Referência

Li o livro de uma sentada. Abri e fui até o fim, numa tarde apenas. Devo confessar que o li com vivo interesse. D princípio ao fim. No entanto, não sei dizer se gostei ou não. O interesse não levou à surpresa. Esta, por sua vez, não estimulou a jouissance que costuma acompanhá-la, pelo menos, algumas vezes. não. Li com interesse e só. Será isso um defeito do livro ou uma lacuna na/da leitura? Vou morrer sem saber. Nélida Piñon, nas orelhas do volume, traz Machado de Assis como matriz do modus operandi do livro que li. Terá sido a expectativa criada por esta ilação – também ela fruto de leitura… – a responsável por esta sensação indefinível que me ficou ao terminar o romance? Sim. Trata-se de um romance, ainda que as características mais comuns, tradicionais, clássicas deste exemplar do gênero narrativo não estejam presentes no arsenal narratológico utilizado pelo autor. Brasileiro, diga-se de passagem. Como a referência assinalada pela autora das orelhas. Ainda que tenha ficado, anos luz, distante desta. Talvez, esta seja outra consequência nefasta da expectativa insidiosa que se aninhou no inconsciente do leitor, eu. Essas coisas acontecem! O livro se chama O dom do crime. Seu autor, Marco Lucchesi. Seu verbete indica que foi professor visitante em “diversas instituições internacionais”. Deve ser algo de muito importante mesmo. Eu diria “instituições estrangeiras”. Internacionais, qualquer uma em solo pátrio pode ser. Basta levar em consideração alguns “critérios” das famigeradas agências de fomento” para enquadrar as atividades de investigação na/da terra brasilis. Mas vamos. Deixo de lado a chatice e reconheço seu “valor” – palavra perigosa… Afinal, ocupa uma cadeira na ABL! Como disse certa vez, a mesma autora aqui referida, a das orelhas: uma casa de notáveis. O livro gira em torno de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Fato irrecorrível. Usei o verbo “girar” propositadamente. A impressão que se tem é a de que a narrativa “age” como mariposa em torno da lâmpada em dia de chuva. Pois é. O crime a que se dedica o narrador, não se consolida como tal. Difunde-se em indícios e referências esparsas, pulverizadas num texto suposta e pressupostamente erudito, dado que cheio de referências explícitas ou não. Estas, por sua vez, são consideradas pela “orelheira” responsáveis pelo caráter “erudito” do romance. Hum… Sei não… Erudito? Só por conta das circunlocuções narrativas a que o texto se presta como suporte? Certo que o livro prendeu minha atenção. Mas… erudito. Sei não. De fato, o applomb do narrador mais lembra o de Brás Cubas, bem piorado. Penso que posso estar usando de muito rigor, mas faço-o assim mesmo. O defunto autor fica muito adiante do narrador de O dom do crime, mesmo com toa a generosidade do mundo. Ainda que o livro tenha prendido minha atenção e gerado satisfação ao final da leitura. Hum… soou ambígua esta afirmação, mas não me explico. Deixo a exegese de minha assertiva para quem, por acaso, venha a se interessar pela leitura do livro, depois de ler estas mal traçadas. Muita presunção de minha parte! Continuando…Num artigo (de Denize Bartolo Medeiros) que encontrei alhures (no portal ACADEMIA), li o seguinte: “Dono de profunda precisão verbal, Lucchesi não é um autor qualquer. Seu texto foge da simplicidade, mas se mantém aberto à criação. O resultado é uma mistura de prosa e poesia, numa linguagem que encanta e hipnotiza. Tradutor, ensaísta e poeta premiado, Lucchesi volta seu talento para outro gênero e se lança, pela primeira vez, ao romance com o aguardadíssimo O DOM DO CRIME. Lucchesi cria um delicioso narrador-autor, não identificado, que conta uma história para o futuro. Um homem do século XIX que, ao ser aconselhado pelo médico a escrever suas memórias, se lança não para a própria vida, mas sobre um crime passional, notícia no Rio de Janeiro de Machado de Assis. Esse misterioso narrador traça paralelos curiosos entre este assassinato, o julgamento que absolve o marido supostamente traído e a obra mais aclamada de Machado, Dom Casmurro.” A transcrição é literal, sem tirar nem por nada. Contive meu ímpeto de fazer algumas mudanças, digamos, técnicas. Duas na verdade: o nome do livro de Lucchesi ficaria com apenas a inicial maiúscula, e em itálico; como dar-se-ia (adoro mesóclise!) com o título do romance de Machado de Assis. Deixando, ainda uma vez, minha chatice de lado, dois dedinhos de prosa. Não sei se o texto é mesmo uma mistura de prosa e poesia. Não o li assim. Não percebi esta nuance. Isso pode ser, obviamente, falha minha. Depois, não considero o narrador “delicioso”. Não chega a tanto. Eu diria pretensioso, mas sou um chato. Por fim, na paráfrase que o autor do trecho citado faz do romance, escorrega na afirmação de que os paralelos são “curiosos”. De fato, há certa confusão, talvez causada pela presunção do narrador. Eu queria dizer autor, mas não vou me expor a tapas e pedradas. É isso. Vale a pena ler O dom do crime do tal professor titular de Literatura Comparada da “sacrossanta” UFRJ. Sorte maior terá quem pegar o livro de supetão, no escuro, de surpresa, sem nenhum tipo de indução. Seu prazer, ou desprazer, será genuíno, comme il faut. Ainda assim, repito: o livro é interessante.

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