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Lili. Já vai longe a memória de Lili. Um cometa. Apareceu, passou e sumiu no céu do esquecimento. Lili, a arquiteta. Lili que recebia bem. Apartamento pequeno. A decoração depois da reforma: expressão do talento arquitetônico de Lili, Lili, arquiteta do serviço público. O apartamento pequeno, aconchegante. Os talheres de prata, a baixela de porcelana, os guardanapos de linho. Lili solteira, filha única. “Se eu tenho, vou usar. Pra que guardar? Não tenho filhos. Não vou deixar pra ninguém. Então eu uso, de segunda a segunda. Sem essa de ocasião especial. Uso comigo mesmo”. Lili e seu noivo. O robusto noivo de Lili. Seu companheiro de uísque. Lili só bebe uísque. Nada mais. Uísque e, nos intervalos e depois, na ressaca, água. Só bebe uísque. O noivo de Lili e seu olho de peixe morto. Sua boca carnuda. O robusto noivo de Lili. “Ele quer fazer a três. Pediu ora convidar você.” O noivo de Lili, sensual e sem vergonha. Bebedor de uísque. Os almoços na casa de Lili e seu noivo. Sempre a três, menos na cama. Lili durante a semana e nos sábados. Sábados ou domingos. Já vai longe a história de Lili. Já sem clareza, Lili, sábado ou domingo. Lili e seu amigo de final de semana. Qual era mesmo o nome dele? Feio. Magrelo e cabeludo. Dentes estragados, fumante inveterado, bebedor de cerveja. Amigo de Lili. Amigo do noivo de Lili. Lili, o noivo e o amigo. Os finais de semana na casa do Hamilton. Tardes memoráveis. Cerveja e uísque. Lili só bebe uísque. Cerveja, música alta, a piscina rebrilhante e imensa na casa de Hamilton. Os finais de semana na casa de Hamilton. O secretário do ministro Hamilton escrevia os discursos. Hamilton cuidava da agenda particular. Hamilton sabia de coisas. Hamilton, o assessor. A casa de Hamilton era imensa. Os finais de semana com Hamilton, inesquecíveis. A manhã de domingo (ou de sábado, tanto faz). A piscina resplandecente. A cerveja. A música que começa a tocar. As gargalhadas. Cerveja, piscina, música e sonhos. Muitos sonhos. Fantasias e imaginação nas tardes de final de semana na cassa de Hamilton. Hamilton e seus homens. Os recos. Cada um mais bonito que o outro. O pelotão especial. Havia um nome específico. Seleção rigorosa. Altura, peso, instrução, capacidade física. Principalmente altura. Escolhidos a dedo os da guarda especial. Hamilton conhecia bem. Nas tardes à piscina, um amigo de Hamilton. De manhã cedo, a música tocando, a cerveja gelada e as gargalhadas. Silêncio. Um homem aparece. Lento. Ciente de sua beleza, de seu fascínio, do impacto de seu corpo escultural. “Bom dia!”. O sorriso ensaiado. O assanhamento do amigo de Lili. Nada mais parecia acontecer na face da terra. O paraíso à beira de uma piscina numa casa perto do lago. Ah, a guarda especial. Amigo de Hamilton. Meu Deus, que pernas. O sorrisinho ensaiado e dissimulado. Os olhos verdes piscando. a toalha enrolada. Alguns passos. Um suspiro de tédio. A toalha que vai caindo devagar. Meu Deus, as pernas do amigo do Hamilton. Tardes de domingo regadas a cerveja e a fantasia. A música alta. Os comentários sussurrados. A toalha que cai e o silêncio. Um suspiro suspenso no ar, sobre a piscina. O barulho da água espirrando em todo mundo. A alegria das tardes domingueiras ou de sábado na casa de Hamilton. O impacto da chegada aquele reco, Meu Deus, que pernas. Hamilton chega em seu roupão branco. Alinhado. Cabelo penteado. Barba feita. Óculos escuros. Vivacidade, energia e sensação de poder. Hamilton sabia escolher. Escrevia discursos, a agenda particular do ministro. A guarda especial que visitava sua casa. Hamilton chega e se senta. Muito seguro de seu poder, de seu bom gosto. Olha para o reco com ar de posse, de domínio. Ao mesmo tempo vira os olhos para os amigos do outro lado da piscina. As pernas do amigo de Hamilton. Os braços. Os olhos verdes que fascinavam e seduziam. Hamilton sabia. Fazia de propósito. Conversava ao pé do ouvido. Sorrisos dissimulados. De vez em quando uma gargalhada. A cerveja e o uísque de Lili. Lili e seu amigo. A turma às gargalhadas. O barulho da piscina a espirrar água. Os braços do reco fortes e vigorosos. A língua parecia uma cobra. Beijo na piscina. Ai meu Deus, as pernas dele. O contato das pernas dele na piscina. Água de fervia no calor do prazer de abraçar e beijar o amigo de Hamilton. As gargalhadas. Os sussurros. A boca enorme do amigo do Hamilton gemendo, lambendo, beijando. Ai, meu Deus, aquelas pernas enroscadas, apertando. A piscina em revolução. O sol do planalto a riscar a pele de todo mundo. O dourado da cabeça raspada do amigo e Hamilton, Meu Deus, que pernas. Lili e seus amigos. Lili, a arquiteta. as tardes de domingo. A piscina. O reco. As lembranças de Lili e seu apartamento, baixela de louça, guarnição de prata, copos de cristal, guardanapos de linho. O noivo de Lili. O reco. Meu Deus, que pernas.

