Presente de Natal

Li o livro. Na verdade, reli o livro. A lembrança insistente – prazerosamente insistente – da pergunta do Artur, com sua voz mansa e profunda me levou à releitura. Que prazer. Nada a mudar naquele momento de susto, com a pergunta direta sobre o autor. Assim, na lata. Num início de noite de outono, com uma vista linda a espraiar-se pelas vidraças da quinta, no alto de uma colina. O Paço da Quinta de Juste. Ah, Braga… Pois é. A capa vermelha do livro. Nada mais. O nome no meio da capa vermelha. O famigerado formato 14×21 não fez diminuir a sobriedade da capa. Nome em branco sobre espaço vago em vermelho. Sugestivo. Não. Não se trata de uma blague com o livro daquele fiador Chinês. Nem mesmo pode haver qualquer associação com a simbologia “ideológica” da cor. Bem. Neste aspecto, devo admitir, há que ajude a sustentar a tese de que este livro pode, sim, ser lido nesta perspectiva. Não é o meu caso. Definitivamente, não! Não vou gastar o meu tempo, e o de quem me lê (Se é que alguém me lê de verdade… para além de três ou quatro pessoas que, sei, o fazem.) com esse tipo de tergiversação. Quero mesmo é celebrar o prazer e a grat9dão experimentadas nesta releitura, instigada por um encontro revelador, num rincão distante: mais um a manifestar em mim a certeza de vidas passadas. Artur, Alexandra e Esther vão entender. A capa do livro é vermelha. Na contracapa, um trecho. Desse trecho, uma passagem: “Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objetos inertes, dominados, todos revelador às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros…”. Lúgubre? Fantasmagórico?  Alucinante. Não e sim. Depende de quem lê. Vejo aí um prenúncio do que está no miolo do livro. Um professor, o “senhor Engenheiro” chega a Évora. Seu pai acaba de morrer, durante uma reunião de família, à mesa, de repente. Fulminado. A cena, e o fato, são como uma grande sombra a encobrir passagens inteiras do romance. Sim, é um romance. E os bons. O professor é, ao mesmo tempo, protagonista e narrador. As poucas mais personagens são como fantasmas a perambular o espírito de um homem que se posta diante de seu destino, encarando suas vicissitudes e pensando. Sim, ele pensa, e muito. E este pensamento é o que faz a narrativa fluir num misto de poesia e reflexão filosófica. É poesia em prosa, em certos trechos. Os episódios são unidos pela reflexão do protagonista narrador. De fato, “acontece” pouca coisa, proporcionalmente. Mas o que acontece é de fundamental importância para seguir os passos do narrador protagonista em sua senda ficcional. Évora é o cenário preferencial. É aí que se passa a maior parte da trama: o Giraldo, o templo romano de Évora, (equivocadamente conhecido como templo de Diana, dizem), o Colégio Espírito Santo, a Sé. Deu uma saudade danada… Este romance português encontra eco em Lúcio Cardoso, por exemplo. Sobretudo no que diz respeito à sua atenção delicada aos tormentos do espírito e às dúvidas existenciais que acometem o sujeito moderno. É um romance que pode ser alocado, ao lado de outros, como os de Agustina Bessa-Luis, na lista daquelas obras que sustentam o brotar do novo romance português. Ao contrário do que a crítica mais tradicional e convencionada costuma submeter ao nome de José Cardoso Pires, sem tirar-lhe a galhardia e a posição que ocupa no quadro historiográfico do romance português. Outro romance do mesmo autor, Manhã submersa, é voz que ecoa, Em Informação ao crucificado, de Carlos Heitor Cony e Em nome do desejo, João Silvério Trevisan. O clima é o mesmo. A temática, similar. A qualidade poética da narrativa se aproxima, a partir do efeito deste eco. Neste particular, José Luis Peixoto é outro escritor português que, sublimando e alteando a pena de Vergílio Ferreira desenvolve uma narrativa que, de fato, é poesia em prosa. Isto poderia, inclusive, ensejar a consideração de um novo subgênero narrativo, muito distante da prosa poética e do romance intimista, tal o quilate e a preciosidade “poéticas” que a linguagem romanesca de ambos conota. Sim. Estou falando de Aparição, de Vergílio Ferreira. Em comentário a pequeno vídeo, localizado em https://ensina.rtp.pt/artigo/aparicao-de-vergilio-ferreira/, lê-se o seguinte: “Com Aparição, Vergílio Ferreira pretendeu tornar o homem visível a si mesmo. Para o autor, o que se vê melhor é aquilo que não se vê, porque “o que está mais perto dos olhos, são os olhos e aos olhos ninguém os vê”. O romance de Vergílio Ferreira, publicado em 1959, começa com um prenúncio de tragédia: Alberto Soares, o personagem do romance, chega a Évora como novo professor do liceu.  Um homem de luto, sombrio e descrente ainda a refazer-se da morte do pai, acaba de entrar numa cidade católica, branca e luminosa, deixando adivinhar que a sua relação com a cidade não será fácil. Pelo caminho, vai retratar a sociedade fechada e com várias classes sociais de uma pequena cidade provinciana em plena ditadura fascista. Mas, fundamentalmente, vai colocar em causa a relação do homem consigo mesmo. (…) O homem estava completamente só, sem céu, nem inferno, nem eternidade após a morte, mas em busca de sentido para a vida assim mesmo. Vergílio Ferreira torna-se intérprete dessa interrogação existencial, subjectiva sobre a realidade (…). O autor nasceu na aldeia de Melo, junto à Serra da Estrela em 1916. Os pais emigraram para os Estados Unidos quando tinha apenas quatro anos. A sua educação foi dividida entre umas tias maternas e o seminário do Fundão que abandonou aos 16 anos. Formou-se em Coimbra em filologia clássica. O personagem da Aparição, Alberto Soares, (…) faz uma “radiografia” da relação do Homem com a sociedade, com Deus e consigo mesmo.” Agradeço, ainda uma vez, o impulso do Artur, amigo caro, a quem devo esta releitura. Espero que quem chegar a ler o romance também dele goste!

4 respostas para “Presente de Natal”.

  1. Tem uns e umas por aí que só de ver a capa, já sente calafrios rsrsrsrsrs

    1. Não é mesmo?! Obrigado pela visita! Boa semana e feliz novo!

  2. Como de hábito, excelente post!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: