Retomada

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Semana truncada, para não dizer complicada. Feriado atravessado – com perdão da rima paupérrima. Dispepsia intestinal. Mais preguiça, muita preguiça. Notícias não muito alvissareiras de longe, do litoral. Mais uma semana, em nada e por nada, igual às outras, em que pese o fato de ser exatamente igual às outras. Vai entender. Por isso o silêncio, a ausência, as páginas diárias em branco. O ensaio interrompido do diário. Mas muito pouca gente se importa. E isso basta.

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Pois é assim. As meninas se viram pra sobreviver. Do melhor jeito que podem e sabem. E vão vivendo. Mas aí o rapazinho metido e abelhudo, com cara de bom moço, sorriso matreiro e oportunista se mete, se auto convida, se promove. E fala e seduz e adula e faz o jogo que o mainstream elege como o correto, o certo, o legal, o que dá lucro, o que leva ao sucesso, à celebridade. Pobres meninas. São analisadas, julgadas, reviradas, criticadas, “orientadas”. A pseudo “banca” de experts – como se o sucesso de um fosse igual ao acesso do outro, mesmo com a mesma metodologia, são sujeitos diferentes, desiguais individualidades. Não adianta. Os mass media não aceitam exceções, impõem regras e quem quiser que se submeta, mesmo sem ter a mínima ideia do preço a pagar. Depois. E lã vão as meninas, nervosas, angustiadas. E o mocinho, com o mesmo sorrisinho cínico – com a devida vênia aos filósofos – instiga a ansiedade, o medo, o temor e ainda debocha, dizendo que vão aparecer. Populismo em sua mais execrável perversidade. Mas sou um chato.

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Resolvi que, por algum tempo, vou colocar aqui algumas das monografias que escrevei há 32 anos. Trabalhos finais das disciplinas do mestrado na Unb. Tive a ideia de fazer um livro introdutório à Literatura Comparada com o conjunto desses textos. Fui dissuadido pelo tempo, os afazeres e a íntima certeza, quase absoluta de que o volume seria apenas mais uma ganhar poeira em alguma estante perdida pelo planeta. Na época, era essa a imagem. Hoje se fala em ebook, como se fosse um avanço imenso. Bem, por um lado, é mesmo. Mas só por um lado. Desisti. Agora, remexendo papeis velhos para uma faxina, encontro o conjunto e começo a reler. Fico admirado. Algumas intuições já estavam lá. O cuidado com a forma do discurso também. O respeito a certas medidas iniciais do protocolo “acadêmico”, da mesma forma. Fiquei feliz. Resolvi que uma vez por semana vou coloca-los aqui. Pretendo fazê-lo uma vez por semana, pra aliviar a presumida obrigação de escrever todos os dias. Pode ser que acabem por ter o mesmo destino que os idealizados volumes aludidos. Não importa. Foi em quem os escreveu e tenho muito orgulho de tê-lo feito. Ainda que continue sendo um chato. Aguardem…

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Das chatices que vêm com o tempo

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“Protágoras de Almeida e Castro é um leitor com alto índice de acuidade exegética. O que diz sobre o romance acerca do qual comenta é notável. Com justeza e sinceridade, faz afirmações coerentes e adequadas ao material que compõe a narrativa que lê. Conhecedor que é da obra do autor sobre o qual se debruça, confirma sua autoridade, sem resvalar em falácias ou afirmações categóricas sem o devido respaldo. Ocorre, no entanto, que suas intuições deveriam vir ancoradas em referências mais sólidas. Explico-me. O crítico infere relações de sentido e apresenta elementos de ilação hermenêutica que se fazem consistentes. No entanto, ao não citar nomes de referência da crítica/teoria literária incorre em categorizações que deixam de apresentar a necessária espessura, para não incorrer em opinião pessoal de menor espectro. Ao ler suas considerações, não se pode dizer que não saiba do que está falando, mas parece uma voz no deserto quando não cita autores que também já se manifestaram sobre os mesmos tópicos (no caso genérico da crítica/teoria) e/ou suas realizações estéticas/formais (no caso do autor em questão). Eu diria que o trabalho peca por falta de citações e referências explícitas. Ao fim e ao cabo, não pode ser relegado ao plano da “opinião”, pela consistência dos elementos discursivos de que se utiliza e que demonstram sua atenta acuidade de leitor voraz e preparado. Se refeito o trabalho, em respeito às normas, não vejo porque não aprová-lo trabalho.”