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Os ecos da colônia: passos empoeirados no lajedo – mistura de pedra sabão e pedra são Tomé – guarda de uma História que jamais vai ser contada. as palavras trocadas entre as paredes caiadas. O pranto silente que evanesce em vapor do espírito e sobe. O teto com ferro de esteira absorve, mudo, o passar das dúvidas e dos arroubos. Portas e postigos de janela em azul colonial. Ainda que com vários vidros quebrados. testemunho da passagem do último síndico que atendeu pela alcunha de diretor. As peias de aranha nos cantos. O cheiro de mofo. as luminárias pendentes, Contraste absurdo que, em nome do absurdo, testemunham o nada que modifica cada segundo ali passado. O frio. O vento encanado. Paredes que não se encontram com o teto, mediação das esteiras. Centenárias. Paredes incompletas. Tudo se ouve, a não ser o sussurrado. Os sussurros da maga patalógica. Sussurro de mestre. Não. Sussurro doutoral. Os óculos na ponta do nariz. Os cabelos enormes, esbranquiçados, desgrenhados. Como os daquela cantora antes do show. Mas sem o talento. A mesma compleição física, mas sem o talento. O sussurro que vinha da boca de chupar ovo. Para não ser deselegante. Ovo. Os sussurros e o olhar matreiro de quem sempre tira o seu da reta. O sorrisinho falso, longe da Gioconda. Os arranjos. Os sussurros. Os formulários e a verborreia jurídica. A predisposição para a guarda dos direitos de classe. Uma história mal contada. A inexplicável mudança de uma “casa” para outra. A chegada no porto dos tempos. Sobre o lajedo – mistura de pedra sabão e pedra são Tomé. Os passos escorregadios das atitudes questionáveis. O sorrisinho matreiro Os formulários.  preciso preencher corretamente os formulários. É preciso anexas os comprovantes. É preciso levar até lá. O departamento não tem secretária. Eu não posso fazer tudo. O malote não é confiável. Já há denúncias de desvio de documentos. Cada um faz o seu. O sorrisinho falso. A insistência em chamar a progressão de concurso. estupidez? Veneno concentrado. Os passinhos no lajedo frio. Os corredores que não se ligam, ao teto. A insistência na burocracia Sempre colocando os outros em situações vexatórias, impopulares, ilegais. O pedido de doação aos “ocupantes”. A necessidade de se solidarizar com o corpo docente. O discurso encomendado entre os olhinhos fingidos e o sorrisinho matreiro. O sotaque execrável. A boca de chupar ovo. Be,… ovo, que seja. Os documentos. “Que merda. Não vou fazer porra nenhuma. O que essa mulher zinha quer. Vai encher o saco do bispo. Que merda!”. A dúvida do colega. A mulher que foi eleita pelos pares. A tiranete de cabelos desgrenhados. O sorrisinho falso no cumprimento pela titularidade. Os cabelos desgrenhados passeando pelos corredores frios e empoeirados. As paredes escutando. Os berros. A cara de sonsa. E no outro dia a exaltação. “O departamento não tem dinheiro”. A defesa dos “pobres estudantes”. Café com os ocupantes. Sorrisos e piadas. Gargalhadas. Os cabelos desgrenhados. Os gritos histéricos ao comunicar a carta alheia. A braveza. O surto de tirania. Os cabelos desgrenhados balançando aos gestos bruscos. Os óculos na boca do nariz. A cara de sonsa durante o despautério. “Tá achando que preciso desse dinheiro. Caguei pra esse dinheiro. quer que preencha todos os quadradinhos. Eu faço. Pronto. Não enche o saco”. As mãozinhas postas como criança assustada. A boca de chupar ovo e os cabelos desgrenhados. O silêncio nos passos frios na volta do gabinete. Os sussurros. O papel preenchido. Completo. Todos os quadradinhos. O sorrisinho de alegria e contentamento. A insistência em chamar de concurso ao processo de progressão. O dedo em riste. Os cabelos amarrados na nuca e os óculos na ponta do nariz. Maga patalógica. E a tirania que se sobrepunha ao silêncio dos ambientes forrados de esteira. as portas batendo. Os sussurros. O lajedo frio e empoeirado a testemunhar os desmandos, as falsidades, as tramas e os subterfúgios. A falta de talento. O cabelo desgrenhado. Os formulários. “Você tem que dizer o que está fazendo nos horários vagos. Não pode deixar em branco. É exigência da administração”. A falsa subserviência. O ar de vítima com olhinhos matreiros e sorrisinho falso. As mãos postas no colo. Saiu num pulo. Um corisco no escuro dos corredores fios, por sobre o lajedo empoeirado. O susto do colega. “Essa vaca que vocês elegeram. Vaca”. As paredes que escutam. O bater de portas. Cadeiras arrastadas. Portas batidas O lajedo empoeirado e frio. Claro que chegou a seus ouvidos. “Eu não votei nela!). Gritos. Portas batendo. A lembrança das gargalhadas com os ocupantes. A cara de séria ao falar dos direitos de classe. O ar melancólico de quem finge subserviência e exploração. O acúmulo de trabalho no discurso carregados de chavões. Lugar comum. O vento que passeia pelas paredes brancas que não encontram o teto. O forro de esteira. O lajedo frio e empoeirado. Acabou.

