Lição

A eletricidade tomava conta de cada segundo dos dias naquela semana. As provas finais das eliminatórias que definiriam o time olímpico iam acontecer. A piscina estava pronta. Os cronômetros e toda a aparelhagem, em perfeito estado. Os juízes, observadores, jornalistas e pessoal de apoio, devidamente treinados e a postos. Seria praticamente uma celebração. Os melhores atletas eram esperados, inclusive, os que causaram polêmica. Tudo do pronto. A cidade já vivia o clima das finais com movimento extra nos hotéis. Carros de emissoras televisivas por quase todas as ruas. cada vez que um atleta aparecia, era um alvoroço. Muitas entrevistas. Restaurantes, padarias, mercearias e bares estavam faturando muito. Afinal numa cidade pequena como aquela, um evento de tal magnitude pode ser avassalador, para o bem e para o mal. Nada podia dar errado. Nas escolas, não se fala outra coisa. Entre os finalistas, havia alguém da cidade. Uma glória para a localidade. Nas praças, o frissonera tão intenso quanto… Até o padre, no sermão do domingo anterior às finais fez um sermão celebrando o acontecimento. Todo o país estava de olho. Olheiros de todo lado pululavam pela cidade, observando os atletas que era uma “promessa”. Todos. Enfim, a sexta-feira chegou. A cerimônia de abertura das finais foi até simples. O estádio estava cheio. Sim, a piscina coberta ficava dentro de um verdadeiro estádio, construído especialmente para a ocasião! Depois, segundo o administrador local, ia ser reutilizado pelos estudantes da cidade em atividades esportivas. Na verdade, só para natação. De qualquer jeito, pompa e circunstância. Todas as provas foram concorridas, técnica e socialmente. Os locais ocuparam todos os espaços possíveis. O juiz avisou que iam entrar as atletas da última prova feminina. Somente uma pessoa apareceu à borda da piscina. O silêncio era ensurdecedor. Das dez finalistas, nove não compareceram. O juiz tornou a anunciar a entrada das nadadoras. O mesmo silêncio e nada. Ninguém mais apareceu. Por alguns instantes, os juízes da competição murmuraram entre si. A plateia, quase silenciosa a esta altura, começou a retirar-se do ginásio. Ouvia-se apenas o barulho dos passos e o murmúrio das pessoas saindo. Todo mundo foi embora, inclusive os profissionais da imprensa: rádio, jornal e televisão. Ninguém ficou no ginásio, a não ser a tal de Lia, que algum tempo se chamava William e disputava as provas masculinas.

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