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O parágrafo acima é extrato de um parecer dado a trabalho acadêmico supostamente apresentado como instrumento parcial para obtenção de título acadêmico. Não importa o seu grau. O que me chama a atenção é a argumentação exarada no texto do parecerista. Ressalte-se sua intensa e vigorosa “cobrança” de referências e citações, o que revela, antes de mais nada e acima de tudo, um exacerbado uso de categorias um tanto fossilizadas pela burocracia acadêmica, no que diz respeito a suas normatizações e protocolos. Claro está que ninguém há de conseguir alçar os píncaros desta egrégia instituição, a universidade, sem se submeter aos protocolos que ela mesma institui e celebra para adequar seus critérios avaliativos. No entanto, o fato de demonstrar “conhecimento de causa” não precisa, necessariamente, transformar-se em critério eliminatório de um escrito, demonstrada que tenha sido a eficiência e a eficácia dos argumentos arrolados em qualquer texto que se apresente como candidatura a um título. Explico-me: não basta demonstrar que sabe… Em outras palavras: não que ser apenas honesto, há que parecer honesto (quem foi mesmo que disse isso???). O que ressalta aos olhos, no fundo, é certa dose de incoerência e/ou contradição do parecerista, para não dizer temor em dizer o que pensa – em função do objeto de análise e não em relação ao que podem dizer acerca do parecer, ele mesmo… e de seu autor…, – pois ele aprova e reprova, simultaneamente, ao longo de suas considerações, sem definir uma posição clara para, no final, optar por exigir (ainda que implicitamente) o trabalho seja reescrito em obediências às normas e aos protocolos de praxe. E eu em pergunto: o que realmente tem “valor” – a discussão desse tema mereceria outras linhas em separado – na situação que se apresenta. Por que não aprovar o trabalho, de conteúdo incontestavelmente válido e qualificado, ainda que não “apresentado” num modelo estrito e, vamos ser sinceros, redutor. Por outro lado, se existem os modelos – ainda que coercitivo – porque o trabalho não foi assim apresentado, evitando certos incômodos posteriores, da ordem do burocrático? E, em terceiro lugar, oh dúvida cruel, o que realmente é para ser feito: um trabalho sério, consistente, ou o preenchimento de um subliminar formulário?

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Perguntei ao Dr. Google sobre o indivíduo acerca do qual escrevi as linhas acima e ele ficou silente. Não me foi dada sequer uma referência. Logo, posso concluir que sou isento de qualquer tipo de responsabilização… Isto posto, estou tranquilo, afinal, tudo não passou de ficção… e ironia!

Lembrando

Mexendo em algumas coisas no computador, para matar o tempo e tentar vencer o tédio desse dia bobo, o domingo… Nessa modorra abissal, escutando o baticum de uma tal de Ludmila a quem chamam de cantora… Deparei-me com o texto que li no dia de minha posse na Alacib… Vale pelo dia…

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Ler Caio Fernando Abreu é como abrir um diário que nunca escrevemos, mas que reve­la tudo que sentimos e pensamos, tudo que queremos esconder dos outros e de nós mesmos. Esta é a marca registrada de Caio: seus contos jogam na cara da gente coisas que não sabemos sobre nós mesmos, obrigam-nos a fazer uma limpeza interna, pensar sobre o que realmente somos e o que representamos ser. Terrivelmente crua e ao mesmo tempo lírica e delicada, a obra de Caio Fernando nos captura justamente por essas contradições:

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanha­ram o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conse­guiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sen­sação de que seriam infelizes para sempre. E foram.(ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: Morangos mofados. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 132-142.)

Um dos primeiros textos de Caio que li foi o conto “Aqueles dois”, publicado num livro emblemático Morangos mofados. O titulo desse livro é muito sugestivo e lírico, apesar de, aparentemente e apenas aparentemente, causar sensação de nojo. Mas não, todos os textos constantes do volume são exemplo acabado do mais puro lirismo trágico, marca registrada do autor. O trecho que acabo de ler é a conclusão do conto. O processo de conhecimento, que se desenvolve durante a narrativa, é por demais contundente para deixar dúvidas sobre a pro­fundidade do pensamento de Caio. A humanidade salta aos olhos através dos passos incertos e cambiantes dos dois protagonistas. Caio Fernando Abreu é considerado um dos mais importantes contistas do Brasil, no­me basilar da expressão homoerótica na/da Literatura Brasileira. Referência para jovens es­critores, por seu niilismo poético e por sua visão de mundo sem tantos compromissos formais, o autor gaúcho comove e incomoda, questiona e delata, faz poesia e imagem com a palavra. É, da mesma forma, considerado autor pesado e afeito à melancolia, com uma escrita passional e intertextual. Isso se deve ao fato de o escritor ter dado um grande espaço, em sua obra, a te­mas considerados “pesados” e/ou “não-literários”. Temas que podem ser identificados como sua marca registrada: explicam, em parte, certo silêncio da crítica universitária, hoje mais alerta e interessada. Sua ficção se desenvolve acima de convencionalismos de qualquer ordem, com linguagem fora dos padrões convencionais, em seu tempo. Em seus contos, percebe-se certa velocidade na/da escrita, associada tanto à construção de imagens rápidas, instantâneas, substantivadas, quanto à forma com que estas imagens interagem, se complementam ou se chocam. Há quem diga que sua narrativa é cinematográfica, como é bem o caso de “Sargento Garcia”, conto publicado no mesmo volume, Morangos mofados: 

Queria dançar sobre os canteiros, cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. Mas não sentia nada. Era assim, então. E ninguém me conhecia. Subi correndo no primeiro bonde, sem esperar que parasse, sem saber pa­ra onde ia. Meu caminho, pensei confuso, meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. Pedi passagem, sentei, estiquei as pernas. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora, repeti sem entender, debruçado na janela aberta, o­lhando as casas e os verdes do Bonfim. Eu não o conhecia. Eu nunca o tinha \is-to em toda a minha vida. Uma vez desperta não voltará a dormir. O bonde guin­chou na curva. Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar. (ABREU, Caio Fernando. Sargento Garcia In: Morangos mofados. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 74-90.) 

