Do possível desejo de entender…

O texto de hoje é parte da conferência que fiz no lugar em que trabalho. Faz parte do livro que vai ser lançado em breve – ele está pronto, em Coimbra, aguardando a conclusão de pequenas tramitações burocrático-jurídicas. Ao fim da leitura, de intervenções minhas à leitura e de outros comentários, alguém levanta o braço e pergunta que contribuição eu suponho ser possível com a investigação a que procedi e que resultou no livro de onde tiro o trecho aqui apresentado. Eu respondi, à altura do “tom” – um tanto “peculiar”, para ser educado – da pergunta. Reservo-me o direito de não repetir aqui a resposta. Quem chegar ao fim deste texto poderá fazê-lo a seu bel prazer…

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Para a proposta de leitura que aqui apresento, não transcrevo a carta que me interessa na íntegra, porque longa. No entanto, para que a análise não fique desarticulada e pareça solta ou, mesmo, sem sentido, transcrevo a passagem em que se encontram os elementos suficientes para sustentação de minha leitura, apesar de também não ser assim tão curta:

“Uma nota curiosa desta manhã: um casal de passarinhos do tamanho de cotovias tem vindo a acompanhar o vapor, em pleno alto-mar, tão longe de terra; a esta hora não sei o que será deles, ou vão pisados no paquete, ou tombaram esfalfados sobre a água. Pobres Almas de Alice e Alberto! Sabes o que esta manhã vi, também, curiosíssimo? Uma baleia, mas distante infelizmente, notando-se apenas a água que o monstro espirrava para o Ar. Não me borrifou, entretanto. Também te quero dizer que o Britannia nasceu em 1873, tendo pois a tua idade: sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. Alberto, são 2 1/2 da tarde: vou à tolda saber notícias da nossa marcha e, pela noite, depois do jantar, virei concluir esta folha. Até logo. (CASTILHO, 1982, p. 116)”

Uma pena não ter sido encontrada a carta que possivelmente Alberto de Oliveira teria escrito a António Nobre depois desta, ou mesmo, antes. Caso assim o fosse, poder-se-ia averiguar até que ponto a correspondência entre os afetos que enlaçavam os dois poetas verifica­-se na “correspondência” que mantiveram durante tanto tempo. Sobretudo no que diz respeito às comparações que Nobre faz. A reação de Alberto seria por demais esclarecedora, mas vai ficar sepultada na campa das inferências.

De qualquer maneira, vale a sua abordagem, nos termos em que aqui se coloca. A carta em que se encontra este trecho foi escrita em 24 de outubro de 1890, e foi enviada por António Nobre do navio Britannia, quando a caminho de Paris. Vale lembrar que o estado de espírito do poeta não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido” que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação não apenas “saborosa”, mas reveladora.

O adjetivo destacado, remete-me a Barthes em seu livro O prazer do texto. Como espaço de exposição da intimidade – ainda que este não seja, conscientemente, o objetivo de quem escreve – uma carta é sempre circunscrição de um perímetro desenhado pelo desejo, seja ele de que natureza for. De um modo ou de outro, a carta enseja uma experiência que tem “sabor”, porque revela/constrói um “saber”, simultaneamente, sobre quem escreve e sobre quem lê. Ambos degustam este processo e seu resultado, seus efeitos. Neste jogo de sedução mútua, via de mão dupla sustentada pelo texto, há o que Barthes chama de jouissance. Cito abaixo o trecho dele que interessa:

(Prazer/Fruição: terminologicamente isto ainda vacila, tropeço, confundo-me. De toda maneira, haverá sempre uma margem de indecisão; a distinção não será origem de classificações seguras, o paradigma rangerá, o sentido será precário, revogável, reversível, o discurso será incompleto.)

“Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque foram escritas no prazer (este prazer não está em contradição com as queixas do escritor). Mas e o contrário? Escrever no prazer me assegura a mim, escritor o prazer de meu leitor? De modo algum. Esse leitor, é mister que eu o procure (que eu o drague), sem saber onde ele está. Um espaço de fruição fica então criado. Não é a pessoa do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo. (BARTHES, 1973, p. 7-8)”

A passagem de O prazer do texto encerra o sentido que pretendo perceber e sustentar, na leitura da passagem da carta de António Nobre, referida acima. Nela, a decisão do tradutor de usar “fruição” no lugar de “gozo” faz com que eu, de certa forma, pense na experiência pela qual passou António Nobre enquanto escrevia esta carta. Percebe-se, claramente, a meu ver, o seu “prazer” ao falar do “amigo mais querido”. Por outro lado, fica estabelecido um elo de significação entre os elementos utilizados pelo poeta na construção de sua comparação, sobretudo o morango, como há de se ver mais abaixo. De qualquer modo, as ideias de Barthes neste trecho sustentam a minha ideia de que a leitura das cartas a posteriori cria o espaço a que o autor francês se refere. O espaço da fruição/gozo que a leitura proporciona e que pode ser intensificado pelas associações livres que a partir do texto se constroem. Estas influenciam diretamente na mesma experiência de fruição/gozo da leitura, em continuum.

A passagem da carta aqui considerada está, de fato, diretamente ligada aos indícios da existência das cartas de Alberto de Oliveira, em resposta às que recebeu de António Nobre. Mais um deles… Para além disso, muito além aliás, está uma série de três pares comparativos feitas pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. Deste trecho, já destaco a seguinte passagem:

“… sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. ”(NOBRE apud CASTILHO, 1982, p. 116)”

O primeiro par, menos “saboroso”, aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

De mais a mais, considere-se o que Guilherme de Castilho diz na “Introdução” ao volume que encerra a correspondência do poeta. Este “detalhe” aprofunda a hipótese defendida pelo editor da correspondência quando afirma que a leitura das cartas não prescinde da leitura do Só, e vice-versa. Isto posto, a abordagem dos pares comparativos, como é feita aqui, segue o rastro do que propõe o editor das cartas. Por tabela, a fortuna crítica do poeta se enriquece e a contextualização, simultânea, de sua vida e de sua obra recebem o mesmo influxo de compreensão e alargamento crítico. Ao fim e ao cabo, o caráter homoafetivo da relação entre os dois poetas fica, ainda uma vez, confirmado e um tanto mais explícito.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem confirmar a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação entre os dois poetas.

Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para o simbolismo de dicotomias que as duas cores ensejam e sustentam é um pulo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modo de operação do inconsciente.

A “insinuação” a que me refiro acima não tem aqui o papel de determinar o direcionamento dos sentidos que circunscrevo aos pares opositivos que examino. Estou longe, muito longe, de querer afirmar que as práticas de sodomia e/ou pederastia foram um dos aspectos da relação entre António Nobre e Alberto de Oliveira – que seria passível de punição, como bem lembra Ana Paula Arnaut num seu artigo. Na verdade, a sustentar a hipótese que venho desenvolvendo, cabe muito mais argumentar a favor da supremacia do desejo. Assim, os pares comparativos funcionariam como uma espécie de jogo. Este, por sua vez, teria alguma semelhança ao que é pensado por Freud a este respeito.

Seguindo em frente, a segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ressalte-se que a referência utilizada por Nobre – Alberto/Igreja de Santo Ildefonso e Britannia/Liverpool – também pode levar a outro nível de comparação, que é o das circunstâncias e da conjuntura da Europa à época. Por metonímia, é plausível pensar na comparação entre o desenvolvimento da Inglaterra e certo atraso industrial português.

Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Ao final, o terceiro par comparativo, o mais “saboroso”, eu diria. Admitindo, uma vez mais, a coincidência, António Nobre nega consentimento à identificação completa entre o navio e o seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila, em Portugal, é usado para identificar o pênis, sobretudo coloquialmente. No Brasil, mais especificamente no Rio Grande do sul, significa, também, dinheiro. O primeiro significado coloquial se aplica a “vergalho”. O diminutivo do primeiro, que pode ser referência à dimensão do órgão masculino, aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo.

A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio, nas comparações feitas por António Nobre. O “sabor” da comparação – e aqui o sentido do substantivo se sustenta no pensamento barthesiano – não deixa de ser sugestivo, no uso de “morango”, funcionando como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira. Estes detalhes ratificam, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Na sequência de comparações feitas por António Nobre, se Freud não estava errado, percebem-se indícios do que este chama de compulsão à repetição. O poeta sempre volta ao navio como elemento comparativo em relação ao corpo de Alberto de Oliveira. Este aparece, na repetição, como elemento de desejo do sujeito nostálgico que é António Nobre a bordo do navio, a caminho de Paris, sozinho. Ao mesmo tempo em que constrói as comparações, forçosamente, Nobre recorda a sua experiência afetiva com Alberto. Isso funciona como combustível para o processo desenvolvido ao longo da carta.