Pastiche

Cuide da entrada. Da expressão facial na entrada. Este detalhe é crucial. Dele depende o desenrolar de reações a seu desempenho público. Sobrancelhas arqueadas (O plural serve para dizer que há pessoas que conseguem fazer isso com as duas…). Não muito, para não parecer desdém absoluto; nem tão pouco que possa expressar o tédio visceral de estar ali prestes a dizer o óbvio. O caminhar é lento, corpo ereto e ombros arqueados, não demais: pode parecer imposição de vontade. Sente-se confortavelmente. Olhe o interlocutor nos olhos e quando responder a alguma pergunta, dirija-se alternadamente entre o locutor e a plateia. Se olhar sempre para a mesma direção na plateia, pode conseguir um pouco mais de auto confiança. O grupo de pessoas na área apontada pela direção de seu olhar pode se sentir superior, importante, eleita. Isso ajuda. O risco existe do contrário, de você angaria apenas a antipatia geral pelo mesmo motivo. É risco. Não há regra a priori. Responda a todas as perguntas. Absolutamente todas. Jamais interrompa que se dirige a você. Jamais! Ao falar, se for interrompido, cruze os braços cobre as pernas, olhe fixamente para os olhos do interveniente ocasional e faça um sorriso dissimulado. Entre a Gioconda e as personagens de Carlitos em cenas “românticas”. Nada mais, nada menos. Não diga nada. faça apenas isso e pronto. Você acaba de colocar o inconveniente em seu devido lugar. Depois disso, volte a falar. Repita a mesma ação quantas vezes for necessário. É costume conseguir calar os inconvenientes que vão, no máximo, continuar resmungando pelos cantos. Ao final, vão falar mal de você. mas isso não interessa. ao comentar alguma coisa e tiver necessidade de alguma “referência”, procure ser imparcial e magnânimo. Amplie o horizonte referencial privilegiando, no mínimo, uma mulher, um negro, um estrangeiro (de preferência austríaco, alemão, francês ou judeu). Isso vai dar a impressão de que seu pensamento é plural e multifacetado. A palavra correta aqui seria multicultural, mas ô preguiça… Ah, se for falar numa universidade muito “muderna” não deixe de expressar simpatia pelas minorias, de qualquer categoria. Isso é muito bom para enfiar a dose certa de politicamente correto discursivo à sua performance (com sotaque londrino, por favor). Se o assunto é gênero, faça referência positiva à sigla incomensurável e elásticas, aquela das letrinhas seguidas de “+”. Não coloco aqui a sequência pois, a cada dia, inventam mais uma, sob o “argumento” de inclusão social… Há quem acredite nisso”. Se for falar de um livro seu e ele for fino (os parâmetros também variam, muito, de acordo com os mais diversos “protocolos”. Pense com o senso comum e imagine que seu livro é fino e pronto. Já está! Neste caso, diga que levou muito a terminá-lo. Fale das inúmeras revisões e cortes e substituições de termos e expressões, das idas e vindas entre você e o editor. Isso dá um charme danado e ajuda um monte na venda de seu livro, mesmo que ele seja uma bosta. No caso contrário, não acentue tanto as revisões e repetições e refazimentos. Dê preferência ao tempo e direcione seu raciocínio para a ideia de que aquele livro (o grossão) é a expressão mais acabado de seu “itinerário intelectual de formação”. Use, literalmente, essa expressão e mude o tom de voz para algo mais solene, mais pomposo, pausado, com sílabas bem articuladas. Todos os esses e erres, mas não demore demais. Se falar lentamente demais vai parecer esnobismo e arrogância. E você está longe disso. Isso causa o mesmo efeito, independentemente, de novo, da possibilidade de seu livro ser mesmo uma bosta. Não ria alto. Repito: não interrompa seu interlocutor. Jamais! Caso ele provoque você a externar uma opinião espinhosa ou incômoda (Para você, claro, essa gente está cagando e andando para o que você pensa. Geralmente eles pensam em criar saias justas para gozar com seu incômodo!). Use, com certa generosidade, as mesóclises. Os que têm mais de 40 anos vão gostar e comentar sobre a valorização da língua. Os que saíram das “universidades” nos últimos 20/30 não vão fazer ideia do que se trata. Você ainda corre o risco de ser hiper/super/mega valorizado por essa “geração” (Isso mesmo, a do merthiolate que não arde, da Nutella, da que sofre da síndrome da paúra do não.) O sorriso “inteligente” ou a gargalhada canalha da plateia é que interessam. Num e noutro caso, a fila dos autógrafos tende a aumentar sensivelmente. Nesta hora, não economize sorrisos. Cumprimente todo mundo. Além de ser de bom tom – afinal você é uma pessoa educada – faz com que o pedinte se sinta valorizado (“Ele sorriu pra mim, tirou uma foto comigo, me cumprimentou!”). Você fica bem na fita. Esses são apenas alguns conselhos. Os mais básicos, eu diria. Há outros vários, de matizes diversos. Depende da situação do local onde você vai falar, da plateia. A ocasião do evento também é importante. Se você vai ganhar pro labore ou não (Universidades públicas, praticamente todas, já não sabem mais o que é isso). Para lançamento de livro, é bom pensar num coquetel, “diplomático” (Noutra ocasião eu explico isso). É isso.