Há que destacar a preferência do autor por certos tipos humanos, inseridos no rol dos socialmente excluídos: prostitutas, travestis, michês, entre outros. O autor procura integrá-los à “realidade”, através de sua ficção. “Sargento Garcia” foi escrito e dedicado à memória de Luiza Felpuda, travesti conhecido em Porto Alegre que, no período militar, era responsável por um bordel que soldados frequentavam para se prostituírem. O autor insere, em sua narrativa, a personagem de Isadora Duncan, outro travesti. A criação dela é uma homenagem à Luiza Felpuda. Embora Isadora seja um travesti, em nenhum momento da narrativa de Caio perce­bemos a intenção de ridicularizar a imagem do homossexual; não o reduz à caricatura, mas o integra à narrativa, sem intenção de ridicularizá-la.

Nascido em 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão onde quem não rouba é ladrão (hoje apenas Santiago), Caio Fernando Loureiro de Abreu começou precocemente sua carreira. Segundo ele, o primeiro conto de ficção foi escrito aos seis anos, logo que aprendeu a ler e escrever. Alto, magro, de voz fina e com olhos enormes e expressivos, o menino Caio teve muita dificuldade em fazer amizades em sua cidade natal. Aos 15 anos, mudou-se para Porto Alegre, como faziam todos os jovens do interior em busca de melhor qualificação. Sozinho na cidade grande, leu com fervor as obras de Guimarães Rosa, Fiódor Dostoiévski, Mareei Proust, Katherine Mansfield, Graciliano Ramos, Friedrich Nietzsche, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, J.D. Salinger, Herman Hesse, Virgínia Woolf e Clarice Lispector, sendo que as duas últimas seriam sua grande inspiração durante toda a rida.

Em 1967, entra para o Instituto de Letras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Logo começa também um curso de direção teatral, passando a estudar literatura pela manhã e artes dramáticas à noite. Nessa época conhece o futuro escri­tor João Gilberto Noli, o jornalista Valdir Zvvetseh, a pintora Maria Lídia Magliani, parceira de toda vida, e Lya Luft, que foi sua professora e amiga.

Em Março de 1968, é selecionado em um concurso para integrar a equipe de jornalistas de uma nova revista da Editora Abril, no qual havia inscrito o conto O príncipe sapo. Abando­na a faculdade em Porto alegre e vai para São Paulo ocupar sua vaga no 1° Curso Abril de Jor­nalismo. Em setembro é lançada a revista, que se chamou Veja (e leia), e da qual acaba demi­tido meses depois. Procurado pelo DOPS (Departamento de ordem política e social, órgão de repressão do governo) por participar de algumas passeatas de esquerda, vai pela primeira vez para o sítio da escritora Hilda Hilst, em Campinas. Os dois tornam-se amigos e parceiros em seu amor pela literatura. Hilda teve grande influência na vida de Caio. Convivendo com ela e lendo Rainer Maria Rilke, Thomas Mann e Léon Tolstói, o escritor refinou cada vez mais sua sensibilidade na escrita.

Durante a estada de um ano com Hilda, organiza material para editar seu primeiro li­vro, Inventário do irremediável. Em 1969, vai para o Rio se hospedar na casa da amiga Maria Helena Cardoso e tem muito contato com a cultura hippie. Recebe, então, a notícia de que seu 1í\to ganhara o Prémio Fernando Chinaglia e mil cruzeiros, mas que o autor teria que arcar com a edição. O livro é publicado em 1970 pela Editora Movimento. Enquanto isso, Caio es­creve para o Correio do Povo, O Estado de São Paulo, O Jornal e no Suplemento Literário de Minas Gerais. Dois contos seus saem na coletânea Roda de fogo, uma antologia de contistas gaúchos, ao lado de, dentre outros, Moacyr Scliar. Novamente morando em Porto Alegre, par­ticipa como ator do grupo de teatro Província, do amigo Luiz Arthur Nunes.

Em 1971, o romance Limite branco é lançado pela Editora Expressão e Cultura. Nesse ano muda-se novamente para o Rio de Janeiro, indo morar em uma comunidade hippie. Lá escreve grande parte de seu terceiro livro, O ovo apunhalado, publicado anos depois por não passar pela censura da época. Nessa passagem pelo Rio de Janeiro conhece Henrique e Vera Antoun, de cuja família vira amigo e hóspede. É preso por porte de maconha e volta então pa­ra a casa dos pais em Porto Alegre.

