Conceitos

O professor está na sala de aula explicando uma passagem de uma obra qualquer. Faz seus comentários enquanto os alunos escutam atentamente. Ele para e chama por um aluno. Ele não está. Chama por uma moça. Ela também não está. Então, o professor, com muita clama, faz uma brincadeira e pergunta se os dois alunos chamados – intensamente infrequentes – não seriam dois fantasmas. A palavra em inglês é spooks, e dá uma risadinha. Nenhum aluno reage. Há que explicar que este professor chegou à universidade em que trabalha – e da qual é o reitor – num momento de absoluto descrédito da instituição. Ao longo de algumas décadas, transformou a universidade numa das referências nacionais. “Nesse processo, fez alguns inimigos, como era de se esperar”. Já, já, as aspas serão explicadas. Um pouco mais adiante, no tempo, o conselho superior da universidade se reúne para questionar o reitor por conta do uso da palavra spooks e do consequente processo legal contra o que os dois alunos (aqueles infrequentes) interpuseram alegando racismo. Detalhe. Os dois alunos infrequentes eram negros. A palavra spooks, numa de suas acepções dicionarizadas, segundo um dos membros do conselho, tem o significado de “negro” (nigro, em inglês, o que é muito pejorativo, todo mundo sabe). O professor se altera, afirma que aquilo era um exemplo acabado da idiotice a que chamavam “politicamente coreto”. Rebate as acusações de uma colega de departamento que afirma que a moça ficou “devastada” com a ofensa e grita. Grita muito. Sai batendo portas e chega em casa furioso à cata de documentos para processar o conselho. Sua mulher reage assustada e acaba por morrer, ali mesmo, em seus braços. Esta é a sequência inicial de The human stain (No Brasil, o título é A marca humana e em Portugal, A mancha humana – mais literal, do outro lado do Atlântico, como soe acontecer. Eu, se fosse o tradutor, colocaria “A marca do humano”. E de novo, mais não digo. Vejam, o filme e, penso, do fundo de minha envaidecida ignorância, que minha tradução faz sentido!). Este filme, de 2003, foi dirigido por Robert benton, dirigido por e estrelado por ninguém menos que Anthony Hopkins e Nicole Kidman. Há ainda a participação instigante de Gary Sinise, que acaba por ser o narrador da história. Mais não digo sobre o enredo, para não tirar o prazer de quem quiser ver a película. Vale muito a pena. Ah, Ed Harris e Ana Deavere Smith, também participam, de maneira impecável e tocante, do filme. Uso o filme como desculpa. Quero falar de outra coisa. Há uma cena em que as personagens de Anthony Hopkins e Gary Sinise estão na casa do primeiro. Já se fizeram amigos e o professor vai dizer ao amigo que está apaixonado por uma mulher trinta anos mais jovem. Trocam impressões sobre o tópico. Ao fundo, a música de Irvin Berlin (já não me lembro qual delas – aliás, há de se ressaltar que a trilha sonora do filme é qualquer coisa de deliciosa, elegante, eficaz, sofisticada, impecável. desculpem, me excedi. Vou contra o conselho de Ezra Pound para desconfiar dos adjetivos. Mais longe ainda fico do horror que Graciliano Ramos tinha deles. Como não sou escritor fanhoso, e ainda que fosse, vou deixar os adjetivos. Em paz. Voltando ao meu comentário. Na cena a que me refiro, a certa altura da conversa, o professor convida seu amigo para dançar. Ele, nem, não vou comentar. Ele resiste, mas acaba por dar uns passos com o professor. Os dois rodopiam pela varanda da casa, rindo e se deliciando. A cena é comovente. Bem, parece bobagem né?! Pois é… Nos últimos 10 ou 15 anos de minha “carreira profissional”, estudei, li, discuti e escrevi alguma coisa sobre o conceito de homoerotismo. O temo, salvo engano meu, foi cunhado por um psicólogo brasileiro, Jurandyr Freire Costa, como opção para substituir “homossexualismo”, palavrinha já desgastada, velha, capenga e carregada de sentido pejorativo. Esta é outra vereda pela qual não vou caminhar aqui. Chamei a atenção para a cena por considerar que ela, na sua aparente inocência e, por que não, mesmo que contraditoriamente, no seu moralismo mais tacanho é um exemplo fílmico do que seja o tal de homoerotismo. Está tudo ali, naqueles poucos momentos de delírio, delícia, prazer. Não há muito o que dizer em acréscimo. Não faço ideia se o roteirista ou, mesmo, o diretor do filme passaram os olhos sobre qualquer texto que versasse sobre o tal de homoerotismo. Isso também não interessa. O que me vale é afirmar que esta pequena cena deu conta de deixar claro e evidente o mais profundo sentido do termo homoerotismo. Quem quiser que v;a confirmar, buscar as fontes, retrucar e até me atacar. Continuarei recolhido à minha insignificância, com as barbas de molho, a violinha no saco e o rabo entre as pernas. Quietinho e calado. Ainda assim, corro o risco de estar errado. Vai saber!

2 respostas para “Conceitos”.

  1. Fico muito impressionada com essa troca de palavras para “melhorar” um conceito que sofre de preconceito. Com as pessoas com deficiência é a mesma coisa. Tem a ver com o “politicamente correto”?

    1. Claro que sim! Só tem! Essa imbecilidade grassa como joio no meio do trigo. É a famigerada erva chamada maria sem vergonha..

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