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E a mesma sequência em repetição. Uma, duas, tantas incontáveis vezes. A mesma repetição. Ora para um lado, ora para outro. E o sangue de Jaime escorrendo. Abundante. E o chicote rasgando o ar, Mais um, mais dois. O castigo de cem chicotadas pelo testemunho de um crime. Não poderia haver punição para um superior. Jaime viu o crime. O assassino viu que Jaime tinha visto. E as chicotadas como resultado do desleixo do destino. Desleixo. As chicotadas pareciam não bastar. O sangue escorrendo. As costas tonadas de Jaime laceradas. O banho de sangue não diminuía o erotismo implícito. As costas de Jaime. As brancas e tornadas costas de Jaime. Os braços esticados no pelourinho. O sangue escorrendo a avermelhar as cotas de Jaime. Que escultura! Uma obra de arte. João não resistia. Quando mais calado ficava Jaime, e as chicotadas não o faziam gemer, mais excitado João ficava. E o sangue nas costas de Jaime. As costas brancas e tornadas de Jaime. Uma obra de arte. Os olhos de João não piscava. Mesmo a dor lancinante, já nos dois braços, não diminuía o vigor das chicotadas. O sangue. As costas. O silêncio. Os olhos de João brilhavam, num furor erótico que assustava. A quem assustava? A quem não sabia o que se passava? A quem tinha como justo o castigo. A João, que sabia da injustiça. João que se excita com o sangue nas costas de Jaime. O silêncio da multidão no fundo do cárcere. as feridas. O silêncio que não atormentava, mas se sentia como nuvem de chumbo. O crime encoberto. O superior que escapa. O castigo que imobiliza. Jaime não cede. João volta ao ataque. A perseguição, a busca, os avisos. A sede de vingança que fica no ar. O tempo que passa. As relações que se desfazem e refazem e cedem lugar a outras. A marca interna. O trauma de morte não vingada. O pai que morre. E o tempo é incapaz de secar certas feridas e deixar fluir o sangue por dentro. A lembrança do chicote. O silêncio. As perseguições. Os subterfúgios e a ciência do crime não cometido. A sentença. A possibilidade da forca. As fugas forçadas. Voltas e reviravoltas que o destino dá e não escapa do olho do furacão. Uma obra de arte. Não era castigo. O desejo do reencontro e a memória do sangue escorrendo nas costas de Jaime. As brancas costas torneadas de Jaime. O banho de sangue na memória Não era castigo: uma obra de arte. Objeto a ser admirado com olhos de ver. Admiração e desejo. O tempo que passa. Anos depois. Não  mais chicote. Não mais praça pública. Não mais sangue escorrendo. O silêncio do cárcere. as feridas. O mesmo furor erótico nos olhos de João. O corpo de Jaime deitado no chão. A sujeita. as marcas do castigo. O peso do ar fétido a conservar o miasma erótico que chamava, em silêncio, pelo olhar brilhante de desejo. João não resistia. A tortura. O ferro em brasa. A repetição das palavras. Uma convicção a quebrar. O sarcasmo de confessar o crime para o prisioneiro por ele responsabilizado. Um sabor amargo de vitória no olhar rutilante de desejo. Uma obra de arte. Que corpo escultural! É meu. O silêncio de Jaime e do cárcere. O sarcasmo. O ferro em brasa. “Repete comigo: sou seu. Anda, repete: sou seu”. O silêncio pesado do cárcere. O corpo de Jaime a tremer. A honra ferida. A mora vergastada pelo desejo alheio. A lembrança de Clara. O cheiro de mofo, a umidade, a sujeira a alimentar o miasma de desejo. A inocência que se vai perder. A imoralidade. A vergonha. No andar das palavras, a história de um desejo guardado, alimentado. O tremor, nem de prazer, nem de medo. De ódio. O tempo que passa e não apagas as marcas. O fero em brasa. “Sou seu”. A carne queimada. O cheiro da carne queimada a aumentar o desejo. O ferro em brasa. Óleo de amêndoas no cabelo. Não foi um castigo. Uma obra de arte. O corpo coalhado de sangue e, agora, aqui, deitado, sujo. Uma obra de arte. Que corpo, meu Deus. João não resiste. O corpo queimado, A marca de posse. Os cabelos que roçam o corpo escultural de Jaime. João goza. Força, não resiste. Invade, não vacila. Deflora o corpo de Jaime. O escultural corpo com as costas brancas e tornadas. O sangue que desvanece, A cicatriz que fica. O tormento, O grito. O gozo. O horror. O cheiro de amêndoas do óleo que escorre. A memória de Clara. O choro da vergonha. A dor que não existe. A sombra da memória do silêncio no banho de sangue. O corpo devastado. A sujeita e o silêncio do cárcere. O resfolegar de João, insuficiente. O silêncio. As lágrimas misturadas no óleo de amêndoas. O corpo desfalecido jogado ao chão. O prazer conquistado. Jaime. João satisfeito. O desejo realizado numa obra de arte que se repete em meio à sujeira do cárcere. a obra de arte com banho de sangue. O rutilante olhar do desejo. O ruminar da sanha. O temo que passa. A sujeira que acende o fogo da lascívia. As costas brancas e torneadas de Jaime. O corpo de Jaime. O desejo. O fim.

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As salas empilhadas como caixotes num depósito. Miríades de caixotes em corredores tortuosos e estreitos. Um andar acima do outro. Biblioteca empoeirada. Livros velhos, de bibliografia básica jamais retirados, há mais de quinze ano nas prateleiras. Pó. Burocracia. Caras e boca em discursos ensaboados e desgastados, sem sentido, vazios. as salas empilhadas. Muitos maçons e militares misturados. Interesses diversos e costurados por uma única linha: lucro. Uma empresa. Em dia de vestibular, o risco era passar na porta no último dia e ser aprovado. Uma empresa. O interesse encher as salas como caixotes empilhados em corredores sinuosos. Biblioteca inútil. E o boteco do lado sempre cheio, de segunda a sexta. Os andares se sobrepunham numa luxúria de lucrar, lucrar, lucrar. O convite. Inesperado e insistente. Consuelo  ela tinha cara de cavalo. Magra, alta. Muito feia. Sempre com um lápis apontado na mão. O convite. “Venha”. A proposta para renovação do projeto. Mudanças radicais. Uma turma boa, interessada, cheia de vontade e energia. O café no intervalo, na beira da avenida movimentada. A zoeira. Nas sextas feiras, o boteco ao lado, sempre cheio. O convite Inusitado. Leonardo e seu brilhantismo. Nariz fino, olhos de lince, língua afiada. Um portento,. A companhia certa para as cervejas de sexta-feira no boteco ao lado. As salas empilhadas em corredores sinuoso. O boteco. O convite. Marcus e seu olhar de coitadinho. A síndrome de Talidomida como identidade. Sempre uma piada sutil, língua afiada também. Violeiro e prosador. Inteligente e feio, como uma tartaruga. Américo, o médico. Três hospitais. Tradutor de alemão, Poeta e ensaísta. Leitor de Lúcio Cardoso. Intérprete de Lúcio Cardoso. Crítico de Lúcio Cardoso. Típico bibliófilo. Mirrado, bigodinho estragado, óculos fundo de garrafa. Roupa esconjuntada. Olhar embaçado, mas vibrante. A timidez em pessoa. quando falava ficava gigante, um tribuno. Lúcio Cardoso. O convite. Era, já três confirmados. Consuelo, cara de cavalo, andando com o lápis na mão, em riste. Sempre séria. As reuniões em salas apertadas. A poeira. O barulho da avenida movimentada. O vozerio do boteco ao lado, sempre cheio. As propostas. Sorrisos. Cumprimentos Caras e bocas. O andaço entre os corredores sinuoso. Oitenta e duas pessoas numa sala. Quatro homens. A gritaria. A revisão. Professoras, pedagogas, pedagogos, historiador e comadres, Todos comadres e compadres. O vozerio a se confundir com o populacho no boteco ao lado. O das sextas-feiras, sempre cheio. Muita cerveja. Os futuros jornalistas. A pose. A arrogância. “Isso não presta. Não ensina a fazer entrevista”. Não há curo. Há que ter presença de espírito, informação percepção.  “Você é tonta, burrinha e sonsa”. As salas sempre cheias. Consuelo e o lápis. A primeira a sumir. Nenhum comunicado. De repente.. não mais. Zum zum zum… Diz que diz… Falação entre dentes. O boteco sempre cheio e as cervejas. E lá se foi o Marcus. Não mais prosa, não mais piada sarcástica. Não mais compaixão. A proposta caindo em desuso. Os livros ganhando poeira na biblioteca, numa das salas empilhadas de um dos corredores tortuoso. E o barulho da avenida movimentada a embalar a queda. Américo cansou de se dividir em quatro. Os hospitais exigiam muito. Lúcio Cardoso gritava alto em seu espírito. Uma tese. O dinheiro não chegava. Muito sacrifício para quase nada. Não há suporte institucional. Que delírio. Leonardo se foi, aos gritos. No meio dos corredores tortuoso o escândalo, as ameaças. A cerveja das sextas-feiras, no boteco sempre lotado, ao lado. No mesmo lado da avenida movimentada. Não mais. A proposta que foi sem jamais ter sido, algo já conhecido àquela altura. E a poeira. Os corredores. O barulho da avenida. O burburinho do boteco ao lado. sempre cheio. Não mais. Nunca mais. A mudança do prédio. A mudança de endereço, O mesmo interesse, a mesma jogatina. Agora em prédio próprio. Não mais proposta inovadora. Somente o holerite em verde a estampar a manutenção de tudo como perdido. Bastava aprovar. Fábrica de diplomas. Não mais Consuelo e seu lápis apontado. O sorriso amarelo, a cara de cavalo. Não mais as piadas do Marcus. Não mais a erudição de Américo. Não mais os delírios alcoólicos de Leonardo. Nada. Não mais as salas empilhadas por entre corredores tortuosos. Não mais o boteco ao lado sempre cheio. Prédio novo. A mesma cantilena. O holerite verde para não falar em proposta de renovação. O que poderia ter sido e que não foi. O motivo que jamais apareceu. O sumiço gradual, em sequência. Mudo e inexplicável. Agora, as salas amplas, envidraçadas. Os livros limpos de sua poeira, mas ainda repousando silentes na biblioteca, também ampla. Endereço novo, sem o alarido da avenida movimentada. Sem o vozeiro do boteco ao lado. O convite inesperado, como o fim.

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Lisboa. O céu azul de Lisboa. Chegar a Lisboa é como entrar em casa, depois de uma viagem muito bem sucedida. O estar em casa que nunca se esgota, Sob um azul lilás, quase roxo, circundando o céu da cidade. Lisboa e o Tejo. O rio mar. Lugar comum que não tira o prazer de repetir o nome da cidade. Lisboa. O convite que chegou em hora inesperada. A alegria inesperada do retorno. A possibilidade de rever os amigos. Seria uma oportunidade para conhecer Samuel. cara a cara. O convite não possibilitava. Bem… Três dias para a conferências e o protocolo de praxe. Depois nada. Nenhum impedimento. Mas Samuel não sabia. Escondido em sua vida celebridade em Londres. Filmagens, entrevistas, gravações, papelada. Atender fãs e patrocinadores. A troca de mensagens truncada. Sempre a mesma. Sempre os mesmos erros de Inglês. De um e de outro lado. Na tradução do google apareciam alguns. A consulta à colega tradutora desvelava outros. Samuel não sabia disso. Estava lá em seu mundo de celebridade a sonhar com o encontro que não acontecia. E a dúvida permanecia do outro lado. muitas dúvidas. As fotos eram sempre cópias da rede. Nenhuma selfie. A explosão de raiva. O xingamento. “A vida de celebridade tem um preço. Você sabe! Você tem que se acostumar a isso! Eu já disse a você! Sabe quanto custa uma sessão de fotos? Lisboa e o céu azul não dissiparam certa preocupação. Três dias passam rápido. As conversas continuando. A notícia que escapa. “Eu pago um bilhete para você vir a Londres. Cancele o de volta ao Brasil e venha até aqui”. O susto e a incerteza. Cancelar? E se não desse certo. E se, de fato, Samuel fosse um perfil falso? Todas as tentativas falhadas. Nenhuma certa. “O hotel já está reservado”. A mensagem confirmando. O voo inesperado. Tão inesperado quanto convite para Lisboa e a conferência. “Não há reserva para este voo em seu nome, senhor”. Era o fim. Nervosia. Como explicar numa língua difícil o que se passava. Com muito custo, a confirmação. Inexplicavelmente. O pedido de desculpas da funcionária. O sorriso amarelo. O despacho. Londres, cidade desconhecida. O voo ansioso e desgastante. O aeroporto cheio. A língua difícil. O sotaque mais agradável. As filas. Gente falando. A ansiedade e o medo. Grandes espaços, confusão. Vozes. O controle de passaportes eletrônico. A demora. O sinal verde que não aparecia. Ninguém para perguntar, ajudar, resolver. A ansiedade do encontro tão sonhado. A um passo de ser concretizado. Inesperadamente. Saudade de Lisboa. Certo arrependimento pela insegurança. De repente a voz perto do ouvido. Os militares. Os dois de preto com coletes amarelos. Chapéu xadrez.  O braços seguros, o passo cadenciado. Os corredores. As vozes e olhares estrangeiros. O longo corredor até uma sala. Espera. Silêncio. Ninguém e espera em silêncio. O interrogatório. O passaporte. As caras sisudas. O olhar desconfiado. s perguntas difíceis. A dificuldade da língua. Inexplicavelmente, a cala, a tranquilidade. A tentativa nervosa, mas contida, de responder. Um convite para conferência em Lisboa. O contato com Samuel. As conversas durante algumas semanas que antecederam o convite para Londres. O cancelamento do bilhete para o Brasil. O desconhecimento geral sobre Samuel. “Quem?”. Não conhecido. Perguntas e perguntas. As mensagens no celular. As fotos. O insistente desejo de um encontro. A postergação. As mensagens com as fotos que poderiam ser verdadeiras, mas usadas por alguém falso. Tudo falso. O mundo desmoronando. Não existe essa pessoa. Desconhecimento geral. Mais perguntas. Entra e sai na sala. Os cochichos. O olhar sisudo e desconfiado dos guardas de preto usando coletes amarelos. O chapéu xadrez. Uniforme. Todos brancos e arrumados. A mesma roupa. O mesmo chapéu. O mesmo olhar sisudo. O entra e sai que não acabava. Quem é Samuel? O que é que veio fazer em Londres. Quem pagou a passagem. O tempo que passa. Lembrança do céu de Lisboa. O azul do céu de Lisboa na memória. Bálsamo do pensamento. O estridente rumor da dúvida. A sala amarela com luz intensa. O reflexo dos distintivos. Os cochichos. O homem de gravata. O dedo apontando. O sorriso amarelo dos guardas. O passaporte na bolsa. A porta se abrindo e o dedo indicando a saída. O sorriso amável do engravatado. Clic! Não. O convite não pode ser aceito. Como cancelar um voo sem ter certeza de que o perfil de Samuel não é falso? Como não saber se tudo não passou de uma brincadeira maldosa, de mau gosto. Não. O convite não aceito. Só a conferência. Os três dias em terras portuguesas. O vinho do Alentejo. Os peixes e as carnes. O céu azul de Lisboa a coroar todos os sonhos. Possíveis e impossíveis. Não. Definitivamente não. Somente a conferências. Três dias e o retorno. Nada de cancelar voo Nada de confirmar reserva. Não. Só os três dias em Lisboa. Sob o azul do céu de Lisboa. Como voltar pra casa depois de uma agradável viagem.

