Retalhos

“Um bando de gente suja, suada, malvestida e fedorenta. Um amontoado de gente assim num lugar que mais parecia uma gruta. Eu tinha que passar no meio desse grupo, barulhento. Ofereciam-me carona, cigarro, bebida. Eu sentia nojo e tentava me desvencilhar. Tinha que chegar ao noviciado. O quarto era amplo, claro, limpo. Portas grandes, janelas enormes. Dava de frente para um prédio de apartamentos. A secretária ofereceu-me ingressos para um vernissage à noite. Não o aceitei. Disse que tinha outro compromisso. Voltei para o quarto e procurei por minha mala. Um rapaz muito atencioso veio me atender, enquanto passava pano no chão. Não encontrava minha mala e, ao mesmo tempo, estava no meio da gente suja, vestida e malcheirosa de antes. A secretária sorria. Eu tentava fechar as janelas do quarto. As cortinas (persianas verticais) não funcionava. Não escondiam as miríades de pessoas assentadas na. mureta da rua à espera do ônibus, bem à frente da minha janela. E a secretária sorria. O rapaz passava o pano e não me ajudava. Eu saía andando a procurar a porta do quarto e não encontrava. Passava por lugares que tinha certeza de ter conhecido, mas não os reconhecia. Andada e a gente malcheirosa e malvestida à minha volta. O quarto do noviciado brilhante de tão grande e limpo. a secretária sorrindo. Os lugares conhecidos que eu não reconhecia. Tudo junto, simultâneo. Confuso e claro ao mesmo tempo. São sempre assim os sonhos.

De que adianta anotar o que se lembra dos sonhos? Houve uma vez, um psicanalista disse que isso ajuda na terapia. Tentei, algumas vezes. Cheguei a aproveitar trechos de anotações em romances que escrevi. Na terapia, nunca utilizarei. Não posso dizer se o psicanalista estava certo. Acredito que sim. Não vou procurar um jeito de explicar isso ou de tentar comprovar a hipótese. Penso que não adianta. O tempo passou. O momento passou. O elã passou. E já não faz sentido procurar o sentido, ou não. da afirmação do psicanalista. E assim com todo o resto. Atualmente o que mais me chama a atenção é o fato de eu já vislumbrar uma curva final no caminho. Não a vejo, por suposto. Pressinto-a. Não sei calcular a distância até ela, o tempo que falta, por impossível. Mas sei que está logo ali. Já abro mão de coisas que antes pareciam-me imprescindíveis. A vaidade já não é mais tão edaz. Fica mais fácil admitir que não vale mais a pena que tentar encontrar energia e substância para provar o contrário. Provar para quem? Para mim? Bobagem! Já não tenho necessidade deste tipo de comprovação, de resposta, de explicação. O que tinha de ser foi. E pronto.” (Autor desconhecido)

7 respostas para “Retalhos”

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