Intervalo sarcástico

Juceldio tem malária.

Vaneilda sofre de amebíase.

Hermengarda pena com sua artrite reumatoide.

Valfrêncio, há anos, luta contra o lúpus erimatoso sistêmico, junto com seu irmão gêmeo, Hermonildo, que sofre de lúpus discoide.

Zeniolga é portadora de sarcaidose.

Sinfrônio tem porfíria.

Eles vão sofrer de hipotensão, vasodilatação, supressão da função miocárdica, arritmias cardíacas, parada cardíaca, poderão passar por períodos de confusão, tendo convulsões e até entrar em coma. Vão pear com a cefaleia, a irritação do trato gastrointestinal, os distúrbios visuais e a urticária. Além disso, corem o risco de vir a ser vítimas de retinopatia e ototoxicidade irreversíveis. São sérios candidatos a sofrer de miopatia tóxica, cardiopatia e neuropatia periférica, visão borrada, diplopia, confusão, convulsões, erupções, quineloides na pele, embranquecimento dos cabelos, alargamento do complexo QRS e anormalidade da onda T. Dizem por aí que eles todos vão sofrer com hemólise e discrasias sanguíneas. Tudo isso porque são medicados, desde o diagnóstico de suas enfermidades, com Difosfato de Cloroquina

Lições de Português para os incautos em tempo de pandemia II

GANÂNCIA

Substantivo feminino: ação ou efeito de ganhar (diacronismo: antigo), utilidade ou lucro que resulta do trato do comércio (diacronismo: antigo), juro pago por mutuário (diacronismo: antigo); ânsia por ganhos exorbitantes, avidez, cobiça, cupidez; ânsia de ágio, agiotagem, usura; desejo exacerbado de ter ou de receber mais do que os outros.

Lições de Português para os incautos em tempo de pandemia I

VAIDADE

Substantivo feminino: qualidade do que é vão, vazio, firmado sobre aparência ilusória; valorização que se atribui à própria aparência, ou quaisquer outras qualidades físicas ou intelectuais, fundamentada no desejo de que tais qualidades sejam reconhecidas ou admiradas pelos outros; avaliação muito lisonjeira que alguém tem de si mesmo; fatuidade, imodéstia, presunção, vanidade; coisa insignificante, futilidade; vanidade. (Copiado do Houaiss, editado por mim)

Conhecimento

Uma pergunta eu sempre me incomodou: que teorias e autores relevantes O Aristóteles e o Platão utilizaram como arcabouço teórico para desenvolver suas teses em Filosofia? Hoje, penso eu, ainda não foi encontrada a resposta. Creio, penso eu, de novo, que por impossível. Mas na lonjura em que estão o bom senso e a parcimônia – não menciono a honestidade e a eficácia para não correr risco de cassação de título – da produção acadêmica, sobretudo em algumas áreas do conhecimento, fica mais longe a possibilidade de considerar essa produção um exemplo de possíveis tentativas de resposta. Este fio de raciocínio é longo, intrincado e multifacetado. Custaria um esforço enorme, um tempo imenso. Não vou enfrentar essas agruras. Paro com a minha chatice aqui para trazer o verbete dicionarizado de uma palavra fundamental, sempre fundamental: Conhecimento. Substantivo masculino. Ato ou efeito de conhecer. Ato de perceber ou compreender por meio da razão e/ou da experiência. Faculdade de conhecer. Por extensão de sentido: domínio, teórico ou prático, de uma arte, uma ciência, uma técnica etc. Relacionamento ou conjunto de relacionamentos que uma pessoa ou grupo de pessoas mantém com outras, quer por amizade, quer por mera formalidade. Por extensão de sentido: fato ou condição de estar ciente ou consciente de algo; ciência, informação, notícia. Somatório do que se conhece; conjunto das informações e princípios armazenados pela humanidade. No comércio, significa recibo. Na Filosofia, ato ou faculdade do pensamento que permite a apreensão de um objeto, por meio de mecanismos cognitivos diversos e combináveis, como a intuição, a contemplação, a classificação, a analogia, a experimentação etc. No plural: erudição, cultura, instrução. Pois bem. Este é o verbete dicionarizado com alguns pitacos meus, da ordem da organização do texto e não de seu conteúdo. Como se vê, o tal de conhecimento não nasce pronto. Não brota do chão. Não é herdado por osmose, mitose ou transmissão cromossômica.  Conhecimento é produzido a cada passo, cada dia, cada minuto, cada experiência. Quero crer que não me equivoco ao afirmar que, em conclusão, conhecimento é algo da ordem do absolutamente relativo. Em que pese a plausível contradição em termos. Não há absolutos. Portanto desnecessário, inútil e ignorante a briga pela posse da verdade que esse suposto conhecimento produz.