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Sábado. Noite de sábado. Sábado à noite, era mais explícito. Título de música, até. Dia de dormir à tarde. Ficar de bobeira em casa. Tomar um bom banho. fazer a barba. Sair de casa. O trabalho só volta na segunda. A faculdade ficou pra trás, na manhã do mesmo sábado. À noite, a fantasia. Os sonhos. A aventura. Sábado à noite. Como todos os outros sábado. A mesma cantilena. O mesmo itinerário. O carro estacionado do mesmo lugar, da mesma esquina. No mesmo bairro, a mesma casa. Sábado à noite. D. Hélia recolhia-se cedo. Domingo era dia de almoço em família. Quando a família aparecia. Sábado à noite. De repente, do nada, a prima chega e se refestela no cantinho preferido do ateliê. “Quero saber como vai sua sexualidade”. Assim na lata, sem mais. Da convivência mais chegada, apenas um carnaval com alguns familiares e amigos na capital federal. Nada mais. Os drinks, as fantasias. O rebolado na hora do samba. O marido machão e machista a criticar. A prima a incentivar. A tia mais jovem e mas aberta a rir. Muita cerveja. Os anos 70 foram mesmo de uma liberdade jamais conhecida. A geração de 50 sabe disso muito bem. O carnaval na lembrança. A pergunta (implícita) direta, na lata. E a conversa rola. E choro. E risada. E cigarro. Vinho tinto barato. O ateliê apertado. Carlos e a prima. Mais uns dois ou três. Prelúdio de mais uma noite de sábado. Depois, a capital federal. O passeio de final de semana. O choro convulso por conta da volta. O retorno O prazer intenso de mais um sábado à noite. Sylvio. Voltar. A lembrança e Paulo. Buenos Aires, nem um ano atrás. Depois de mais um sábado à noite, a promessa de realização de um de muitos sonhos. Sylvio. Voltar. O choro convulso e a solidariedade da prima. A psicologia ajuda. ais um sábado à noite. A prima solidária. Passa o tempo. O sonho não se concretizou. Morreu na casca. A prima solidária. O apartamento. Os passinhos curtos da prima chegando para o almoço. Joga os sapatos para o alto. Arranca a roupa e vai soltando pelo chão a caminho do banheiro. De banho tomado, nua, anda pela casa fumando. Veste uma camisa e se senta para almoçar. Todo o dia a mesma cantilena. O câncer no cérebro. A mudança para o Rio. A bomba de cobalto. A volta trágica. Corticoide. Corpo deformado. Na cama, ofende e xinga a melhor amiga, a confidente. A prima irritada. Transtornada. Manda a melhor amiga embora. Cai na rua e quebra a perna. A convalescença e a solidariedade de volta. O segredo. O aborto escondido da mãe, da família. A capital federal tem seus segredos. Sábado à noite. Não mais nos anos 70. Agora, no trabalho. Das 19 à uma da manhã. Todos os dias menos domingo. Sábado à noite, não mais. Aparece a prima. Amarfanhada. Descabelada. Bêbada? Cigarro torto na mão. “Vim aqui para você tirar a sua máscara”. O cordão de ouro A falta de atenção que levou a joia a leilão e a perda da cautela. A acusação de roubo. “Com a criação que você teve…”. A ousadia. O almoço. A joia reposta. O almoço a despedida. Não mais solidariedade. Não mais saber da sexualidade alheia. Não mais. O tempo passa. Os sábados à noite perdem brilho com o tempo. A pátina das experiências falhadas. Dos sonhos despertados. Das decepções. Sábado à noite não do mesmo jeito. A morte do pai. O velório com todos os irmãos. A repulsa. O abraço que a prima rejeita. Empurra. Faz careta. Constrangimento. Cena que se repete anos após ano. Volta o problema grave de saúde. Não mais corticoide. Não mais bomba de cobalto. O tempo que passa e as reviravoltas que causa. Inexplicável. Compreensível, mas inexplicável. O definhamento, Pés e mãos ficando redondinhos, fechadinhos. A risadinha infantil. A confusão mental. Os cabelos ficando grisalhos e compridos. A magreza. A voz infantilizada. Não mais a pergunta na lata. A sexualidade esquecida. Nem choro, nem solidariedade. Aborto, não mais. A amiga perdida. O primo afastado. A rejeição do luto. Um corpo estirado na cama, emagrecendo. Com um sorriso infantil A vozinha fininha de menina travessa. Enfim, a reunião de família, depois de muitos sábados à noite. O suspense. A aflição. “Vamos botar uma pedra sobre todos os problemas. É Natal. Recomeçamos do zero. Gosto muito de você!”. A surpresa. A indiferença. As memórias indo e voltando. As cenas em flashes escurecidos pela pátina do tempo e pelas controversas mudanças de comportamento. Da curiosidade sobre a sexualidade do primo a uma degenerescência digna de compaixão. Indo e vindo. Sobe e desce. Ri e chora. Grita e fica apática. Cai. Expulsa todo mundo de uma festa. Chora de saudade do pai. Chama para almoçar. Acusa de ladrão. Uma e duas medidas. Imprevisibilidade. Mudanças que se explica. Talvez não se aceitem, mas se explicam. O tempo que passa. A coleção de sábados à noite que deixa marcas. Umas claras, outras escuras. Contrastes constantes.