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Outra carta

Agora, a carta resposta de Aberto de Oliveira. Sem a leitura da totalidade das cartas de António Nobre, fica um tanto difícil perceber, de fato, a diferença de tom a que me referi ontem. Mas vale a intenção…

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António Nobre

                                                                                              Matosinhos

                                                                                              [?] Julho 1893

 À sua carta devo responder que a correspondência uma vez expedida pertence ao seu destinatário e não a quem a escreveu.

A sua amizade morreu, é certo; mas eu desejo trata-la como os grandes cadáveres e conservar dela todas as relíquias e lembranças que me foram caras. Quero dizer com isto que me julgo com direito a ser seu amigo até quando eu quiser, embora haja resolvido nunca mais na minha vida atas as minhas relações consigo (e como bem sabe, as minhas resoluções neste assunto nunca seguiram pelas suas).

Guardo o seu diário pelo mesmo motivo por que conservo o seu retrato nas minhas paredes, e conservarei sempre certa dedicatória no meu livro. Se tem empenho em suicidar-se na parte de sua vida em que me conheceu, eu por mim tenho o empenho contrário. Não é que tencione tão cedo ler as suas cartas antigas; mas a vida tem fases muito diversas e pode vir ainda a trazer-me doces impressões uma leitura que hoje só me entristeceria.

Do meu Diário faça o que o seu sentimento lhe mandar. Não posso, pelas razões que acabo de expor, aceder ao seu pedido. Acerca dos restantes pontos da sua carta, pode estar certo de que não serão esquecidas as suas recomendações. Aproveito a ocasião para lhe fazer chegar às mãos um livro que o Manuel Gaio lhe envia por meu intermédio.

                                                                                                                       Alberto

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Cartas

António e Alberto se conheceram em Coimbra, no finalzinho do século 19. Eram ambos nascidos no Porto, mas foram se conhecer na cidade sede da universidade mais antiga de Portugal. Mero acaso (?). Estudaram Direito. Alberto acabou por se formar em Coimbra António, foi duas vezes reprovado e, desgostoso, mudou-se para Paris onde veio a concluir seu curso. Neste período de separação, com direito a um encontro ou dois na cidade luz, António e Alberto trocaram cartas e bilhetes postais. Estes últimos constituíram o que chamaram de “Diário”. Para além de impressões e poemas e notícias, partilharam afetos postais com intensidade O mesmo se pode dizer das cartas que escreveram um o outro. Bem… Cabe uma explicação. Alberto escreveu, sim, para António. No entanto de suas cartas, restam quatro. Três que tratam de assuntos diversos e não foram endereçadas exatamente a António. E uma, a “joia do Nilo” – no contexto da correspondência, bem entendido – que faz par a outra, escrita por António e a que chamei de as cartas do rompimento. Não fui original, tenho certeza, já não alimento esse tipo de vaidade… Voltando à vaca fria…  A carta que António escreve a Alberto cobrando deste a devolução de seus papeis tem tom radicalmente oposto às demais endereçadas a seu “amigo mais querido”, o “Betinho”. Já a de Alberto para António, parece manter o senso de afeto e amizade profunda que uniu esses dois homens numa relação que até hoje causa estranheza… inexplicavelmente. Alberto, antes e morrer, pediu que seus papeis fossem queimados. Até prova em contrário – passei seis meses tentando encontrar uma pista que fosse para satisfação de minha ilusão de encontrar algumas dessas cartas perdidas num recanto qualquer da península – foram mesmo queimadas, mas restou a “do rompimento”. Um único cartão postal também escapou do “incêndio” e foi analisado por Mário Cláudio num ensaio publicado pela Revista Colóquio Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma joia rara! Pois bem. Hoje trago aqui a carta de António. Amanhã, se minha preguiça deixar, trago a de Alberto. Depois de amanhã, seguindo a mesma toada, talvez teça mais alguns comentários.

