Três – Parte 3

Pois é. Dizer que o gajo continua a escrever sob a égide de Paul Auster é exagero. O rapaz evoluiu, no sentido de aprimorar a própria, marca escritural. Estou falando de João Tordo. Em sue último romance, Felicidade, ele se apresenta mais maduro, mais seguro. Um tanto constante em certos procedimentos ficcionais. Mantém a verve. Consegue envolver o leitor de maneira sutil. Há sempre um segredo, um detalhe que escapa. Rastros de experiências outras a indicar caminhos possíveis para o deslinde de situações aparentemente insolúveis. A história se desenrola a partir de um acontecimento ocorrido na adolescência do protagonista. Arrastam-se as consequências por uns 20 ou 30 anos, em minuciosa análise de detalhes que vão compondo um quebra-cabeça a desenhar o “mapa da mina”. Já adianto, sem querer fazer o famigerado spoiler: não se trata de romance policial. Matriz de criação do jovem escritor, o romance policial tem cedido espaço, ao longo de sua obra, para o “tratamento” de questões, eu diria, mais existenciais, com um pouco mais de interesse. Difícil para quem vem se acostumando a ler a mesma coisa com capas diferentes – como sói acontecer com certa parcela do chamado público leitor. este sai perdendo, obviamente. Não sei o que vem por aí. Decerto que outros romances virão sem dúvida. No entanto, fica sempre o suspense para a repetição de uma trilogia. Por isso incluí o nome de João Tordo nestas postagens que partem das elucubrações que fiz sobre o número três. A trilogia a que me refiro inclui O luto de Elias Gro, 2015; O paraíso segundo Lars D., 2015 e O deslumbre de Cecília Fluss, 2017. Aqui, as personagens transitam pelos romances num enredado universo de descobertas, decepções e recorrências. Um bordado delicado e muito arguto que prende a atenção do leitor, se se tornar óbvio ou enfadonho. As recorrências das personagens não são levianas. Ao contrário, adensam a narrativa fazendo com que a ideia de trilogia não pareça assim tão vulgar, óbvia, empobrecida. AO contrário, quando faz uso deste recurso dá-lhe personalidade. Há quem diga que “João Tordo indaga sobre a memória e a decadência do corpo no romance que conclui a trilogia que mudou o rumo da literatura que o escritor produz. No fim, com O Deslumbre de Cecilia Fluss, atam-se todas as pontas soltas. As possíveis.” Assim, “João Tordo fecha a trilogia iniciada em 2015 com O Luto de Elias Gro, partindo de uma fórmula hipotética onde a prova da sua veracidade é secundária face àquilo que a exploração dessa possibilidade lhe permite enquanto escritor: “Memória + Tempo — Decadência = Verdade”. Estas duas considerações não são minhas por óbvio. Quem quiser conferir, basta buscar em https://www.publico.pt/2017/06/25/culturaipsilon/critica/resta-a-loucura-o-que-e-1776162. Vale a pena ler para dizer se tal argumento procede ou não. Mais não digo.