Trabalha todo o ano de 1972 no jornal Zero Hora e continua colaborando com o Su­plemento Literário de Minas Gerais, no qual publica A visita, um dos contos de O ovo apu­nhalado. O livro ganha o prémio do Instituto Nacional do Livro, e Caio manda então a obra para concorrer ao Prémio Nacional de Ficção. Com o dinheiro do primeiro prémio, parte para a Europa, em abril de 1973, tentando achar um lugar onde houvesse menos repressão e mais liberdade. Passa por Madri, Barcelona, Paris e para em Estocolmo, onde encontra a amiga gaúcha Sandra Laporta. Visita rapidamente a Holanda e a Bélgica. Indo sempre atrás do so­nho de virar um grande escritor, completa seus 25 anos morando em Londres, a cidade em que sempre quis estar. Com dificuldade de subsistência no frio britânico, junto com alguns amigos começa a invadir e morar em casas abandonadas, de onde logo eram expulsos.

Em 1974, volta ao Brasil. Seu livro O ovo apunhalado ganha menção honrosa no Prémio Nacional de Ficção. Caio decide cuidar da edição do livro, que é publicado em 1975 numa co-edição do Instituto Estadual do Livro e Globo. O ovo apunhalado sofre cortes da censura, mas tem boa crítica. Caio sai da casa dos pais e vai morar com o Luiz Arthur Nunes, dramaturgo e diretor teatral. Juntos criam o espetáculo Sarau das 9 às 11. Transfere se logo para uma co­munidade no Jardim Botânico, em Porto Alegre, onde reside com dois amigos do tempo de Londres.

Em 1977, é publicado Pedras de Calcutá, com o material produzido na época em que es­tava no exterior e com o que escreveu logo após sua volta ao Brasil. Contos do livro já liariam sido publicados nas antologias Assim escrevem os gaúchos, Teia e Histórias de um novo tem­po. Muda-se novamente para São Paulo em 78 para trabalhar como editor da revista Pop, a convite de Valdir Zwetsch, e começa a escrever Morangos mofados. Trabalha ainda nesse pe­ríodo nas revistas Nova e Leia livros.

Em 1982, Morangos mofados, seu livro de maior sucesso até então, é lançado pela edi­tora Brasiliense. O início do ano seguinte, marca a terceira tentativa de Caio em morar no Rio de Janeiro. A decisão foi motivada pela jovem Ana Cristina Cesar, com quem manteve amiza­de intensa e conturbada até o suicídio dela em outubro do mesmo ano. No final de 83, Caio vai a Porto Alegre lançar Triângulo das águas na Feira do Livro. A obra ganha o prémio Jabuti. Começa também a colaborar com a revista Galiery Around de São Paulo, para a qual envia resenhas, reportagens e assina uma coluna sobre livros. A revista muda o nome para Around e Caio vai novamente para São Paulo trabalhar na redação. O conto “Beatriz, ou o destino desfo­lhou” é publicado na antologia Ritos de passagem, em 1984. Quando o Estadão cria o Cader­no 2,em 1986, Caio é convidado a fazer parte da nova equipe e aceita assumir a editoria de cultura. Em 1987 pede demissão do jornal e passa a trabalhar novamente na revista Around, que já havia mudado novamente o nome (para AZ), mas continua a enviar suas crónicas para o Estadão. Em 1988 faz críticas literárias no programa Leitura livre, da TV Cultura. Nesse ano lança o livro Os dragões não conhecem o paraíso, com o qual ganha seu segundo prémio Jabuti. Em 1990 o romance Onde andará Dulce Veiga? é lançado pela Companhia das Letras.

Caio não gostava de ser visto como um escritor homossexual. Quando assim era rotula­do, dizia: “Se o que eu faço é literatura gay, o que o Veríssimo faz é literatura heterossexual? Literatura é literatura, ponto final.” Neste mesmo ano, Os dragões não conhecem o paraíso é o primeiro de seus livros a ser publicado no exterior. Vai à Inglaterra para o lançamento e es­toura na mídia. Dá entrevistas para a BBC, para a revista Time Out e para o jornal The inde-pendent. Para poder ficar na Europa até o lançamento do livro em francês, Caio lava pratos, trabalha como garçom e faxineiro, como já havia feito em 73. Em março do ano seguinte, vai a Paris para o lançamento da edição francesa. Volta ao Brasil em julho e fica em São Paulo tra­balhando na revista Qualis, onde permanece apenas três meses. No começo do ano de 1992 é convidado para fazer crítica literária na revista Playboy e começa a trabalhar na reedição de Limite branco. Em novembro ganha uma bolsa da Maison des Écrivains Étrangers para pas­sar três meses em Saint Nazaire. Nesse tempo, tem que escrever um conto e ceder os direitos autorais à editora Arcane 17.

Em 1993, a novela O leopardo dos mares sai em edição bilíngue pela Arcane. Em mea­dos de 93 volta à Europa para lançar as edições italiana e francesa de Onde andará Dulce Vei­ga?. Caio visitou, entre 1992 e 1994, a Inglaterra, a Holanda, a França, a Itália, a Alemanha, a Suécia, a Espanha e Portugal, não necessariamente nessa ordem. Participou de leituras e di­vulgou seus livros em Amsterdã, Utrecht e Haia. Esteve no Congresso Internacional de Litera­tura e Homossexualismo em Berlim, em Erlangem; em Milão, para lançar Dov’é Finita Dulce Veiga?, e em Paris para autografar Quest devenue Dulce Veiga?.