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Terça-feira                                                                 26— Rua de Carreiros

25-8-1893                                                                   S. João da Foz

Meu caro Sr. Alberto de Oliveira:

Quando eu, há dias, lhe enviei polidamente uma se­rena carta, convidando-o a restituir-me o meu «Diário», cri fazê-lo ao grande amigo do meu passado, não ao delegado da 2.a vara. Este senhor, porém, foi quem me respondeu e de código na mão: «a correspondência, uma vez expedida, pertence ao destinatário.» Ora eu já sabia deste pormenor legislativo. Há, contudo, nos usos sociais certas fórmulas de cortesia que em algumas circuns­tâncias se aplicam, tal a correspondência que se troca entre homem e menina. Ora o Sr. Alberto de Oliveira foi a menina de nossa correspondência. Confiado na dignidade de cada qual, enceta-se uma palestra postal que, às vezes, pelos mais inexplicados [?] da sorte acaba, um dia, e, nesse dia, se troca. Que seria ao con­trário da reputação dos amorosos correspondentes? O nosso «Diário» está nesses casos. Seria a minha morte moral o seu conhecimento, na publicidade: posso eu ir-me breve, podemos ambos irmo-nos, moços, e assim ficaria nossa intimidade à mercê do primeiro curioso que, ao ver essa diária correspondência europeia dum homem conhecido, a tornaria pública, a princípio no círculo das suas relações e, mais tarde, ele ou outro, iria dá-la a Guttenberg. Não quero tal. Quero antes a incineração. Quando, há alguns meses, em Lisboa, moti­vos seus me levaram a cortar com o senhor as minhas melhores relações, não eram aqueles os meus desígnios: era ainda muito seu amigo e sabia-o meu a valer, para lhe dar um golpe desses que a mim próprio me feriria. Pensava que havia morte e temia os seus remorsos. — «Não era urgente pedi-lo, um dia será.» Quando se extinguem minhas relações com amigos queridos, respeito-os como aos mortos. Nem uma palavra de ultraje, quanto mais uma acção! Vi, porém, que da sua parte, contra todas as suas tradicionais regras de fidelidade e leal­dade e bondade, se portou para comigo de maneira tal, por palavras que surpreendi e factos que vi com estes olhos tristes (que ainda o ficaram mais) que para a qualificar teria de quebrar a linha perdendo a minha serenidade. Começou naturalmente a extinguir-se a mi­nha estima pelo senhor e a amarelecer essa flor «Não sei quê» que em si brotara e me dominava — a nobreza da sua alma: aí tem a acusação que eu lhe faço, dele­gado de outra vara, — e diga-me agora: não é humano, justo (justo delegado) que eu reclame um objecto que é uma honra possuir, não pelo espírito que o ditou, mas pela alma rude de carpinteiro (mas amiga) por essas três mil páginas esborrachadas a tinta? Os grandes cadáveres pertencem ao Pantheon, não às gavetas da sua secretária. Há dias enviei a sua casa a minha «bonne» para receber o meu «Diário» e entregar-lhe um pacote das suas cartas que tenho em Portugal. Esse pacote foi-me devolvido e esse ultraje fez-mo o senhor a mim, fazendo-se representar pela sua criada de meio. Assim fez a [?], Ontem procurava encontrá-lo no Porto para lhe pedir uma explicação deste facto. Não o encon­trei. Devolvo-lhe, pois, dentro desta a eloquente carta que me escreveu, como um desforço à sua afronta. Quanto ao cumprimento da minha vontade, adio este incidente até ao meu regresso de Paris: no campo em que me coloco, necessito já agora da sua correspon­dência. Eu, abaixo assinado, quero o meu «Diário». E isto basta.

Antônio Nobre

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Memórias e desencontros

A bem da verdade, devo dizer que essa história começou bem antes de sua materialização. Já tinha ouvido falar de António Nobre. Foi em 1996, quando me inscrevi para o concurso de provas e títulos para o provimento de uma vaga de professor (então) adjunto da universidade federal de outro planeta, popularmente conhecida como UFOP. Para a prova didática, caiu-me um ponto (um dos híbridos que compunham o programa) sobre ele: Dois aspectos da poética da dor: Alphonsus de Guimarães e António Nobre. Do primeiro, sabia que era simbolista, que havia vivido em Mariana e que era autor de um soneto muito lido no primeiro e segundo graus: “A catedral”. Do segundo, sabia que era poeta português, e mais nada! Foi um parto. Mas a presidente da banca confidenciou-me que me deu dez na prova didática – junto com os outros quatro membros – porque, disse-me ela, que eu dei provas de que sabia me sair muito bem de situações difíceis. Tomei isso como elogio. Depois veio o período de aulas de Literatura Portuguesa até que me encafifei com um artigo publicado lá longe, nos rincões peninsulares que falava da amizade de António Nobre e Alberto de Oliveira. Atenção, este último não é o mesmo de Saquarema, contemporâneo de Olavo Bilac e Raimundo Correia. É outro, bem outro… Mesmo tendo lido que suas cartas tinham sido queimadas – as de Alberto para António – encasquetei e me mandei para Coimbra onde fiquei seis meses. Lá chegando constatei que havia me equivocado na leitura do livro em que se publicaram todas as cartas de António Nobre. Mas a gente sabe que tudo que se afirma sobre qualquer coisa é absolutamente relativo… Contradição em termos?