Da surpresa causada pela aparência hard do autor e sua linguagem delicada e diáfana, ficou a certeza de que seria um dos escolhidos para estas postagens. Falo de José Luis Peixoto. Em seu livro Almoço de domingo. Uma vez mais, sua região natural as terras portuguesas acima do Tejo, comparece em todo o seu esplendor de melancolia, um certo ceticismo e muita delicadeza nutrida pelas memórias, marcas da passagem do tempo e percepção da própria pequenez. Poder-se-ia dizer que estas são três linhas de abordagem da escrita de José Luis Peixoto. Cabe a cada leitor decidir. Fico com elas. Bastam para meu horizonte de expectativas de leitor curioso. Gosto do que este autor escreve. Ao contrário do primeiro, aqui, este não se preocupou (ainda) em apresentar a seu público uma trilogia, pensada e realizada como tal. Pelo menos, até onde acompanhei esta procissão… Alhures, encontrei um artigo que faz uma apresentação, a meu ver bastante consistente, do romance. A ver: o “autor de Galveias, que já anteriormente transportara José Saramago para dentro de um romance, Autobiografia, publicado em julho de 2019. Almoço de domingo, ‘sobe um degrau’, porque a personagem retratada ‘ainda está aí’, disse o escritor em entrevista à Lusa. Trata-se da história de um ‘homem de 90 anos, que olha para o seu passado e faz um balanço de vida a partir de episódios significativos da sua história pessoal, que em muitos aspetos tocam a do próprio país (…) contou o escritor. (…) Contudo, a pessoa é subentendida na leitura do texto, pelo percurso que segue, pelo império que cria, pela geografia e pela família em que se insere, a partir das quais tudo parte (…). José Luís Peixoto explica porquê: “do ponto de vista do texto, é um romance e como romance é um exemplo, a personagem é uma personagem, não é um texto histórico não é um texto biográfico”. O romance, de acordo com o escritor, tem como protagonista um sujeito cartorial. Não sabia desse detalhe quando da leitura do romance. Ao saber, fiquei estupefato, mas feliz: não li o romance como uma espécie de ficcionalização de certa biografia. Nada contra. O que me incomoda é “amarrar”
a leitura de qualquer um com esta cordinha tão frágil, porque óbvia. O texto do romance transcende esta tentativa de redução. A linguagem faz jus às premiações recebidas pelo autor. O romance é um convite à reflexão, como soe acontecer, sem deixar de ser mais um exemplo da preciosa e sofisticada poesia de José Luís Peixoto. Poesia esta que se deslinda pela prosa na mancha tipográfica: um universo “poético” anos luz de distância da famigerada prosa poética.  do autor é o que me interessa. A maneira como manipula lembranças, segredos, detalhes e descobertas num ambiente familiar é outro “toque de Midas” de sua ficção. Para conferir basta buscar em: https://visao.sapo.pt/atualidade/cultura/2021-03-09-jose-luis-peixoto-transpos-memorias-de-rui-nabeiro-para-o-papel-e-criou-um-romance/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=jose-luis-peixoto-transpos-memorias-de-rui-nabeiro-para-o-papel-e-criou-um-romance

O terceiro e último passo é falar de um homem extraordinário. Suas atitudes são muito reveladoras da personalíssima prosa que desenvolve. Durante a entrevista que com ele fiz, ainda em 2014, que confirma a hipótese, foi recheada de comentários sutil e incisivos, temperados com uma finíssima ironia e uma mais ainda sofisticada presença de espírito. Um artista! Ao contrário de João Tordo, que construiu “de caso pensado” uma trilogia e de José Luís Peixoto que, até prova em contrário, ainda não se deu a este trabalho, Mario Claudio fez o mesmo que João Tordo e, de brinde, ganhou de seus críticos mais atentos, com acuidade de leitura mais que aguçada, a possibilidade de ver outros títulos de sua vasta produção reunidos em trilogias, “pensadas” pelo olhar destes leitores. Uma espécie de meio do caminho entre o “João” e o “José” que aqui comparecem. Pois. O ponto de fuga aqui é o romance Embora eu seja um velho errante. A sagacidade sofisticada do autor o levou a começar seu romance com uma cena inusitada. Um homem idoso cuida das cutículas enquanto começa a passear por suas memórias. Demais! As três partes do romance se encaixam como peças de uma engrenagem que, simultaneamente, inventa um mundo fantasioso e apropriado para as elucubrações do narrador e instaura a possibilidade de ser, a narrativa, um relato autobiográfico sem preocupação cartorial de sustentar todas as hipóteses de modo documental. Uma maravilha. O procedimento não é original, no conjunto de obra de Mario Claudio. Isso não interfere em nada na procedência do altíssimo grau de narratividade do autor. Marca personalíssima de sua ficção é o preenchimento de lacunas biográficas do sujeito cartorial ficcionalizado – quando é o caso – por elucubrações outras, de natureza genuinamente ficcional. Uma espécie de jogo de esconde-esconde divertidíssimo e sofisticado, muito sofisticado. No caso deste romance, acredito, esta proposta chega a um nível mais que superior e profundo. Neste caso, não recorro a opiniões alheias. Fico com as minhas impressões, ciente de minhas limitações, mas sou um leitor contumaz, digo o que penso sobre o que li. Sobretudo agora, no início da plenitude do ócio criativo em que vivo. Vale muito a leitura!

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