Em 1994, Onde andará Dulce Veiga? foi indicado ao prémio Laura Battaglion como melhor romance estrangeiro, ao lado de nomes como Philip Roth. Durante esses anos, Caio deu entrevistas para televisão, revistas e jornais, principalmente da França. Um escritor brasi­leiro que falava do lado obscuro de um povo que ama samba, mar e futebol encantou os fran­ceses e a Europa, fazendo-os imaginar como era o Brasil real. Muitos artigos sobre a obra de Caio Fernando Abreu foram escritos também lá, e sua obra, como no Brasil, vem sendo estu­dada desde então. Em junho desse ano, Caio voltou da Europa com uma mancha que aparece­ra em seu rosto. Estava em São Paulo quando fez o exame: HIV positivo. Após alguns dias in­ternado em São Paulo, Caio volta para Porto Alegre e para a casa da família Abreu no Menino Deus, onde decide passar seus últimos dias, e é recebido de braços abertos pelos pais, então já idosos, e pelos irmãos.

Caio Fernando Abreu assumiu publicamente a doença em crónicas para os jornais O Estado de São Paulo. Transformado em celebridade instantânea pela doença, faz uso da noto­riedade até o fim para denunciar a falta de remédios a preços acessíveis e a forma como eram tratados os pacientes com HIV. Tornou-se porta-voz dos soropositivos que, além de não terem tratamento médico adequado, eram tratados com preconceito. Como Caio nunca juntou di­nheiro durante sua vida, foi ajudado por amigos. Alguns contribuíam com remédios, como Marcos Breda e Graça Medeiros, que até o fim esteve em contato com hospitais do mundo in­teiro e médicos que tentavam descobrir uma forma de amenizar a doença. Outros amigos de São Paulo juntaram dinheiro para dar-lhe um laptop, sonho antigo do escritor.

Em outubro de 1994, o Brasil era o país-tema da Feira Internacional do Livro de Frank­furt, na Alemanha, e Caio foi um dos convidados. Em sua última passagem pela Europa, parti­cipou de debates ao lado de Chico Buarque de Hollanda, dentre outros. Quando voltou da Eu­ropa, no final de 94, passou em São Paulo para participar de uma festa em sua homenagem organizada por amigos. Despedia-se então da cidade que amou e odiou com a mesma intensi­dade e na qual passou a maior parte de sua vida: só voltaria a São Paulo rapidamente para lançar seu último livro. Em Porto Alegre, doente, Caio Fernando Abreu aprendeu a amar a vida como nunca, como anunciou em entrevistas. Caio e o pai, Zaél, cuidaram juntos de um jardim, encerrando assim os desentendimentos do passado e iniciando uma nova etapa, de compreensão e apoio. Nesse período foi o tradutor de Assim vivemos agora, de Susan Sontag e A arte da guerra, de Sun Tzu, com Miriam Paglia. Mudou também o nome de seu primeiro livro na reedição: Inventário do irremediável passou a chamar-se Inventário do Ir­remediável.

Caio voltou a Porto Alegre para cuidar da vida e da obra com igual fervor, pois não que­ria que, postumamente, remexessem em suas gavetas e publicassem o que não deviam. Em 1995 Ovelhas negras é publicado pela editora Sulina. O livro é uma reunião de contos rejeita­dos pelo autor em um primeiro momento. Caio analisou cada um, reescreveu alguns e lançou esse que seria seu último livro: cheio de ovelhas negras, como ele foi da família e de grande parte do mundo, que não conseguiu compreendê-lo. O livro lhe rendeu seu terceiro prémio Jabuti. O conto “Linda, uma história horrível” é incluído no The penguin book of internatio­nal gay writing, organizado por David Leavitt, e Molto lontano de Marienbad é lançado na Itália, pela editora Zanzibar. Em outubro é patrono da 41a Feira do Livro de Porto Alegre. No final do ano, José Márcio Penido, então editor do Globo Repórter, fez um especial sobre Aids e o entrevistou. Meses antes de morrer, Caio participa da reportagem e diz “Adoro estar vivo, gosto de viver”, e encerra a entrevista decretando: “Agora estou muito ocupado, não tenho tempo para morrer.” Caio Fernando Loureiro de Abreu faleceu em 25 de fevereiro de 1996, aos 47 anos, no Hospital Moinhos de vento, em Porto Alegre, vítima de uma pneumonia. Dei­xou para os sobrinhos, numa carta-testamento, o computador, a impressora, o aparelho de som, alguns CDs e sua coleção de frangas de argila e louça, os bens que acumulou durante sua vida.