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Isso é coisa bem parecida com a minha escolha para Leitor de Português na Universidade de Zagreb, na Croácia. Já havia estado naquele país em 2004, perto do final de um périplo marítimo de 12 dias, feito com um casal de amigos. O penúltimo porto, Dubrovnik, deslumbrante cidade, ficou indelevelmente marcado em minha memória afetiva. Antes disso, em 1998, quando estive em Portugal pela primeira vez, especificamente em Lisboa – quando aproveitei as delícias de passear pelas ruas e avenidas da “cidade da EXPO” que lá se construiu – ao visitar o pavilhão da Croácia, chorei como criança, chamando a atenção de duas freiras que, muito comovidas, me acompanhavam nas lágrimas. Estar no meio da sala de projeção instalada no pavilhão, vendo um filme em tela de 260 graus na qual se exibiam em sequência as imagens dos pescadores croatas no meio de um rio, cantando à capela – naquela língua incompreensível – as melancolias dos homens de pescaria… foi demais. Tenho quase a certeza absoluta que foi por conta disso que fui parar em Zagreb, lá ficando por dois anos e meio a praticar a Língua Portuguesa falada no Brasil, com aqueles estudantes divertidos e ávidos de informação e divertimento.

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Voltando à vaca fria, Alberto e António se escreveram durante um período de mais ou menos três anos. As cartas de António já estão publicadas, até prova em contrário, como já disse. Das de Alberto, encontrei mais três, para além daquelas mencionadas no livro de Guilherme de Castilho, editor responsável pela publicação em volume das cartas de António Nobre (este volume é considerado o mais completo, mas há três cartas analisadas por Vera Vouga, em artigo publicado na Revista Colóquio Letras, que não constam da edição de Guilherme de Castilho). Estas três cartas estão no acervo da Biblioteca Municipal Florbela espanca, em Matosinhos, cidade agradabilíssima, bem vizinha ao Porto. Mais uma vez, até prova em contrário, as cartas de Alberto de Oliveira foram queimadas. Sei não…

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Diário coimbrão 34

O périplo pelas “origens” está chegando à sua conclusão. As origens não são minhas, mas da história de amor entre António Nobre e Alberto de Oliveira. Por que é tão difícil a aceitação desse fato: os dois viveram uma história de amor? A cidade de Leça da Palmeira, onde eu estive hoje pela manhã, é testemunha disso. Não apenas testemunha, mas cúmplice, deu aos dois o nome de uma de suas ruas: Rua dos dois amigos. Em todas as placas, abaixo do nome da rua, segue o nome dos dois: António Nobre e Alberto de Oliveira. Nesta ordem. O mais velho e o mais novo. O sedutor e o seduzido. O mestre/exemplo, o discípulo/seguidor. O espevitado e o tímido. O que morreu cedo e o que morreu mais velho… Os dois… Têm uma rua. Amaram-se, com um afeto de amizade ao qual não se ousava dar nome, mas a cidade reconheceu. E ainda há quem torça o nariz…

Rua dos dois amigos de frenteRua dos dois amigos direitaRua dos dois amigos esquerdaRua dos dois amigos

A matriz da cidade lembra a de Matosinhos. Não tem as capelas com as cenas da Via Crucis por fora, mas está no meio de uma bela esplanada, arborizada e fresca, como o nome de outra ruazinha perdida no centro da cidade mítica… pra mim! Não a fotografei por dentro por puro constrangimento: celebrava-se missa de corpo presente. Muito ouro aqui também, mas só no altar mor…

Rua fresca     Igreja de Leça, antiga Igreja de S. Miguel de Moroça

A antiga casa de veraneio dos dois poetas não existe mais. Segundo informações, hoje está edificada em seu lugar a sede do “Clube Stella Maris” que foi inaugurado a 25 de Novembro de 1961 e  é uma criação do “APOSTOLADO DO MAR” – Obra Internacional Pontifícia da Igreja Católica, com o objetivo de dar assistência social, moral e espiritual aos tripulantes e suas famílias pertencentes às marinhas de comércio e de guerra que demandam o porto de Leixões. Depende hierarquicamente do Bispo da Diocese do Porto e da “Comissão Pontifícia para a Pastoral das Migrações e Turismo” da Santa Sé. Pelas indicações que segui a pé, metro por metro, toda aquela área foi aterrada para a expansão da cidade, plana, aberta, arborizada, e à beira mar. Um convite a todo sonho de fantasia, sonho e paixão…

