouquíssimos! – tem o seu lugar. Ninguém tasca. Não é melhor nem pior que ninguém. Punto i basta!

2 respostas para “Impressões”.

  1. Li há milênios – estava ainda no colégio! – e nunca mais. Lembro pouca coisa dos detalhes, mas Veríssimo é, de fato, um grande contador de histórias. A sua, também, sobre Santa Fé é uma ótima história. Beijinho.

  2. O episódio de Santa Fé rendeu boas e gostosas risadas, à altura…

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