Em certo sentido, é o signo da margem o que marca e identifica a literatura de Caio Fernando Abreu. Daí a pensar em inversão, é um pulo. Desse modo, termino fazendo o que protocolar e tradicionalmente se faz no começo, subvertendo a ordem, invertendo a sequência sem deixar perder-se o sentido. Assim é que agradeço a presença de todos que aqui estão: fa­miliares, amigos, confrades, confreiras e demais convidados. Outros agradecimentos, em nada e por nada protocolares, vão para Cláudia Gomes Pereira, quem me saudou e a quem nos la­ços da amizade aprendi a admirar e respeitar; para Águeda Santos, presidente da Academia Marianense infanto-juvenil de Letras, aluna matriculada em uma das disciplinas que leciono neste semestre, aqui mesmo no ICHS; para Hebe Rola, Promotora de eventos culturais da ALB-Mariana, que já foi colega de departamento e hoje é exemplo; para Gabriel Bicalho, se­cretário geral da ALB-Mariana, a quem também admiro; para José Sebastião Ferreira, vice-presidente da ALB-Mariana, um sujeito que com que simplicidade me conduziu até aqui, cuja poesia é um exercício de mineiridade; para José Benedito Donadon Leal, presidente executivo da ALB-Mariana, que também já foi colega de departamento, que continua amigo, com quem divido angústias, alegrias, sonhos e delírios e para Andréia Aparecida Silva Donadon Leal, presidente fundadora da ALB-Mariana, ex-aluna, amiga que me recebe em sua casa e que ago­ra me recebe aqui, a quem admiro por demais e a quem devo momentos de inspiração, ainda que ela não saiba. Muito obrigado!

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Sensatez

Acabo de ler o sensato texto (abaixo) na página da Revista Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/precisamos-falar-sobre-a-vaidade-na-vida-academica). Deixando de lado as picuinhas que costumam pulular na disputa pela “audiência” inteligente na/da terra brasilis – sobretudo o que se refere a “revistas” informativas -, penso que a sensatez de quem escreveu o texto é inquestionável. Bem… Nem tanto! A exceção, para o meu gosto, está nos dois últimos parágrafos que, em dias de mais ânimo e em condições favoráveis de temperatura e pressão, eu aceitaria comentar e debater, mas… De qualquer maneira, não vejo porque não usar um chavão: assinaria embaixo!

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Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica

Combater o mito da genialidade, a perversidade dos pequenos poderes e os “donos de Foucault” é fundamental para termos uma universidade melhor
por Rosana Pinheiro-Machadopublicado 24/02/2016 03h37, última modificação 24/02/2016 12h17

A vaidade intelectual marca a vida acadêmica. Por trás do ego inflado, há uma máquina nefasta, marcada por brigas de núcleos, seitas, grosserias, humilhações, assédios, concursos e seleções fraudulentas. Mas em que medida nós mesmos não estamos perpetuando essemodus operandi para sobreviver no sistema? Poderíamos começar esse exercício auto reflexivo nos perguntando: estamos dividindo nossos colegas entre os “fracos” (ou os medíocres) e os “fodas” (“o cara é bom”).

As fronteiras entre fracos e ‘fodas’ começam nas bolsas de iniciação científica da graduação. No novo status de bolsista, o aluno começa a mudar a sua linguagem. Sem discernimento, brigas de orientadores são reproduzidas. Há brigas de todos os tipos: pessoais (aquele casal que se pegava nos anos 1970 e até hoje briga nos corredores), teóricas (marxistas para cá; weberianos para lá) e disciplinares (antropólogos que acham sociólogos rasos generalistas, na mesma proporção em que sociólogos acham antropólogos bichos estranhos que falam de si mesmos).

A entrada no mestrado, no doutorado e a volta do doutorado sanduíches vão demarcando novos status, o que se alia a uma fase da vida em que mudar o mundo já não é tão importante quanto publicar um artigo em revista qualis A1 (que quase ninguém vai ler).

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dizíamos que quando alguém entrava no mestrado, trocava a mochila por pasta de couro. A linguagem, a vestimenta e o ethosmudam gradualmente. E essa mudança pode ser positiva, desde que acompanhada por maior crítica ao sistema e maior autocrítica – e não o contrário.

A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio.

O primeiro cenário engloba vários tipos de pessoas (1) aqueles que migraram para uma área completamente diferente na pós-graduação; (2) os que retornaram à academia depois de um longo tempo; (3) os alunos de origem menos privilegiada; (4) ou que têm a autoestima baixa ou são tímidos. Há uma grande chance destas pessoas serem trituradas por não dominarem o ethos local e tachadas de “fracos”.

Os seminários e as exposições orais são marcados pela performance: coloca-se a mão no queixo, descabela-se um pouco, olha-se para cima, faz-se um silêncio charmoso acompanhado por um impactante “ãaaahhh”, que geralmente termina com um “enfim” (que não era, de fato, um “enfim”). Muitos alunos se sentem oprimidos nesse contexto de pouca objetividade da sala de aula. Eles acreditam na genialidade daqueles alunos que dominaram a técnica da exposição de conceitos.

Hoje, como professora, tenho preocupações mais sérias como estes alunos que acreditam que os colegas são brilhantes. Muitos deles desenvolvem depressão, acreditam em sua inferioridade, abandonam o curso e não é raro a tentativa de suicídio como resultado de um ego anulado e destruído em um ambiente de pressão, que deveria ser construtivo e não destrutivo.

Mas o opressor, o “foda”, também sofre. Todo aquele que se acha “bom” sabe que, bem lá no fundo, não é bem assim. Isso pode ser igualmente destrutivo. É comum que uma pessoa que sustentou seu personagem por muitos anos, chegue na hora de escrever e bloqueie.