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A bandeja sobre a mesa cinza. Uma peça de prata antiga em forma de coroa. A cerâmica pintura em fundo branco a realçar a mesa. Sem saber o que estava por vir. A mesa, na sala azul, os convidados chegando. Eram quatro. Duas a duas. Com um irmão entre os dois grupos. Vivaz e falastrão. Bigodes enormes a emoldurar sorriso fraco, largo, contagiante. Violeiro e cantador. A animação de todas as festas familiares. Não estava ali. Na sala azul, onde abandeja de cerâmica pintura verde repousava sobre a mesa. Sabiam tudo. Resolviam todos os problemas numa facilidade de ar inveja a mais rápido dos mais rápidos aparelhos de laser. Sempre da mesma forma. Entrando na sala azul como ratos a vasculhar os cantos. Procurando o que comer, os ratos farejam o chão. Fungando, arrastando seus rabinhos roliços pela cerâmica calara que sustinha a mesma onde estava a bandeja. Lembrança de antepassados. Da avó italiana, o presente. Peça artesanal, folclórica, da Tchecoslováquia. Não existe mais, o país que respondia por esse nome. As quatro sabiam. Claro que sabiam. Elas sabem tudo. Olhando, resmungando, enquanto andam pela sala azul,. Os convidados do lado de fora não sabiam de nada. A mais nova pega a peça. “Isso é uma peça de arte. Está no lufar errado”. O olhar enviesado. A dona da casa não gosta. O silêncio das outras três. E os convidados na algazarra exterior. “Trás o martelo e um prego. Isso é uma obra de arte. Tem que fica na parede. É mais bonito”. os convidados, na algazarra, não souberam. As outras três se calaram, sorridentes. Coniventes com a decisão da mais nova, a mais talentosa, a artista, a mais viajada. E a dona da peça, séria toma a bandeja. “A casa é minha. A peça é minha. Fica onde quero”. A algazarra. As risadas. As quatro se misturam, um pouco. na verdade, não “se misturam”. A bandeja sobre a mesa na sala azul. A recordar outros tempos. Noutro dia, sem festa nem algazarra a visita na casa das tias. Tudo mudado. Ergonomicamente adaptado. Novos tempos. Novas necessidades. Não mais as quatro, mas duas. As outras estavam trabalhando. “Quem trocou os móveis? Por que a cama e os sofás estão mais altos? Isso não pode. Está errado”. A idade pesa para as tias. A vida continua, mais lenta, mais cuidados. No silêncio cortado por conversas educadas e sóbrias. Contraste com o alarido das perguntas. A idade. As necessidades. A explicação óbvia. E o mesmo olhar sorrateiro, a escarafunchar cada canto, cada detalhes. A procurar motivos para falar, deitar regras, corrigir. afirmar o que é certo e o que é errado. Em qualquer circunstância. Em qualquer lugar. A qualquer hora. Na porta do hospital, a desfaçatez. “Como não podemos entrar? O nome não constava da lista. Política hospitalar. Esquecimento de alguém, da (outra) agregada  talvez. O constrangimento. os telefonemas. “Não pode!”. Para elas, não há limites. Tudo pode, tudo é devido. Tudo é como deve ser para elas. Mesmo divididas, ou sozinhas. Cada uma a seu modo. Sempre com a razão. Os telefonemas, a reclamação. Os resmungos a desfazer da (outra) agregada. Como se o mundo devesse seguir suas normas, sem discutir. Como se a (outra) agregada não fosse alguém ali presente. Invisível. As quatro n olhavam pra ela, não falavam com ela. Não a reconheciam como alguém que existe, que estava sempre ali, ajudando(até prova em contrário. as quatro sempre. E de novo, a ruma de reclamações. “Nunca fomos consultadas. Nunca perguntaram se a gente podia fazer alguma coisa. Sempre ficamos sabendo de tudo depois de feito. Nunca fomos consultadas”. E a arrogância escorria como baba em boca de velho. os telefonema. A insinuação. O veneno que escorre assim pelos cantos, esverdeado. A amargurar ainda mais ao vida das quatro: o marido que só gostava de sexo anal. O outro que se sentia o rei da cocada preta. O terceiro, boa pessoa, quase um bobo alegre. O quarto, por fim, no fundo de sua timidez, escanchado, escorraçado do seio da família das quatro. Quatro índias. O curumim sempre ficou de seu lado. Desde a tribo, de onde vieram e se “civilizaram”. Deve ser por isso. A convivência feminina como única referência. Elas sabiam tudo. Pensavam que podiam tudo. Jamais se deram ao trabalho de olhar para o lado, a tentar perceber a diferença. Como com a bandeja de cerâmica pintura. Lá na mesa, no cetro da sala azul. Na casa para onde não mais voltara. “Temos que levar fulana ao trabalho”. Duas e as sobrinhas? As outras duas apareceram mais tarde. O protocolo exige. Mãe, filha e sobrinhas, as quatro outras, juntas, a levar a fulana para o trabalho. Assim, desse jeito. Bonitas e altivas, elegantes. Na pose, olhando de tudo e de todos. Ai não havia como dar palpite. Uma cena final. Não mais a mesa cinza com a bandeja de cerâmica pintura verde da Tchecoslováquia. Ali não. O silêncio foi a melhor opção. Ainda que por meros quinze minutos. E olha que elas eram “da família”…

Poema

Delírio

Entre as rotundas colinas

e seus picos túrgidos

antever o vale hexamétrico

amplo e ondulado

a caminho do pecado, sem rima

e a haste intumescida

erguida, entre

num vasto plano

de veludo acastanhado

sobre colunas de alabastro,

torneadas e amplas

e os pés.

Ai, meu Deus, os pés!

O quê?

Não, não é o cântico dos cânticos, mas bem

poderia ser

ainda que mais próximo daqui

desse tempo.