Insistência

Quis escrever um poema sobre a cor alaranjada do por do sol. O poema não saiu. O céu escureceu. Uma chuva miúda caiu. Mas o poema ficou encruado lá em cima, depois das nuvens. Ou ficou embaixo da terra, esperando melhor momento para brotar. O que fazer? Sem saber ao certo, caminhei. Trinta minutos. Quarenta voltas. Quatro mil metros. Dose diária de um remédio amargo a fazer efeito se tomado, religiosamente de segunda a sexta. Ainda assim, mesmo medicado, o poema não saiu. Nas páginas do livro experimental de Nuno Bragança, a procura pelos verso exato se perdeu. Os nomes das personagens. A reprodução do que vai na cabeça de cada personagem. A diagramação de algumas páginas e a intermitência de trechos em letra miudinha, em itálico, em primeira pessoa, a eriçar os pelos da cabeça e dar coceira no cérebro. Nada do poema sair. O chimarrão, preparado fora do rincão gaúcho. A mistura de suco de acerola, limão e um pozinho mágico para, supostamente, acelerar o metabolismo: gengibre, guaraná e peca peruana. Se não me engano. O margo agiu, mesmo com o adoçante. O efeito foi esperado e desejado no ato de beber. Nada de poema. O ouvido já quase calejado por dias e dias com o mesmo assunto, os mesmos números, a mesma histeria, as mesmas preocupações e um único fato: irritação, estresse, impaciência. Mas nada de poema. A descrição, em palavras, do alaranjado do ocaso não seria perfeito. Não faria à experiência visual da mesma cor. Não cederia ao impacto do mesmo ocaso. A repetição que fascina. A imaginação que se mexe, sem conseguir produzir o poema. O pão velho dos cachorros. A goma de tapioca na pia, a esperar pelo fogo e pelo queijo e pelo ovo, depois da manteiga. Os nacos vermelhos da melancia na geladeira. A brisa fresca que passa vez por outra. A mesmice do nada que ainda, assim, renova. E o poema não saiu.

Sofisma

Está lá, no parágrafo único, do artigo 1º, do título 1, da constituição federal, a constituição cidadã: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” O verbo emanar apresenta, no Houaiss, duas acepções como verbo transitivo indireto: vir de, ter origem em; espalhar-se em partículas; soltar-se, exalar-se. Aqui interessa a primeira. Nesta, destaco a ideia de origem. Isso pode levar à sustentação do argumento que dá lastro ao que se conhece como voto direto. Não apenas como processo simbólico, formal, protocolar, mas como evento central da tal democracia que se alimenta desse poder que… “emana” do povo. Daí, há que pensar numa palavrinha desgastada e tão famigeradamente utilizada à exaustão: povo. Voltemos ao dicionário. O verbete é grande. Substantivo masculino: conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns; conjunto de pessoas que vivem em comunidade num determinado território; nação, sociedade; conjunto de indivíduos de uma mesma região, cidade, vila ou aldeia; conjunto de pessoas que não habitam o mesmo país, mas que estão ligadas por uma origem, sua religião ou qualquer outro laço; conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes; conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, plebe (em sentido pejorativo); multidão de pessoas; pequena povoação, lugarejo, aldeia, vila; a gente de casa, a família; turma, gente. Numa primeira visada mais ampla, a sociedade é formada pelo povo, sem distinção. Acontece que há uma acepção que cria situações, no mínimo, esdrúxulas. É a que diz que povo é “conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes”. Como diria uma personagem de Rubem Fonseca: é aí que mora o busílis. E que busílis. Em pindorama, acredito, esta acepção tornou-se um axioma que define o grupo daqueles que, por terem sido eleitos pelo povo, se sentem no direito e com a razão de se distanciar deste mesmo povo, colocando-se em posição superior, em relação a ele. Ora. Pau que dá em Francisco dá em chico, com toas as minúsculas, pois não quero identificar um indivíduo aqui. Não. Este axioma leva esses “distintos” representantes do povo a se colocarem acima e além de qualquer ilação, concreta ou metafísica com esta entidade incorpórea, mas absolutamente concreta, o povo. Por outro lado. Fica ainda mais esdrúxula a coisa. É quando, porções desse mesmo povo se colocam num outro lugar e começam a tergiversar cobre um sofisma que acaba com qualquer noção de lógica. Sofisma que faz os restos mortais de Aristóteles e Platão se reunirem em fúria, fazendo tremer as bases do pensamento ocidental. É o seguinte. Essas porções afirmam que há na totalidade do povo, aquela parcela que não acompanha o pensamento, a opção, a orientação, a decisão dos demais. A isso chamam de minoria. Essas mesmas porções afirmam ainda que a vontade dessa minoria tem que se apor à vontade do resto, a maioria, sob pena de transformar o que se conhece por democracia, numa ditadura da maioria sobre a minoria. Ora, na tal de democracia, respeitadas as diferenças e variedades, sempre vai haver, no mínimo, dois grupos: a maioria e a minoria. Repetindo, o sofisma pregar que a minoria tem que se impor sobre a maioria sob pena de se ver transformada a democracia numa ditadura da maioria. Mas a sobreposição da minoria sobre a maioria, ditando-lhe as normas de funcionamento, não é em si mesma uma ditadura da minoria sobre a maioria. Estranha conclusão que, ao que parece, não se sustenta nas bases que escolheu para se erigir. Castelo da cartas ou de areia. Balela. Potoca. Invenção de moda que leva aos absurdos mais inesperados de tão absurdos. Alguma relação com a realidade hodierna de/em pindorama?