Imagine a pressão de alguém que acreditou a vida toda que era foda e agora se encontra frente a frente com seu maior inimigo: a folha em branco do Word. É “a hora do vâmo vê”. O aluno não consegue escrever, entra em depressão, o que pode resultar no abandono da tese. Esse aluno também é vítima de um sistema que reproduziu sem saber; é vítima de seu próprio personagem que lhe impõe uma pressão interna brutal.

No fim das contas, não é raro que o “fraco” seja o cavalinho que saiu atrasado e faça seu trabalho com modéstia e sucesso, ao passo que o “foda” não termine o trabalho. Ademais, se lermos o TCC, dissertação ou tese do “fraco” e do “foda”, chegaremos à conclusão de que eles são muito parecidos.

A gradação entre alunos é muito menor do que se imagina. Gênios são raros. Enroladores se multiplicam. Soar inteligente é fácil (é apenas uma técnica e não uma capacidade inata), difícil é ter algo objetivo e relevante socialmente a dizer.

Ser simples e objetivo nem sempre é fácil em uma tradição “inspirada” (para não dizer colonizada) na erudição francesa que, na conjuntura da França, faz todo o sentido, mas não necessariamente no Brasil, onde somos um país composto majoritariamente por pessoas despossuídas de capitais diversos.

É preciso barrar imediatamente este sistema. A função da universidade não é anular egos, mas construí-los. Se não dermos um basta a esse modelo a continuidade desta carreira só piora. Criam-se anti-professores que humilham alunos em sala de aula, reunião de pesquisa e bancas. Anti-professores coagem para serem citados e abusam moral (e até sexualmente) de seus subalternos.

Anti-professores não estimulam o pensamento criativo: por que não Marx e Weber? Anti-professores acreditam em lattes e têm prazer com a possibilidade de dar um parecer anônimo, onde a covardia pode rolar às soltas.

 O dono do Foucault

Uma vez, na graduação, aos 19 anos, eu passei dias lendo um texto de Foucault e me arrisquei a fazer comparações. Um professor, que era o dono do Foucault, me disse: “não é assim para citar Foucault”.

Sua atitude antipedagógica, anti-autônoma e anti-criativa, me fez deixar esse autor de lado por muitos anos até o dia em que eu tive que assumir a lecture “Foucault” em meu atual emprego. Corrigindo um ensaio, eu quase disse a um aluno, que fazia um uso superficial do conceito de discurso, “não é bem assim…”.

Seria automático reproduzir os mecanismos que me podaram. É a vingança do oprimido. A única forma de cortamos isso é por meio da autocrítica constante. É preciso apontar superficialidade, mas isso deve ser um convite ao aprofundamento. Esquece-se facilmente que, em uma universidade, o compromisso primordial do professor é pedagógico com seus alunos, e não narcisista consigo mesmo.

Quais os valores que imperam na academia? Precisamos menos de enrolação, frases de efeitos, jogo de palavras, textos longos e desconexos, frases imensas, “donos de Foucault”. Se quisermos que o conhecimento seja um caminho à autonomia, precisamos de mais liberdade, criatividade, objetividade, simplicidade, solidariedade e humildade.

O dia em que eu entendi que a vida acadêmica é composta por trabalho duro e não genialidade, eu tirei um peso imenso de mim. Aprendi a me levar menos a sério. Meus artigos rejeitados e concursos que fiquei entre as últimas colocações não me doem nem um pouquinho. Quando o valor que impera é a genialidade, cria-se uma “ilusão autobiográfica” linear e coerente, em que o fracasso é colocado embaixo do tapete. É preciso desconstruir o tabu que existe em torno da rejeição.

Como professora, posso afirmar que o número de alunos que choraram em meu escritório é maior do que os que se dizem felizes. A vida acadêmica não precisa ser essa máquina trituradora de pressões múltiplas. Ela pode ser simples, mas isso só acontece quando abandonamos o mito da genialidade, cortamos as seitas acadêmicas e construímos alianças colaborativas.

Nós mesmos criamos a nossa trajetória. Em um mundo em que invejas andam às soltas em um sistema de aparências, é preciso acreditar na honestidade e na seriedade que reside em nossas pesquisas.

 Transformação

Tudo depende em quem queremos nos espelhar. A perversidade dos pequenos poderes é apenas uma parte da história. Minha própria trajetória como aluna foi marcada por orientadoras e orientadores generosos que me deram liberdade única e nunca me pediram nada em troca.

Assim como conheci muitos colegas que se tornaram pessoas amargas (e eternamente em busca da fama entre meia dúzia), também tive muitos colegas que hoje possuem uma atitude generosa, engajada e encorajadora em relação aos seus alunos.

Vaidade pessoal, casos de fraude em concursos e seleções de mestrado e doutorado são apenas uma parte da história da academia brasileira. Tem outra parte que versa sobre criatividade e liberdade que nenhum outro lugar do mundo tem igual. E essa criatividade, somada à colaboração, que precisa ser explorada, e não podada.