Busto de Augusto NobreCasarão antigoTravessa dos dois amigosUma casinha antiga

A cidade tem como Corpo Santo, o nome de seu cemitério. É bem próxima de porto de Leixões, um dos mais movimentados em carga da Europa. O maior da “terrinha”. Uma gente simples e, pra variar, majoritariamente mais velha… Há uma travessa com o mesmo nome da rua mítica. Possivelmente, o caminho que levava os dois amigos aos “banhos” e aos passeios de barco, no verão. Casarões antigos e casinhas perdidas no tempo. E, claro, um busto de António Nobre!

Diário Coimbrão 13

E as janelas permaneceram mais um dia cerradas, com raríssimas e honrosíssimas exceções. E o dia, mais uma vez, foi claro, com sol ardente, numa temperatura que rondou os 8 graus Celsius, durante todo o dia, emoldurado por céu azul pálido, quase desmaiado, riscado ali e acolá pela fumaça dos pilotos que estavam a velocidade Mach… Isso na minha imaginação que não se cansa de imaginar o que acontece dentro das casas com janelas fechadas e as ruas vazias, quase desertas, também com sua áreas de exceção. Quando se está longe da própria terra tudo é diferente. Tudo ganha um colorido especial. Mais diferente e mais colorido quanto menor é o tempo de permanência no “estrangeiro”. O elemento surpresa e a imaginação contribuem para isso. Quanto mais tempo se permanece nos lugares em que se percebe o colorido e a diferença, mais reflexiva fica a percepção. Daí as dúvidas acerca de detalhes aparentemente sem importância ou interesse…

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Lembrei-me que logo depois que cheguei, Ana Paula agendou um encontro meu com um escritor do Porto, o Mário Cláudio. Foi ele quem disse, sem meias palavras que é praticamente impossível que eu encontre alguma carta e Alberto de Oliveira para António Nobre. No entanto, foi também ele que me indicou uma senhora chamada Mafalda, casada com um poeta português, o Manuel Alegre, que é parente – sobrinha neta ao que parece – de Alberto de Oliveira. Dr. António Arnaut me deu o endereço dela em Lisboa e eu para ela escrevi, solicitando um encontro. Agora é esperar. Mas falei isso tudo para chegar numas linhas que escrevi no Porto, quando voltava, enquanto esperava a hora de partida do trem, sentado num café, tomando uma cerveja, comendo uma tosta de frango, observando a noite chuvosa do Porto Campanhã (o nome da estação) que tanta surpresa me causou. Ainda não sei se o colocarei na tese que vou escrever ao final do estágio, mas a escrita se deu por esta intenção…

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Da ancestralidade de meu nome, na verdade, sobrenome, um deles, Souza, que aqui em terras do norte da península que encara o “grande lago” – a frateria vai se fazendo, cada vez mais profunda, mais sólida – se escreve com “s” (Sousa), descubro que posso ter um pouco de sangue lusitano nas veias. Ao acaso, numa conversa amena e rápida com Mário Cláudio, escritor mais que bissexto, é que o descubro. Informam-me o escritor teatrólogo, poeta, ensaísta e professor. Repetindo e copiando prática de outro escrevente, o Gonçalo Tavares, sentado num café, às portas da Campanhã, num início de noite chuvoso no/do Porto, preencho linhas a começar este texto que pretende, no mínimo, descrever os caminhos e descaminhos da busca de cartas (a cada passo, pra deixar de dizer inexistentes) escritas por outro poeta da terra, o Alberto de Oliveira. Já vai longe o tempo em que aqui nasceu e viveu este poeta que partilhou amizade com António Nobre e com ele estabeleceu longa e profícua correspondência, de acordo com trechos de cartas do segundo. Este tipo de acaso, parece-me, reforça a tese de que o que se faz em e pela literatura sempre ganha contornos de surpresa e intuição, por mais que as teorizações, correntes e constantes, tentem convencer o leitor desavisado do contrário. E não é bem assim que praticamente tudo desagua na ficção?