Música

Não se trata de um poema tout court, ao pé da letra. Seu autor foi Harold Arlen que, junto com Ira Gershwin, compuseram a música para a primeira versão de um filme inesquecível: A star is born. Ao escrever isso, por óbvio, vem à mente a imagem de sua mais preciosa, genial, contundente, emocionante, inigualável, impecável intérprete: Judy Garland. Os comentários são, oura vez, por óbvio, dispensáveis. Procurei na internete por interpretações desse número e encontrei pencas: Ella, Sarah, Frank, Natalie, and so on. Nenhuma delas, indiscutivelmente, nenhuma delas consegue superar a original. A beleza, a contundência e a consequência – no filme é esta música que dá o mote para a narrativa do romance entre a personagem vivida pela própria Judy e pelo impecável ator James Mason. Vale a pena conferir – da interpretação preenchem cada lacuna semântica da letra que se faz completa na economia da narrativa fílmica. Não sou cinéfilo ou cineasta. Não me arvoro a nomear a mim mesmo um crítico de cinema, mas ouso afirmar que estou pra ver coisa mais perfeita que esta comunhão: letra, música, interpretação e narrativa. É i-ni-gua-lá-vel!!! Ao final, as ligações para os videoclipes que encontrei. Confesso que deve haver mais, a minha preguiça me impediu de continuar.

The night is bitter
The stars have lost their glitter
The winds grow colder
And suddenly you’re older
And all because
Of the man
That got away
No more his eager call
The writing’s on the wall
The dreams you dreamed have all
Gone astray
The man that won you
Has run off and undone you
That great beginning
Has seen its final inning
Don’t know what happened
It’s all a crazy game
No more that all time thrill
For you’ve been through the mill
And never a new love will
Be the same
Good riddance, good-bye
Every trick of his you’re on to
But fools will be fools
And where’s he gone to

The road gets rougher
It’s lonelier and tougher
With hope you burn up
Tomorrow he may turn up
There’s just no let up
The live long rougher night and day
Ever since this world began
There is nothing sadder than
A one-man woman
Looking for the man
That got away
The man that got away

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A noite está amarga

As estrelas perderam seu brilho

Os ventos ficam mais frios

E de repente você está mais velho

E tudo por causa

Do homem

Que foi embora

Não mais sua chamada ansiosa

As frases na parede

Os sonhos que você sonhou têm todos

Desviaram-se de seu caminho

O homem que ganhou você

Fugiu e desfez de você

Aquele grande começo

Viu seu turno final

Não sei o que aconteceu

Isso tudo é um jogo maluco

Não há mais a emoção de sempre

Pois você já passou por esse processo

E nunca um novo amor voltará

a ser o mesmo

Boa viagem, adeus

Todo truque dele você conhece

Mas tolos serão tolos

E para onde ele foi?

A estrada fica mais acidentado

É mais solitário e mais duro

Com esperança você se queima

Amanhã ele pode aparecer

Simplesmente não há desistência

A vida continua difícil noite e dia

Desde que este mundo começou

Não há nada mais triste do que

Uma mulher de um só homem

Procurando pelo homem

Que foi embora

O homem que foi embora

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https://youtu.be/gNDu75gEiIo (a original)

https://youtu.be/YC7A6SdBYyw (Francine Reed)

https://youtu.be/sCacAnN-rVg (Julie Andrews)

https://youtu.be/D7S5LQQUGIM (Jane Monheit)

https://youtu.be/SSjvwjZAcSI (Dinah Washington)

https://youtu.be/oulqZPXovb8 (Natalie Cole – não gosto muito)

https://youtu.be/bS59gGf8OH4 (Frank Sinatra – que troca o gênero da letra… não gostei…)

https://youtu.be/kc8h6IwokLw (Shirley Bassey)

https://youtu.be/2H0ZhxeSZxI (Scherrie Payne)

https://youtu.be/ytSxPPHA2L8 (Sheena Easton)

https://youtu.be/P-vAkp18_gs (Lorna Luft – filha do terceiro casamento de Judy Garland)

https://vimeo.com/17200628 (Rufus Wainwright)

https://youtu.be/Idt_drk52a8 (sarah Vaughn)

https://youtu.be/BT–qwLLYsg (Ella Fitzgerald)