Hoje, o Brasil tem um dos cenários mais animadores do mundo. Há uma nova geração de cotistas ou bolsistas Prouni e Fies, que veem a universidade com olhos críticos, que desafiam a supremacia das camadas médias brancas que se perpetuavam nas universidades e desconstroem os paradigmas da meritocracia.

Soma-se a isso o frescor político dos corredores das universidades no pós-junho e o movimento feminista que só cresce. Uma geração questionadora da autoridade, cansada dos velhos paradigmas. É para esta geração que eu deixo um apelo: não troquem o sonho de mudar o mundo pela pasta de couro em cima do muro.

registrado em: Rosana Pinheiro-Machado

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Surpresa

Descobri Leandro Karnal por conta de um amigo virtual de Campo Grande-MS que me mandou um pequeno vídeo desse professor de História que me deixou estarrecidamente feliz. A partir daí, comecei a, de vez em quando, escutar suas palestras e vídeos disponíveis pela “rede”. Neste que aqui partilho um, em especial, por conta da passagem que se dá por volta dos 30 minutos do vídeo. Vale a pena ver o vídeo todo. Como Mário Sérgio Cortella da PUC-SP ele cativa a audiência com inteligência, humor, classe e muita sofisticação expressiva. Vale e pena.

Três pontos

São apenas três perguntas e três respostas. Sua contundência (como parece ser a nova “moda” em certos círculos) é incontornável! João Adolfo Hansen (JH), no tópico de que trata a entrevista feita com ele pela equipe da Revista de História (RH) é implacável e diz tudo o que eu penso. Mas sou apenas mais um professor numa “universidade” perdida por aí, entre montanhas e matas. Por conta do entrevista perdi um concurso para professor. Bem, não exatamente por conta dele, mas por não ter citado seu nome… Idiossincrasias de bancas que se auto denominam “isentas”. A entrevista, na íntegra, pode ser lida no seguinte endereço: http://rhbn.com.br/secao/entrevista/joao-adolfo-hansen

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RH – Por que a dificuldade em apresentá-lo como autor hoje?

JH – Bom, hoje a cultura é pop, marcada pela indústria de massa. Os jovens, mesmo na universidade, não têm mais essa informação histórica nem esse desempenho da linguagem. Os padrões da língua são extremamente mais complexos do que os atuais. Hoje, os padrões são sintéticos e reduzidos tanto na fala quanto na escrita. Na USP, 15 alunos do 4º ano da graduação vieram me procurar dizendo que não entendiam o que o Gregório de Matos Guerra dizia. Eu respondi: sinto muito, mas isso não é problema do poeta. Se vocês não entendem Gregório, também não entendem Shakespeare, não entendem Cervantes, enfim, não vão entender nada contemporâneo dele. O problema é de vocês, que não entendem a linguagem figurada, a metáfora.

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RH – Por que a universidade não consegue reverter isso?

JH – Na USP, na área do francês, não existem no programa os autores do século XVI e do XVII, apenas XIX e XX. Na área do inglês, não se estuda Shakespeare. Na literatura brasileira, os estudos de colônia foram transformados em disciplina optativa do último ano. Há um consenso em toda universidade de que esses assuntos devem ser excluídos da graduação. Caso alguém queira estudá-los, talvez eles sejam objeto de especialização numa pós-graduação. Em 90% dos casos, a concentração é no século XX. Até o XIX está virando coisa de especialista. A academia se redefiniu em função desses programas de financiamento, dessas agências, e em função de trabalhar com coisas que tenham qualquer apelo comercial, no caso da literatura.

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RH – Como isso acontece, na prática?

JH – Eu te dou um exemplo. Em 1993, o João Alexandre Barbosa, diretor da editora da USP, foi procurado por um professor de História da USP que tinha uma cópia em latim do manuscrito da Chave dos profetas, e queria estudar. E, para isso, precisava traduzir. Fizemos um projeto que envolvia várias universidades e enviamos para a Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] para conseguir financiamento. O parecer da Fapesp foi negativo, dizendo que Vieira não tinha interesse cultural. Há vinte anos, um parecer como este já evidenciava uma coisa que viraria praxe na universidade. Um aluno que estude latim ou grego na USP vai ter que ler Homero, Píndaro, Sófocles, Virgílio, Cícero. Mas, no caso da literatura brasileira, o que importa é uma ideologia nacionalista das letras.

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Tese(s)

UMA TESE É UMA TESE

Mário Prata

Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.

As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre – sempre – uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspeta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?

Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha.

Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se auto decreta. O mundo para, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientadores (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser – tem de ser! – daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonnne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.

Em tese ( e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.

Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa em nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?

Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?

E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza.

Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou: – Não vou mais estudar! Não vou mais estudar na escola. Os dois pararam – momentaneamente – de pensar nas teses.- O quê? Pirou? – Quero estudar mais não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês?

Pensando bem, até que não é uma má ideia! Quando é que alguém vai ter a prática ideia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história? Acho que seria um tesão.

(Fonte: PRATA, Mário. Minhas tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 52-54)

Mário Prata in Cem Melhores Crônicas
originalmente publicada em 7/1998 – O Estado de S. Paulo